Metamorfose
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Não consegui evitar as lágrimas enquanto eu tentava achar o caminho de volta para a faculdade. As ruas estavam escuras, e o frio era cortante. Ignorei a dor e o cansaço, e continuei andando.
Um peso enorme pareceu sair das minhas costas assim que notei que eu estava bem longe de Chery. Não pensei nos anos de amizade nem no fato de ela e Emily – que eu também havia perdido, já que com certeza ela ficaria do lado de Chery – serem as únicas pessoas no mundo com quem eu podia ser totalmente verdadeira. Também não tentei achar um culpado para aquilo, seria inútil.
Aquela briga havia sido a explosão de uma bomba que vinha sendo armada há séculos, e era de certa forma libertadora. Mas nem sempre a liberdade era algo fácil de se suportar.
Eu não sabia ao certo porque estava chorando, e a sensação das lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas era mais uma das descobertas que eu havia feito naquele dia. Eu nunca havia chorado. Não fazia parte de quem eu era. Mas a Alice de antes parecia ter tirado férias permanentes, e deixou para trás apenas sua sombra, que simplesmente não conseguia dar um passo sem fazer alguma coisa errada e desmoronar depois.
E foi nesse momento que comecei a pensar em Samuel e no que havia acontecido entre nós, tanto no telhado quanto no meu sonho – que eu não acreditava que fosse apenas uma criação da minha mente.
Eu não queria, não podiaadmitir, mas eu estava apaixonada por ele. Embora eu não soubesse como isso funcionava eu sabia muito bem que essa era a única explicação para o que estava acontecendo. Afinal o que mais poderia ser aquela força invisível que me puxava para perto dele, ou a vontade que eu tinha de ficar olhando para seus olhos por horas a fio?
Eu podia nunca ter vivido aquilo, mas já havia lido livros suficientes para saber que esses eram sinais óbvios de uma paixão. Mas eu não queria estar apaixonada. Aquilo ia contra tudo o que eu acreditava, contra o que eu havia nascido para fazer. Era o maior erro que alguém como eu podia cometer. Não me surpreendia que Lúcifer tivesse me procurado, já que era impossível prever as consequências do que eu estava fazendo.
Talvez fosse isso que me tornava diferente. Eu tinha certeza que nenhuma garota como eu havia tido um relacionamento que durasse mais de uma noite com um humano, mas o que havia em mim que me permitia fazer isso? Nem mesmo Lúcifer sabia, e aquilo tornava as coisas ainda mais estranhas.
Mais uma vez eu sentia a inconfundível vontade de poder abandonar tudo e simplesmente viver minha vida longe de toda aquela confusão. Eu não podia voltar no tempo e apagar o que havia acontecido, muito menos jogar tudo para o ar e fugir, mas ainda havia um decisão que eu precisava tomar. A quem eu seria fiel?
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Andei por ruas e mais ruas, enquanto pensava sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo. Eu me sentia melhor do que quando havia deixado o bar, mas tudo o que eu desejava era me enfiar no meio das minhas cobertas e dormir durante um mês inteiro. Quem sabe quando eu acordasse as coisas teriam se resolvido.
As horas passavam, e a lua se destacava cada vez mais no céu, que escurecia a cada instante. Foi então que eu decidi que precisava voltar de uma vez para a faculdade, ficar andando sem rumo pela cidade de madrugada era pura perda de tempo. Mas havia um pequeno problema: eu estava completamente perdida, então peguei o telefone e liguei para a única pessoa que poderia me ajudar.
O telefone tocou duas vezes antes que eu ouvisse uma voz sonolenta.
– Alô?
– Danielly, — falei — eu preciso da sua ajuda.
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Danielly estacionou na sua vaga e saiu do carro. Notei que ela vestia um pijama amarelo e pantufas roxas, que poderiam fazer qualquer coisa, menos combinar.
Ela não me fez perguntas, simplesmente falou um "espere aí", e apareceu onde eu estava cerca de quinze minutos depois. Voltamos em completo silêncio e notei que o lugar onde ela havia me buscado não era assim tão longe da faculdade.
Subimos para o nosso quarto e ela voltou para a cama enquanto eu tomava um banho rápido e colocava um pijama. Eu ainda estava um pouco desorientada com tudo o que acontecera naquele dia, e ela havia notado.
Deitei na minha cama e me perdi novamente em pensamentos, enquanto fitava o teto.
– Quer conversar? — perguntou Danielly, me tirando do transe.
Pensei um pouco antes de responder. Eu queria conversar, queria tanto, mas parte de mim sabia que seria inútil e desgastante. Eu não podia contar o que realmente havia acontecido, já que isso envolvia revelar minha real identidade.
– Quero. — respondi. — Mas você não entenderia.
– Por que você não tenta?
– Ok, vou tentar. — respirei fundo e pensei por onde começar. — Chery gosta de Samuel. E... eu estou apaixonada por ele. — estranhei as palavras assim que elas saíram da minha boca. — Nós nos beijamos, ela descobriu e ficou louca de ciúmes. Nosso pai descobriu também, e não ficou nada feliz comigo. Chery me encontrou no bar que eu estava mais cedo e nós brigamos feio. Resumindo, eu deveria me afastar de Samuel, mas... eu não posso.
Ela não estranhou o fato de eu ter dado a entender que Chery e eu tínhamos o mesmo pai, nem qualquer outra coisa que eu havia dito.
– Hm, sei. Me parece que essa Chery é o problema.
– Não, Samuel é o problema. — pensei um pouco. — Não, eusou o problema.
– Você? Não, Alice, eu acho que não. — fez uma pausa. — Você pode não se lembrar, mas eu te conheço a um bom tempo, e nunca vi você se apaixonar, ou namorar, nem nada do tipo. Se isso está acontecendo com Samuel então deve ter alguma coisa aí no meio pela qual vale a pena lutar.
Continuei encarando o teto.
– É tão complicado. Eu não deveria sentir isso por ele. Eu não deveria sentir nada.
– Mas você está sentindo, ficar repetindo isso para si mesma não vai ajudar.
– Ainda tem o meu pai... ele está totalmente furioso comigo, e parece que até encarregou Chery de ficar de olho em mim ou algo do tipo. E eu não posso deixá-lo irritado. Eu não posso.
Ela deu uma pequena risada de incredulidade antes de falar.
– Uma coisa que eu sempre repudiei foi fé cega, Alice, e é exatamente isso que eu estou vendo em você agora. Você já parou pra pensar no porque de o seu pai se preocupar com esse tipo de coisa, ou porque ele ficou do lado de Chery? — perguntou pensativa. — O que você sente é uma coisa que diz respeito somente a você mesma, e a mais ninguém.
Por um momento tudo pareceu muito simples, como se bastasse que eu dissesse que queria Samuel e que não desistiria dele para que tudo se resolvesse. Mas passou, e a preocupação voltou a inundar minha mente.
– Não é tão simples. Muitas coisas estão em jogo, e eu não posso explicar.
– Você não precisa. E na verdade as coisas são simples, sim, vocês é que sempre complicam tudo.
– Eu disse que você não entenderia.
Ouvi Danielly se remexer na cama, e inspirar profundamente antes de responder.
– Você não faz ideia de como eu entendo.
Olhei para ela confusa.
– Por que você diz isso?
Danielly apenas se virou para mim e seus olhos se preencheram com o dourado mais reluzente que eu já havia visto na vida.
– Porque eu sou um anjo, Alice.
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