Notas iniciais
Boa leitura (:

– Danielly? — chamei.

Não houve resposta.

Andei pelo quarto e fui até a sacada procurando por algum sinal dela, mas não encontrei nada. Fui até o banheiro e notei que a porta estava trancada. Bati e chamei-a mais uma vez. O silêncio que se seguiu foi interrompido pelo barulho de algo caindo no chão, e uma voz abafada dizendo "droga".

– Estou aqui, Alice!

Pensei bem no que eu diria. Danielly havia sumido por alguns dias, e isso teria sido maravilhoso, se não fosse tão estranho. Sua ausência era como um presente, mas também era alarmante. Não que eu estivesse preocupada com aquela patricinha mimada. Eu só estava... curiosa, e não queria transparecer mais do que isso. Uma pequena demonstração de afeto poderia arruinar meses tentando convencê-la de que para mim sua presença era indesejada. E eu não queria isso.

– Você sumiu.

Ela fez uma longa pausa antes de responder.

– Tive alguns probleminhas.

– Problemas? Que problemas? — não pude deixar de ficar curiosa. Um dos maiores motivos de orgulho de Danielly — além de carregar o título de unha mais bonita do campus — era sua vida completamente perfeita e sem imprevistos. Era incrível, mas ela realmente tinha isso.

– Você sumiu.

Ela fez uma longa pausa antes de responder.

– Tive alguns probleminhas.

– Problemas? Que problemas? — não pude deixar de ficar curiosa. Um dos maiores motivos de orgulho de Danielly — além de carregar o título de unha mais bonita do campus — era sua vida completamente perfeita e sem imprevistos. Era incrível, mas ela realmente tinha isso.

– Tive que ficar esse tempo fora para... reuniões de família. — sua voz soava forçada, como se cada palavra tivesse sido previamente calculada. — Mas não se preocupe, agora já está tudo bem.

– Eu não estava preocupada.

Sai da frente da porta e deixei-a lá. O que quer que estivesse acontecendo não era problema meu.

O sol estava começando a se por, e havia deixado o céu em diferentes tonalidades de rosa e laranja. A música vinda dos prédios de outros blocos enchia meu quarto. As festas estavam começando. Me lembrei de que precisava caçar, e meu corpo começou a pesar no mesmo momento. Minhas caçadas sempre aconteciam no máximo uma vez por semana, já que usar meus poderes exigia muito de mim, mas isso não era mais o suficiente. Para satisfazer Lúcifer eu precisaria virar uma máquina de matar, e eu não sabia se conseguiria. Mas isso não era importante. Eu precisaria me esforçar, assim como eu sabia que Chery, Emily e até mesmo Victória estavam fazendo. Ou isso ou perderíamos a guerra, e, na melhor das hipóteses, morreríamos da forma mais dolorosa possível nas mãos de um anjo qualquer.

Troquei de roupa no quarto mesmo, já que Danielly ainda estava trancada no banheiro, coloquei minhas botas e sai.

Não escolhi que direção tomar, apenas deixei que meus pé me guiassem para longe dali. Andei por cerca de quinze minutos, e o céu já havia ficado escuro. As ruas estavam pouco iluminadas, como sempre, e mal vi os prédios passando. Comecei a me sentir um pouco cansada, e parei de andar. Foi só ai que percebi onde eu estava.

O bloco E era diferente de todos na faculdade. Os prédios possuíam uma construção de estilo gótico, com paredes em tonalidades escuras e muitas grades de ferro. A rua era coberta por pinheiros que formavam grandes sombras na calçada, agravando ainda mais a pouca iluminação dali. Aquele era o ultimo bloco, que ficava na parte sul, e terminava em um dos muros da faculdade. Aquela região nunca havia sido reformada, e é provável que só será quando alguma parede cair em cima de um aluno.
Diversas histórias de terror tinham como cenário o bloco E, mas poucos eram o que acreditavam nesse tipo de coisa. E era por isso que as maiores festas sempre aconteciam lá.

Um dos prédios se destacava entre as outras construções obscuras e silenciosas. Dele saiam luzes, e os vidros das janelas tremiam com a música. Passei pela porta e subi até o quinto andar pelas escadas, já que lá não havia elevador. A porta de um dos quartos estava entreaberta, e passei por ela sem que ninguém se desse ao trabalho de checar quem eu era.

A festa era como qualquer outra, com muita música e bebidas, mas tinha um pequeno diferencial. Todos estavam de preto, sem nenhuma exceção, e fiquei feliz ao perceber que eu também estava. Aquela era mais uma das festas temáticas que aconteciam todos os meses, e eu nem mesmo havia me lembrado disso.

Avistei uma garota loira em um dos cantos do quarto rodeada de pessoas. Ela com certeza estava vendendo algo, e fui até lá. Um garoto que dançava enlouquecido com um travesseiro passou por mim e quase me derrubou. Observei os adolescentes que me cercavam, todos bêbados, despreocupados e animados ao mesmo tempo, dançando e curtindo o máximo que aquela noite poderia lhes oferecer. Eu definitivamente queria aquilo. Queria uma escapatória, e sabia que aquele era o lugar certo para achar o que eu procurava. Sabe como é, se você não pode ficar feliz, pelo menos você pode ficar bêbado.

A loira tinha atrás de si uma mesa lotada com todo o tipo de bebida que poderia se imaginar, além dos cigarros. Tentei não pensar em quanto dinheiro ela ganharia aquela noite. Aquele negócio poderia deixar qualquer um rico. E apesar de o dono da festa ter deixado bebida de graça para os convidados, a maioria deles preferia comprar da garota. Provavelmente apenas porque podiam.

Ela vestia uma espécie de macacão preto, com coturnos, e um lenço vermelho na cabeça. Um cigarro pendia em sua boca. Ela me cumprimentou com um leve aceno de cabeça, e eu apenas apontei para um dos maços em cima da mesa. Entreguei o dinheiro e peguei os cigarros. Acendi um, e foi quando senti uma mão no meu ombro. Não sei por que, mas pensei que poderia ser Samuel. Preparei uma frase sem educação e me virei, para perceber que aquela mão era de Emily.

– Olá, Alice! — disse alegremente.

Emily usava blusa e saia pretas, e trazia a tira colo um garoto. Ele estava quase se dependurando nos braços de Emily, e parecia bêbado demais para conseguir formar uma frase completa. Então seu cumprimento foi uma espécie de grunhido, que deveria ser um olá, e não me dei ao trabalho de respondê-lo. Ele não viveria o suficiente para se lembrar da minha falta de educação.

– Está procurando alguém? — perguntou.

– Não, ainda não encontrei ninguém interessante. — olhei à minha volta. -Você sabe de Chery? Ela adora as festas daqui.

– Não. Mas provavelmente ela está com Samuel. — não pude evitar de me sentir um pouco incomodada.- Ela falou naquele cara o dia inteiro. Com certeza vai querer brincar um pouco com ele antes de... — olhou para o garoto ao seu lado. — bem, você sabe.

– É, eu sei.

Olhei para um garoto que conversava com a contrabandista loira. Ele era bonito o suficiente para ser o jantar do dia, então me despedi de Emily e fui até lá. Reconheci-o brevemente como um dos escritores do jornal do campus pelos óculos que usava. Breno ou Victor, eu não tinha certeza.

Assim que me aproximei ele parou de conversar com a garota. Tudo o que precisei fazer foi abrir um sorriso convidativo para que ele viesse até mim. Ele pegou minha mão e me levou para um canto do quarto onde havia menos pessoas.

– Seu nome é Alice, não é? — falou ao meu ouvido.

Apenas afirmei com a cabeça e coloquei meus braços em volta do seu pescoço, ainda sorrindo, por mais que eu não estivesse com ânimo nenhum para aquilo.

Dançamos algumas músicas, e percebi que ele falava demais. O garoto passou todo o tempo tentando iniciar conversas, como se simplesmente não suportasse ficar em silêncio, e eu fiz questão de dar fim a todas. Conversas desnecessárias eram uma das coisas que eu não suportava. Eu só queria poder matá-lo de uma vez e voltar para a minha cama, mas para isso eu ainda precisava ganhar um pouco da sua confiança.

– Qual é o seu bloco? — perguntou. — Parece que vão fazer algumas reformas no bloco C e D, você ficou sabendo?

– Hm. — respondi, e o beijei. Pelo menos assim ele ficava calado.
Nos beijamos por alguns minutos que pareceram infinitos, até que por algum motivo ele parou. Manti os olhos fechados, ainda levada pela música, mas fui capaz de ouvir alguém falando com ele.

– Será que você pode me emprestá-la por alguns instantes? — perguntou a outra pessoa.

– Nã... — fez uma pausa, como se tivesse visto algo que o convenceu a me deixar. — ok.

O garoto me largou, e o outro descansou as mãos na minha cintura, dançando a música eletrônica da forma mais lenta e relaxada possível.

– Que bom ver você por aqui. — disse.

Foi só aí que abri os olhos, para me dar de cara com o novo garoto, que quase me fez soltar um grito de surpresa. Samuel.