Metamorfose

16 Capítulo XV


Notas iniciais
Desculpem a demora, estava fazendo trabalhos da faculdade e acabei me esquecendo de atualizar he he he ): Enfim, mas cá está o antepenúltimo capítulo da fic, espero que gostem. Obrigada pelos comentários de todos, seus lindos. ♥

“So I leave holding nothing. Don't care what you say,
’Cause it makes no difference if I throw it away.”

- Watered Down – The Used

Frank sentia como se nunca na vida tivesse sido tomado por uma tristeza tão grande como aquela. Nem mesmo quando descobriu que era gay, ou quando Gerard deixou de falar com ele, e começou a tirar sarro dele no colégio. Nem quando seu cachorro morrera quando ele tinha oito anos, ou quando sua banda preferida se separara, há três anos atrás. Nem nunca. Os julgamentos e opiniões que nossos pais tem da gente são capazes de nos afetar das piores formas possíveis. Ele já tinha ouvido de muita gente que ele era um viado nojento, mas se vem do seu pai, dizendo que você não é mais seu filho se continuar sendo o que é, isso parece bem pior. Muitas vezes pior.

Ele só não via graça em mais nada, não sentia vontade de fazer mais nada. Só pensava que queria que tudo fosse normal e fácil pra ele, como era pra tanta gente por aí. Tanta gente que nem era tão boa como ele, o garoto pensou. A vida era malditamente injusta.

Ele nem conseguia prestar atenção na história que Bob estava contando no momento, estava completamente alheio à conversa. O amigo tagarelava, e ele sabia que o que ele falava provavelmente era engraçado, e lhe daria a distração que ele estava precisando. Mas simplesmente não conseguia se ligar no assunto. Tudo em sua cabeça era o pai.

- ... E aí, Frank, acredite se quiser, ele teve a coragem de olhar na minha cara e dizer que não! – o menino riu enquanto falava – depois disso tudo, ele ainda me disse que n- Frankie? Você está me ouvindo? – ele parou, percebendo que sua tentativa de distrair o amigo tinha falhado novamente.

- Oi? – perguntou Frank, o olhar focalizando de novo – ah, claro que estou! Ele te disse não? – riu forçado – Não acredito! Mas e aí?

Bob sorriu triste e fez um som de negação com a garganta, passando o braço pelas costas do amigo, e puxando-o para um abraço.

- Que é que você tem, heim? – disse, dando um beijo carinhoso na testa do amigo – ta precisando conversar? Sabe que eu estou aqui, né?

Frank sorriu triste, erguendo os olhos para o amigo.

- Não é nada novo, Bob, é só meu pai, você sabe.

- Ele disse mais alguma coisa? – o amigo perguntou, preocupado, afastando-se delicadamente do abraço e sentando na cama de modo a ficar de frente para Frank, que fez que não com a cabeça.

- Não disse mais nada, está fingindo que nada aconteceu – deu nos ombros – aliás, está fingindo que nada aconteceu nos últimos dez anos. Fica puxando assunto, fazendo piadinha, tratando todo mundo bem. Quero dizer – e fez aspas no ar ao dizer isso – “bem”, não é mesmo? – riu triste.

- Você já sabe o que vai fazer?

- ‘Tô pensando em seguir o jogo dele, na verdade – disse, a voz soando meio cansada – sabe, fingir que está tudo bem.

- O que? – Bob perguntou, incrédulo – mas por quê?

- Ah, Bob, eu não posso me enganar – explicou o pequeno, parecendo que tentava convencer mais a si mesmo do que o outro do que falava – quais são as minhas chances de me sustentar sem ele, se eu nem mesmo terminei a escola? Não, não dá, por mais que eu queira. O que eu vou fazer é baixar a bola até a formatura, não falta muito, e depois eu arranjo um emprego, alugo um apartamento pra mim e vivo a minha vida longe dele. Mas ainda não dá.

- Você tem razão – Bob concordou, meio triste pela situação do amigo – a vida é uma droga mesmo, né? Por que as pessoas não podem simplesmente aceitar que a gente é o que é e pronto?

Frank só projetou os lábios para baixo, dando nos ombros. Um silêncio meio triste ficou entre os dois por um momento, até que, Bob, de novo, tentando quebrar o clima, resolveu puxar um assunto qualquer.

- E o Julian?

O pequeno teve que pensar um pouco para responder a pergunta. Quem era Julian mesmo? Ah, é claro.

- Não sei – respondeu, triste – acho que... só não sei.

- Ele gosta de você, sabe Frank, talvez seja disso que você esteja precisando agora, não acha? De alguém que goste de você – ele alisou de leve a perna do amigo, como que consolando-o – você não gosta dele?

- É, esse é o problema – Frank suspirou – ele gosta muito de mim, fica correndo atrás de mim com todas aquelas mensagens e ligações, e e-mails, e isso me faz sentir bem, sabe? Mas eu não posso fazer isso com ele. Não é dele que eu gosto, você sabe.

Bob respirou fundo.

- Ainda Gerard? – disse, erguendo as sobrancelhas, meio duvidoso.

Frank sorriu, meio envergonhado, encolhendo os ombros. Bob estava certo, “ainda” era a palavra certa pra tudo isso.

- Ah, não sei, Bob – tentou se justificar – ele vem sendo tão legal comigo ultimamente. E mudou tanto, você precisava ver. Nem parece a mesma pessoa. E, além do mais, ele tem dito umas coisas ultimamente...

- Que coisas? – Bob cortou, meio exasperado.

- Ele não diz, realmente. Diz que precisa me dizer alguma coisa mais não diz na verdade. Sempre arranja um jeito de escapar – fez uma pausa – mas é que... eu só não consigo evitar de pensar que talvez ele vá me dizer algo que eu vá gostar de ouvir, sabe?

Bob fez que não com a cabeça, respirando fundo.

- Frank, qual o problema com você? Gerard pode ter deixado de ser o completo filho da puta que ele era, mas isso não significa que ele é... gay agora. Ele só te conheceu melhor, viu que estava errado. Quer ser seu amigo, sei lá – esticou a mão para tocar o ombro de Frank, fazendo-o olhar para ele – você precisa parar de sofrer por ele. Não vai levar a lugar nenhum.

- Você tem razão – Frank concordou, meio cabisbaixo. Se iludir era a coisa mais fácil do mundo, ainda bem que Bob estava sempre ali para abrir os olhos dele.

- Ainda mais com tanta gente por aí que te daria bem mais valor – e piscou um olho, sorrindo para o amigo.

Frank riu, mas depois balançou a cabeça, negativamente.

- Não dá, eu não posso ficar usando o Julian dessa forma. Não é justo com ele – pontuou – e, nossa! Por falar nisso, estou atrasado para me encontrar com ele! Vou ter que falar tudo isso pra ele, ai.

Bob riu, e depois acompanhou o amigo até a porta, despedindo-se dele com um abraço e um “se precisar, estou aqui”. Frank sorriu, e foi caminhando sem pressa até o ponto de ônibus para ir até a cafeteria onde tinha marcado de se encontrar com Julian. Sabia que estava atrasado, mas não se importava muito. O ônibus demorou a chegar, e isso, somado a falta de pressa do menino, resultou que quando ele finalmente chegou a cafeteria, Julian já o esperava lá na frente, parecendo que estava ali já há um tempo. Ele demonstrou ter reconhecido Frank desde que o garoto estava na esquina, lhe sorrindo e acenando.

O pequeno sorriu de volta, desanimado, observando como o outro estava bonito, com as costumeiras calças coladas e o blazer por cima de uma camiseta de banda; os cabelos meio compridos voando pelo seu rosto ao vento. Pensou que era realmente uma pena que ele fosse tão idiota e não conseguisse gostar dele. Assim que se aproximou, percebeu o quão estranho seria cumprimentá-lo. Ficou nas pontas dos pés e lhe deu apenas um beijo na bochecha, mas assim que ia se afastar, Julian segurou seu rosto, meio que puxando-o para um beijo. Frank se afastou, abaixando o rosto.

- Que há, Frank? – o outro perguntou, com uma expressão meio confusa.

- A gente... hm – o menino ergueu os olhos para encarar o mais alto – a gente precisa conversar.

Julian mordeu o lábio inferior, percebendo que algo estava errado, e concordou com a cabeça, sem dizer mais nada. Frank fez sinal para que eles entrassem no estabelecimento, e, em silêncio, eles foram até uma mesa vazia no canto do salão, e, ainda sem dizer nada, olharam cada um para um cardápio. Uma mulher magricela de avental veio até eles com um bloquinho na mão. Frank pediu um capuccino, e Julian um expresso. Foi só depois que os cafés chegaram a mesa, que o silêncio entre os dois finalmente foi quebrado.

- Sobre o que você quer falar? – perguntou o maior, tomando um pequeno gole de sua xícara.

Frank tinha pensado em muitas formas de dizer isso, mas naquele momento, só lhe ocorreu que tudo seria mais fácil se ele simplesmente falasse. Engoliu o gole de café que estava em sua boca, ergueu os olhos para Julian e disse:

- É que, bom – respirou – eu não acho que a gente deveria continuar saindo.

Julian sorriu meio triste.

- Isso eu deduzi – e tomou o resto do seu café em um gole – mas o que eu quero saber é... aconteceu alguma coisa?

- Nada novo, só aquilo que eu te falei no telefone quinta feira – ele tomou um gole de café – quero dizer, sobre meu pai. Eu pensei muito sobre isso, Julian, e eu não quero complicar as coisas pra mim, nem pra minha mãe, entende? Acho que eu não vou sair com ninguém, pelo menos até eu me formar.

Julian só assentiu, e ficou em silêncio por um momento, seus dedos brincando na borda da sua xícara vazia. Frank abaixou os olhos para a mesa e se ocupou de tomar seu café. Quando estava quase no fim, o outro suspirou, chamando sua atenção.

- É uma pena, sabe – e sorriu triste novamente – eu entendo perfeitamente, você tem razão – e esticou uma das mãos para tocar a de Frank, em cima da mesa – mas é uma pena por que eu realmente gostava de você — Frank sorriu, e Julian sorriu de volta — Um último beijo, então? – o outro sugeriu, mudando o feitio do seu sorriso de doce para maroto em um único instante.

Bom, isso ele não podia negar.

Inclinou-se por cima da mesa para unir seus lábios aos de Julian mais uma vez, num beijo singelo, curto e carinhoso. Assim que se separaram, Frank, sem saber exatamente o que fazer com os olhos, ou as mãos, ou qualquer coisa, olhou pela janela da cafeteria. E viu a última pessoa no mundo que ele desejava que lhe visse beijando outro garoto.

Ali, do outro lado da avenida, com uma cara de ódio lívido, como Frank jamais o vira antes, estava seu pai. O pequeno sentiu como se algo muito pesado despencasse em seu estômago. Era injusto! Estava tentando acertar as coisas, fazer tudo dar certo, mas o universo, ou Deus, ou o destino, ou o que quer que fosse, continuava insistindo em brincar com ele desse jeito. O sinal da avenida abriu, e Frank viu que o homem começou a atravessá-la. Deu uma desculpa qualquer a Julian, que já começava a questioná-lo sobre o que estava acontecendo, jogou uma nota de cinco dólares na mesa para pagar seu café, e deixou a cafeteria o mais rápido que pode, quase correndo em meio às pessoas que caminhavam apressadas pelas calçadas, no sentido contrário, e que xingavam ao serem empurradas pelo adolescente transtornado. Nem se importou em pedir desculpas. Não sabia o que exatamente estava tentando fazer. Sabia que não podia simplesmente fugir do pai, que uma hora iria ter de confrontá-lo. Mas algo lhe dizia que, com a raiva que o homem parecia sentir naquele momento, ele não desejava fazer isso em público, no meio da rua. Quanto mais longe ele fosse, melhor.

Mas não havia andado pouco mais de meia quadra quando sentiu mãos fortes agarrarem seu braço direito, virando-o a força.

- Você já me envergonha o bastante – o homem disse, lívido, muito próximo ao seu ouvido – não vou me envergonhar mais ainda. Vem comigo, vamos sair do meio de toda essa gente.

E, ainda segurando o braço de Frank de uma forma muito forte e dolorida que, sem dúvida, deixaria marcas roxas na sua pele clara, puxou-o para uma rua menos movimentada, perpendicular a avenida onde estavam. Não havia quase ninguém nas calçadas, Frank percebeu, antes que acontecesse algo que o fez esquecer completamente as possíveis marcas roxas em seu braço. Sentiu a mão do pai atingi-lo com toda força na face direita, derrubando-o no chão. Com uma lágrima escorrendo pelo rosto, ele não sabia ao certo se de dor ou de raiva, ele levou uma mão até onde o tapa o atingira, massageando de leve a pele que ardia fortemente. Ergueu os olhos para o pai, não conseguindo expressar nada, que não fosse ódio.

- Você, seu viado! Sua aberração imunda! – o homem vociferou, tanto ódio em seu olhar quanto no do filho – eu te avisei! Eu disse que, se morasse sobre meu teto, ia ter que parar com essa... essas coisas que você faz. Não disse?

Frank não respondeu, nem sequer se mexeu.

- Você vai vir comigo agora, e você vai empacotar as suas coisas, e você vai sair da minha casa! E se a sua mãe perguntar, você vai dizer à ela que está saindo de casa por que você é uma criatura imunda que não é digna de viver naquele teto! – e, dizendo isso, puxou Frank pelo braço novamente, forçando-o a se levantar.

É claro que ele poderia ter dito e feito muitas coisas no momento. Poderia ter enfrentado o pai, sem dúvida. Mas, naquele momento, tudo que lhe passou pela cabeça foi sua mãe. Qualquer coisa que ele fizesse só prejudicaria a mulher. Ela já provara que por mais cafajeste que o seu marido fosse, ela não podia viver sem ele; e Frank tinha certeza que, se ela soubesse do acontecido, com certeza iria brigar com o marido para defender o filho. De qualquer forma, ele teria que sair de casa mesmo, não fazia diferença se era agora ou dali alguns meses. Seguiu de cabeça baixa o caminho todo até o carro, e depois até em casa. De vez em quando o pai resmungava algumas palavras ofensivas, visivelmente ainda com a raiva a flor da pele; mas Frank apenas ignorava. É melhor assim, pensava, é mais fácil dessa forma.

Assim que entraram em casa, o pai o acompanhou até o pé da escada, de onde ficou observando o menino subir lentamente os degraus, ainda com a mesma expressão de desprezo. Assim que chegou ao patamar superior e saiu do campo de visão do pai, Frank ouviu-o caminhar em direção a sala, onde provavelmente a mãe estaria. Desejou que o homem não contasse à esposa o acontecido, e deixasse para que ele o fizesse; assim, ele poderia dizer que estava saindo de casa por decisão própria, e esconder dela todas as atrocidades que o pai dissera, protegendo, assim, a felicidade e o casamento dos dois.

Ele sabia que devia empacotar ao menos algumas roupas, e alguns objetos de valor sentimental, antes que o pai voltasse a subir as escadas e viesse lhe perguntar o que ainda fazia ali; depois, quando só a mãe estivesse em casa, ele voltaria e pegaria o resto das coisas. Mas simplesmente não conseguiu. Tudo o que fez foi sentar em sua cama, e observar a parede, pensando em como as coisas tinham mudado nos últimos tempos, e como ele queria poder voltar atrás e não ter aberto a maldita boca para desafiar o pai. Arrependeu-se ainda mais quando começou a ouvir os gritos no andar anterior; então, provavelmente, o homem contara à Linda sobre o que acabara de acontecer, e agora os dois discutiam sobre o assunto. Frank levou as mãos à cabeça, um tanto desesperado. Será que tinha colocado tudo a perder?

Ainda assim, apenas continuou sentado na cama, esperando que os gritos cessassem. Não demorou muito, logo as vozes pareceram menos alteradas, e então o menino pode ouvir passos subindo a escada. Eram passos mais leves; ele soube que eram da sua mãe. Segundos depois, ouviu uma batida na porta do quarto e, sem esperar resposta, Linda entrou, sorrindo meio triste. Sem dizer nada, apenas sentou-se ao lado do menino, e passou a mão por cima de seu ombro, abraçando-o.

- Ele disse que você pode ficar – disse, baixinho.

Frank ergueu os olhos para ela.

- Eu não quero ficar.

A mãe suspirou, meio cansada, e virou-se na cama para ficar de frente para o menino. Esticou as mãos para segurar a dele, e, como se implorasse, disse:

- Meu amor, por favor, eu sei que é difícil! Mas eu o convenci, e foi por você. Pelo menos termine o colégio antes de sair de casa! Não te quero ver por aí, sem futuro – Frank percebeu que uma lágrima caia pelo rosto dela – eu sei que ele está errado, querido. Mas são só mais alguns meses! Então você vai estar formado, e aí poderá fazer o que bem entender da sua vida. Mas por favor, finja um pouquinho mais, sim?

Frank respirou fundo e, percebendo o desespero da mãe, acenou afirmativamente com a cabeça. Sabia que ela estava certa. A mulher inclinou-se para abraçá-lo, e, depois de certificar-se de que ele estava bem, saiu do quarto, ainda meio triste, dizendo que ia fazer o jantar.

O menino observou-a fechar a porta, e então se jogou em sua cama, encarando o teto, mas sem realmente ver. Sabia que os próximos meses seriam um inferno, e que ele deveria se esforçar muito para se comportar. Mas então lhe ocorreu o pensamento de que já estava enganando o pai havia dezoito anos; não poderia ser tão difícil fazer isso por mais poucos meses.

Notas finais
O próximo capítulo é bem grande, então eu vou demorar um pouco mais pra postá-lo por completo no orkut, daí vai demorar um pouco mais pra atualizar aqui também, talvez mais de uma semana.