Metamorfose

3 Capítulo II


“O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer

E o meu poesia de cego; você não pode ver.”

- O Nosso Amor a Gente Inventa – Cazuza

- Sra. Lee? – a mulher, que arrumava a mesa para o café da tarde, grunhiu para indicar que ouvia – são cinco horas, eu já vou indo, tudo bem?

- Sim Frank, querido, volte quando quiser – ela respondeu, ainda sem parar para olhá-lo.

Frank virou as costas e atravessou a sala calmamente, despedindo-se dos que ali estavam. O dia estava frio, mesmo agora no fim da tarde, e ele desejava ter pegado outro casaco para vestir, uma vez que teria de voltar caminhando para casa. Envolveu-se em seus próprios braços, escondendo as mãos nas axilas, e saiu para a tarde fria, observando a “fumacinha” que sua respiração fazia ao deixar sua boca.

Caminhou lentamente, apesar do frio. Ele gostava de caminhar sozinho pela rua, era um dos únicos momentos que tinha em paz consigo mesmo. Observou como a cidade ficava bonita àquela hora. A St. Martin ficava localizada em uma alameda, de modo que a rua era toda cercada por árvores grandes e com muitas folhas. A essa hora o sol quase se punha no horizonte, deixando o céu com uma cor avermelhada. Era uma boa paisagem para uma foto, pensou Frank.

Sua casa não ficava muito longe dali, apenas cerca de vinte minutos caminhando naquele ritmo lento. Frank deixou-se vagar por seus pensamentos enquanto caminhava, agora deixando de prestar atenção no já conhecido caminho.

Pensou em Gerard e em como este parecera totalmente irritado e enojando naquela tarde. O maior não sabia como isso machucava Frank além da conta. Mais do que um homossexual normal se sentiria machucado ao ver o preconceito da parte de outras pessoas. Pra ele doía mais, pois ele gostava de Gerard.

Era idiota, ele sabia. Sempre soube, desde que tudo começou. Desde que ele começou a olhar para Gerard de uma forma diferente, ele sabia que isso o faria sofrer. Então ele se repreendia e dizia a si mesmo para não pensar no outro daquela forma, afinal ele era visivelmente heterossexual e homofóbico. E, além do mais, não era do tipo que daria bola para Frank. Então passava o dia todo se obrigando a não pensar em Gerard e nessa, acabava pensando nele todo o tempo.

Às vezes pensava que merecia algo melhor que Gerard. Sempre tão preconceituoso e prepotente, mas no fundo ele sabia que o mais velho não era assim. Sabia que por dentro daquela casca onde ele se escondia, ele era uma pessoa maravilhosa. E sabia disso por que, antes de se assumir e de tudo acontecer, ele e Gerard costumavam passar algum tempo juntos.

Sorriu de leve com a lembrança das tardes perdidas na casa de Gerard jogando videogame na época do ensino fundamental. Até que, por fim, Frank começasse a ficar confuso consigo mesmo por se sentir diferente ao lado de Gerard. Lembrava-se do mais velho perguntando-o por que vinha agindo estranho nos últimos tempos e ele dizendo que não era nada.

Não era nada?! Sentia seu rosto corar e um calor subir por seu corpo quando Gerard o tocava, mesmo que sem querer. Pegava-se pensando neste várias vezes ao dia, e ainda por cima não conseguia sentir a atração por garotas que todos os seus amigos já haviam começado a sentir naquela época.

Primeiro tentou ignorar, depois negou, tentou mudar. Permaneceu em conflito por meses, fingindo ser algo que não era. Até que, por fim, resolveu que não adiantava negar. E foi difícil, foi realmente difícil se aceitar e se fazer aceitar pelos outros. E é claro, tiveram aquelas pessoas que não aceitaram. Pessoas como Gerard. Frank ainda podia sentir a dor que lhe causara no dia que contara isso ao amigo e recebera uma série de xingamentos, e depois disso, quase três anos de insultos e brincadeiras de mal gosto de Gerard e seus amigos durante todo o ensino médio.

E mesmo assim, aquele maldito amor – por que ele já se convencera de que era isso – não fora substituído por ódio. E nunca seria, o menino sabia. Ele teria de olhar para Gerard pelo resto da sua vida e saber que não poderia esperar nada dele, pois era assim que ele era. Apesar de saber o que realmente acontecera no dia em que Frank supostamente agarrara Gerard.

Lembrava de estar no vestiário masculino, depois da aula de educação física. Estava sentado em um dos bancos sem encosto, calçando seus tênis, quando Gerard apareceu de toalha, recém saído do banho. Frank ergueu os olhos do que fazia para observar quem é que estava entrando, e inconscientemente continuou admirando a pele branca do maior, as pequenas gotas de água escorrendo por seu corpo, o cabelo negro molhado grudado na nuca...

- Está olhando o que, veado? – Gerard disse, enquanto passava desodorante, tinha as sobrancelhas erguidas, olhando para Frank – não sou do seu tipo, não.

Frank riu e balançou a cabeça, sabendo que realmente não era. Voltou, então, ao cadarço de seu all star velho e rasgado, quando ouviu Gerard sentar-se ao seu lado. Não olhou com medo do comentário que receberia, mas ouviu a voz do mais velho:

- Que foi que aconteceu com você, Iero? — Frank franziu o cenho e olhou para Gerard, indagador – quero dizer, quando éramos crianças, você costumava ser um garoto normal. Por que virou essa princesa?

Frank sentiu o calor subir para o seu rosto e teve certeza que corara. Abaixou a cabeça, encarando as ripas de madeira que formavam o banco. Repuxou o piercing do lábio e respondeu:

- Não é como se eu pudesse mudar isso – ergueu os olhos para o maior, que vestia apenas uma camiseta branca agora, toda molhada na altura dos ombros por seus cabelos. Ele tinha os olhos verdes arregalados e Frank podia ouvir a respiração dele alta e forte. O pequeno continuou encarando o outro, reparando em cada detalhe de sua face e seus cabelos, e aos poucos foi se aproximando. Cada vez mais próximo e mais perigoso.

Mas não foi como se Gerard negasse. Ele podia ter levantado naquele instante e fingido que não acontecera nada, ou então xingado mais um pouco Frank. Mas ele não o fez, ele permaneceu sentado, encarando Frank de volta. Em pouco tempo a distância que separava seus lábios se cumpriu, e eles se encontraram. Era o momento com que Frank sonhava há anos, ele apenas fechou os olhos e aproveitou a sensação, que ele sabia que não duraria muito.

Ele podia ter contado. Um... Dois... Três... Quatro... Cinco...

Gerard fez um som de nojo e levantou-se enfurecido, o rosto vermelho, exalando raiva, mas os olhos demonstrando confusão. Em pouco mais de dez segundos ele estava em cima de Frank, socando cada centímetro de seu corpo, enquanto este tentava se proteger com as mãos.

Gerard dissera no julgamento que Frank agarrara ele no vestiário, e por isso ele se descontrolara. Frank sabia que não foi isso que aconteceu, mas sabia também que não adiantava dizer o contrário. Seria sua palavra contra a de Gerard, e sabia também que o juiz havia se mostrado um tanto quanto homofóbico. Era inútil.

A Sra. Lee dissera a Frank que uns bons meses trabalhando na St. Martin seriam suficientes para que ele deixasse de ser assim, por isso se oferecera para que o garoto cumprisse a pena em sua instituição. Frank riu baixinho ao lembrar-se de Gerard perguntando se ele tinha algo a ver com a escolha do lugar. É claro que tinha, apenas não admitiria.

Percebeu que estava quase chegando em casa e pôs-se a tatear os bolsos em busca da chave que ele tinha o dom de perder. Por fim, acabou por encontrá-la no bolso de trás de sua calça apertada demais, e dirigiu-se rapidamente a porta da frente.

- Mãe? Estou em casa! – avisou assim que fechou a porta atrás de si. Olhou para o corredor a sua frente, esperando ouvir a resposta, que não veio. Ouviu barulho vindo da cozinha e dirigiu-se para lá, encontrando a mãe cozinhando o jantar, usando fones de ouvido e cantarolando alto.

Aproximou-se dela sorrateiramente, abraçado-a por trás e puxando os fones. Ela soltou um gritinho, assustada. Depois percebeu que era apenas Frank, e começou a rir de si mesma.

- Quer me matar de susto? – Frank riu e beijou sua bochecha fazendo com que ela se encolhesse – ouça, vá tomar um banho e depois desça para o jantar que seu pai já deve estar chegando – disse, voltando a cortar as cenouras.

Frank grunhiu em concordância, dando as costas para a mãe e atravessando o corredor decorado com os quadros que ela costumava pintar quando mais nova. Subiu as escadas de dois em dois degraus em direção ao seu quarto. Sem se importar com a bagunça que o cômodo se encontrava – com papéis e roupas por todo o lado – ele despiu-se, e depois, tremendo pelo frio, dirigiu-se rapidamente ao banheiro para um banho quente.

Quando desceu, seu pai já se encontrava sentando na ponta da mesa, o rosto oculto pelo jornal matinal que ele ainda não tivera tempo de ler. Sua mãe dispunha as travessas em cima da mesa, agora não mais cantarolando, e sim com uma expressão cansada.

- Oi pai – disse, desanimado, sabendo que não seria respondido. Deu a volta na mesa e sentou-se em seu costumeiro lugar, à direita da ponta onde o pai estava sentado. O homem mexeu-se levemente atrás do jornal.

- O que tem para hoje? – perguntou à mulher, dobrando o jornal e entregando-o a ela, que o pousou em cima do balcão da cozinha. Linda desamarrou o avental, pendurando-o no encosto da cadeira e sentou-se em seu lugar, suspirando.

- Bife com batatas e salada de cenoura – ela respondeu cansada, começando a servir-se. Passaram o jantar em silêncio, o ar preenchido apenas pelo som dos talheres e copos, até que, por fim, o pai de Frank fizesse a costumeira pergunta de quase todas as semanas:

- E então, como vão as namoradas? – Frank ficava vermelho e engasgava-se com a comida. Então erguia os olhos para a mãe, que encolhia os ombros. Era sempre assim.

Frank ainda não tinha coragem de contar ao pai que era homossexual e perguntava-se se este não podia perceber sozinho. Ele tinha medo do que o homem faria, sendo este muito conservador e autoritário. Por isso, apenas ignorava e tentava disfarçar quando o assunto surgia à mesa. Mas desconfiava que o assunto vinha tantas vezes apenas por que o pai já sabia, apenas esperava que alguém confirmasse para que ele pudesse começar o inferno.

Linda, por sua vez, já sabia há muito tempo. Era uma mãe exemplar nesse aspecto. É claro que não fora fácil para ela, e quando começou a desconfiar ficou realmente confusa. Mas ela e Frank tiveram uma conversa, e ela deixou claro que, sendo essa a opção do filho, ela respeitava e continuava a amá-lo da mesma maneira. Mas também temia o que o marido pudesse dizer, então vinha se esquivando as perguntas e especulações durante todos esses anos, e agradecendo pela atitude ignorante do marido em relação ao filho. Quando ela entrou com o processo contra o garoto que agredia Frank, ele nem se deu ao trabalho de comparecer ao julgamento ou se importar com o motivo das agressões. Nem mesmo ligou os rumores que ouviu sobre protestos contra a homofobia ao caso do filho.

Após ajudar a mãe a limpar a cozinha, Frank subiu ao seu quarto, feliz por finalmente poder ficar sozinho. A presença do pai o irritava ao extremo, e percebia que fazia o mesmo com a mãe. Ela estava feliz até que o homem chegasse com seu tremendo mau humor e ignorância. Tinha pena da mãe; sabia que o casamento dos dois não ia bem, mas sabia também que Linda jamais teria coragem de pedir o divórcio, então eles estavam nessa há anos. Tudo o que conversavam era sobre o tempo, a comida e as supostas namoradas de Frank, e mais nada.

Ligou o velho computador, na falta do que fazer. Passou ali algumas horas, sem vê-las passar. Depois, sentindo os olhos arderem e o frio começar a congelar a ponta de seus dedos, vestiu uma calça de moletom velha e deitou-se em sua cama, cobrindo-se com as várias cobertas ali largadas, sem realmente arrumá-las, e adormeceu quase imediatamente; mas não sem antes pensar em Gerard mais uma vez.

Passou os dedos pela franja uma última vez, para arrumá-la. Molhou o dedo indicador com a boca e limpou uma pequena sujeirinha de maquiagem acima do seu olho e afastou-se do espelho para se ver por completo. Deu um meio sorriso, como se fosse tirar uma foto e analisou o conjunto. É, estava bom. Pegou as chaves, o celular e a carteira de cima da cômoda e guardou-os a muito custo nos bolsos apertados de seu jeans.

Deixou então o quarto, atravessando o corredor em direção ao quarto da mãe, que estava deitada em sua cama, assistindo à televisão.

- Mãe, estou saindo – avisou da porta, mandando-lhe um beijo de longe. Ela lhe sorriu e concordou com a cabeça.

Desceu as escadas, saindo direto para frente de casa onde o velho Chevrolet vermelho já esperava com as luzes acesas. Ouviu uma buzina e riu da impaciência de Bob, apertando o passo em direção ao carro.

- Pronto, me desculpe – disse após fechar a porta, passando o cinto por seu peito e prendendo-o. Bob riu e deu a partida no carro.

Frank conhecera Bob em uma das primeiras vezes que se arriscara a ir a uma boate gay sozinho. Ele não sabia direito aonde ir, não estava vestido apropriadamente e estava com medo, mas mesmo assim fora. No meio do caminho trombou com um garoto que parecia quase tão perdido quanto ele, e juntos acabaram descobrindo as maravilhas do local.

Desde então, nunca mais se desgrudaram. Bob era o único amigo garoto de Frank, sendo que no colégio andava apenas com algumas meninas, e isso fazia toda a diferença. Se precisasse de alguém com quem contar para qualquer coisa, sabia que podia ser o loiro. Se precisasse sair para encher a cara e esquecer Gerard, era Bob quem ia junto para carregá-lo para casa de volta; era exatamente isso que faziam agora.

Bob estacionou o carro na rua escura, e os dois garotos desceram, arrancando alguns assovios dos homens encostados numa camionete a duas vagas de distância. Ignorando-os, Frank acendeu um cigarro e caminhou ao lado do amigo até a porta da boate, onde mostraram suas identidades e depois tiveram seus olhos quase cegados pelas luzes fortes vindas da pista de dança.

Aquele era um lugar maravilhoso para Frank. Era o único lugar que lhe permitia excluir Gerard totalmente de sua mente, uma vez que ali ele nem tinha tempo de pensar no maior. Se não estava bebendo no bar, estava dançando na pista. Ou então estava em algum canto qualquer com um cara qualquer, isso não era difícil de se conseguir.

Ele e Bob, a muito custo, atravessaram toda a multidão indo em direção ao bar. Bob inclinou-se por cima do balcão, piscando para o garçom e pedindo duas bebidas que foram prontamente entregues.

Frank encostou-se no balcão, bebericando de sua taça e sentindo o já conhecido sabor do álcool em sua boca, descendo por sua garganta e parecendo queimá-la. Ficou um tempo apenas observando as luzes e os homens dançando, sem nem sequer trocar uma palavra com Bob. Quando se virou para pedir outra bebida, este não estava mais ali, devia ter encontrado algo mais interessante para fazer. Pediu uma segunda dose ao garçom e bebeu-a de uma vez, descendo as escadas em seguida, em direção a pista de dança.

Aos poucos foi sentindo o movimento contínuo dos corpos e o piscar frenético das luzes, combinados com a bebida que agora fazia efeito, envolverem-lhe a mente, e de repente já não pensava mais em nada, apenas deixava o seu corpo mover-se sozinho ao ritmo da música.

A escola no dia seguinte seria um martírio, levando em conta o frio e a ressaca causada pela noite, quase que toda em claro, regada a álcool. Quando Frank acordou naquela segunda feira, ele nem sequer se lembrava como fora parar em casa, mas acreditava que tinha chegado lá pelas mãos de Bob, era sempre assim.

Frank chegou ao colégio com uma dor tão mórbida em sua cabeça, que estava convicto de que não faria nada além de dormir em todas as aulas. Dirigiu-se direto para a sala de história, sua primeira aula e ótima para dormir, e sentou-se em seu lugar habitual. Deitou a cabeça sobre os braços cruzados e fechou os olhos, adormecendo quase que instantaneamente.

Acordou sem o menor motivo, e demorou certo tempo para situar que estava dormindo na escola. Suas costas doíam um pouco, e ele podia ouvir o professor falando lá na frente; era algo com a independência dos Estados Unidos. Embora suas costas doessem, ele ainda não se mexeu, visto que seu corpo estava cansado demais para obedecê-lo.

- E aí, como foi sábado? – ouviu uma voz indefinida atrás de si. A pergunta foi respondida por Gerard:

- Como você acha? Um saco, é claro – uma risada dupla – Um monte de veados velhos, e alguns novos. E ainda tive que agüentar o Iero o dia todo. Oh, maldita hora que eu resolvi espancá-lo.

Frank sentiu algo morrer dentro de si novamente. Tinha sido tão simpático com Gerard o dia todo, qual era o problema dele? Decididamente ele fingiria que não ouviu isso. Mexeu-se de leve na carteira e voltou a adormecer.