Metamorfose
17 Capítulo XVI
Notas iniciais
“And if a double-decker bus crashes into us,
to die by your side is such a heavenly way to die.”
- There Is A Light That Never Goes Out – The Smiths
Segunda feira novamente e a escola pululava de adolescentes vivendo suas próprias vidas e entretidos em seus próprios mundos, todos muito alheios à vida daqueles que estavam ao seu redor. Todos andando em grupos e trocando segredos e risadas, alguns sozinhos entretidos em livros ou desesperados para tentar absorver alguma última informação antes de algum teste que fariam no dia. E no meio disso tudo estava Frank, talvez mais alheio do que qualquer pessoa ali. Estava disperso em seus pensamentos, sentado em um banco no pátio do colégio, e levou um pequeno susto quando percebeu que alguém se sentara ao seu lado sem que ele percebesse.
- Olá – era Gerard.
Frank ficou um pouco surpreso com a atitude do outro, por que eles quase nunca se falavam no colégio, exceto por alguns tímidos cumprimentos no corredor. Mas aquilo era diferente, Gerard estava ali como se quisesse conversar. Até trazia uma expressão animada no rosto, como se não pudesse agüentar para contar alguma coisa.
- Oi – respondeu o menor, meio receoso, endireitando-se no banco para encarar Gerard enquanto conversavam.
- Você não vai acreditar na idéia que eu tive, Frank – ele disse, animado – vai ser provavelmente a coisa mais legal que eu já fiz por alguém.
Frank franziu o cenho. Estava achando tudo aquilo um pouco aleatório demais.
- Hm, conte-me então? – disse, ainda receoso, mas agora também um pouco curioso. Será que isso tinha a ver com aquilo que o outro parecia vir tentando lhe dizer a semanas?
- Sabe o Stefan, certo? – Frank assentiu, não sabendo ao certo aonde aquilo iria levá-los – alguma vez ele já te contou sobre aquele cara com quem ele namorava, que era vizinho dele na infância?
- Sim, sim – ele concordou, cada vez mais curioso – um que deixou-o quando descobriu sobre a AIDS, é. Brian Alguma-Coisa.
- Isso – Gerard concordou, agora ainda mais animado – Brian. Eu estava falando com ele esses dias, e eu perguntei por que ele nunca foi procurar o tal Brian, e ele fez um grande discurso sobre como o tempo dele já havia terminado e aquilo não tem mais volta — Frank grunhiu em desaprovação — é, eu também não concordo. Eu tentei argumentar, mas você sabe como ele é. Então eu pensei, por que eu mesmo não procuro o tal Brian e vejo se ele não quer vir ver como o Stefan está?
Frank sorriu.
- Nossa, mas é uma idéia incrível! Acho que realmente pode dar certo! – disse, animado – mas como você vai fazer para encontrá-lo?
- É aí que está, eu já encontrei – ele disse, e parecia não caber em si de orgulho por sua grande idéia – eu encontrei um cara que costumava mencioná-lo em uma coluna que tem num jornal de uma cidade pequena, não muito longe daqui. Hoje de manhã eu liguei pro jornal, e consegui falar com o cara, parece ser um grande amigo do tal Brian. Eu contei-lhe a história, e ele disse que Brian já havia contado tudo aquilo pra ele, e então me passou o endereço do cara! Não é incrível? – ele sorriu, muito animado – Eu estava pensando em ir até lá no fim de semana, deve dar no máximo umas três horas de viagem de carro. E então eu queria saber... – ele fez uma pausa, pigarreando, meio desconcertado – bem, três horas não é muito, mas talvez fosse menos entediante com companhia. Você não quer, hm, vir comigo?
Frank ergueu as sobrancelhas, assustado. Não estava esperando por isso, era meio incomum, até mesmo para esse novo Gerard legal. Por outro lado, seria incrível fazer isso por Stefan, ele até se perguntou como nunca pensara em fazê-lo sozinho.
- Ah, Gerard, eu realmente ia gostar – ele disse, sincero – mas tem alguns problemas, quero dizer, meu pai, sabe? Não sei o que ele vai dizer. Mas eu juro que vou tentar, eu realmente acho que o Stefan merece isso. Principalmente agora.
- Como assim, principalmente agora? – Gerard perguntou, assustado, até se esquecendo de como estava feliz por Frank ter concordado em ir com ele – aconteceu alguma coisa?
- Ah, você não soube? A Sra. Lee me ligou pra contar... ele tem passado muito mal esses dias. Foi até transferido pra um dos quartos com equipamento hospitalar.
Gerard não sabia exatamente o que dizer.
- Mas ele vai ficar bem, não é? – ele perguntou, inseguro, sua voz parecendo implorar por uma resposta consoladora do outro, que apenas encolheu os ombros.
- Eu espero que sim. Mas então, como a gente faz, quando vamos?
- Que? – Gerard parecia ter se desligado – Ah, sim. Eu estava pensando no domingo. Nós podíamos sair de manhã, pra não ter que voltar de lá muito tarde. Eu não gosto muito de dirigir a noite, sabe.
Frank ia responder, mas nesse momento um grupo de amigos de Gerard se aproximou.
- Ger? – um deles chamou, olhando estranho para os dois meninos.
- Ah? Ah, depois a gente vê isso então, Frank – e dizendo isso, Gerard levantou e seguiu os amigos. Estava um pouco transtornado com a notícia sobre Stefan, e não prestava muita atenção no que acontecia ao seu redor.
- Por que estava falando com ele, Gerard? – Quinn perguntou, desconfiado – eu achava que você odiava o menino, sabe, depois de tudo – e riu.
- Ah, quando você o conhece percebe que não é de todo ruim – disse, ainda com a mente longe da situação atual – escutem, preciso... preciso passar na biblioteca devolver um livro. Depois a gente se fala.
E se afastou dos garotos, querendo ficar sozinho diante das novas notícias. Não podia nem sequer pensar em Stefan morrendo, mesmo que só o conhecesse havia alguns meses. Eles já eram muito próximos, o homem era provavelmente mais seu amigo do que qualquer um dos garotos do colégio jamais seria. Ele estava realmente preocupado, e anotou mentalmente a necessidade de ir visitá-lo depois da aula.
Mas, considerando que ele estava no último trimestre de seu último ano no colégio, tal coisa foi impossibilitada pela quantidade de tarefas, trabalhos e provas que os professores estavam passando. Gerard nunca fora um aluno exemplar, e não queria reprovar de ano mais uma vez, por isso estava se esforçando muito nas tarefas escolares, e acabou só arranjando tempo para ir ver Stefan na quarta feira depois da aula.
Não foi uma visita muito feliz. O mais velho estava agora alojado em um dos quartos do terceiro andar da casa, que eram os que continham equipamento hospitalar. Gerard não conseguiu acreditar na cara doentia do amigo; ele já havia reparado no sábado que o homem parecia mais fraco, mas considerou normal – todos tem esse tipo de coisa, não é mesmo? Mas acabou por descobrir que esse tipo de coisa pode realmente acabar com gente que tem seu sistema imunológico destruído pelo HIV. Stefan estava visivelmente muito mais doente do que estivera há quatro dias atrás.
Gerard conversou um pouco com Stefan, que estava tentando se mostrar forte, embora falhasse um pouco nisso. O adolescente decidiu não mencionar a viagem que ele e Frank fariam no sábado, por que queria que fosse uma surpresa. Mas visto o estado do amigo, ele se pegou desejando – e dando três toques no primeiro móvel de madeira que viu, depois – que Stefan sobrevivesse até lá. A Sra. Lee disse que podia não ser nada, e com os tratamentos ele poderia melhorar logo, afinal ele tinha todo tipo de atendimento médico ali, e era tratado muito bem. Mas Gerard não conseguia deixar de se preocupar, e ficou carregando um nó em sua garganta por horas após a visita a St. Martin.
Ele mal podia esperar por domigo, e parecia que o tempo se arrastava só por que ele queria que passasse de uma vez. Em primeiro lugar, por que estava realmente muito ansioso para conhecer o tal Brian, e convencê-lo a vir com eles até a St. Martin rever Stefan; Gerard tinha a impressão de que Stefan talvez lutasse mais pela vida se ele tivesse um motivo para isso, e ter o único homem que ele amou por perto novamente deveria ser um motivo e tanto. E – ele tentava mesmo não pensar nisso – se fosse mesmo a hora do outro morrer, pelo menos ele teria uma despedida digna; um último contato, um pedido de desculpas. Ele realmente achava que Stefan merecia isso.
E, ele se achava incrivelmente fútil por pensar nisso em meio ao grande problema de Stefan, ele também estava esperando por domingo, por que passar o dia inteiro a sós com Frank poderia resultar numa resolução definitiva para seu o problema. Quem sabe em meio às horas de conversa que os dois teriam naquele carro durante a viagem, ele não criasse coragem para falar aquilo que vinha lhe entalando a garganta há semanas?
Os dias, mesmo que se arrastassem, tiveram que passar, e logo a manhã de domingo amanheceu, ensolarada e agradavelmente morna; um clima perfeito para uma viagem. Frank havia combinado com Gerard que o mais velho passaria pegá-lo de carro às dez da manhã, e, privado de dormir até tarde como faria num domingo normal, ele pôs o celular para despertar às nove. Enrolou por alguns minutos na cama, mas logo levantou para tomar um banho e se arrumar. Não havia dito uma palavra ao pai sobre o que faria hoje, e esperava que ele não fizesse perguntas, por que imaginava que ele pensaria o pior se soubesse que Frank sairia com Gerard. Com certeza concluiria que os dois estavam juntos, e daria um jeito de proibi-lo de sair. Mas, se o pai perguntasse, estava decidido a não mentir, para não causar mais problemas. Afinal, não estava fazendo nada de errado, não é?
Desceu para tomar café da manhã e encontrou o pai comendo torradas com manteiga no seu lugar habitual à ponta de mesa da cozinha. O barulho de televisão vindo da sala informava que Linda também estava em casa, provavelmente assistindo à algum programa matinal de culinária e artesanato, ou algo do gênero.
- Ora, o que te tirou da cama tão cedo? – Indagou o pai, erguendo os olhos, parando o movimento com a torrada a meio caminho da boca – Imaginei que fosse dormir até mais tarde.
Eles tinham um acordo subentendido de não mencionar o incidente do fim de semana anterior. Frank achava que a mãe deveria ter convencido o homem a fingir que nada acontecera, e não seria ele a estragar a falsa paz na casa.
- Não posso, vou sair – o garoto respondeu, educadamente, servindo-se de café. O pai franziu o cenho, largando a torrada no prato e observando o menino. Essa era a única coisa que tinha mudado: agora o Iero pai ficava pedindo satisfações de todo lugar que Frank ia, coisa que nunca fizera antes. Ontem mesmo o menino perdera uns longos minutos explicando seu trabalho voluntário na St. Martin para que o pai o deixa-se sair em paz, mesmo que já fizesse quase quatro anos que Frank passava boa parte das horas na instituição.
- Onde vai? – ele perguntou, a voz com um leve tom de acusação, mas o menino pode ver que ele tentava disfarçar – com quem?
- Tem um dos pacientes da St. Martin que está muito mal, e ele perdeu contato com seu... irmão há muitos anos – Frank explicou, disfarçando a exasperação na voz – e ele pediu para que nós fossemos encontrá-lo, para que ele possa se despedir, caso... você sabe... ele não se recupere. O que é possível – sabia que havia prometido a si mesmo que não ia mentir, mas não havia jeito de contar a verdade e conseguir sair de casa. E, afinal, não era de todo mentira – então eu e um outro garoto conseguimos o endereço do homem, fica há umas três horas daqui. Vamos lá ver o que conseguimos.
O pai de Frank ainda continuava com as sobrancelhas unidas e os olhos semicerrados, como se tentasse captar uma mentirinha só que fosse no que o filho lhe contava.
- Que garoto? – perguntou, assim como Frank já previra.
- Gerard Way – ele respondeu, passando manteiga no pão – você o conheceu na semana passada, lembra? Era ele quem estava comigo lá no hotel.
- Way? – o pai repetiu, o rosto de repente se desfazendo da expressão desconfiada – Gerard Way? Aquele era ele? O filho de Donald e Donna, com quem você andava quando era criança? – Frank assentiu – ah, mas aquele é um bom garoto! – Ele exclamou, enfiando o último pedaço de torrada na boca e continuando a frase de boca cheia – eu fico realmente feliz que você esteja andando com gente como ele, e não... bem, como seus amigos mais recentes.
Frank sabia que ele se referia a Bob e o resto dos garotos que por vezes apareciam por ali. Era de se esperar que ele ligasse eles ao fato do filho ser homossexual, e não ao amigo de infância que vinha de boa família e que ele conhecia a anos. O pequeno só achou um tantinho irônico que o pai pensasse isso, uma vez que era de Gerard que Frank gostava, e não de nenhum dos seus amigos mais recentes. Mas é claro, não demonstrou isso. Apenas terminou seu café da manhã sem trocar mais nenhuma palavra com o pai, e depois subiu para escovar os dentes. No momento em que pegava sua mochila, ouviu o celular tocar, indicando que recebera uma mensagem de Gerard. “Estou na frente da sua casa.”, dizia.
Frank despediu-se da mãe, e saiu para o jardim, avistando o carro de Gerard estacionado do outro lado da rua. O mais velho usava uma camiseta preta de mangas curtas e sorriu ao vê-lo, mostrando os dentes pequenininhos que Frank sempre achara adoráveis. Sorriu de volta, não conseguindo evitar o pensamento – mesmo que soubesse que era ilusório – de que algo bom poderia acontecer naquele dia. Tal pensamento foi expulso de sua mente quando ele adentrou o carro e percebeu que ainda tinha o mesmo cheiro fétido. Mais de seis horas de viagem com aquele cheiro.
- Bom dia – Gerard disse, olhando para Frank e ainda sorrindo.
O menor torceu o nariz.
- Way, não é por nada não mas... o que há de errado com esse seu carro? Tem algum animal morto aqui? – ele perguntou, olhando para o banco de trás do veículo.
— Por que? – disse Gerard, meio divertido, meio confuso.
- Como assim, por que? Você não sente esse cheiro? – o pequeno indagou, os olhos arregalados.
- N-Não – Gerard respondeu, cauteloso – acho que não – depois fechou os olhos e aspirou o ar ruidosamente pelo nariz perfeitamente empinado, visivelmente tentando descobrir do que Frank falava – É, talvez um pouco – ele completou, rindo – mas acho que já me acostumei. Sabe, eu realmente nunca lavo esse carro.
Frank balançou a cabeça, incrédulo.
- Como é que pode se acostumar com um cheiro desse? – disse, meio divertido também, mexendo na mochila que trouxera – mas eu tenho a solução! – e tirou um desodorante aerossol da bolsa, animadamente, como se fosse uma espada, ou algo do gênero. Espirrou o desodorante exageradamente pelo carro, gerando uma nuvem de fumaça no banco traseiro, e depois, aspirou, satisfeito, o ar que agora tinha cheiro de perfume masculino — bem melhor – pontuou.
Gerard sorriu, dando de ombros, não sentindo realmente diferença.
- Bom, agora que você já acabou com as suas frescuras – ele fez uma pausa para observar a expressão de Frank, e riu – eu acho melhor nós irmos logo. Olha só – tirou um papel dobrado do console do carro, e entregou a Frank – esse é o mapa das rodovias que temos que pegar, e esse – ele entregou outro papelzinho, visivelmente arrancado de um caderno, com algo anotado à mão – é o endereço do tal Brian. Você será meu GPS, já que eu não tenho um – e depois riu.
Frank ergueu as sobrancelhas, fingindo-se de incrédulo, mas pegou os dois papéis, largando o endereço em seu colo e começando a desdobrar o mapa.
- Eu sabia que você tinha me convidado por algum motivo maior do que apenas querer minha companhia – disse numa voz falsamente ofendida, fazendo Gerard rir.
Fazia algum tempo que nenhum dos dois se sentia tão à vontade quanto estavam naquele carro, durante a viagem. Gerard parou pra pensar por um momento, e chegou à conclusão de que a última vez fora naquela noite de sábado que Frank passara na sua casa, bebendo Vodka e jogando videogame com ele. Se tivesse verbalizado essa conclusão, sem dúvida Frank teria concordado com ele.
No fim, eles levaram bem mais do que três horas para finalmente avistar a placa de Bem-Vindo da cidade que estavam procurando. Foi um alívio, realmente, depois de terem errado de caminho duas vezes – já que Frank, sem perceber, estava olhando para o mapa de ponta cabeça, o que foi motivo de mais de uma longa discussão entre ele e Gerard. No meio da viagem, também começaram a ficar com fome, de modo que pararam para almoçar numa lanchonete na beira de estrada que servia possivelmente o pior cheese-burguer que eles já haviam experimentado na vida, e que foi discretamente deixados no prato praticamente intocados. Depois disso, eles concordaram em comprar salgadinhos, que ao menos eram de marcas conhecidas, e comer no carro. Também, mais de uma vez, tiveram que pedir informações, já que Frank fazia um trabalho terrível como GPS, o que Gerard fez questão de frisar várias vezes na estrada. E, além disso, Gerard quase deixara a gasolina do carro acabar, por pouco não os deixando presos sozinhos no meio da estrada; a salvação foi Frank ter notado que fazia algum tempo que a luz da reserva de combustível estava ligada. O pequeno fez questão de frisar algumas vezes que ele podia não ser um bom co-piloto, mas Gerard também não era um piloto muito bom, afinal, esquecera o combustível.
Mas apesar de todas as discussões meio sem fundamento, que até poderiam tê-los deixado um pouco irritados na hora em que aconteceram mas depois não passaram de motivo para mais risadas, foi, em geral, uma viagem muito divertida. Eles estavam, de fato, às gargalhadas quando, finalmente, às três da tarde, finalmente passaram a entrada da cidade onde Brian morava. Agora só precisavam encontrar a casa do homem, o que esperavam que não fosse difícil, já que era uma cidade pequena.
Frank teve que descer em dois pontos comerciais – os únicos que estavam abertos em pleno domingo – para pedir informações sobre a rua que procuravam, até que finalmente encontrassem-na. Cerca de meia hora depois de passarem a placa de boas vindas enquanto comiam um doce estranho comprado na banca de beira de estrada do cheese-burguer ruim, Gerard finalmente estacionou o carro na frente do número 3.142, que, segundo o jornalista com quem falara, era a o número da casa de Brian Molko.
Foi um alívio finalmente descer do carro, mesmo que eles estivessem um tanto apreensivos quanto a visita, agora que ela estava tão iminente. Nunca tinham realmente parado para pensar na possibilidade do homem não estar em casa, ou então não querer recebê-los. Mas agora que estavam ali, parecia até mais provável que tal coisa acontecesse do que que eles, de fato, conseguissem levar o homem até Stefan.
Tentando não demonstrar o nervosismo que sentia, Gerard desceu do carro, feliz por finalmente esticar as pernas, batendo a porta do veículo. Espreguiçou-se, sentindo vários ossos do corpo estalarem depois de horas sentado, dirigindo. Observou que Frank fazia o mesmo. Deu a volta no veículo, indo em direção ao pequeno, e parando ao seu lado para observar a casa.
Se aquela era, de fato, a casa do tal Brian, ele estava em muito melhores condições que seu ex namorado. Eles estavam no que parecia ser a área nobre da grande cidade. Uma rua calma, com gramados esverdeados e casas grandalhonas, com grandes janelas e cortinas coloridas à frente. Em alguns quintais dava para ver uma trilha de fumaça indo em direção ao céu, muito provavelmente proveniente de churrasqueiras cheias de hambúrgueres – com sorte melhores do que os de beira de estrada – sendo assados por papais barrigudos que bebiam suas cervejas enquanto mamães em vestidos floridos serviam um salpicão de frango à mesa ao ar livre e chamavam crianças que brincavam de roupa de banho em irrigadores de grama para almoçarem junto à família. O número 3.142, em particular, não tinha uma trilha de fumaça em seu quintal, e nem cortinas coloridas. Mas não deixava de ter sua graça. A casa tinha dois andares, sem contar uma janelinha no telhado, que muito provavelmente pertencia ao sótão. Era de um marrom escuro meio avermelhado, e os batentes das portas e janelas eram negros, como as cortinas que podiam ser vistas através dos vidros. A janela da sala da frente, por sua vez, estava aberta, e a cortina escura balançava com a leve brisa que batia no local. Uma camionete preta e do tipo que só de olhar você já pressupõe que seja cara estava estacionada em frente à garagem, que tinha sua porta aberta. Era, ao todo, uma casa bem elegante.
- Bem, a janela está aberta – comentou Frank, a mão levantada em cima dos olhos para protegê-los do sol que batia exatamente da direção da casa – se essa for mesmo a casa dele, ele deve estar aí.
Gerard assentiu, começando a caminhar, meio apreensivo, pelo gramado não menos verde que os dos vizinhos, em direção à porta negra de entrada da casa. Subiu os degraus da área, e procurou – achando rapidamente- a campainha que, ainda que hesitando um pouco, apertou, ouvindo o barulho que fez dentro da casa. Frank parava logo atrás dele, tendo acabado de subir os degraus de entrada.
Esperaram por o que devem ter sido uns dois minutos, mas que pareceram uma eternidade. De fato, havia gente que não gostava de ser incomodada no domingo, provavelmente seu único dia de descanso na semana, e eles estavam realmente com medo de terem perdido a viajem. Mas, para seu alívio, logo ouviram passos em direção à porta e uma chave girando, para que finalmente a porta se abrisse. No batente, com um certo ar indagador estava ele, que Gerard tinha certeza que era o tão falado Brian, apenas pelas descrições que Stefan fizera para ele. Era alto e esbelto, tinha a pele muito branca, contrastando com os cabelos negros um tanto compridinhos e bagunçados, e olhos grandes e azuis. Vestia uma camisa branca e jeans pretos, não combinando nada com os chinelos – que ele provavelmente só calçava por estar em casa e sem esperar visitas.
- Pois não? – O homem perguntou, erguendo as sobrancelhas, e visivelmente esperando uma explicação dos dois adolescentes.
- Ahn... ah, o senhor é Brian Molko, certo? – indagou Gerard, apenas para ter certeza, recebendo um aceno afirmativo do homem, que ainda parecia um tanto curioso sobre a identidade dos meninos – Olá, Sr. Molko, eu sou Gerard Way – ele estendeu a mão direita, recebendo um breve aperto de mão do homem – e este é Frank Iero – ele indicou Frank com a cabeça, que, prontamente, deu um passo a frente, esticando a mão direita para cumprimentar o homem também, murmurando algo como “prazer em conhecê-lo” – Nós gostaríamos de... ah, quem sabe, falar com o senhor, por um momento.
Brian soltou a mão esquerda da maçaneta da porta, cruzando os braços sobre o peito em um claro sinal de falta de receptividade. Suas sobrancelhas se uniram, e ele indagou:
- E sobre o que seria essa conversa?
- Bem – Gerard começou, gesticulando, um pouco nervoso enquanto falava – eu recentemente falei ao telefone com um amigo seu, o Sr. Wright, e ele teve a bondade de me passar seu endereço. Talvez ele tenha comentado alguma coisa com o senhor?
- Steve? – Brian indagou, parecendo surpreso, e descruzando os braços imediatamente – por que Steve lhes deu meu endereço? O que querem comigo? – agora ele não parecia preocupado, nem esquivo. Apenas curioso.
- Bom, o Sr. Wright achou que talvez você estivesse interessado no que temos a dizer, sabe – disse Frank, antes que Gerard pudesse começar a falar. Brian baixou os olhos para ele – é sobre Stefan Olsdal.
Dessa vez, Gerard percebeu, eles definitivamente tinham assustado o homem. Ele arregalou os olhos e entreabriu os lábios, ficando em silêncio por um momento, para depois gaguejar:
- S-Stefan? Stefan Olsdal? – ele parecia não acreditar.
Frank concordou com a cabeça, permanecendo em silêncio por um momento, a fim de dar ao homem um momento para digerir tal informação. Alguns segundos depois, o Sr. Molko pareceu ter se recuperado do susto, e se recompôs, dando o que parecia ser uma tentativa de um sorriso simpático, e se afastando da porta.
- Entrem, por favor.
Gerard trocou um olhar com Frank antes de assentir, e adentrar a casa do homem, seguido pelo pequeno. O chão era de madeira escura, e vários quadros de arte moderna decoravam o hall de entrada da casa. Os meninos esperaram ali, lado a lado, meio desconfortáveis, enquanto Brian trancava novamente a porta e depois fazia sinal para que o seguissem por um arco sem porta, que separava o hall de uma elegante sala de visitas – a sala que estava com a janela aberta. Um taStef do que parecia ser pele de algum animal decorava o chão, com uma elegante mesa de centro de vidro sobre ele. Havia também um sofá de três lugares de couro preto, e duas poltronas que combinavam com a sua frente. Uma lareira ocupava uma das paredes, mas, devido ao calor, estava apagada. As paredes da sala eram pintadas em um tom de cinza médio, com exceção da que continha a lareira, que era de um vermelho escuro, cor de vinho. Era uma casa muito bem decorada, pensou Gerard, o que confirmava que o tal Brian era cheio da grana. Não havia sinal de mais ninguém na casa além deles.
- Sentem-se – o homem disse, indicando o sofá, mas mantendo-se de pé – posso oferecer algo para vocês beberem? – disse, educadamente.
- Eu aceitaria uma água gelada, por favor – pediu Frank, que estava com sede desde a entrada da cidade, graças aos doces que vinham comendo. Gerard disse que queria o mesmo.
Durante alguns minutos, enquanto Brian Molko sumiu pela porta por onde eles tinham entrado, provavelmente indo até a cozinha, eles só sentaram-se ali, desconfortáveis, analisando a sala, e, por vezes, trocando alguns olhares cheios de significado. Gerard reparou que, apesar da grande quantia de quadros decorativos, não havia sequer uma fotografia pelas paredes e estantes, nem mesmo sobre a lareira, como na sua casa. Brian parecia ser um homem sozinho.
- Aqui – eles ouviram a voz do homem dizer, acompanhada do barulho de seus passos, trazendo uma bandeja com três copos e uma jarra de água com cinco cubos de gelo boiando na superfície. Ele serviu os três copos, e os garotos esticaram-se para pegaram o seu. O próprio homem pegou o copo restante e, depois de tomar um gole, acomodou-se em uma das poltronas em frente ao sofá, cruzando as pernas e encarando os garotos – olha, eu não pude deixar de me perguntar, mas... vocês por algum acaso estão aqui para me comunicar que Stefan... bem... morreu? – ele indagou, abaixando os olhos, a voz falhando um pouco ao pronunciar a última palavra.
- Não, não – Frank apressou-se a esclarecer – não é isso, Sr. Molko. Stefan Olsdal está vivo – Gerard pode notar o alívio nos olhos do homem no segundo em que ele ouviu essas palavras na voz de Frank – nós somos amigos dele – ele esclareceu.
- Eu não posso expressar o quão aliviado eu fico em saber que Stefan está bem – Brian disse, soando extremamente sincero, e tomando mais um gole de sua água.
Gerard, que tomara todo o seu copo de uma vez só, devido à sede que sentia, esticou-se para servir-se de mais água na bandeja que estava sobre a mesa de centro, enquanto dizia.
- Bom – ele começou, sendo interrompido pelo barulho da água preenchendo o copo – endireitou-se no sofá e, respirando fundo disse – ele não está exatamente... bem – concluiu, não gostando do efeito que as palavras faziam se ditas em voz alta. Parecia tornar a doença de Stefan mais real. Tomou um gole de sua água.
- C-como? – indagou o homem, voltando a parecer preocupado – o que há com ele?
- Sr. Molko – começou Frank, cauteloso – eu e Gerard somos voluntários em uma casa de apoio a portadores de HIV. Stefan mora na instituição. Na verdade, já mora lá há anos – ele queria acrescentar “desde que o senhor o largou”, mas achou que seria um tanto rude demais, e parou por aí.
O homem não respondeu. Ele apenas parecia assustado, e um tanto culpado, e olhava de Gerard para Frank, e de novo para Gerard, com os olhos azuis arregalados.
- Stefan fala muito do senhor – continuou Gerard, lançando a Frank um olhar significativo, pedindo por apoio. Frank acenou com a cabeça – ele me contou toda a história de vocês. O senhor sabe. E ele não parece achar que há alguma esperança de vê-lo novamente. Mas eu não podia deixá-lo mo-
Ele mesmo se interrompeu, incapaz de pronunciar a próxima palavra. Olhou para Frank, pedindo por ajuda novamente. Frank respirou fundo antes de continuar.
- Ele está muito doente, Sr. Molko. Na última semana foi até movido para um dos quartos especiais com equipamentos hospitalares. Está utilizando um respirador e tudo mais – Frank explicou – nós só gostaríamos de ter certeza de que o senhor não quer vê-lo novamente.
- Antes mesmo dele ficar doente – Gerard disse, achando que devia explicar – eu já estava pensando em te procurar. Foi apenas uma coincidência tudo acontecer ao mesmo tempo.
Eles ficaram em silêncio por um momento, apenas bebendo pequenos goles de seus copos. Tanto Frank como Gerard estavam muito apreensivos a respeito do que Brian diria ao final da conversa. Será que concordaria em vir com eles? E se não quisesse? E se não estivesse arrependido do que aconteceu há tantos anos? A resposta veio minutos depois, em forma de um soluço. Brian Molko estava chorando.
Gerard se mexeu, desconfortavelmente, no sofá e, talvez, tenha atraído a atenção do homem, que, no instante seguinte, começou a falar:
- Eu nunca me arrependi tanto na minha vida de algo que eu fiz, quanto de ter saído daquele apartamento naquela tarde – ele disse, a voz meio embargada, e lágrimas grossas rolando por seu rosto branco. Ele engoliu um gole de água, e limpou as lágrimas com as mãos, antes de continuar, um pouco mais sério – eu quis voltar lá no dia seguinte, mas eu não podia dar o braço a torcer. Eu fiquei em conflito comigo mesmo por umas duas semanas, antes de finalmente perceber e admitir o erro que eu estava cometendo. Então eu voltei para o apartamento para procurar por Stefan, mas ele não estava mais lá. O porteiro me disse que ele tinha se mudado, e-
Ele começou a chorar silenciosamente de novo.
- Ele precisava se tratar – disse Gerard, cauteloso, apenas tentando explicar o outro lado a história – estava doente, você sabe.
O homem pareceu não ter ouvido as palavras do adolescente. Ele continuou:
- Eu fui um grande idiota, isso sim! Mas nós tínhamos tão pouca informação naquela época! Eu não sabia que AIDS podia ser transmitida por outros meios; só sabia do sexo. E eu sabia que eu não tinha estado com mais ninguém além dele. Era inevitável desconfiar — Ele engoliu mais um gole de água, tentando se recompor – hoje eu sei que ele muito provavelmente não fez nada disso. Provavelmente foi por causa das seringas. Mas mesmo assim! – ele falou mais alto, encarando os garotos, como se pedisse o perdão deles – mesmo que ele tivesse mesmo me traído. Ele foi a única pessoa que eu amei em toda a minha vida. Eu fui um completo idiota em largá-lo sozinho neste estado.
Então ele ficou quieto por um momento. Nem Gerard nem Frank souberam o que dizer. No fundo, estavam muito aliviados com a reação do Sr. Molko. Por que ele estava arrependido, estava chorando; significava que amava e sempre amara Stefan. O que era ótimo! Agora só o que eles precisavam fazer é parar de perder tempo, e ficarem juntos enquanto podiam.
- Eu procurei tanto por ele – o homem falou de novo, num tom de voz meio sussurrado – em todos os lugares. Hospitais perto da nossa casa, casas de amigos e conhecidos. Eu nunca o encontrei. Eu achei que ele tivesse- — ele se interrompeu, e depois de engolir em sego, continuou – até hoje eu ainda procuro por ele nos lugares que eu vou. Na Internet. Eu... eu só queria agradecer por que vocês vieram – ele disse, e sorria. Parecia sincero – eu já tinha perdido as esperanças de encontrar o meu Stefan. E vocês apareceram.
Gerard sorriu de volta, e achou que era uma boa hora para dizer o que eles tinha vindo dizer, afinal de contas.
- Hm, Sr. Molko?
- Brian – o homem corrigiu.
- Brian – Gerard chamou novamente – na verdade nós viemos aqui para convidar o senhor pra ir até a St. Martin conosco. Sabe, visitar o Stefan.
O homem sorriu ainda mais largamente.
- É muito longe daqui? – ele perguntou.
- Não – esclareceu Frank – apenas umas três horas. Quero dizer, se você não se perder, como a gente.
Brian riu, antes de dizer que é claro que iria, sem dúvida nenhuma. Ele estava muito mais animado, muito mais vivo. Parecia mais até mais jovem do que o homem que atendera a porta à cerca de meia hora atrás. Pediu que os meninos por favor esperassem enquanto ele se arrumava e pegava algumas mudas de roupas, para que pudessem finalmente partir.
Fale com o autor