Metalwillverso

13 Promessa e Atraso (Pianista Diferente)


Notas iniciais
Pianista Diferente. Essa foi minha última original e não foi muita longa. Na verdade, a ideia para ela surgiu de um pensamento bem simples: "e se uma funkeira soubesse tocar piano?". Daí elaborei um enredo baseado nesse contraste. Também foi a minha primeira história com um protagonista homossexual, embora isso não influenciasse nada na narrativa. Outro ponto foi provar que é possível fazer personagens fora da sexualidade mais comum que não precisasse lembrar disso o tempo todo ou usar isso como pauta identitária. No mais, também foi uma história em que utilizei o recurso de links, levando o leitor para vídeos das músicas mencionadas. Não foi minha melhor história, mas até que gostei do resultado final. Neste capítulo especial, Ricardo e Viridian combinam de fazer um dueto de piano e violino. Espero que goste! :)

Estamos aqui de novo. Bem, talvez você não lembre de mim ou não saiba quem eu sou, mas vamos nos apresentar novamente. Meu nome é Ricardo, sou estudante de música pela manhã e, às tardes, sou auxiliar de ninguém menos do que...MC Viridian. Essa pessoa é uma cantora de funk que tem feito sucesso nos últimos tempo, não só por rebolar a raba no palco como muitas fazem, mas por ter um talento oculto. Acredite ou não, ela consegue memorizar qualquer música na primeira vez que escuta e pode reproduzi-la no piano com maestria. Desde criança, sempre foi uma pianista exemplar. Por que ela veio parar em um nicho tão diferente como o funk? Bem, essa é uma história que já contei, mas é assim que as coisas são. Além disso, ela tem um coração enorme e graças ao seu talento como pianista, ela venceu o prêmio em dinheiro em um concurso e ajudou meus pais. Não poderia ser mais grato, embora, é claro, eu não pretenda trabalhar com ela para sempre naquele apartamento todo bagunçado que ela usava de estúdio, mas fico feliz de tê-la como patroa e amiga.

Meus pais também gostam muito dela e, especialmente minha mãe, gostaria de ver mais o lado pianista da Viridian. Certo dia, lembrando do aniversário de cinquenta anos da minha mãe que se aproximava, perguntei o que ela gostaria de ganhar de presente. Faríamos uma festa com a família toda, já que é uma data bem especial, mas queria muito dar um bom presente para ela.

—Ah, imagina, filho — disse ela, modestamente — Não quero nada, não.

—Que é isso, mãe? — falei — Pode pedir o que quiser. Eu dou um jeito de comprar.

—Não precisa me comprar nada — disse ela — Mas se fosse pedir alguma coisa...

—Sim?

—Gostaria de te ouvir tocando violino no meu aniversário — falou ela — Já que teremos uma festa, seria muito lindo.

—Só isso? Claro. Seria um prazer! — respondi, com toda a alegria. Estava decidido. O presente da minha mãe no aniversário dela seria uma apresentação de violino. Ao comentar isso com Viridian, ela também gostou da ideia.

—Que demais! — falou ela, toda animada, de baby-doll com uma maquiagem incompleta (posso ver essa intimidade toda dela por não ser hétero, mas isso não tem lá muita importância para essa história) — E o que você vai tocar?

—Não sei ainda — respondi — Estava pensando em algo simples, mas impactante.

Do nada, ela gritou bem alto.

—O que aconteceu? Viu uma barata? — estranhei.

—Não! — falou ela — Tive uma ideia. Por que nós não fazemos uma apresentação em dupla?

—Como assim? Você toca piano e eu toco violino — comentei — Não temos um piano em casa.

—Não precisa — disse Viridian — Eu levo o teclado! Vamos fazer um dueto de violino e piano.

—Um dueto?

—Sim — disse ela, toda empolgada — Vamos tocar o primeiro movimento da Sonata número 9 de Beethoven. Kreutzer.

—Ah, aquela música. Sim, combina com piano e violino.

Na verdade, é uma peça mais longa, mas o primeiro movimento é conhecido e tem mais ou menos 10 minutos. Para uma festa simples e uma homenagem singela estava ótimo (se tocássemos tudo, não sobraria muito tempo para o resto da festa).

—Acha que a gente consegue? — perguntei, meio inseguro.

—É claro! — disse Viridian, toda confiante — A gente só precisa de tempo para ensaiar.

—Acho que consigo chegar uma hora mais cedo. A faculdade tá tranquila nessas semanas.

—Fechou — falou Viridian, pegando minhas duas mãos empolgada — Vamos arrasar no niver da sua mãe! Quero muito contribuir nessa homenagem!

—Calma aí, calma aí — falou César, o empresário dela, sempre atento ao lado profissional da garota — Antes de se comprometer, tem que ver sua agenda, né?

—Bem, a festa será tarde, então mesmo que tenha show no dia — comentei.

—Que dia vai ser? — perguntou César, antes mesmo de eu terminar de falar.

—Sem ser no próximo sábado, no outro — falei.

—Aqui — disse César, após me ouvir dizer isso — Você tem uma sessão de autógrafos lá do outro lado da cidade. Vai sair de lá umas 4 horas da tarde.

—Sem problema — falei — A festa vai até umas seis.

—Dá tempo de boa — disse Viridian, animada, pegando minhas mãos de novo — Sua mãe merece!

E assim ficou combinado. Ensaiamos algumas vezes juntos, mas eu passei mais tempo treinando em um salão vazio da faculdade alguns minutos antes da aula, todo dia. Queria fazer uma surpresa para a minha mãe, então não comentei nada sobre a participação da Viridian, mas ela era uma peça fundamental para a apresentação sair boa.

Os dias foram passando e finalmente chegou o dia da festa. Estava tudo planejado, mas confesso que poderia ter ensaiado mais. O local da festa era em um galpão que alugamos com a ajuda de uma vaquinha da família e juntamos ali por volta de umas 60 pessoas, entre familiares e amigos. O tempo da comemoração foi passando e nada da Viridian chegar. Passou 4 da tarde, 5 da tarde e, às seis e meia já tinha gente indo embora, principalmente porque o tempo fechou e começou a chover mais forte. Para piorar, ela não respondia as mensagens no celular, parece que elas nem estavam chegando. Minha mãe apenas estava no canto, sorrindo para mim, aguardando a hora da apresentação. É, se a Viridian não viesse, eu teria que me virar sozinho. Essa é uma possibilidade que eu estava considerando. Afinal, era uma cantora famosa. Ainda mais naquela chuva! Por que ela se lembraria de uma festinha tão simples como aquela? Esperei mais uns dez minutos e, finalmente, concluí que a Viridian não iria aparecer. Fiquei um pouco decepcionado, mas sabia que poderia acontecer. Subi no pequeno palco que havia sido montado e pedi o microfone que estava sendo usado para anunciar homenagens de outros familiares.

—Boa noite a todos — falei.

Todos me cumprimentaram.

—Agradeço a presença de todo mundo no aniversário da minha mãe. Tudo que sou hoje é, com certeza, por influência dela.

Todos aplaudiram.

—Gostaria de fazer uma singela homenagem para ela, antes de encerrarmos nossa festa, vou tocar...

Mas na hora que eu ia dizer o nome da música de improviso que iria apresentar, Viridian entra pelas portas do galpão, com um vestido bonito, mas todo molhado.

—Espera — gritou ela — Você ia começar sem mim mesmo?

—V-Viridian?

Todos ficaram surpresos, principalmente a turminha mais nova que conhecia a cantora.

—É a MC Viridian mesmo? — todos balbuciavam.

—Ela é mais bonita pessoalmente — falou outro.

A funkeira apenas passou pelo corredor e subiu no palco.

—Ufa, achei que não ia chegar — disse ela, com seu teclado em mãos — Meu celular descarregou e esqueci o carregador. Fora que pegamos um trânsito horrível nessa chuva!

—Pensei que você tinha desistido — falei.

—Quem você acha que eu sou? — reclamou ela — Acha mesmo que eu ia fazer uma desfeita dessas com meu melhor amigo?

—Desculpa, eu...

—Chega de papo. A gente veio aqui para tocar, né?

—S-sim — gaguejei.

Feito isso, virei para a plateia mais uma vez e anunciei a apresentação.

—Convidei minha amiga, MC Viridian, para tocarmos...o primeiro movimento da sonata número 9 de Beethoven — falei — Espero que gostem. Em homenagem, à minha amada mãe!

E começamos a tocar. Nessa peça, o violino se sobressai e o piano atua mais como pano de fundo. Foram 12 minutos que pareceram bem mais longos. Ao terminar, vi as lágrimas de emoção da minha mãe e os aplausos de todos.

—Conseguimos — falei para Viridian.

—Você conseguiu — disse ela — O piano foi só um apoio. Você melhorou muito, amigo.

Sorrimos um para o outro. Mas a verdade é que não sairia nada bem sem ela ali para me apoiar. Sim, mais uma vez, preciso ser grato à minha funkeira preferida. Obrigado, Viridian.

Notas finais
E é isso. Encerramos os capítulos especiais do MetalWillVerso. Para mim foi muito bom revistar esses mundos que criei nos últimos 15 anos mais ou menos. Construir esses personagens ajudou a deixar minha vida mais leve em anos de graduação, pós-graduação e falta de dinheiro. Espero que eles também tenham levado um pouco de alegria aos leitores. Tive muitos leitores? Não, mas os poucos, pelo que vi, gostaram bastante. Fico feliz de ter alegrado sua vida pelo menos um pouquinho. Minha vida está em uma nova fase, então estou me dedicando a escrever outras coisas. Isso significa que nunca vou voltar a escrever fics? Não necessariamente. Talvez um dia eu tenha um pico de inspiração e poste algo novo aqui, mas, por enquanto, vou focar em outros projetos. Se você está lendo isso é porque também é meu leitor de alguma das histórias antigas. Agradeço de coração seu apoio. Muito obrigado mesmo. Caso queira me acompanhar fora daqui, é só me seguir no instagram: @will.ananias. Tudo de melhor sempre e um grande abraço!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.