Notas iniciais
Hey! Mais um, pessoas. Desculpem a demora.

Quanto tempo tinha se passado desde que Severo sentara na poltrona em frente a lareira, com a garrafa de Wiskhy de Fogo nas mãos e olhando para nada, seria difícil dizer. Uma, duas, quatro horas? A madrugada inteira? Não importava. Ele tinha beijado Hermione Granger, e ela retribuíra! “Mais do que apenas retribuir”, lembrou sua mente e corpo desejosos.

E ele fugira. Fugira!

— Merda. – praguejou. – Hermione nunca mais vai olhar para mim e a culpa é toda minha. Como se isso fosse alguma novidade. – bufou ele, amargo. Os toques dela, o beijo, os seios pressionados contra o corpo dele... tudo! E ele fugira. E porque raios ele tinha fugido, afinal?! Porque para Severo Snape não havia a mínima possibilidade no inferno dela ser feliz com alguém como ele.

Severo Snape tinha se apaixonado por Hermione Granger. E foi impossível, naquela noite, não se lembrar da primeira vez em que ela o tinha tocado.

— Coloquei as algas marinhas na segunda bancada, e a pele de aramboia na primeira. Assim não vamos nos confundir. Ah, e... – ela tagarelava sem parar, completamente focada nas anotações e nos vários pergaminhos espalhados.

Ela não notou, portanto, que Severo estava muito calado; pior que isso, que ele não pedira gentilmente para ela “calar a boca”. Hermione só notou quando ele passou por ela e entrou no escritório particular, batendo a porta atrás de si.

Há algum tempo Hermione o deixaria ir; ela o deixaria trancado na sala contígua e faria o mínimo de barulho possível. Mas ela não era mais uma aluna, e esse tipo de comportamento era simplesmente rude e desgastante, e ela já estava mais do que farta daquilo. Decidida, abriu a porta num estrondo, pronta para colocá-lo no devido lugar.

— Olha aqui, Snape... – mas qualquer xingamento que a mente brilhante dela havia planejado morrera na garganta.

A blusa branca que todos suspeitavam que ele usava por baixo de toda a roupa preta realmente existia, mas naquela tarde ela estava pintada aqui e ali de sangue. E pareceu piorar quando ele virou bruscamente para repreendê-la, abrindo o restante da ferida no pescoço – sua marca física mais visível que a guerra deixara.

— Meu Deus.

— Você não consegue, não é? Não se intrometer. VAI.EMBORA! – a voz grossa e mais alta que o habitual a fizeram acordar do choque.

— Não, eu não vou. – bateu o pé – Por Merlin, Snape, olha só pra você! Não vai conseguir fechar a ferida sozinho e...

— tampouco vou pedir ajuda a mexeriqueira da Pomfrey.

— Mas...

— Granger. – ele avisou, incapaz de soar ameaçador dessa vez.

— Não fale mais nada, ok? Ou vai piorar a ferida.

— O que está fazendo?

— Não consigo fechar a ferida com todo esse sangue. Temos que limpar primeiro.

— Granger. – avisou mais uma vez.

— Snape. – ela devolveu, petulante – Olha, eu vou ajudá-lo e não há nada que possa fazer. Brigue comigo depois, sim? Agora fica quieto.

Severo Snape estava de mãos atadas. Ela – a senhorita Granger! – estava debruçada sobre ele, dedos delicados e eficazes trabalhando no seu curativo, e o que ele poderia fazer? Seria tolo se a expulsasse. Mas, ao mesmo tempo, odiava parecer tão vulnerável perto de outra pessoa, especialmente perto dela.

— Por céus, Snape! – os lábios dela abriram e fecharam bem próximos da boca dele. – Isso está bem ruim.

— Obrigado, Granger, eu não tinha notado por mim mesmo. – mas o sarcasmo não funcionou com ela. Hermione apenas sorriu, seguido de um olhar divertido para aqueles olhos negros que agora a observavam fascinados.

— Não é o tipo de curativo que se possa fazer sozinho. Não dá a visibilidade suficiente. – ela comentou, voltando total atenção para o pescoço do mestre de poções. – Há quanto tempo a cicatriz te incomoda assim? – perguntou, e os olhos dela eram tão incisivos sobre os dele que Severo se remexeu desconfortável na poltrona.

— Nunca parou de incomodar. – para que mentir? Ela com certeza saberia. E porque era impossível mentir para aqueles olhos castanhos, Snape decidiu.

— Severo... – o nome dele na boca dela! Severo achou que tinha morrido, finalmente. E que tinha um lugar muito especial reservado para ele se aquela era a visão do paraíso. – Como você pode ser tão teimoso e inflexível consigo mesmo? Se não queria ninguém fofocando sobre a sua cicatriz, então que procurasse um curandeiro do St. Mungus.

— Já fiz coisas muito mais complexas que um curativo estúpido para uma cicatriz estúpida, Granger.

— Sinto em lhe avisar, professor Snape, mas não dá para fazer tudo sozinho. Descanse a cabeça para trás, por favor. Snape! A cabeça... para trás.

— Irritante.

— Obrigada. – sorriu, mas agora ele não podia vê-la. Tinha fechado os olhos para aquela loucura. Quando alguém o tinha tocado porque realmente queria? Para cuidar dele? – Você não deveria usar essa capa o dia todo. A gola esbarra na cicatriz, e o atrito irrita a pele que já está muito sensível.

— Eu sei.

— Então não use, oras. Pelo menos não aqui no laboratório. Só ficamos nós dois aqui o dia todo. – comentou, inocente, e Snape decidiu ignorar as implicações do comentário dela.

— Minerva, aquela outra mexeriqueira. Está sempre aqui.

— Ela se preocupa com você – disse, fazendo-o bufar – Pronto, pode voltar agora. Devagar... Isso.

— Ela se preocupa é com a grifinória do Trio de Ouro. E vem aqui para se certificar de que não estou fazendo sua preciosa ex-aluna chorar.

— Isso não é verdade. A professora McGonalgall pergunta de você o tempo todo. Diz que não se alimenta direito quando está com um novo projeto, que não sai das masmorras a menos que seja para dar aulas, e...

— Então é isso que ficam conversando horas e horas? Sobre mim? Francamente, Granger... – provocou ele, querendo mascarar aquele aperto no peito, o sentimento de pertencimento que se apoderou dele.

— Tenho que zelar pela sua saúde, professor. Pelo menos até conseguir meu título. – um sorriso sonserino brincou nos lábios dela, e Severo não conseguiu evitar sorrir de volta.

— Então é só isso que tenho que fazer para me ver livre da sua presença? – ela gargalhou. Mesmo. Riu sonoramente para ele, Severo Snape.

— Lamento, senhor. Não poderia aceitar um título sem merecê-lo. Terá que me aguentar por alguns meses.

— Sabia que seria pedir muito. – ironizou, fechando os olhos para conter um gemido de dor.

— Desculpe. Agora só precisamos fechar a ferida. Posso fazer o feitiço?

— Eu tenho escolha? – perguntou dramaticamente.

— Não. – respondeu ela, sorrindo, e já com a varinha em punho.

Severo fechara os olhos novamente, totalmente entregue a ela, à sua competência, à sua generosidade, ao seu carinho... Como ele poderia imaginar que tudo mudaria de uma hora para outra? Absolutamente tudo. Como ele pode ceder tanto a ela? Ficar tão vulnerável? Snape sabia que daquele momento em diante tudo mudaria, e que Hermione Granger entraria totalmente na sua vida. Ele só esperava que fosse forte o suficiente para ela não entrar no seu coração.

— Senhor? – a voz o puxou para o mundo real, e quando abriu os olhos os castanhos estavam tão perto... – Veja se está melhor, mexa um pouco para os lados e para cima. Assim. Sente alguma dor?

— Dez pontos para a grifinória, senhorita Granger.

— Então era tudo o que eu precisava ter feito? Salvar o seu pescoço? – provocou ela de volta – Apenas pense no que eu falei... Deixe a capa de lado enquanto estivermos aqui. É só uma cicatriz, afinal de contas. Também tenho as minhas.

Ele não respondeu, mas no dia seguinte estava sem as longas vestes negras. Hermione não comentara nada na ocasião, mas sorrira para o fato de que Severo Snape estava se abrindo para ela.

***

E no dia seguinte Hermione foi embora, e Severo se odiou por ser tão covarde. Ele só não queria estragar tudo de novo, magoar Hermione como magoara Lílian. Não. Hermione tinha um futuro brilhante, e se envolver com ele estragaria tudo.

Se seu coração estava em pedaços com a decisão? Bem, ele não sabia que ainda tinha um para começo de conversa. Mas parecia que ele tinha, sim. Um bem no fundo do peito, batendo tão baixo que era como se não estivesse lá. Mas perto de Hermione ele ouviu, Severo sentiu... ainda estava lá, batendo forte por ela. Que o coração dele voltara a bater com tanta força já era um presente, Snape achou, e ele agradeceria a Hermione silenciosamente todos os dias por isso. Assim como iria guardar todos os sorrisos e olhos castanhos brilhantes dela, os cabelos indomáveis, o hábito irritante de cantarolar. Severo realmente queria amaldiçoá-la por rendê-lo assim, mas tudo que conseguia pensar era no quanto ele sentiria a sua falta. Como no inferno ele voltaria a vida solitária nas masmorras sem os ecos da voz de Hermione Granger.

Notas finais
Gostaram?