Mesmo que seja tarde...
1 One-shot
Notas iniciais
Eu escrevi essa história ano passado, e tive bem uns 5 finais pra ela (alguns sobrenaturais, uns científicos e um bem filme policial), mas só durante esse "intervalo" do Nyah! eu consegui acabar e percebi que o final mais simples podia ser o melhor.
Boa leitura.
23 de Outubro de 2036, sábado
Quando Marley despertou não encontrou sua esposa ao seu lado na cama. O quarto estava fracamente iluminado e silencioso, o outro lado da cama já frio indicava que Kitty havia se levantado há algum tempo. Ainda sonolenta, a morena sentou-se e deixou os olhos correrem pelo quarto bem decorado e um objeto em questão lhe deu um choque de realidade tão sutil como uma bofetada.
Um vestido simples, elegante e preto. Um casaco escuro.
Normalmente Marley não usava preto. Não apenas preto. Mas hoje não era um dia normal, e estava longe de ser um dia especial.
Com um suspiro de tristeza, Marley levantou-se e foi até o banheiro; quando encarou seu reflexo no grande espelho pode ver o quanto ela parecia quebrada. Não importava o quanto Kitty e Charlie fizessem ao passar dos anos, sempre faltaria um pedaço dentro dela...
23 de Outubro de 2025, domingo
Marley havia acordado, mas fingiu ainda dormir. Sabia que seu pequeno furacão entraria no quarto em 3, 2, 1...
- Mamãe! Mamãe! – ela sentiu a menina pulando ao lado na cama – Mamãe! Acorda!
Marley conteve um sorriso ainda fingindo estar dormindo, para o eterno desgosto da criança. A menina de cinco anos sentou-se ao lado e pousou a mãozinha em seu ombro empurrando-a levemente.
- Vamos mamãe! Você me prometeu que iríamos ao circo hoje! Acorda!
A morena se virou de uma vez e puxou a filha para seus braços. A menina soltou um gritinho de surpresa e começou a rir quando a mãe se pôs a fazer cocegas nela. Como Marley amava esses momentos simples!
- Para mamãe! Para!
- Só se você me der um beijo – Marley sorriu – Um beijão!
A garotinha passou os braços pelo pescoço da mãe e apertou os lábios delicados contra seu rosto. Marley recebeu aquele beijo um pouco babado com alegria, era seu bebê afinal. Ela apertou a loirinha contra o peito e ficou assim por um minuto, apenas sentindo a respiração descompassada dela junto a sua.
- Mamãe, você me assustou!
- Sim, 1 a 0 pra mim Bo! – a cantora sorriu quando Bo deu um muxoxo de impaciência. Deus, ela era tão parecida com Kitty! – Hey não fique assim.
- Por que me chama de Bo?
Ela sabia. É claro que ela sabia. Mas com o anúncio da chegada de um irmãozinho as coisas mudaram um pouco; é claro que Bo ficara feliz, era uma nova companhia para brincar, mas isso não impediu que houvesse certa preocupação por parte da menina em ser deixada de lado pelo novo bebê. Marley e Kitty estavam fazendo de tudo para fazer com que se sentisse segura, mas a insegurança se fazia presente às vezes.
- Porque quando você aprendeu a falar não conseguia dizer seu nome. Ao invés de Brooke você dizia apenas Bo! Deus sabe o por que!
Marley encarou os grandes olhos azuis da filha, tão iguais aos dela, e se lembrou de quando pegou o bebê pela primeira vez, ela ainda estava suja de sangue e berrava a plenos pulmões. A pequena menininha só parou de chorar quando Kitty a tomou nos braços. Horas em trabalho de parto, que fizeram a morena achar que jamais conseguiria fazer aquilo de novo, e Bo parou de chorar quando Kitty a pegou no colo!
- Chama ele de Charlie! – a voz de Bo tirou-a de suas lembranças.
- O que docinho?
- Chama ele de Charlie – ela repetiu colocando a mãozinha sobre a barriga já saliente da mãe – Assim seremos Bo e Charlie. Fica bem assim!
23 de Outubro de 2036, sábado
Marley já havia acabado de se vestir. Passou então a pentear os longos cabelos castanhos quando foi interrompida por duas batidinhas na porta.
- Mamãe?
- Entre, querida.
Charlie entrou no quarto, ela já estava pronta e usava um jeans escuro com um suéter preto, e postou-se ao lado da mãe.
- Você está linda querida – ela sorriu levemente – Sua mãe mandou você aqui?
- Sim, ela pediu pra ver se já estava pronta – a garota sorriu e abraçou a mãe – Sei como é difícil.
- Obrigada bebê. Vai ficar tudo bem – ela encarou a filha. Charlotte era loira, mas seu cabelo era de um tom loiro mel, e tinha os olhos verdes de Kitty. Ela tinha apenas 12 anos e era linda, com certeza seria uma bela jovem – Você é linda, Charlie.
- Tenho a quem puxar!
Tanto Marley como Kitty envelheceram bem, não aparentavam os 39 anos que tinham, e eram bem sucedidas em suas carreiras. Marley era uma grande cantora e muito reconhecida no mundo; Kitty se tornara uma grande advogada com sua língua ferrenha e postura inabalável. Tinham uma bela casa, grande até demais, um cachorro e uma filha linda. Parecia a vida perfeita.
- Vamos, mamãe! A mãe está esperando.
As duas desceram as escadas de mãos dadas. Kitty estava pronta e andava de um lado para o outro na cozinha enquanto servia o café da manhã, quando se deu conta da presença das outras duas correu e deu um beijo na esposa puxando-a para um abraço.
- Hora de comer amor. Logo teremos que encontrar os Lopez e os Fabray – a loira encaminhou a morena até uma das mesas – Filha, toma seu café.
Elas comeram em silêncio. Marley podia sentir os olhares preocupados da esposa sobre si o tempo todo, mas não disse nada.
Após comerem e terminarem de se arrumar, entraram no carro, Kitty iria dirigir já que Marley não tinha condição nenhuma, e partiram para aquele ritual que marcava cada ano passado desde a tragédia.
23 de Outubro de 2025, domingo
Bo tagarelava alegremente no banco de traz sobre que animais veriam no circo, Kitty dirigia calmamente e Marley prestava atenção na filha. Quer dizer, ela realmente olhava para a garota como não fazia há algum tempo. Ela tinha cabelos tão loiros que pareciam platinados, e a boca rosada dava-lhe um ar de boneca. De repente a morena sentiu um aperto no peito, queria apertar a menina entre os braços novamente e dizer a Kitty que voltariam para casa. Então ela faria brigadeiro e passaria a tarde assistindo desenhos animados com Bo sentada em seu colo. Perfeitamente segura e protegida junto a ela.
Mas não podia. Haviam prometido a menina que a levariam ao maldito circo.
O circo era enorme, com uma lona colorida e chamativa, havia crianças correndo por todo lado e pais desesperados correndo atrás delas. O ar estava impregnado com o cheiro de palha, animais, algodão-doce e amendoim torrado; vendedores de balões circulavam pelo local assim como palhaços e pessoa fantasiadas. Bo parecia encantada com tudo e Marley segurava firmemente sua mão para que não saísse correndo.
Logo encontraram parte família Lopez: Brittany e Edward – ou Eddy como todos o chamavam – o filho delas que tinha a mesma idade de Bo. Eddy tinha a pele clara de Britt, cabelos cor de bronze e olhos escuros de Santana, além da personalidade irritante da mãe. Ele e Bo pareciam dois gatos dentro de um saco, sempre brigando por alguma coisa. Apesar de tudo eram bons amigos. Bo se dava melhor com ele do que com sua irmã gêmea, Sugar.
- Onde estão Santana e Sugar? – Kitty perguntou a Britt assim que todos se cumprimentaram e as duas crianças já se entrosavam felizes da vida, entusiasmadas demais para brigarem.
- Em casa. Sugar está com infecção de garganta.
Entraram no maldito circo, o espetáculo logo começaria. Depois de um tempo, Marley estava desejando que acabasse logo, o ar era abafado, a iluminação era pouca devido a um número que estavam apresentando e o cheiro de doce a estava deixando terrivelmente enjoada.
Foi quando a confusão começou.
Alguém gritou fogo. Logo uma fumaça densa se espalhou pelo local e as pessoas começaram a se empurrar tentando escapar dali. Crianças choravam gritando por seus pais que gritavam tentando encontra-las, uma voz no alto-falante pedia que todos tivessem calma. Irrelevante.
O empurra-empurra continuou. Marley segurou Bo, que agora chorava e gritava desesperada junto à mãe, quando alguém a empurrou para longe de Kitty e os outros. Procurou-os por um minuto e desistiu. Precisava tirar a filha dali, depois encontraria a esposa. E tentou ir para o que ela imaginou ser a saída, era de onde a luz vinha. Mais gritos e mais empurrões. As pessoas literalmente passavam umas por cima das outras. Por cima da gritaria, Marley ainda pode ouvir os berros de um homem.
- Parem! Estão pisando no meu filho! Parem!
Isso fez com que se alarmasse. Puxou Bo para junto de si e avançava com dificuldade. Empurrou alguém que tentou puxar seu braço, se sentiria mal por isso depois agora precisava salvar Bo.
Ela já podia ver a saída... Estava tão perto...
Alguém lhe tomou a menina dos braços no momento de distração. Arrancaram seu bebê dos seus braços.
- Não! Bo!
- Mamãe!
Foi a única coisa que pode ouvir Bo gritar. Ela tentou voltar contra a multidão, lutou com todas as forças, mas eram pessoas demais empurrando-a para longe de sua criança, logo um par de braços fortes a segurou pela cintura e a retirou do lugar.
- Pare! Minha filha está lá! Alguém tirou minha filhinha de mim! Me solta!
Ela foi colocada no chão e tentou correr novamente para a lona colorida que agora parecia o inferno com as labaredas de fogo subindo. Foi impedida por um dos bombeiros que chegavam ao local.
- Me deixa entrar! Minha filhinha está lá!
-Nós iremos busca-la senhora, não se preocupe. A senhora precisa ficar aqui.
Mandaram que se afastasse por causa da fumaça e que fosse procurar a filha nos postos de assistência que foram montados no perímetro. Sem outra opção e achando que a filha ficaria assustada se estivesse sozinha foi procura-la.
Encontrou Kitty no primeiro posto de assistência em que foi. A loira tinha um ferimento na testa e uma queimadura simples na mão esquerda. As duas foram procurar a filha. O lado de fora parecia um inferno. Pessoas feridas, crianças gritando e pedindo por ajuda e alguns corpos já estirados do lado de fora do circo.
Era tanto sofrimento e dor... E sua garotinha estava esperando por elas em algum lugar ali.
Horas depois e ainda sem notícias, Marley deixou-se sucumbir ao desespero. Uma parte dela fora levada e ela sabia disso.
Quando a notícia veio, Kitty fez o reconhecimento do corpo – apenas pela correntinha dourada que havia dado a filha dias antes – já que Marley precisara ser sedada para se acalmar.
Edward e Bo foram velados lado a lado. Seus pequenos caixões brancos – parecia uma heresia fabricar caixões tão pequenos, eles nunca deveriam ser usados — estavam lacrados devido ao extenso grau de queimaduras que os deixara irreconhecíveis. Os dois foram enterrados lado a lado.
23 de Outubro de 2036, sábado
Onze anos se passaram e Marley ainda se lembrava com detalhes daquela tarde. Hoje, ela daria tudo para voltar no tempo e se impedir de sair de casa, a filha ficaria chateada e provavelmente choraria fazendo manha, mas ela estaria viva. A única coisa que impediu as mulheres de entrarem em uma depressão profunda foi a chegada da nova criança: Charlotte, Charlie como Bo queria.
Kitty apertou sua mão quando desceram do carro em frente ao cemitério. Os Lopez haviam acabado de chegar, assim como os Fabray. Rachel e Quinn não estavam no acidente, mas todos os anos compareciam a visita num gesto de solidariedade e quase sempre os Anderson vinham também.
Todos se cumprimentaram rápida e emocionalmente. Era um dia triste para todos. Hoje, Bo e Eddy teriam a mesma idade que Sugar, Harmony e Rory. Provavelmente estariam tendo encontros, se preocupando com uma faculdade e deixando seus pais loucos e não ali embaixo da terra.
Brooke cresceria, teria tido seu primeiro dia na escola nova, conheceria sua irmã e se tornariam inseparáveis. Ela conheceria um garoto ou uma garota no colegial, suas mães não interfeririam em sua decisão, mas nenhum deles seria bom o bastante para sua garotinha; Bo ganharia uma medalha por ficar em primeiro lugar na natação, chegaria em casa depois do horário permitido, tiraria uma nota baixa em matemática e uma ótima em inglês. Marley e Kitty se emocionariam em seu primeiro baile e tirariam milhares de fotos...
Mas isso era apenas um sonho de suas mães, um sonho que jamais se concretizaria. Brooke se manteria conservada aos cinco anos, com seus cabelos loiros presos em duas maria-chiquinhas, as covinhas aparecendo a cada sorriso e os olhos brilhando de excitação ao ver suas mães.
Marley preferia ter sua garotinha consigo agora, não importa como. Não se importava em ter que cuidar dela dia após dia, ter que abdicar do trabalho e de grande parte da sua vida social para mantê-la bem; daria banho nela como quando era um bebê, cuidaria dela com todo o amor de mãe que ainda queimava dentro dela, mas o destino não lhe permitiu isso. Agora só lhe restava aquele ritual fúnebre, praticado ano após ano, lágrima após lágrima, sempre como uma nova promessa de superação. Mas ela nunca superaria, nenhuma mãe supera de verdade a perda de um filho, ela aceita e convive com a dor, ameniza a agonia com as lembranças felizes, mas conviver com a dor e a saudade e superá-la são duas coisas diferentes.
Elas nunca esqueceriam Bo, nunca se esqueceriam de seus sorrisos, e um dia estariam juntas novamente. Porque o amor que uma mãe sente pelo filho é um laço mais forte do que a morte.
Como certeza tinha apenas a compreensão de que um dia, mesmo que um pouco tarde ela encontraria Bo.
Notas finais
Me façam feliz, comentem e aí quem sabe eu começo a trazer minhas histórias já escritas e não publicadas para o Nyah!
beijinhos e até a próxima
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