Milo assinou o papel onde o oficial dos correios lhe indicara, devolvendo o mesmo ao homem em seguida e recebendo um pacote em troca.

Não havia remetente e seu endereço fora escrito em papel impresso. Aquilo imediatamente capturou sua curiosidade. Foi andando pela casa com seu smoothie à base de iogurte e frutas vermelhas, que apreciava com auxílio de um canudo colorido em uma das mãos e o pacote avantajado em outra. Pousou o dito cujo sobre a mesa que recebia uma forte incidência solar àquela altura do dia. Gostava de como o ambiente ali era arejado e claro, ignorando as advertências de Camus sobre todo aquele calor ser capaz de empenar o móvel. "As coisas duram o que podem durar", lhe respondia.

Abriu enfim o pacote misterioso deparando-se com uma caixa de sapatos. Franzindo o cenho, retirou a tampa da mesma e não soube o que sentir ao ver sua jaqueta de couro preenchendo o pacote. A jaqueta que Kanon havia lhe "roubado" quando namoravam. O mesmo Kanon que havia ligado há duas semanas, após anos de hiato, dizendo que estava para se mudar. Suspirou fundo. Havia um bilhete.

“Apesar de sermos os mesmos, mudamos muito. Hoje penso ser bom, mudanças são necessárias à vida, é o ciclo evolutivo. Para o que nos tornamos, desejo apenas o melhor. Daquilo que fomos, guardo comigo seu sorriso e as estrelas que dedicamos um ao outro nas noites de verão. Devolvo então o que não me pertence, como quem deseja que o que comigo tenha ficado não seja roubado, nossas lembranças nos foram ofertadas de bom grado. Mudo de opinião, de coração e de cidade, mas a essência permanece. Mudo, pois o universo em si está em constante mudança, embora seja sempre universo e assim é conosco, será amor, mesmo que mude. E nós sabemos: mudou bastante.

Seja feliz em todas as suas mudanças.

Sempre”.

Beijou o bilhete como quem oferta um beijo de despedida, acariciando o papel em seguida. Gastou alguns minutos se recuperando, não queria estar de olhos vermelhos ao encontrar seu amigo Shaka, muito embora soubesse que ele certamente repararia. Milo se irritava do próprio coração que amava Camus sem esquecer Kanon, parecia uma tolice sem tamanho. Shaka lhe dizia que era normal, o estado de transformação das coisas, onde tudo vira algo novo sem deixar de ser o que já foi um dia. Era simples para ele dizer aquilo, claro, uma ótima justificativa para as horas que passava ao telefone com o ex, irmão de Kanon inclusive, para depois seguir a vida com o rapaz de cabelos tingidos de lavanda. Contudo, Milo enfim percebia que as palavras de seu amigo não eram “fáceis”, mas sim “acertadas”. Dolorosamente corretas. E agora endossadas por seu próprio ex. Sim, tudo havia mudado. E seguiam todos sob o mesmo céu.

Já estava pronto para sair de casa. Abriu a porta e ao levar a rajada de vento algo em si pediu passagem: o tempo. Retornou ao quarto, vestindo a jaqueta que havia guardado no armário. Observou seu reflexo no espelho e pensou que talvez esta não lhe caísse mais tão bem como outrora, ainda assim optou por ela. Não era tarde para ficar em paz, era? Pegou o telefone e discou para o número da última chamada recebida.

— Alô?... Oi Kan, eu só queria dizer obrigado… Sim, pela jaqueta também, mas… Por ter sido parte do que me transformou no que sou hoje… É, eu também tenho saudades… Mas, nossas estrelas continuam no céu, é só olhar pra cima… Eu também te desejo o melhor. Sorte no seu novo lugar!... Adeus.

Sentia-se mais leve, embora entristecido. E evidentemente Shaka notaria, mas não se importava, não escondia mais esqueletos dentro do armário, nunca havia gostado de esquecer caixas no fundo do roupeiro. Nunca era tarde para ligar, tampouco para o perdão.

Era bom andar nas ruas e sentir o vento frio no rosto, gostava daquilo desde criança.

Havia mudado muito, mas sempre seria o Milo.

Notas finais
Tudo começou com uma música. Partiu para as ideias divididas com a pessoa com quem mais gosto de fazer isso. Ela retribuiu com a resposta aos acontecimentos. E acabamos indo à varias outras suposições e “e ses” deliciosos que sempre acontecem nas nossas conversinhas. Bebo um café com canela no exato momento em que digito essas singelas notas em homenagem à amiga querida que me proporciona momentos tão gostosos por entre esses devaneios ficzísticos. Espero que você, leitor, possa desfrutar dessa brincadeira tanto quanto eu desfruto a cada pedacinho de fic dividida com essa mana linda que o Spirit me deu ♥ Obrigada, Super! Com a palavra, @Super-nova. ★★★ Olá, galero divino! Tudo indica que a partir de agora eu também seguro no leme dessa aventura fanfiquística pelos mares dos corações de cavaleirinhos! Foi sem querer! Digamos que esta fic (que agora é o primeiro capítulo desta), me inspirou a ponto de fazer uma outra pequena fic de continuação (que agora é o segundo - e presente - capítulo desta aqui, que vocês lerão agora), que novamente inspirou nossa querida Gabinos a fazer um terceiro e agora mergulhamos nisso de vez! À minha querida capricorniana, meu muito obrigada, tanto por me inspirar, quanto por permitir que minhas palavras cheguem ao seu coração! Espero que vocês gostem de ler esta trama, tanto quanto estamos gostando de fazê-la!