Mesmo Que Não Venha Mais Ninguém
1 O normal é o novo estranho
Grã Bretanha, 1996
Em qual daquelas lixeiras coloridas se devem jogar um CD que sua mãe lhe deu sem dar nenhuma consideração para o seu gosto musical? Deveria era ter um triturador por perto, aí ele aproveitaria para triturar o CD e a si mesmo. Para começar ela nem devia ter lhe comprado nada, ainda mais um CD da Madonna. Foi algo como: “Feliz desinternação! Estou feliz por não ter mais que pagar sua estadia na clínica, e que você tenha saído de lá para casa e não para o cemitério.”.
Um gay gostar de Madonna, sério? Eca. Contar para a sua mãe que era gay foi à coisa mais estúpida e irracional que ele fizera em sua vida. Não porque ela era uma caipira homofóbica, longe disso. É só sua que mãe não entendia que ele podia ser gay, mas ainda assim continuar gostando de coisas de menino. Na mente fértil dela, Artie começaria a sair para fazer compras com ela no shopping, assistir à maratonas de Sex and the City e fazer o cabelo e maquiagem dela. Ele mal sabia pentear o próprio cabelo!
O reflexo no espelho do retrovisor era a prova disso: seu cabelo louro descolorido estava parecendo uma grama oxigenada após a passagem de um furacão. Mas ele não se importava. Sentia-se in-crí-vel com seus óculos de armação redonda e lentes amarelas e sua camiseta do Oasis, e tudo isso a bordo daquele Cadilaque 1983 de sua mãe. Parecia o baixista de uma banda indie voltando de um show, e não com um adolescente voltando de uma temporada no lar dos malucos.
— Mãe, poderia não passar pela avenida principal?
— Por que, querido? — sua mãe tinha um sotaque francês forçado que a fazia parecer uma maluca falando. Isso somado ao excesso de maquiagem rosa no rosto dela, que parecia ser um sorvete napolitano.
— Não quero que ninguém me veja.
— Ah, tudo bem então.
Artie morava em uma cidadezinha do meio do nada no meio do sul da Grã Bretanha, se alguém espirrasse dentro de casa, em questão de minutos todas as pessoas da cidade ficaria sabendo. E ele absolutamente não queria ser a pauta da fofoca da vez. Nunca conseguira entender a necessidade que as pessoas tinham em falar sobre a vida alheia. Quem se importa se o vizinho estava se separando da esposa depois de flagrá-la dando para o eletricista? As pessoas provavelmente gastam um quinto de suas vidas ligando para a vida dos outros. Muito exaustivo.
Exaustivo também era a vertigem de nostalgia que se espalhava pelos seus ossos e sangue. Estar em casa novamente era... Surreal. Houve um período em que achou que nunca mais passearia por aquelas ruas. Aquelas ruas melancólicas, com jardins de tulipas, cafeterias quase falidas, pracinhas lar dos chapados e as casinhas de dois andares dos bairros residenciais. Eram tantas lembranças, boas e ruins, surgindo ao mesmo tempo.
— Artie, você está bem?
Estava? Não. Mas iria ficar. “Vá em frente! Viva sua vida por todos nós, você merece isso”, essas foram às últimas palavras que Josh, seu colega de quarto na clínica, lhe dissera mantes de Artie ir embora. Artie sentia que tinha obrigação de cumprir aquela ordem.
— Estou. É que... Há muita coisa pra processar em pouco tempo.
— Você vai melhorar depois que voltar a ver os seus amigos.
— Mãe, eu não tenho amigos.
Sua mãe o olhou horrorizada, como se ele tivesse acabado de dizer a coisa mais absurda do mundo.
— Mas e Lynn? Ela não é sua amiga?
— É... Complicado.
Muito complicado. Lynn era sua amiga por comodidade. Só eram amigos porque sempre foram. Tem aqueles amigos... que se conhecessem agora, nem conversariam. Não achariam nada de interessante um no outro. Mas por se conhecerem a muito tempo, por terem uma história... Continuam mantendo aquele laço desgastado. Sua amizade com Lynn agora como uma barra de ferro depois de levar chuva, estava enferrujada, quebradiça. Eles haviam se afastado desde o início do ensino médio, quando Lynn começara a sair com garotos e Artie começara a perceber que também queria sair com garotos também. Agora, ela nem sabia sobre os “tempos difíceis” que Lynn tinha passado.
— Defina “complicado”. Você sabe das recomendações da Dra. Hathaway, não se feche. Converse comigo.
— É que... Sempre fui a sombra dela e simplesmente cansei.
— Talvez você só esteja aumentando um pouco as coisas. A Dra. Hathaway me alertou que você poderia começar a criar problemas em volta de si mesmo quando não existe nenhum. Talvez Lynn só esteja passando por uma fase.
Artie esforçou-se para não revirar os olhos. Odiava quando as pessoas usavam a expressão "é só uma fase" para justificar seus atos de babaquices.
— Duvido muito.
— Ela... Ela perguntou por você dia desses.
Uau, agora sim ele estava surpreso.
A Rainha do gelo se lembrou da existência de um mero servo? Que milagre. Devo me sentir lisonjeado?
— Mesmo? Quando?
— Há umas duas semanas a encontrei quando fui ao mercado e...
— E o que?
— E eu a convidei para jantar lá em casa hoje, disse que você iria voltar.
O quê? Não. Mil vezes não. A última pessoa que ele precisava ver naquele momento era Lynn e o ego dela. Para recomeçar sua vida do zero, cortar relacionamentos desnecessários ou autodestrutivos era essencial. Lynn teria perguntas, muitas perguntas, que ele não poderia responder.
— Mãe? Poderia dar meia volta, quero voltar para a clínica. Lá vai estar mais agradável do que um jantar com Lynn Fincher.
Sua o olhou com total horror. Merda, por que ele sempre tinha que dizer coisas estúpidas? Mães com filhos que precisam de internação em uma clínica psiquiátrica não são muito receptivas com piadas envolvendo clínicas psiquiátricas. Ainda mais depois de tudo o que ele passara para enfim ter condições de sair dela.
Artie colocou um Filtro Entre o Cérebro e a Boca na sua lista mental de compras.
— Sinto muito — desculpou-se ele, tirando os óculos e esfregando suas pálpebras manchadas por olheiras fundas. — Só estou estressado com esse lance de voltar para casa e acho que uma conversa com Lynn não me faria bem. Só isso.
— Okay, eu dou um jeito, invento uma desculpa sobre você estar com jet lag ou algo assim.
— Obrigado. — sorriu Artie.
Mal sabiam eles que seus planos seriam frustrados. Pois assim que estacionaram na casinha pintada de amarelo e com um pequeno belo jardim na entrada, viram uma garota alta e magra parada ao lado da sua bicicleta. Lynn. Com toda a sua glória de uma descendente de imigrantes chineses e seu cabelo vermelho que a fazia parecer uma integrante de uma girlband japonesa.
Merda.
Artie queria que um buraco no chão aparecesse e o engolisse, ou melhor, que um piano caísse do céu e esmagasse Lynn e aquele sorriso presunçoso e falso dela. Como ele tinha suportado ser amigo dela por quinze anos? Lavagem cerebral? Algo assim, com certeza.
— Ai meu Deus.
— Desça e vai falar com ela, vai ser menos embaraçoso.
Artie bufo, cansado. Isso deve ser carma, pensou ele. Depois colocou seu diário dentro da mochila e saiu do carro, tentando agir naturalmente. Quando queria era sair correndo.
Lynn sorriu e veio caminhando em sua direção. Ela tinha crescido desde a última vez que ele a vira, e os peitos dela também. Não que ele se importasse.
Tentou fingir um sorriso também, mas o que saiu foi uma meia careta de tédio. Seu repertório de expressões faciais falsas era limitado.
— Olha só para você! — disse ela, o abraçando. — Está tão diferente.
— Diferente?
— Sei lá. Você está mais bonito.
Hum. O quê? Artie, em questão de segundos, fez uma análise de sua própria aparência. De fato, ele havia melhorado muito desde que fora embora. Não tinha mais tantas espinhas, as seções de exercício na clínica o fizeram encorpar um pouco e já não tinha mais o cabelo lambido para o lado. Se fizessem como naqueles realities shows da tevê de beleza e pusessem duas fotos dele — um antes e depois — a mudança seria nítida.
Aquela conversa estava cada vez mais estranha. Lynn elogiando pessoas... O que tinha acontecido enquanto ele estivera fora? Quer saber? Ele não dava a mínima. Lembrou-se então que devia inventar uma desculpa para expulsá-la dali.
— Ah, obrigado. A puberdade me fez bem.
— O seu cabelo ficou lindo assim, dependendo da luz ele parece branco. Combina com você.
Artie só queria saber o que ela queria logo de uma vez, ficar jogando conversa atoa não estava na lista de suas atividades preferidas.
— Como foram as férias na Califórnia? — perguntou Lynn. — Fiquei surpresa quando sua mãe me contou que você tinha ido para lá, praias e Sol não fazem seu estilo.
O quê? Califórnia?
— Ah, era o único lugar onde tenho parentes — respondeu Artie, tentando disfarçar a surpresa. — Soube que minha mãe te convidou para jantar aqui em casa. Mas hoje não vai dar, é que a gente tá um pouco cansado da viagem. E tô com um pouco de jet lag, mal consigo ficar de olhos abertos.
Lynn não conseguiu disfarçar seu desapontamento.
— Está tudo bem. Te vejo por aí depois.
Deus queira que não.
— Tá bom, até mais.
Artie virou-se de costas e começou a caminhar até a porta de casa. Que alívio, tinha sido tão fácil dispensa-la é tão bom quando as pessoas se tocam de que não bem vindos.
— Ei! Artie — chamou Lynn.
Ele virou-se com relutância. O que era agora? Lynn veio correndo em sua direção.
— Que foi?
— Quer se encontrar comigo amanhã no Rogers? Uma galega legal vai também.
Artie revirou os olhos.
— Olha Lynn. Não quero ser grosso, mas eu não gosto nada dos seus amigos. Vou deixar essa passar.
Lynn franziu a testa, parecendo confusa.
— Mas você nem os conhece, como pode não gostar deles? Além disso, não saio mais com aqueles idiotas do colégio. Essa galera é de New Neigan, você ainda não os viu. Vamos! O que você tem a perder?
De fato, o que ele tinha a perder? O fato de não ser mais muito amigo de Lynn não significava que não poderia sair com aquelas pessoas, que podiam ser legais — New Neigan é um berço de pessoas legais e descoladas. Artie não admitia isso a si mesmo, mas tinha sede e, conhecer novas pessoas, em fazer coisas incríveis e memoráveis. Ficar trancado em seu quarto não proporcionaria nada disso. Ele lera uma vez que um bom escritor em seus vinte anos já teria capacidade de escrever ótimos livros, pois já teria tempo de ter vivido muitas experiências que mereceriam ser contadas. E Artie, com seus dezessete anos, não fizera nada demais.
"Vá em frente! Viva a sua vida por todos nós, você merece isso”.
— Tudo bem, eu vou.
Lynn deu um pulinho animado e bateu palmas.
— Te vejo amanhã às oito. Não se atrase!
Então eles se despediram e Artie pode finalmente pode entrar em casa. Lar doce lar, quanta nostalgia. Por um momento teve um vislumbre de si mesmo ainda criança correndo por aquela sala.
Foi direto para a cozinha, onde sua mãe começava a descascar algumas verduras. Olhou feio para ela.
— Califórnia? Sério?
— Você disse que não queria que ninguém soubesse, tive que inventar alguma coisa.
— Eu sei. Mas Califórnia? Eu odeio os Estados Unidos, ainda mais para passar quatro meses lá. Lynn sabe disso, e provavelmente sabe que é uma mentira.
— Desculpe, isso nem passou pela minha cabeça.
Pensou em usar aquela fatia de culpa que sua mãe estava sentindo. Para pedir coisas aos pais é necessário ter um timing perfeito e saber notar as oportunidades.
— A Lynn me convidou para ir ao Rogers amanhã, eu posso ir?
Sua mãe pareceu surpresa.
— O que aconteceu com aquela conversa de não querer ser mais a sombra dela? Bipolaridade não estava no seu diagnóstico.
Artie revidou os olhos. É claro que não pretendia ser a sombra de Lynn, pretendia ofusca-la na verdade. Sabia que era uma ideia mesquinha e superficial — como aquelas líderes de torcidas ridículas que ficam disputando para ser a rainha da escola —, mas decidiu ignorar isso.
— Vai ter muita gente legal lá.
Não podia dizer que eram gente de New Neigan, sua mãe nunca deixaria sair com pessoas de lá. Eram conhecidos por não serem boa influência. E sua mãe definitivamente não entenderia que o que ele mais precisava naquele momento, era de uma má influência.
— Tudo bem. Você pode ir, mas não volte tão tarde.
Artie deu um pulinho de vitória e beijou-a na bochecha.
— Obrigado mãe, você é a melhor. Vou subir e dormir um pouco.
Deu meia volta e saiu. Deliciou-se com os familiares rangidos dos degraus da escada enquanto ele subia. E então, duas portas depois no corredor, seu quarto.
Voltar para o seu quarto foi como voltar a uma cena de crime. E o criminoso era ele. Estava tudo quase igual quando ele fora embora: as paredes ainda estava cheia de pôsteres das suas bandas favoritas — The Smiths, Oasis, Beatles, David Bowie, e alguns outros —, sua estante ainda estava abarrotada de livros, gibis dos X-Man, CD's e fitas VHS. Seu mural magnético com fotos fixadas por imãs ainda estava lá. Cama ainda estava forrada com sua coberta de zebra e o teto ainda estava rabiscado com frases de músicas que ele e Lynn escreveram usando a velha escada da Sra. Robinson para alcançarem.
Porém, algo estava faltando: seu tapete branco felpudo que era perfeito para descansar os pés cansados após um dia de escola. Provavelmente sua mãe conseguira retirar a enorme mancha de sangue dele e resolvera jogá-lo fora. Era melhor assim.
Artie colocou sua mochila no chão e se deitou na cama. Sentiu aquela onda de desespero que o atingia de vez em quando, seguida de uma vontade de chorar.
Tudo no que conseguia pensar era: será que ele estava mesmo pronto para estar fora da clínica? Quando tempo levaria até ele piorar novamente?
★ ★ ★
A noite do dia seguinte estava fria, então resolvera usar uma jaqueta preta por cima de sua camiseta de De Volta Para o Futuro. Seu cabelo balançava aos ventos enquanto ele descia pela rua comercial. Ele sentia um misto de ansiedade e timidez. Iria conhecer novas pessoas, será que iriam gostar dele. Queria que sua insegurança fosse como espinha que pudesse ser coberta com maquiagem e completamente ignorada, mas não era. Então tinha que lidar com isso.
Além disso, ainda não havia resolvido o mistério que era o comportamento estranho de Lynn, em implorar por ele ir até ali naquela noite. Havia ligado para ele três vezes de manhã para lembrá-lo.
De longe deu pra notar Lynn suas botas de plataforma cheias de glitter, que se destacavam na penumbra da calçada semi iluminada pelos postes de iluminação pública. Podia dizer qualquer coisa sobre ela, mas ela tinha estilo.
— Ei, fiquei com medo de que você não viesse! — disse ela quando Artie se aproximou. Mais um abraço desconfortável veio em seguida, pelo menos dessa vez ela não estava usando perfume.
— Você está... Linda.
Fazer um elogio de vez em quando não matava.
— Obrigada — respondeu ela, corando. — Você também.
— Mesmo? Não acha que vão me achar estranho?
Tinha mesmo de ter colocado aquela campista? E aquelas calças jeans desbotadas com um rasgado no joelho? E seus óculos de aro redondo? Ele parecia um clichê de hip ter, que droga. Por que só era crítico com sua aparência quando já tinha saído de casa?
Lynn deu uma risada.
— Claro que não! — ela abraçou o ombro de Artie e começou a puxá-lo em direção à entrada do Rogers e acrescentou: Além disso, o normal é o novo estranho. Você está ótimo, tenho certeza de que vão gostar de você.
Artie se permitiu sorrir. Respirou fundo e estendeu a mão para abrir a porta, e de braços dados, eles entraram.
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