Mesmo Que Não Venha Mais Ninguém

12 A dor mora nas cores frias


Notas iniciais
Demorou mas saiu

Era quase mágico o modo como as cores se misturavam e se completavam para construir algo maior mais belo. Mesmo que o Sol já tivesse partido, a luz prateada da Lua era o suficiente para iluminar o muro. Os braços de Andrew balançavam habilidosamente com as latas de spray em mãos, transformando aquele muro sua tela de pintura. O muro em que ele estava trabalhando ficava localizado nos fundos de uma galpão de armazenamento de uma indústria siderúrgica. Perto dos locais onde os adolescentes de New Neigan gostavam de fazer suas raives noturnas. A adrenalina pulsava em suas veias, provocada pela consciência de que ele poderia ser preso a qualquer momento. Era por esse motivo, por essa sensação, que ele preferia pintar em um muro do que na segurança de uma tela em sua casa.

Ele trabalhara naquele desenho por uma semana inteira. Era o desenho de um garoto de óculos sentado em um banco de praça, olhando para o céu como se quisesse ser parte dele, morando entre as estrelas. O céu ali pintado era um céu de inverno durante o fim da tarde, frio, cinza e melancólico. No peito do garoto havia um buraco escuro e fundo que ainda sangrava. O garoto parecia não se importar com aquilo, ou talvez nem tivesse percebido que havia um buraco onde um dia morou um coração. Havia um quê de graciosidade no modo como o garoto inclinava o pescoço para poder olhar para cima, era similar ao modo como um beija-flor inclina a cabeça quando visita um favo de mel.

— Ficou lindo. — Sarah havia se aproximado sem ele perceber. Ela estava particularmente bonita naquela noite, com os cabelos louros voando com o vento, cobrindo o lado raspado da sua cabeça.

Andrew ficou em silêncio por um instante, absorvendo a visão do desenho a sua frente. Queria poder entrar dentro daquela pintura e dizer para Artie todas as coisas que estavam entaladas em sua garganta. Eram sentimentos tão intensos e contraditórios que ficava impossível transformá-los em meras palavras. Era por isso que ele pintava, para poder expressar todos os seus pensamentos mais obscuros e negligenciados. Seus desenhos eram alguma espécie de diário para Andrew. Mesmo que outras figuras estivessem pintadas em seus desenhos, ele também estava pintando a si mesmo.

— É bem diferente dos seus outros desenhos — disse Sarah.

Andrew olhou para ela.

— Diferente como?

— Geralmente seus desenhos ficam mais escuros, com tons mais quentes. Esse é mais trabalhado com apenas os derivados do azul e do cinza.

Analisando o muro novamente, ele percebeu que Sarah tinha razão. O desenho estava com apenas o vermelho no sangue do peito de Artie, o resto era tudo cinza, azul e amarelo claro. A resposta do porque ele havia feito aquilo veio rapidamente: a cor mora nas cores frias, parecia justo usá-las para expressar o que ele estava sentindo naqueles dias.

— Fale sobre ele. Sobre o garoto.

Andrew forçou a garganta antes de falar:

— Eu o conheci a poucas semanas atrás. Ele era amigo da amiga de um amigo meu, nosso encontro foi totalmente aleatório — Andrew lembrou do dia em que Artie entrou no Rogers com os braços dados com Lynn, lembrou de como odiou a língua sagaz dele e de como ficou impressionado com a beleza dele, lembrou também de ficar curioso para saber qual o motivo para tamanha tristeza naquele olhar. — Eu e ele não tivemos um começo muito bem, mas isso mudou de uns dias para cá. E tudo ficou ruim novamente depois que nos beijamos.

Sarah abriu a boca em sinal de surpresa.

— Por que? Ele fugiu depois de ver como você beija mal?

Andrew deu um murro de leve no ombro dela.

— Não, eu que mandei ele embora.

— Não acredito. Por que você fez isso.

Ele reviveu a cena no estúdio, lembrando da dor que sentiu quando Artie o olhou uma última vez antes de fechar a porta e partir. Foi como mil adagas perfurando suas costas e atingindo seu pulmão, impedindo-o de respirar. Uma dor enorme depois de uma dose irresistível de prazer que fora o beijo deles.

— Eu... eu não sabia o que fazer. Eu não posso ficar com ele, sou fodido demais para isso.

Sarah virou-se para ele e pegou as suas mãos sujas de tinta, algo que ela não fazia com frequência. Sarah era o mais próximo que ele tinha de uma amiga, a conhecera na fila para entrar na prisão local nos dias de visita. Ele ia visitar o irmão, Josh, e ela ia visitar o ex-namorado. Ela também grafitava, e isso os aproximou instantaneamente. Era comum eles saírem juntos por aquela selva de concreto procurando lugares para pintar.

— Do que você tem medo? — perguntou Sarah.

Sentiu um dejá vú ao lembrar que Artie fizera aquela mesma pergunta. Ele não sabia se tinha sido totalmente sincero em sua resposta, por isso se esforçou para falar a verdade completa desta vez:

— Não exatamente medo... é mais como uma vergonha, ou algo assim. Eu não sei se estou pronto para andar por aí de mãos dadas com outro garoto, você sabe com as pessoas são. E isso é uma coisa minha, não quero que Artie pense que é por causa dele.

Sarah bufou, consternada.

— E desde quando você liga para o que as pessoas pensam sobre você?

— Isso é diferente.

— Não, não é diferente. Lembra quando você comprou aquela camiseta com a bandeira comunista e eu disse que provavelmente te espancariam na rua por causa disso? Pois bem, eu lembro de ouvir você dizendo que as pessoas não tinham nada a ver com a sua vida e que você iria fazer a porra que quisesse? Então, por que é diferente.

Merda, era quase impossível vencer uma discussão com Sarah, principalmente quando ela tinha razão.

— Andrew, o amor é a coisa mais pura que sobrou nesse mundo de merda. Sentir vergonha de amar alguém por qualquer motivo que seja, é um absurdo enorme.

Andrew franziu a testa e fez uma careta para ela.

— E quem falou em amor aqui? Eu não estou amando.

Sarah deu tapinhas condescendentes na bochecha dele.

— Ninguém precisou dizer nada. Isso tá escrito bem na sua cara.

* * *

Dana Scully dava início a mais uma investigação no Arquivo X enquanto Artie estava jogado no sofá se perguntava quando tempo ele aguentaria antes que o tédio o matasse. Era seu décimo terceiro dia de castigo mas ele podia jurar que se tratava de anos de reclusão. Desde que seus exames médicos indicaram que o seu corpo estava sofrendo os efeitos caloteais da mistura da química dos antidepressivos com álcool e “outras substancias”, sua mãe resolvera agir como uma mãe superprotetora e o proibiu de sair com os seus “amigos delinquentes”.

— Já tive que aturar um marido alcoólatra por muitos anos — falou ela, com o seu sotaque sulista acentuado sempre que ela ficava nervosa. — Não vou aturar um filho alcoólatra também.

Artie apenas revirou os olhos e decidiu atender a ordem dela, mais por sentir pena do que qualquer tipo de arrependimento. Aquelas últimas semanas foram as melhores de toda a vida dele, e nenhuma pessoa o tinha forçado a nada, tudo o que Artie fizera fora por sua própria conta e risco. E mesmo que estivesse em estado de putrefação de tanto tédio, ele aproveitou para meditar sobre a vida. A mediação de Artie era se deitar na cama olhando para o teto, com vários doces por perto e com Oasis tocando ao fundo.

O episodio acabou e mais um estava para começar quando a campainha tocou. Dali do sofá ele conseguia ouvir a mãe no chuveiro. Após xingar baixinho, Artie se arrastou até a porta. Ainda que estivesse absorto em seu estado de preguiça, ficou surpreso ao ver uma tímida Lynn olhando para ele.

— Oi — disse ela, sorrindo nervosamente.

— Oi — respondeu Artie, que ainda não sabia se estava alegre ou aborrecido com a visita dela.

— Hum, você quer dar uma volta? Só pelo bairro mesmo, enquanto conversamos.

— Ah, claro. Mas não posso ir muito longe, estou de castigo.

— Tudo bem.

Artie pediu que ela esperasse um minuto até ele ir lá em cima se trocar. Pouco tempo depois os dois estavam caminhando em frente à coleção de casinhas iguais do bairro. Estava em um silêncio desconfortável, em que nenhum dos dois sabia o que dizer.

— Eu andei pensando sobre aquilo que você me falou naquele dia — começou Lynn, sua voz baixa denunciando sua hesitação.

— Seja mais específica — Ele havia dito várias coisas duras para elas, coisas que talvez ela não merecesse ouvir. Vomitara nela meses de frustrações, sendo injusto em descontar em Lynn os seus próprios problemas. Ele tomaria mais cuidado a partir dali, não queria ser uma daquelas pessoas amargas que agiam com hostilidade com todo mundo para se sentir melhor consigo mesmo.

— Sobre a nossa amizade já ter se enfraquecido antes de... você sabe.

— Ah, sei. E o que você esteve pensando sobre isso?

— Que talvez você tenha razão. E que talvez eu tenha tido um pouco de culpa.

Aquilo surpreendeu Artie. Lynn era o tipo de pessoa que não admitia estar errada mesmo quando realmente estava. Ouvi-la assumir a culpa de ter deixado a chama da amizade deles se apagar um pouco era algo admirável, um sinal de que ela não era mais aquela Lynn que ele conheceu a muio tempo atrás.

— Eu preciso te contar uma coisa — continuou ela — Uma coisa que eu já devia ter te contado.

Lynn pegou a mão de Artie e o conduziu até um parquinho de diversão da creche do bairro, que durante a noite parecia um pouco assustador. O gira gira girando sozinho com gotas de chuva brilhando sobre sua superfície de ferro passava uma sensação de melancolia. Sem falar naqueles balanços indo e vindo com o vento, Artie pensou em abandono e solidão ao olhar para ele. Lynn se sentou em um dos balanços e Artie sentou-se no outro, ele começou a balançar devagar com os pés.

— Pode falar, Lynn. Eu sei como é guardar um segredo e o quanto isso pesa as costas.

Olhou para ele lançou-lhe um sorriso encorajador.

— Começou quando eu entrei para o time de basquete da escola, no primeiro ano. Quando eu estava no vestiário com as ouras garotas,eu ficava olhando para elas como...

— Como o que?

Lynn respirou fundo antes de falar novamente.

— Como eu devia estar olhando para os garotos.

O queixo de Artie caiu e seu olhar se desviou para as árvores ao lado.

— Você está querendo me dizer que é... lésbica?

— Não! Quer dizer, sim. Eu acho que sim.

Ele podia notar na voz dela o quanto era difícil para ela admitir aquilo. Lembranças invadiram sua mente e de repente ele era aquele garoto de doze anos que ficava escondendo revistinhas da Sákura Card Captors debaixo do colchão para que o pai não visse, um garoto que não entendia por que ele era como era. Imaginou que Lynn tinha passado pelos mesmos dilemas que ele, no qual eram rotina ficar se perguntando o motivo de ser tão diferente das outras crianças e o porque aquilo era uma coisa ruim.

Artie continuou encarando as árvores, ainda sem saber o que dizer.

— Viu, é por isso que eu nunca queria ter contado nada — disse Lynn, com a voz chorosa.

Ela levantou do balaço e começou a ir embora, mas Artie a alcançou e pegou no braço dela.

— Ei! Espera, eu estou surpreso, só isso. E confuso, ainda não entendi por que isso fez você se afastar de mim.

— Não é óbvio para você? — gritou ela, já em lágrimas. Artie olhava para ela com pesar, sem saber como reagir. — As pessoas não gostam de gente como eu. Eu não queria te contar porque tive medo de você não gostar mais de mim depois, por isso eu me afastei de você.

Artie não se segurou e começou a rir. Uma risada que debochava de todas as ironias da vida.

— Do que você está rindo?

— Lynn, eu nunca iria deixar de gostar de você. Pelo menos não por isso. Eu sou gay, sabe. Nós meio que temos que apoiar nossos iguais.

Foi a vez de Lynn ficar de boca aberta. Depois ela deu um pulinho animado e esmagou Artie em um abraço.

— Arty! Essa é a coisa mais maravilhosa que eu já ouvi!

— Ah... obrigado?

Os dois voltaram a andar pelo bairro, agora livres de silêncios constrangedores. Lynn ficou realmente maravilhada com a notícia de que Artie também era gay e parecia totalmente aliviada por tirar aquele peso das costas. Artie também ficou feliz por ela, apesar de ainda estar meio surpreso demais com aquela história toda.

— Ah, temos três anos de amizade para recuperar — disse Lynn, que estava se equilibrando no parapeito da calçada. — Tenho tanta coisa para contar.

— Tipo o quê? — perguntou Artie, curioso.

— Tipo eu estar em um relacionamento secreto. Com alguém que você conhece.

— Ai meu Deus. Quem?

— É segredo!

Artie ficou calado, aguardando. Lynn simplesmente incapaz de guardar um segredo como aquele. Cinco, quatro, três, dois...um.

— Oz! É a Nora!

Artie parou de Andar e olhou para ela boquiaberto. Pela segunda vez naquele dia ele estava absolutamente surpreendido. O que era aquilo? O Dia Internacional das Revelações Bombásticas?

— A Nora? Mas eu achava que rolava algo entre ela e o Vincent.

Lynn olhou como se ele tivesse dito o maior absurdo do mundo.

— Você é doido? Os dois como irmãos.

No caminho até a casa de Artie, ela lhe contou sobre como tinha conhecido Nora em uma festa, e em como ela estava ajudando-a a aceitar mais a si mesma. Aquela história o lembrou dele e de Andrew, e de como a situação entre eles estava... complicada. Artie pensava nele vinte e quatro horas, se lembrando do beijo e da dor que foi sair sem saber se teria a chance de beijá-lo outra vez. Por um segundo, pensou em dizer a Lynn e talvez até pedir um segredo, mas aquele não era um segredo apenas dele, então decidiu não contar nada.

Quando chegaram na casa dele, os dois se abraçaram e prometeram começar a se ver com mais frequência. Ele estava abrindo a porta quando ela o chamou novamente.

— Ah, eu esqueci de te dizer. Mas já que você está de castigo eu nem sei se devia...

— O que é?

— O Vince conseguiu ingressos para o show dos Smiths que vai rolar em Londres, na sexta.

Ai. Meu. Deus.

Por um momento Artie ficou tonto e achou que ia desmaiar ali. Um show dos Smiths? A sua banda favorita. Era bom demais para ser verdade. Castigo nenhum o impediria de ir.

— Não se preocupe, eu vou dar um jeito. Vejo você na sexta.

* * *

Andrew estava terminando de passar a máquina no lado esquerdo do cabelo quando o telefone tocou, era um corte que as revistas chamavam de sidecut e que tinha saído de moda entre os punks há alguns anos, ou seja, ele já podia usar sem se preocupar em ver vários outros caras na rua com um corte igual.

— Alô.

— Andrew?

Ele quase deixou o telefone cair da mão de tanta surpresa. Aquela era a voz de Artie.

— Sim, sou eu. Como conseguiu meu número?

— Com a Lola. Te liguei para pedir ajuda.

— Ajuda com o quê?

— Para fugir de casa na sexta. Eu preciso ir ao show.

Ah. O Show. Andrew tinha dito ao Vince que não iria, ainda estava em sua fase deprimida. Mas pelo visto agora ele iria voltar atrás com a decisão.

— E então? — continuou Artie. — Você vai me ajudar?