Mesmo Que Não Venha Mais Ninguém

15 O Sol antes da tempestade


Notas iniciais
Mais um capítulo! < 3

Há algo de exageradamente íntimo em ficar assistindo alguém dormir. Na verdade, o próprio ato de dormir ao lado de alguém já precede de um nível grande de intimidade. Esse era o motivo de Andrew ter um divã velho na sala do seu apartamento, onde ele transava com suas conquistas e usava o espaço pequeno como desculpa para não dormir com a pessoa. Ele não sabia o que essa nova experiência — dormir com alguém — significaria para sua vida dali para frente, mas era uma sensação tão satisfatória que ele não se permitiu pensar demais.

Artie respirava suavemente ao seu lado, com a cabeça apoiada no seu ombro nu. A sombra cinza da tristeza que costumava acompanhar suas feições havia descansado, e seu rosto exibia uma calma que o tornava ainda mais bonito. Seus ombros pálidos exibiam marcas vermelhas de mordidas que Andrew ficava estranhamente envergonhado em olhá-las. Não sabia como Artie reagiria quando as visse. Na verdade, não sabia como Artie reagiria sobre tudo que acontecera na noite anterior.

Em um movimento que fez para puxar a coberta mais para cima acabou acordando Artie, que ficou desorientado olhando para os lados até parecer se dar conta de onde estava. Depois ele olhou para Andrew e deu um sorriso que brilhou mais que a luz do Sol que entrava pela janela.

— Bom dia — bocejou Artie, esfregando os olhos.

— Bom dia.

— Você por acaso estava me observando dormir?

— Não! Claro que não. Você... está bem?

— Sim. Quero dizer, minha mãe vai me esfaquear quando eu chegar em casa, tirando isso eu estou muito bem.

Andrew riu baixinho e se inclinou para beijá-lo. Mas interrompeu o beijo antes que as coisas esquentassem demais.

— Nós precisamos ir. Ainda tem muita estrada até chegarmos em casa.

Artie fez um muxoxo dramático, mas acabou se levantando da cama. Andrew deu risada quando Artie se enrolou todo no lençol antes de pegar as roupas no chão e se fechar no banheiro. Depois ele mesmo tratou de se vestir e sair para encontrar algo para comer. O hotel ficava ao lado de um posto de gasolina, Andrew entrou na loja de conveniência para comprar cheetos e quando voltou para o carro Artie já estava acomodado no banco do passageiro.

– Sabe, acabei de chegar a uma conclusão muito interessante — falou Artie, depois de quase arrancar o pacote de Cheetos das suas mãos.

— Qual?

— De que ontem foi a melhor noite da minha vida.

Andrew tentou disfarçar o efeito que aquelas poucas palavras provocaram dentro dele. De repente a visão de Artie com os olhos fechados e com a boca aberta debaixo dele invadiu seus olhos, a estrada a sua frente desapareceu de repente e se eles batessem e morressem ali, Andrew morreria com a alegria provocada por aquelas lembranças.

— Isso não é meio cedo para dizer? Você ainda é muito jovem. Eu gosto de ter em mente que a melhor noite ainda está por vir.

— Não, eu tenho certeza. Cem por cento de certeza. Um show dos Smiths e a primeira vez que fiz sexo. Não há como superar isso.

— Hum, isso me lembra de uma coisa. Ontem... você gostou?

Andrew desviou os olhos para não ver a expressão de Artie enquanto ele pensava. Ele nunca fora um cara com muitas inseguranças, mas estava muito inseguro sobre a noite anterior. Tinha medo de ferir os sentimentos de Artie, e tentara ser o mais carinhoso possível, mais do que com qualquer outra pessoa. O sexo era para ele um momento em que ele extravasava toda a energia dentro dele, e comparado com o os furacões que geralmente era, a noite anterior havia sido uma brisa de inverno. E, de alguma forma, tornara tudo muito melhor.

— Sim, Andrew. Eu gostei.

— Hum. Gostou o suficiente para fazer de novo.

Artie riu.

— O suficiente para fazer várias e várias vezes.

— Fico feliz em ouvir isso.

Andrew ligou o rádio baixinho e voltou a se concentrar na estrada, algo lhe dizia que Artie precisava de um instante de silêncio introspetivo. Dirigir podia ser terapêutico, ajudava a desacelerar a correnteza de pensamentos que lhe afligia às vezes. Era só se concentrar na estrada, na música tocando no rádio, no vento batendo no seu rosto e ligar um "foda-se", para então, simples assim, todo o resto desaparecer.

— Estou preocupado — Artie depois de um tempo.

— Com o quê?

— Eu não sei, é que está tudo tão bem. Está tudo bem demais, de uma forma meio assustadora. E isso me assusta muito. Pois é como se algo de ruim estivesse para acontecer e destruir tudo isso.

O coração de Andrew vacilou. Estava claro que Artie estava acostumado a levar uma vida de sofrimento, o que tornava as coisas boas difíceis de serem acreditadas. Andrew queria ajudá-lo a esquecer essa mania se sentir culpado, mas não sabia como. Tudo o que ele tinha eram as suas palavras, e não sabia se elas eram suficientes.

— Artie, nem tudo é um Sol antes da tempestade. Às vezes as coisas simplesmente são boas.

— Não comigo.

— Mas se as coisas ficarem ruins, o que eu duvido que vá acontecer, você sempre tem a opção de fugir.

Artie deu uma gargalhada.

— Fugir? Fugir para onde.

— Para lugar nenhum. Esse é o ponto. Podemos simplesmente entrar no carro e sair dirigindo sem rumo.

— Andrew, a vida não é um romance do Jack Kureac.

— Estou falando sério, o que você tem a perder?

Artie ficou calado por um infante, parecia pensando. Seu maxilar estava serrado, mas no fim ele estalou a língua.

— Nada.

— Então. É uma ótima opção. Mesmo que não venha mais ninguém, podemos ir apenas eu e você. Aposto que vamos encontrar algo para desfrutar da companhia um do outro. O que você acha?

Ele conseguia imaginar aquele futuro como se tivesse uma fotografia dele na sua frente. Ele e Artie no carro discutindo para saber quem escolheria o álbum que ouviriam no dia, parando o carro no acostamento para poderem assistir o pôr do Sol, dormir em hotéis baratos, se beijando em cima do capô. Ele guardou os pensamentos de carinho com carinho dentro de si, e rezou para que eles se tornassem reais algum dia.

— Bem, por enquanto vamos apenas pensar que isso não vai ser necessário. Vamos pensar que nada de ruim vai acontecer.

* * *

Talvez o destino seja como uma criança de dez anos mau humorada que brinca com a vida das pessoas. E como qualquer criança normal, há dias em que o destino vai cuidar dos bonecos com muito cuidado e carinho, vai mantê-los dentro da casinha de bonecas cheia de detalhes bonitos. Mas há dias em que o destino vai maltratar os brinquedos, vai arrancar os cabelos deles, vai jogá-los dentro de um armário escuro e esquecê-los lá.

Às vezes o destino pode ser muito, muito sacana.

* * *

Artie soube que havia algo errado no momento em que viraram na rua da sua casa e ele viu um carro de polícia na frente da sua casa.

— Ai meu Deus! — expressou, colocando as mãos sobre a boca. — Será que a minha mãe chamou a polícia por minha causa. Ai que merda! Ela deve achar que eu fugi.

— Mas não vai dar em nenhum problema, afinal você está aqui.

— Se ela já tinha me prendido em casa por eu estar bebendo agora provavelmente vai me amarrar em uma cadeira no porão. Estou fodido.

Artie fechou os olhos e se xingou mil vezes. Não acreditava que seu dia maravilhoso terminaria em uma das cansativas discussões com a mãe. E mesmo odiando isso ele não se arrependia nem um pouco de ter saído escondido no dia anterior, ele falara sério ao dizer que havia sido a melhor noite da sua vida.

— Vai ficar tudo bem — afirmou Andrew. — Confie em mim.

Artie balançou a cabeça e saiu do carro. Começou a caminhar em direção à casa, mas parou ao ouvir o som de Andrew saindo do carro e vindo em sua direção.

— O que você está fazendo?

— Vou entrar lá com você.

— O que? Não! Você é o carinha que pediu para usar o telefone dela, esqueceu?

— Ao contrário de você, eu sei mentir muito bem. Vou arranjar uma desculpa para você.

É, ele não podia argumentar contra aquilo.

— Tudo bem. Vamos.

Artie ficou surpreso quando Andrew pegou a sua mão e o conduziu até a porta. Lançou um olhar interrogativo para ele, mas só encontrou um rosto impassível.

E então eles entraram na casa.

E Artie arfou.

Sua mãe estava na sala, sentada no sofá, chorando, e sendo amparada por um homem desconhecido. Havia dois policiais parados ao lado. O que estava acontecendo ali? E quem era aquele homem abraçando a sua mãe?

As quatro cabeças viraram em sua direção assim que ouviram a porta ser fechada.

Sua mãe ficou com a boca aberta em surpresa por um segundo, e depois gritou.

Mal havendo tempo para analisar aquela cena, Artie se viu sendo abraçado por sua mãe com uma força esmagadora. Era como se ela quisesse ter certeza de que ele estava ali.

— Artie! — gritou ela em meios às lágrimas. — Você está aqui. Graças a Deus.

Artie franziu a testa e se afastou do abraço.

— Ei, calma mãe. Eu estou bem. Foi só uma saída escondida. Eu estou bem.

— Artie, eu acho melhor você se sentar — disse o homem estranho que estivera abraçando sua mãe.

— Primeiramente, quem é você?

Sua mãe deu um soluço ainda maior e começou a chorar novamente. Foi então que Artie percebeu que alguma coisa tinha acontecido. Suas mãos começaram a tremer e ele foi se sentar na poltrona.

— O que está acontecendo aqui? — Gritou, com impaciência. — Digam!

— Você estava com um grupo de amigos em um show em Londres ontem à noite, certo? — Perguntou um dos policiais.

Artie sentiu seu sangue congelando dentro das suas veias. Odiava quando as pessoas faziam afirmações presunçosas e depois terminavam a frase com um "certo?" como se não soubessem a resposta.

— Como vocês sabem disso?

— Mas não voltou na van com eles, certo?

— Não, não voltei! E como sabem que eles estavam em uma van?

— Para onde você foi depois?

Seus olhos instantaneamente correram na direção dos de Andrew, que estava com aquela sua expressão impassível no rosto. Apenas seu maxilar tenso denunciava que ele estava nervoso.

— Para lugar nenhum. Fiquei dando voltas por aí. Por que estão fazendo essas perguntas?

Seus olhos revezavam em encarar sua mãe, o homem estranho e os dois policiais em busca de uma resposta. Mas nenhum deles olhavam para ele.

— Bem, não é uma coisa simples de dizer, mas acredito que seja melhor dizer logo. Chegamos aqui por que um garoto chamado Stanley deu o seu nome para os policiais no hospital, ele queria saber estava tudo bem com você. Ele ainda não se recuperou do trauma. Tudo o que falou foi o seu nome, nós não sabíamos se você estava na van pois não encontramos um quinto corpo.

Ai. Meu. Deus.

Trauma?

Hospital?

Corpo?

Sua visão agora estava cheia de pontos pretos. Lágrimas quentes e salgadas molhavam suas bochechas e seu coração tinha se esquecido de como era bater.

— Por favor, só me diz o que aconteceu. Por favor.

— Seus amigos estavam voltando de Londres ontem à noite. O jovem que estava dirigindo provavelmente estava bêbado e perdeu o controle da direção durante uma curva perigosa. A van caiu em uma ribanceira, e apenas um conseguiu sobreviver.