Merveilles
3 Capítulo 3
Ressaca. Composta basicamente de um mau estar tremendo no estômago e de uma dor de cabeça infernal, que pode se agravar se a pessoa, no caso eu, for propensa a enxaquecas, como eu. É nessas horas que você jura que jamais irá beber na sua vida e etc., mas logo em seguida está no bar de novo.
Mas no meu caso eu -realmente- não voltaria a um bar tão cedo. Pra começo de conversa eu tinha sido arrastado até lá. Mas o que me preocupava, além dessa dor de cabeça incessante, era o ocorrido no elevador.Por que ele fez aquilo? Queria apenas se aproveitar do meu estado pra depois tirar uma com a minha cara? Tudo bem que isso seria mais típico do Közi... Mas o que ele queria afinal? Brincar comigo? Iria tirar satisfações com ele. Mas antes, uma aspirina pelo amor dos deuses...**********Mais um ensaio terminado, Közi havia me mostrado uma nova melodia na qual ele vinha trabalhando, e que parecia promissora. Só precisava de uma letra.Olhei de soslaio pra Gackt, que bebia água, mas ainda em tempo de vê-lo se desviando do meu olhar. Ele passara o dia todo assim, me observando às escondidas. Mas eu teria as minhas respostas. Hoje. Dispensei todos ao fim do ensaio, com exceção de Gackt. Sabia ser um risco ficar com ele a sós, e que Közi iria tirar sarro da minha cara. Mas eu precisava perguntar o que me incomodava, precisava tirar esse peso do meu ombro. Olhei bem pro vocalista que se encontrava sentado do outro lado a minha mesa.- E então? O que precisa falar comigo Mana-sama? — olhei bem pra ele.- O que eu tenho pra conversar com você não é algo relativo a banda...- Então que tal sairmos desse escritório fechado e caminharmos num parque que tem a alguns quarteirões daqui?Pisquei. Hã? Parque? O que ele queria? Mas non era má idéia. Pelo menos teria pessoas a volta... Tá, era uma má idéia. Mas... Acho que não teria mal algum... ne? Acabei por concordar, e caminhamos lado a lado até o parque.- Gosta de sorvete?- Hã?- Perguntei se você gosta de sorvete.- Ah... H-hai.Gackt desapareceu por um instante e voltou com duas casquinhas. Isso foi um tanto... inusitado. Não que eu não tenha gostado... Mas foi algo que eu não esperava.- Então... O que você tinha pra dizer?Ocupei-me um pouco com o sorvete que ameaçava derramar antes de responder.- Eu queria saber... por que você fez aquilo no elevador da minha casa.- Ah. Achei que você não se lembraria, dado o tanto que você tinha bebido.- Mas eu lembro. E queria saber o porquê.Ele repetiu o meu gesto, se ocupando com o sorvete antes de responder. Fiquei observando ele tomando aquele sorvete...como a língua dele passava suavemente no doce... Kami-sama! Que pensamentos são esses? Fiquei até vermelho.... Será que ele percebeu?- Por dois motivos. Primeiro, porque eu sinceramente esperava que você não fosse se lembrar disso. Segundo... O segundo motivo vou deixar você descobrir sozinho. — Descobrir sozinho? Ah, cretino. Você me paga.Do nada, um maluco de patins passou por nós, ou melhor, quase em cima de mim. Instintivamente pulei pro lado, esbarrando em Gackt e esbarrando meu sorvete nele. Eu disse esbarrando? Esmigalhando meu sorvete na camisa -branca- dele. Que ótimo.- Gomen nasai...- Daijioubu. Você não se machucou?- Iie. Olha, tem um banheiro ali. Eu ajudo você a se limpar...Entramos no banheiro masculino, felizmente deserto naquele fim de tarde. Gackt jogou o resto de seu sorvete no lixo e, sem cerimônias, arrancou a camisa. Só então eu pude ver o quão belo era seu corpo. Isso sim é a visão dos deuses...- Precisa de ajuda? — ele sorriu e me olhou com um brilho intenso nos olhos azuis por causa das suas inseparáveis lentes.- Não se preocupe. Uma camisa a mais, uma a menos... Pelo menos você não se machucou. Depois eu te pago outro sorvete, se você quiser.- Não, não precisa. Você vai sair daqui com a camisa molhada?- É o jeito, ne?- Mas... É branca.- Sim.- Vai ficar transparente...- Ahn. É, presumo que sim.Acabou de tirar o sorvete da camisa e a vestiu molhada mesmo. O tecido branco automaticamente grudou na pele dele, deixando exposta cada curva daquele corpo. Aquele maravilhoso corpo. Gackt sorriu ao ver que era observado.- Minha vez de perguntar: Por que você me olha assim?Fiquei sem saber o que responder, mesmo por que eu mesmo não sabia. Por que eu o olhava daquele jeito? Gackt caminhava na minha direção e eu, sem saber o que fazer, deu alguns passos pra trás até bater na parede. Ele caminhou até mim e a uns trinta centímetros de mim parou e apoiou a mão direita na parede próxima a minha cabeça.- Então... Por que você me olha assim?Eu engoli em seco. Podia sentir o perfume dele e o calor que emanava de seu corpo, apesar da camisa molhada. Se ele me repetia a pergunta, vamos repetir a resposta.- Pelo mesmo motivo que você me olha assim.Ele deu uma risada curta, segurou o meu queixo com a mão esquerda da forma mais delicada que pôde antes de falar novamente.
- Então... Você se incomodaria se eu fizesse isso?Antes que eu pudesse raciocinar, antes que eu pudesse responder, antes que eu pudesse até mesmo respirar... Senti novamente aqueles lábios sobre os meus, num beijo suave e rápido. Quando ele cortou o beijo, meu rosto se inclinou na direção dele, como que pedindo involuntariamente que ele não parasse. E desde quando eu queria que ele não parasse? E desde quando queria?Ouvimos vozes se aproximando do banheiro e tratamos de nos separar. Dois caras entraram no banheiro conversando e ignorando a nossa existência. Gackt fez sinal para sairmos do banheiro, e eu, sem alternativa, acabei por segui-lo. Ele andava normalmente, ignorando os olhares femininos que a camisa branca e grudada atraía.Quando percebi, estávamos de volta ao estúdio. Ele parou do lado do meu carro e virou-se de frente pra mim, me presenteando com a visão de sua camisa branca quase invisível.- Era só isso que tinha pra me falar? — pisquei e ele sorriu.- H-hai.- E... você se incomodou com o que eu fiz no banheiro?Fiquei olhando pro chão, pensando no que responder. Incomodado? Não. A verdade eu jamais admitiria pra mim mesmo. Eu teria de aceitá-la primeiro. Vendo que eu não respondia, ele falou novamente.- Depois você me responde.Sem dizer mais nada, entrou no carro dele e saiu, me deixando ali, sozinho e confuso.Continua...
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