Notas iniciais
Dei um graaaaaande salto no tempo da fic. o_o Mas eu non a prejudiquei, pelo amor de deus! >.< Eu só... Só... Quis apressar algumas coisas u_u.
Tempo. Uma simbologia relativa, inventada pelo homem antigo que não tinha mais nada o que fazer. Ele simplesmente passa, sem qualquer chance de retornar. E talvez por isso que, ao meu ver, ele tenha passado tão depressa. Sem que eu percebesse, completaram-se quatro anos do meu relacionamento com Gackt. Tudo que era referente à ele já fazia parte da minha vida, fosse seu perfume, sua voz ou até mesmo seu corpo.

Mesmo depois destes quatro anos, não havíamos contado nada à ninguém. Gackt às vezes insistia para contarmos tudo, mas u sempre o dissuadia da idéia. Não que eu não quisesse contar ao mundo sobre nós dois, mas eu tinha medo da reação do mundo. Temia principalmente pelo futuro da banda, que ia muito bem agora.

Algumas coisas haviam mudado nesses últimos anos. Por exemplo, a minha amizade com Kami. Claro que já nos dávamos bem por causa da banda, mas eu não sei porquê a nossa amizade tinha se tornado mais sólida nos últimos anos. Ele até mesmo sabia que eu mantinha um relacionamento com alguém, mas eu não contara quem. Acho que no fundo ele sempre soube, mas preferiu respeitar o meu silêncio. Melhor assim.

Outra coisa que havia me surpreendido era Közi. Não que eu já não me surpreendesse sempre com ele, mas ele pegara muita amizade em Yu~ki e principalmente com Gackt. O quanto Közi sabia da nossa relação? Eu não sei. Diria até que mais do que Kami, que havia virado meu confidente. O fato que Közi também parecia respeitar o meu silêncio, e conseqüentemente o de Gackt.

Uma outra turnê havia se iniciado, a do Merveilles. E o título não poderia ser mais apropriado, na minha opinião. Eu realmente não tinha do que reclamar da vida, e ainda ganhava invasões à meia-noite no meu quarto de brinde. O último show havia terminado, e estávamos todos exaustos, sem exceção. Prova disso era o silêncio no avião durante a viagem de volta a Tóquio, uma vez que quase todos estávamos dormindo. Eu ainda estava acordado, no fundo do avião. Olhava pela janela distraído, e nem percebi quando Gackt sorrateiramente sentou-se do meu lado.

- Cansado?

Eu sorri pra ele, voltando a minha atenção para figura estonteante ao meu lado.

- Bastante. Os outros estão dormindo?

- Como anjos, eu diria.

Não consegui conter o riso.

- Anjos?

- É. Bati até uma foto, depois eu te mostro.

E então, sem aviso, ele me roubou um beijo. Não um beijo profundo, apenas um roçar de lábios.

- Gackt! O que deu em você?

- Eu não vou poder fazer mais isso nos ensaios. Sabe que eu fico triste da turnê acabar?

- Você não está cansado?

- Estou. Mas eu realmente queria que ela se prolongasse.

Eu suspirei, cansado.

- Eu posso ver com os rapazes se eles aceitam prolongar a turnê. Mas eu não prometo nada. Eles parecem muito cansados.

Ele sorriu. Mas não foi um sorriso normal. Foi um sorriso... Triste. Amargo, eu diria. Franzi o cenho, sem compreender.

- O que foi, Gackt?

- Nada.

-...

-...

- Sabe, o silencioso da relação sou eu. Desde quando você ocupa meu posto?

Desta vez ele riu com mais sinceridade.

- Desculpe. Eu vou voltar pro meu lugar.

Ele se levantou rapidamente, mas antes que se afastasse eu agarrei o seu pulso esquerdo.

- Ei. Está tudo bem?

- Está.

Novamente aquele sorriso amargo. Mesmo receoso e cheio de dúvidas, acabei por soltá-lo. Isso não era nada bom. Nada mesmo.

*********

Coloquei meus braços dobrados sobre a mesa e apoiei minha testa sobre eles. Mais uma reunião havia terminado, e como eu já havia previsto, os outros três membros da banda haviam se recusado a estender a turnê do Merveilles. Gackt não havia gostado nada disso. Ouvi o som da porta se abrindo e fechando logo em seguida, e levantei a cabeça, sem me surpreender ao ver Gackt.

Lá fora uma chuva torrencial despencava, mas eu nem me importava. O problema agora era convencer Gackt a aceitar a decisão da maioria. E pelo visto, seria uma tarefa difícil. Ele sentou-se numa cadeira diante de mim.

-...

-...

- Mana...

- Hum.

- Não tem chance mesmo da turnê se prolongar então?

- Não. — meu rosto se mantinha inexpressível, com sempre. — Eles estão muito cansados, e eu devo admitir que também estou. Mas por que você quer tanto assim estender essa turnê?

Talvez ele mesmo não tenha percebido, mas eu acabei percebendo quando os punhos dele se fecharam. Nos seus olhos, eu via uma raiva. Não, aquilo não era raiva. Era algo pior do que isso. Como era mesmo o nome desse sentimento?

- Você não percebe? Não vê porquê eu estou fazendo isso?

Franzi o cenho. Mas qual era mesmo a palavra?

- Não.

Ele fechou os olhos e respirou fundo antes de continuar falando. Parecia que ele queria desabafar algo a muito tempo sufocado.

- Esse é o seu problema, Manabu. Não vê o que está diante dos seus olhos. E pra mim isso já basta. Eu entendo que você goste do seu silêncio, mas pra mim não dá. Eu não agüento mais. Eu estou fora.

Pisquei, tentando absorver as informações. Hein? O que eu meu silêncio tem a ver com a turnê? E o principal: o que ele quis dizer com "estar fora"? Levei mais alguns segundos para recuperar a fala.

- O que você quer dizer com "estar fora"?

- Exatamente o que isso quer dizer, Manabu. Eu estou deixando o Malice Mizer... e você.

Eu não sentia o chão sob meus pés. Com apenas uma frase, ele havia conseguido destruir o meu mundo. Enquanto eu ficava ali abobalhado tentando compreender que a pessoa que eu mais amava no mundo estava saindo da minha vida, Gackt se foi, sem nem mesmo olhar pra trás.

Não tive forças para ir atrás dele. Estava tudo acabado. Tudo o que eu mais amava, tudo o que eu mais havia preservado. Lentamente, me levantei da cadeira e fui saindo do estúdio. Estava meio cambaleante, ainda abalado com tudo o que havia acontecido. Nem reparei na chuva que me deixava ensopado, e só me dei conta de onde estava um bom tempo depois.

Estava no mesmo parque no qual ele havia me beijado pela segunda vez. Com a chuva que desabava, o parque encontrava-se abandonado e eu acabei por sentar em um dos bancos. Que ótimo que não havia ninguém por perto. Que droga que não havia ninguém por perto.

Por mais contraditórios que meus pensamentos fossem, eles expressavam o que eu sentia agora. Achava ótimo que não houvesse ninguém naquele parque. Ao mesmo tempo, eu me sentia sozinho. Completamente sozinho, como eu nunca havia me sentido. Percebi que, como havia me habituado com a constante presença de Gackt, a minha solidão havia sido esquecida. Eu havia me esquecido de como era ficar sozinho, sem poder contar com ninguém.

Foi então que eu me lembrei da palavra. Mágoa. Era isso que havia nos olhos de Gackt. Mágoa, pura e simplesmente. Esse sentimento corrosivo e cruel.

E foi ali, naquele parque, que eu fiz algo que a muito tempo eu havia esquecido como fazer. Ainda tentava manter o controle, mas parecia algo impossível. Minha mente estava uma bagunça. Tão bagunçada que eu nem notei que a chuva não me molhava mais. Alguns segundos se passaram até eu notar um guarda-chuva sobre mim.

- Perdido, Mana-chan?

Um sorriso. Era tudo o que eu precisava receber agora. Nem pensei no que eu estava fazendo, apenas o abracei, mandando o meu auto-controle pro inferno e despejando todo o meu choro que eu tentava conter.

- Chora... Faz bem pra alma.

No meio dos meus soluços incontrolados, eu consegui formar uma frase que eu tenho certeza que ele entendeu.

- Arigatou... Kami.