Notas iniciais
Há uma pilha de roupas minhas nos pés da sua cama E ao me sentir caindo Eu faço graça disso tudo [...] Eu acharei as palavras pra dizer Antes que você me deixe hoje— Moments – One Direction
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Não sei por quanto tempo fiquei abraçado ao Tony, o ouvindo ressonar baixinho, o peito subindo e descendo ritmadamente, o rosto sereno e calmo e o cabelo bagunçado no travesseiro. Estava lindo. Era bom ficar assim com ele, sem brigas ou discussões, apenas apreciando sua presença e sentindo o seu calor nos meus braços enquanto sentia seu cheiro bom de shampoo.
Um nó se formava em minha garganta e meu peito apertava cada vez que eu lembrava que isso nunca iria se repetir. Tony não sentia nada por mim. Provavelmente tinha feito tudo o que fez por efeito da bebida forte que bebia quando cheguei, talvez se sentisse entediado e apenas encontrou algo para lhe distrair. Ou apenas precisava de alguém pra suprir seus desejos, agora que ele e a Pepper deram um tempo; e como eu estava disponível e ao seu alcance, ele apenas aproveitou a oportunidade.
Mesmo que eu tenha sido um mero brinquedo para ele hoje, não me arrependo de nada que fiz ou disse, precisava dizer ao Tony o que eu sentia, mesmo que não tenha planejado fazer isso hoje, ou no caso, ontem, já que provavelmente já é madrugada. O que eu sentia pelo Tony já era antigo, deve ter começado mais ou menos quando os Vingadores foram formados. Na época brigávamos e implicávanos um com o outro feito loucos, ele com aquela mania de fazer piada com tudo, nunca levando nada a sério, isso irritava. Mas foi com essa implicância entre nós que eu me apaixonei.
Nunca imaginei, nem nos meus melhores sonhos, que algum dia eu iria me encontrar em uma situação dessa com Tony, nós dois abraçados numa cama, após termos feito... bem, o que fizemos. Como tudo o que é bom dura pouco, não podia ficar ali muito tempo, então com cuidado soltei o corpo adormecido do Stark, o vendo esfregar o rosto manhosamente no travesseiro, mas sem acordar. Me levantei da cama procurando minha cueca no chão, a encontrei junto com as roupas de Tony. A vesti, apaguei a luz do abajur que estava acesa e me curvei sobre o moreno, dando um leve selinho.
Saí do quarto torcendo mentalmente para não encontrar ninguém no caminho até a sala de TV, seria muito difícil explicar o quê eu estava fazendo de cueca nos corredores do complexo na madrugada de natal, ainda mais saindo do quarto do Tony com o corpo cheio de arranhões, mordidas e chupões.
Felizmente o caminho estava limpo. À passos rápidos, mas silenciosos, cheguei na sala, juntando minhas roupas do chão e as vestindo apressadamente, quase colocando o moletom ao contrário. Tão rápido quanto cheguei ali, tratei de ir até a saída, mas no caminho passei pela porta onde eu sabia que meu escudo estava. Parei e pensei por um momento, antes de digitar o código de entrada, que a Natasha me deu, e entrar.
Meu escudo reinava no centro da sala, iluminado em cima de uma mesa, com o celular que mandei pro Tony, ao lado. Caminhei até ele, o olhando e lembrando como era estranho lutar sem ele, meu "companheiro" de anos. Nem sequer cogitei a ideia de o levar comigo, se Tony não quer que eu fique com ele, então apenas basta eu respeitar isso.
Encontrei um bloco de notas ali na sala, escrevi rapidamente um bilhete para o moreno e o dobrei, dexando-o sob o celular. Saí rapidamente da sala, lamentando internamente não poder passar, ao menos, a noite toda ao lado de Tony, mas não podia me demorar, correr o risco de ser preso agora era incogitável, e de Tony ter o mesmo destino era pior ainda.
Tão discretamente quanto cheguei ao complexo, saí dele e fui ao local onde T'Challa me esperava com um jato. Ele estava dormindo quando eu entrei, então tive de o acordar, para que pudéssemos voltar para Wakanda. Ele não perguntou nada sobre minha demora, o que eu agradeci mentalmente, pois não conseguiria pensar numa desculpa plausível que não fosse a verdade.
...
O som de Nirvana soava alto em meus ouvidos pelos fones, essa era uma banda que me indicaram quando fui descongelado e precisava me interar sobre o mundo atual e o que eu perdi, e desde então eu a ouço.
Estava ciente do suor escorrendo pelo meu corpo enquanto eu socava o saco de pancadas, incessantemente, tentando descontar a energia acumulada, que quase me deixava louco com a calmaria sem missões, e também havia meses que não conseguia dormir direito. Antigamente o que assombrava meus sonhos era a perspectiva de todo o tempo e pessoas que eu perdi quando estava congelado, hoje meu fantasma é um par de olhos castanhos vulneráveis e cheios de medo.
Eu nunca esqueci aquele dia, o olhar do Tony quando eu dei o golpe final com o escudo em seu peito, olhos temerosos que eu continuasse a lhe golpear o rosto. Eu quase o matei. Se eu não tivesse parado no último movimento com o escudo, ele teria se enterrado na cabeça dele, e eu nunca me perdoaria. Se eu já não consigo me perdoar por tê-lo abandonado daquele jeito, imagina se eu...
Não gosto nem de imaginar a possibilidade.
Não ouvia o som dos meus punhos batendo violentamente contra o saco de areia, mas sabia que estava forte, além do normal, como acontecia quando eu me deixava viajar em pensamentos sobre o passado, o que resultava em sacos partidos inutilizáveis. Não estava cansado, mas suava, ofegante, também não me concentrava na letra da música, ela apenas estava lá, somente me impossibilitando de ouvir qualquer som exterior, não sabia nem qual era seu nome.
Continuei dando vários socos seguidos, até levar um susto ao sentir uma mão deslizar pela minha bunda e a apertar, ao mesmo tempo em que alguém tirou uma dos meus fones e falou no ouvido livre:
— Tua bunda fica uma delicinha nesse moletom — reconheci imediatamente a voz, a reconheceria em qualquer lugar.
— Tony — falei surpreso. — O que...? Como...? Por que...? — Tentei formular uma frase decente, mas parecia que todo o ar havia sido arrancado de meus pulmões em nervosismo. — O que está fazendo aqui? — Finalmente perguntei.
— Também senti saudade, Capitão — ele ainda se mantinha atrás de mim e com a mão na minha bunda.
Me virei para o olhar de frente. Ele estava com uma feição cansada, os cabelos arrumados como sempre, calça jeans e uma camiseta preta do Black Sabbath.
Fiquei sem saber o que fazer. Deveria lhe dar um beijo? Um abraço? Aperto de mão? Um soco por ter demorado três meses para dar as caras? Ou não deveria fazer nada? No nervosismo acabei fazendo tudo. O puxei pela mão e o abracei, rapidamente dei um selinho demorado nele, o empurrei o olhando com raiva. Só não lhe dei um soco porque sei que o machucaria demais no meu atual estado de nervos à flor da pele.
— Mas... o quê? — Ele estava visivelmente confuso.
Eu cruzei os braços sobre o peito, escolhendo as palavras.
— Quê que foi isso? — Ele tornou a perguntar.
— Por quê demorou tanto? Como me achou? Como chegou aqui? Por que veio? — As perguntas praticamente voaram da minha boca.
Ele pareceu pensar um pouco, fazendo uma cara de confuso.
— Eu sempre soube onde vocês estavam, Capitão. Cheguei aqui com um jato, depois usando a armadura. Vim porque... Ainda estou pensando no porquê — ele coçou nervosamente a nuca. —Lugarzinho difícil de chegar, hein. Tinha que se esconder numa montanha no meio do mato? Engenhoso se esconder com o T'Challa, ninguém nunca procuraria o Desmemoriado com o presidente do clube Anti-Barnes.
— Você não contou à ninguém onde estamos, né? — Perguntei. Não que eu não confiasse no Tony, mas com o Tratado, eu não sabia o quê o governo poderia o obrigar a fazer.
— Claro que não — revirou os olhos. —Não poderia te mandar pra cadeia, poderia? — Ele sorriu de um modo diferente, o mais próximo de carinho que conseguia, eu acho.
— Mas como entrou aqui? — Não me deixei derreter só por um simples sorriso. Ainda estava irritado pela demora dele aparecer. — O lugar é altamente protegido, sabia?
— O Formiguinha, me deixou entrar — deu de ombros.
— O Scott? Ele te odeia — observei.
— É, por isso tive que negociar com ele.
— O que prometeu à ele? — Questionei curioso.
— Um encontro com a filhinha —respondeu. — Podemos ir pro seu quarto antes que alguém mais que me odeia apareça? — Perguntou já caminhando na direção do quarto, comigo o seguindo.
— Como sabe onde é meu quarto? — O alcancei e caminhamos lado a lado.
— Eu sou Tony Stark, eu sei de tudo —disse convencido. Eu o olhei de lado com o olhar severo. — Tá bem, perguntei pro Formiguinha — respondeu.
— Ele não achou meio estranho você querer saber onde é o meu quarto?
— Até achou, mas eu dei uma enrolada nele. Ele também disse onde te encontrar, disse que você não saía dali, era o dia todo naquela academia — revirou os olhos.
— Sem missões fica chato, sabe — dei de ombros.
Chegamos ao meu quarto, por sorte não encontramos ninguém no corredor. Assim que entramos, fechei a porta e a tranquei, só por precaução para o caso de alguém querer entrar.
— Presentinho pra você, Capitão — a hora que eu me virei, após fechar a porta, Tony segurava meu escudo e sorria. — Decidi que, já que eu não tenho um cachorro pra brincar de frisbee, melhor que isso fique com você — fui até sua frente e peguei o objeto em minhas mãos.
— Você sabe que não precisava, né?
— É, não precisava, mas eu quis — deu de ombros. — Eu sei que estava com saudade dele, admita, Capitão — ele sorriu brincalhão.
— Pra falar a verdade, eu estava mesmo, mas não só dele — o olhei nos olhos. —Por que demorou tanto, Tony? Podia ao menos ter ligado — larguei o escudo ao lado da cama e me sentei na mesma.
— Eu sei, eu sei, mas... É complicado... —se sentou ao meu lado.
— Eu tenho tempo — insisti.
Ele inspirou e expirou fundo antes de continuar.
— Olha Steve, antes de você aparecer lá no complexo aquele dia, eu não queria te ver nem pintado de ouro, daí você aparece e bagunça tudo... — com uma mão ele bagunça seus fios escuros de cabelo, e a outra se aperta em seu joelho.
— Baguncei o quê?
— Eu! Tudo... Eu estava tão confuso...
— E por que só apareceu agora? Se sempre soube onde eu estava?
— Como eu disse, eu estava confuso, só agora que eu... Arrg, Steve, você sabe que eu sou horrível nesse negócio de papo sentimental — esfregou nervosamente as palmas das mãos no rosto.
— Pra mim você tá indo bem — sorri pegando em um de seus pulsos e afastando a mão de sua face. — Agora continua, só agora que você...?
— Só agora que eu tive certeza do que eu sinto — murmurou baixo encarando o chão.
Senti meu coração acelerar em expectativa.
— E o que é?
— Eu... Eu tenho mesmo que dizer? —Perguntou aparentemente nervoso, brincando com os dedos das mãos sobre o colo.
— Bem, seria bom, sabe — lhe dirigi um sorrisinho.
— Eu... Eu... te... Eu gosto de você! —Gaguejou a primeira parte, já a última ele falou rápido e nervoso, sem nem me olhar.
— Gosta? — Falei de maneira arrastada, arqueando minhas sobrancelhas em sua direção.
— É... Hum... — ele mordeu o lábio inferior.
— Só... gosta? — Estava ciente que a decepção devia ser palpável em minha voz. — Nossa. Legal. Era só isso? Bem, então tá.
— Não!, é... Tá bom, eu-te-amo-Steve —falou rápido e muito baixo, que quase não ouvi.
— O quê?
— Ah você, ouviu. Ou tá com problema de audição, vovô? — Sua voz retornou àquele velho e familiar tom de zombaria.
— Tá legal, eu ouvi sim — meu sorriso devia dar pra ver até o último dente da fileira —, só queria ouvir de novo pra ter certeza — deslizei minha mão para sobre as dele, aproximei meu rosto do seu, que estava meio vermelho e ainda olhava para baixo.
Com a mão livre segurei seu queixo e virei seu rosto em minha direção, ele tinha um pequeno sorrisinho nos lábios. Aproximei minha boca da sua, mas sem as tocar. Podia sentir sua respiração quente se misturando com a minha.
— Eu também te amo — sussurrei rente à sua boca entreaberta, finalmente selando meus lábios aos seus.
Nosso beijo foi intenso e apaixonado, suas mãos deslizavam pelos meus ombros e nuca, enquanto eu mantinha as minhas em seu rosto e cintura, acariciando com carinho.
Sentia como se fosse um sonho, nunca imaginaria que o gênio, bilionário, playboy, filantropo fosse algum dia retribuir meus sentimentos. Me senti feliz como há tempos não sentia. Mas como seria daqui pra frente? Eu ainda era um foragido, e Tony trabalhava pro governo. Sem contar que estávamos morando em países diferentes que eram realmente distantes um do outro, então como faríamos?
— Steve, tá tudo bem? — Fui desperto dos meus pensamentos por sua voz, sua mão pousada gentilmente no meu peito. —Você ficou tenso de repente, não arranjou uma namorada por aqui, arranjou? Pois eu ficaria muito decepcionado de você a estar traindo — falou em tom de brincadeira.
— Não é nada, vem cá — o puxei para mais perto e o beijei, me concentrando no presente.
À medida em que os beijos e carícias se intensificavam, as roupas iam tornando-se desnecessárias, nossos corpos se buscavam com mais urgência, procurando matar a saudade que o tempo longe deixou.
Amar e se sentir amado foi apenas um algo a mais enquanto nos amávamos sob os lençóis brancos da minha cama, nos beijando com ternura à todo tempo, eu olhava em seus olhos sorridentes, sentindo o calor de seu corpo suado contra o meu, nos entregando juntos ao ápice, trocando um "eu te amo", ao mesmo tempo.
Essa vez foi ainda melhor que a primeira, pois eu tinha a certeza de que ele realmente queria isso, não era carência ou álcool, mas a mais pura vontade de se estar estar inteiro com quem se ama.
Não foi... sexo, foi amor.
Agora estávamos deitados na cama, nus e com ele sobre meu peito. Eu fazia carinho em seus cabelos úmidos, que cheiravam ao meu shampoo, sentido ele esfregar seus pés nos meus, em um gesto provavelmente involuntário, já que estava assim faz tempo, enquanto nós conversamos.
— Tony, como vai ser agora? — Perguntei inseguro.
— Bem, nós podíamos adotar o Aranhazinho, ele já não sai lá da torre mesmo — ele riu.
— Estou falando sério. Aliás, acredito que o Aranha já tenha família — disse pegando em uma de suas mãos e a colocando junto com a minha, entrelaçando os dedos. — Estou falando de como ficamos agora, com tudo o que aconteceu.
— Não quero falar disso agora — virou sua cabeça para me olhar.
— Então tá bom — dei um beijo em sua testa e sorri.
— Você é tão carinhoso — ele sorriu de olhos fechados. — Seria um bom pai — riu baixinho.
— Falando em pai, já reparou que você, o Banner e o Thor são praticamente pais do Visão? É que foram vocês que o fizeram —ele agora me encarava com um sorriso brincalhão.
— Nunca tinha pensado nisso — ele riu. —O Thor é a mãe, já que foi ele que deu a luz — ele riu com gosto dessa vez, e eu o acompanhei.
— Senti saudade até dessas nossas conversas sem sentido — falei o apertando mais em meus braços.
— Eu também — sua pequena frase foi seguida de um forte bocejo. — Estou com sono — se aninhou melhor em mim. —Vou dormir um pouco — murmurou de olhos fechados—, e se você preza o que te faz ser homem, é bom você estar aqui quando eu acordar, porque da última vez eu fiquei bem irritado.
— Eu não iria querer sair dessa cama nem se tudo estivesse pegando fogo.
— Mas agora há pouco, a cama é que estava pegando fogo — ele sorriu sacana.
— Você não ia dormir? — Eu ri.
— Uhum — acomodou seu rosto na curva do meu pescoço com meu ombro e em pouco tempo já estava perdido no sono.
Decidi dormir um pouco também, e pela primeira vez em muito tempo, não tive pesadelo algum.
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