“Aproveitem o dia, meninos e meninas. Façam das suas vidas algo extraordinário”

Merry Christmas

Shindou Takuto sempre foi um menino muito sério. Ele não acreditava na magia do natal, nem em certo idoso barbudo carregando um saco de presentes. No entanto, por ser uma pessoa sentimental, o fazia apreciar a vista do feriado. Especialmente quando a paisagem está coberta pela mais pura neve, na visão do capitão da Raimon a neve representava algo extraordinário, como se deixasse tudo mais limpo, mais bonito. Era uma época de esquecer as diferenças e dificuldades e serem felizes. Porém, naquele ano em específico, o prodígio estava se sentindo um pouco triste.

Há duas semanas, o garoto havia confessado seu amor pelo seu melhor amigo, Kirino Ranmaru.

“Fazia um tempo que ele sentia esse sentimento estranho pelo garoto de cabelos rosa. Um frio na barriga sempre que conversava com ele, uma sensação que parecia queimar seu peito, isso tudo seria muito doloroso se não fosse estranhamente perfeito. Não era algo tão simples, milhares de perguntas vagavam em sua mente: Será que ele sentia o mesmo? E se ele o rejeitar? E se ele não for mais seu amigo? Já tentou de tudo para esquecer o jovem rosado, mas nada fazia efeito. Achou que com o tempo isso ia acabar. Tsc... Terrível engano...

Isso continuou por alguns dias, até que em uma manhã normal, ele não conseguia se concentrar no treino matinal. Tão perdido no próprio coração, que não conseguia driblar seus colegas, até pediu para ser liberado mais cedo. Estava sentado em uma cadeira olhando seriamente para um ponto fixo, mas seus pensamentos estavam em outro lugar, foram cortados quando um determinado membro de sua equipe pressionou seu ombro. Surpreendentemente, essa pessoa era aquele menino do primeiro ano que lhe encorajou a voltar jogar futebol como sempre amou, Matsukaze Tenma. E agora, o novato estava prestes a ajudar o garoto novamente. Dessa vez no amor.

-Você não saberá se não tentar, capitão! –A voz soou alegre e confiante, um brilhante sorriso surgiu em seu rosto. Ah! Como aquele sorriso cativava a todos. –É como jogar futebol, você tenta e se arrisca. Mas nunca vai saber o verdadeiro resultado se não batalhar.

-Impressionante... –O capitão ficou simplesmente sem palavras. Uma comparação excelente, tinha que admitir. Não sabia que podia comparar algo estranho quanto o amor com futebol. Mas pelo visto, estava enganado.

No entanto, o que o menor disse estava completamente correto. Era como aconteceu no passado, ele simplesmente abaixava a cabeça perante as ordens do Quinto Setor, ele não lutava ou dizia o que pensava, como resultado, teve um dos piores anos da sua vida. Até que apenas dois meros novatos conseguiram trazer o amor de volta ao futebol. Mas ele desistia facilmente, levado ao medo. E dessa vez não era diferente. Takuto sentia medo, medo da rejeição de Kirino, medo que o rosado nunca mais pudesse olhar em seu rosto novamente.

Então ele levantou-se e reverenciou levemente o garoto a sua frente, como forma de agradecimento e correu para fora do clube, à procura de um ser especifico. Não demorou muito até que o encontrasse encostado sobre um corrimão congelado. Os olhos azuis brilhavam quando via os pequenos flocos de neve descendo pelo céu. Neve realmente encantava Ranmaru. Quando Shindou o encontrou, logo correu até o mesmo e segurou suas mãos. As esferas castanhas miraram intensamente os azuis do companheiro, este mostrava uma feição assustada e confusa com a repentina ação do amigo.

-Shin... –Dois dedos impediram Kirino de concluir sua fala. O garoto de cabelos castanhos respirou fundo, não queria que ele falasse agora, talvez nunca teria a mesma coragem.

-Eu te amo. –A palavra “amo” saiu meio falha com a tensão do momento, as bochechas do capitão tomaram uma cor avermelhada, ele continuava fitando seu companheiro, que não tinha alguma reação, além de choque.

Inegavelmente, Kirino ficou mais do que assustado quando ouviu a confissão súbita do seu melhor amigo. Ele realmente havia notado o estranho comportamento do jovem há dias, ele não se concentrava, corava muito quando o via trocando de camisa do vestiário, sem contar o fato de um dia tê-lo pegado cheirando uma de suas marias-chiquinhas. Mas de todas as possibilidades que ele pensou que podia estar afetando seu amigo, nunca pensou que era... ele. Ranmaru permaneceu pasmo enquanto analisava o que estava acontecendo ali, em um estado de extrema letargia. E quando finalmente voltou a si, corou violentamente percebendo que Shindou estava ali, declarando-se. Então não era sonho, claro que não. Por um momento, o menino abaixou a cabeça e sussurrou algo inaudível para Shindou. Após um minuto ou dois, levantou a cabeça e encarou o amigo.

-Eu... Quero pensar... –Engoliu seco, virando o olhar para o lado. Estava com tanta vergonha que não conseguia mirar os olhos de Shindou novamente. Um brilho de decepção nasceu nos orbes castanhos, apenas assentiu com a cabeça, olhando o companheiro sair correndo. Lagrimas brotaram dos seus olhos, não foi bem a reação que ele esperava, mas não podia botar pressão no rapaz.”

A espera, por mais curto prazo que seja, era angustiante para o capitão... Por um minuto ele achou que Kirino ia cortar todos os laços de amizade que tinha com ele, e isso seria o pior dos pesadelos.

E isso aconteceu há duas semanas. Agora, Shindou estava sentado em seu sofá apreciando a bela vista do enorme jardim da sua casa. A grama estava completamente coberta pela neve, as luzes piscavam constantemente em arames com desenhos de personagens referentes ao natal. Seu relacionamento com Kirino não havia mudado muito desde aquele dia. O outro rapaz não havia dado qualquer sinal de que estava pronto para responder-lhe e Shindou não queria botar pressão nele. No entanto, o humor do gênio da música não estava lá dos melhores.

-Pode ser que precisa de um empurrãozinho! –Tenma respondeu enquanto tentava aliviar a tensão do menino mais velho.

-Um empurrão? –Shindou não tirou os olhos da janela, simplesmente ouvia o amigo.

-Sim! Uma motivação para ele entender seus sentimentos.

Nesses dias Tenma estava sendo mais que um companheiro de time. Mas sim um grande amigo, aquele que oferecia os melhores conselhos, mesmo que a maioria deles esteja relacionado a futebol, e dava seu ombro para ele desabafar. Shindou realmente desejava o melhor para seu companheiro, que no momento estava em uma relação conturbada com o camisa 10 da Raimon. Afinal, ele merecia o melhor!

-Um empurrão, hein... –Suspirou pesadamente quando seus pensamentos voltaram a imagem do melhor amigo. O Natal seria no dia seguinte, e Kirino não teria com quem passar, pelo fato de seus pais estarem viajando. Além do mais, não podia negar que queria passar aquela data com a pessoa que mais amava.

De repente uma ideia brilhou em sua mente com um flash. Ele, mais uma vez, ia seguir os conselhos de Tenma.

-Depois me conta como foi! –Disse em um tom de voz alegre enquanto se despedia o capitão, rumando de volta para casa passar seu próprio natal.

Shindou levantou a cabeça novamente, seus orbes castanhos miravam determinação. Era agora ou nunca. Takuto tirou seu celular do bolso e começou a digitar uma mensagem, destinada para Kirino. Depois, relaxou no sofá e fechou os olhos, rezando para que seu plano desse certo.

~*~

Era noite de natal e Kirino Ranmaru estava caminhando em direção a casa de seu melhor amigo. Ele foi convidado para celebrar o feriado na casa do mesmo. E vendo que seus pais estariam muito ocupados para passar o Natal com ele, não via nenhum problema em aceitar o convite. Afinal, o que menos queria era passar sozinho.

Quer dizer... quase nenhum problema. A verdade é que Kirino estava um pouco relutante com a declaração do amigo há duas semanas, sua relação com o capitão estava bastante conturbada nos dias anteriores. A verdade, é que Kirino estava planejando em dizer não à Shindou. Mas seria um tanto rude recusá-lo em véspera de natal.

Quando ele chegou perto do portão da mansão, o zagueiro viu uma figura de pé em frente a casa, quando chegou mais perto, percebeu que a figura não era ninguém menos que o gênio da música. O jovem arregalou os olhos. Shindou havia o esperado esse tempo todo?

-Kirino, você veio! –Os lábios de Shindou moldaram um sorriso gentil enquanto se aproximava do outro lhe segurando a mão e o acompanhando para entrar na casa. Kirino acompanhou-o sem problemas, sentindo a mão gelada de Shindou por ter ficado tanto tempo no vento gelado da noite.

O silêncio persistia da parte de ambos. O coração de Kirino pulava de emoção ao ver o afeto que o outro tinha por ele. Abaixou a cabeça e sentiu-se culpado que por um momento pensou em recusar a declaração do outro.

A noite foi muito agradável. Foram momentos muito bons, eram risos e alegrias para distribuir. Eles voltaram a conversar casualmente, jogaram o tão viciante vídeo-game, jogaram futebol. Foi uma noite na qual realmente valeu à pena. Era como se o espírito do feriado havia trazido de volta uma relação que havia sido quebrada há duas semanas e lembrou-lhes o quanto eles eram tão unidos.

À meia noite, uma ótima ceia com os pais de Shindou. É claro, o capitão tinha recursos para contratar o melhor dos cozinheiros. Depois do jantar, os meninos voltaram para a sala, para apreciar a bela visão que tinha do jardim, naquele momento já era oficialmente natal. A noite foi encantadora. E para Shindou, faltava apenas uma coisa para torná-la perfeita. Mas ele tinha que encontrar o momento certo para colocar seu plano em ação, ou poderia resultar em uma bela cara emburrada para sempre. Por um momento ele pensou em recuar, em jogar esse plano para o espaço, afinal, o outro já tinha voltado a falar com ele normalmente, seria mesmo bom arriscar tudo? Shindou balançou a cabeça freneticamente para os lados, talvez nunca tivesse uma chance como esta.

-Está nevando! –A voz doce de Kirino cortou a linha de pensamentos de Shindou. O capitão se levantou para se aproximar da janela e olhar os flocos de neve que caiam delicadamente até desmancharem no chão. O jovem pensou que esse era o momento perfeito. Será que o natal havia ouvido suas preces?

Os olhos azuis reluziam em pura alegria ao ver a neve cobrindo o gramado e os enfeites. Shindou sentiu seu coração amolecer em ver a felicidade do outro. Assim, ele chegou perto do rosado, ficando a uma mínima distancia, porém Kirino estava de costas.

-É lindo, não é?! –Kirino virou a cabeça em um rompante, com um grande sorriso, que se desmanchou ao ver o amigo tão perto assim. O sangue subiu até seu rosto e suas bochechas ganharam um tom avermelhado. Os olhos castanhos estavam fixos nos azuis de Ranmaru. Ele corou quando sentiu a mão do capitão acariciando levemente seus cabelos. –S-Shindou...

-Ranmaru... –O coração do zagueiro deu um pulo quando ouviu aquela voz grossa dizer seu primeiro nome, coisas que não ouvia há anos. Ele viu-se incapaz de tirar os olhos daquelas esferas castanhas reluzentes. Shindou chegou tão perto que quase colou ambos os lábios.

-Eu ainda... não dei meu presente de natal. –A voz saiu rouca e tão baixa, que apenas Ranmaru conseguia ouvir. Kirino corou mais ainda, ele sentia seu hálito de menta batendo em seu rosto. Sem esperar, o garoto de cabelos castanhos superou a pouca distancia entre os dois, selando seus lábios.

Obviamente, Kirino arregalou os olhos, seu rosto inteiro ficou vermelho, porém como que por instinto, fechou os olhos e permitiu-lhe desfrutar da nova sensação que o outro havia trazido. Foi um beijo calmo e bem doce, visto que era o primeiro beijo de ambos. Shindou degustava dos lábios do outro como se fosse um tipo de doce muito saboroso. Ranmaru sentiu suas pernas tremerem de ansiedade e abraçou o pescoço de Shindou para servir como apoio para não cair. Shindou deslizou suas mãos pelas costelas do jovem até alcançar a cintura, na qual segurou firmemente, trazendo o corpo do rosado mais pra si. Tudo ao redor deles parecia desaparecer...

Depois de um minuto, que mais parecia uma eternidade, o ar se fez necessário. Os dois se separaram mesmo contragosto. Shindou inclinou sua cabeça, fazendo as testas se encostassem. E mais uma vez, os dois se olharam nos olhos. Não precisava de palavras, eles sabiam exatamente o que se passava na mente de cada um naquele momento.

De repente, antes mesmo que Kirino pudesse entender o que se passava, lágrimas começaram a brotar nos cantos dos olhos azuis. Assustado pela reação do outro, com medo de ter feito alguma coisa errada, Shindou recuava, mas Kirino segurou-lhe firme. Então, o garoto de cabelos rosa enterrou o rosto no ombro de Shindou e começou a chorar, molhando a sua camisa com as quentes lágrimas. E novamente ele sussurrou uma coisa inaudível, Shindou reconheceu como sendo a mesma coisa que ele sussurrou há duas semanas, naquela manhã por fazer o mesmo som.

-O que você disse, Kirino? –Takuto envolveu seus braços na cintura do zagueiro, trazendo-o mais pra si, acolhendo-o das lágrimas.

-Eu também te amo... –A voz saiu bem delicada e amena, levemente falha pelas lágrimas.

Um momento de silêncio... Ele realmente não podia acreditar no que ouvia.

Ele o amava.

Ele disse que também o amava. O menino de cabelos castanhos sentiu que a dor no seu peito passou, sendo preenchida por uma onda de felicidade e emoção. Nem ao menos viu que começou a chorar, as lágrimas escorriam pelo rosto até cair levemente nos cabelos rosa.

Finalmente. Depois de muito tempo de angústia e medo, finalmente ele poderia estar em paz, agora ele sabia que Kirino estaria com ele para sempre, que ninguém poderia tirar o menino dele. Ele poderia declarar ao mundo que o zagueiro de cabelos cor-de-rosa era dele, eternamente dele.

Enxugando as lágrimas, agora Kirino tomou o rosto do capitão em suas mãos. Em seus lábios, um sorriso genuíno. Kirino estava sorrindo também. Em seu coração, o bater de uma nova felicidade, que ia durar por muitos e muitos anos. A partir daquele dia, nunca mais sentiria sozinho novamente, esse sentimento fugia-lhe a mente sempre que olhava para Shindou. Talvez sempre o amou, talvez... Mas agora aquilo não importava, o que importa é que agora nada iria separá-los mais.

Sim, a magia do natal nunca foi algo que Shindou Takuto acreditou, mas algo naquela noite nasceu no peito do jovem capitão, uma magia nova e inesquecível.

O amor.

Fim!

Notas finais
Feliz natal a todos :3 Tudo bem bom pra vocês õ/
É uma one-short bem simples, mas eu fiz ela de coração, e eu gostei de escrever *-*
!Flores ou pedras!
.Reviews.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!