Meros Encantos Mortais
8 Ordinária Magia
Notas iniciais
VI.
Acordei com um espasmo, quase um salto. Brusco demais. Resmunguei diante da dor pungente que beliscava todas as partes do meu corpo esquálido, como pequenos caranguejos agitados. Massageei as têmporas e engoli um arrepio diante da memória que me acertou como um soco no estômago. O toque dos mortos. Minha pele ainda se lembra, o frio, o pavor. E não acho que se esquecerá tão cedo.
Espanei a lembrança e dei uma olhada ao redor. E acho que minha sanidade não se saiu tão bem à experiência quanto o resto de mim. Pisquei uma, duas. Não, três vezes, obrigando minha vista a se ajustar. Mas não havia nada de errado com minha visão. Eu estava mesmo em um quarto inacreditavelmente luxuoso.
Tudo ali brilhava, desde a porcelana do piso até os cristais nada humildes do lustre. Demorei um olhar nos quadros, imagens de donzelas pintadas em tinta a óleo, cores tão vivas que tive dificuldade de acreditar que não estavam respirando. As vidraças ornamentadas filtravam a luz do sol que entrava no quarto. Era morna e aconchegante, deslizando dedos amarelos em minha pele para me dizer que estava tudo bem. Eu estava bem. E viva.
Cambaleei para fora da cama. O piso frio contra meus pés descalços foi como um choque. Apoiei-me no dossel, a cabeça girando, me pedindo para ir mais devagar, para ter calma. Não somos imortais. Somos feitas de carne e ossos e produtos perecíveis. Me endireitei, dessa vez mais lentamente, e espiei as camas que se enfileiravam no quarto, exatamente como a minha: lençóis de algodão, dossel e uma donzela adormecida.
São as garotas da caravana. As que sobreviveram, pelo menos. Como chegamos aqui?
Meus questionamentos são interrompidos quando meu olhar dispara para uma das varandas. A cortina carmim balançava sob a brisa, e eu vi um pássaro lá fora. E flores, folhas e galhos arranhavam o vitral da janela.
Batendo. Batendo. Katherin. Seja um comigo, meu Orvalho da Manhã.
Eu parei de respirar por um segundo. Um segundo inteiro. Estamos no inverno. Eu sei bem que estamos no inverno. Mas porque não está frio? Por que estou vestindo uma mera camisola e eu não estou tremendo feito um filhote?
Apressei-me até a varanda, os pés quase tropeçando um no outro. Empurrei a porta e o ar fresco matutino afagou meus cabelos, trazendo o cheiro de neve e madeira e flores.
Há vida se alastrando por toda parte, se movendo, dançando. Fiquei paralisada nos canteiros de azaleias e lavanda, divididos por pedrinhas de seixo; e nas arvorezinhas cortadas em cones, círculos, cubos. Muretas de oleandros brancos estão em todo lugar, os passarinhos cantam e as fontes jorram água.
Meus olhos se perdem no labirinto de glicínias, suas flores se derramando para baixo como picos de gelo. Me desfiz e me refiz repetidas vezes bem ali, onde tudo era branco. Tudo tem cor de neve.
Dei alguns passos adiante, observando, e pelo canto dos olhos capitei um movimento em uma arvorezinha cúbica. Nada mais que um mero sussurro de presença. O suficiente para me atrair em passos vagarosos até lá. Um segundo se passou até que o Sussurro de Presença me chamou de novo, pelo lado direito. Talvez fosse um beija-flor ou uma borboleta.
O problema é que o tal vulto riu. Um barulho rápido e certeiro. Meio zombando de mim. Ora, eu sei reconhecer alguém que está tentando provocar. Eu sou especialista nisso aqui. A Marca em meu peito formigou à medida em que avancei na direção da criaturinha risonha por trás das árvores.
Mas o choque estridente de alguma coisa fina e seca contra meus ombros me trouxe de volta a realidade. Dei um salto e me virei. E me deparei com a carranca pesada de uma mulher na meia-idade, batendo com um pequeno chicotinho na mão.
— Menina tola, quem deu permissão pra sair pisando assim para fora? Vamos, entre.
A estranha era alta e tinha um pescoço muito esticado, o rosto marcado de péssimo humor. Por algum motivo, acabou me lembrando do homem atarracado que fazia parte da comitiva do Duque. Ela usava um vestido de gola alta com uma saia reta e projetada para trás, os cabelos penteados e amarrados em um coque apertado, baixo. Eu me contraí quando a tal mulher ameaçou me bater de novo e voltei rapidamente para dentro do quarto. A porta da varanda foi fechada atrás de mim.
— Vocês, Marcadas com a rosa, são sempre facilmente atraídas por qualquer coisa bonita, mas tenha cuidado! — alertou, rabugenta. Tinha uma voz esganiçada, dessas que você não gostaria de ouvir quando estivesse sozinho em casa, à noite, durante uma tempestade. — Um passo para o jardim errado nesse castelo e pode ser que você nunca mais volte. Não que qualquer uma de vocês vá fazer falta. — Começou a andar em passinhos ligeiros ao longo do quarto. Eu a segui, ainda massageando a linha lacerante que a chibatada deixara em meus ombros. — Antes do Equinócio, a metade insignificante de vocês desaparecerá.
A mulher estalou o chicote contra uma das donzelas que ainda dormiam. Quando a acordou, aos gemidos, ela seguiu para chicotear a próxima. Eu retruquei baixo:
— Bem, considerando que eu fui colocada em mais situações de morte do que fui capaz de contar ultimamente, eu diria que não vou me intimidar facilmente por um jardim.
A mulher girou sobre os calcanhares para me encarar. Sobrancelhas franzidas, boca bem aberta e foi aí que percebi que ela tinha alguns dentes de ouro. Ugh, péssimo gosto. Devo ter deixado isso transparecer no meu rosto, porque recebi outra chibatada.
— Ora, então você é uma insolente? — Ela agarrou minhas bochechas e me forçou a abrir a boca. — Meus ancestrais diziam que aquilo que entra em nossa boca pode ser mortal, mas mais mortal ainda é o que sai dela.
Eu me afastei de seu toque quase rispidamente e massageei meus braços feridos.
— Minha mãe dizia que as palavras são o único poder com o qual todos nascem.
Ela bufou, exprimindo desprezo na elevação de seus lábios.
— Sua mãe era tola.
— Nisso nós concordamos. — Dei de ombros, não muito interessada em continuar a conversa. — Este lugar é o Jardim Oriental?
— Obviamente. A que outro lugar uma Marcada é mandada?
A mulher continuou caminhando a passos férreos e chicoteando as garotas, gritando para acordá-las. Segui-a de perto pela longa fileira de Marcadas. Procurei atentamente por Illana ou Kendare, ou mesmo Miya. Lembrei-me repentinamente de Silver. Eu não a encontraria ali, nem em lugar nenhum, a não ser quem sabe no Paraíso, quando minha vida chegasse ao fim, o que eu esperava que não fosse logo.
Silver, pobre garota, já fazia parte da metade insignificante que desapareceria. E eu só estava feliz por ainda não ter me juntado a ela. Lembro a mim mesma que não tenho o direito de morrer. Não tenho o direito do descanso antes de deixá-los saber que eu não os abandonei.
— Então é isso? — resmunguei. — O Jardim Oriental... Nós... passamos?
A velha soltou uma risada seca, dessas que você não gostaria de ouvir quando... bem, nunca.
— Não seja atrevida. Seu teste nem começou ainda.
Depois que todas acordaram, reclamando e doloridas, fomos colocadas em filas no centro do quarto. Ultimamente, eu tenho me sentido mais como uma boneca em exposição do que uma pessoa.
Miya ao meu lado resmungou enquanto massageava a fina linha de pele ferida em seu ombro. Eu havia encontrado a cama dela no fim do quarto, mas ainda nem sinal de Illana e Kendare. Miya não falava muito, estava com a cabeça sempre nas nuvens. Se fazia um comentário, era algo simples e logo se calava.
A esguia senhora com o chicotinho se chama Sirena Krauz, Governanta Mor do Palácio Oriental e membro do Círculo da Primavera, o que quer que isso signifique. Ela tem um jeito meio esnobe de falar, mas não parece má pessoa. Um pouco sádica, talvez?
Ela caminhou ao longo da fila dando uma boa olhada em nós, perguntando nomes e fazendo comentarioszinhos desdenhosos. A solas secas de seus sapatos faziam um barulho irritante contra o piso. Havia duas outras mulheres paradas mais atrás, quase à porta, como sentinelas esperando por uma ordem.
Sirena frequentemente parava e dava uma chicotada em alguém por estar olhando para baixo ou roendo as unhas. No meu caso, ela parou e me chicoteou porque eu ficava encurvada demais. E quando eu reclamei, ela me chicoteou de novo por ter uma língua muito afiada.
Eu resmunguei para mim mesma que, se íamos mesmo morrer logo, como ela própria havia dito, não havia porquê se preocupar com minha língua afiada. Foi assim que ganhei minha terceira chicotada do dia e eu retiro tudo o que eu disse sobre ela não ser má.
— Qual o seu nome? — perguntou bem alto. A forma como moveu o instrumento de tortura em sua mão fez meus ombros tremerem.
— Katherin — respondi e só. Ekatherina é como minha mãe me chamava e não darei esse privilégio a ninguém mais.
A velha soltou um ruido seco pelo nariz, que eu não soube dizer se era uma risada ou um resmungo. Ela afastou-se um passo.
— Escutem bem, suas porquinhas — disse ela, erguendo o queixo e a voz ressequida. — Até agora vocês se pertenciam. Iam aonde queria, fazia o que queriam. Mas agora vocês pertencem ao Jardim Oriental. Vocês foram escolhidas pela Mãe Que Tudo Nos Dá, então devem se sentir honradas.
Honradas, heh? Eu engulo um resmungo e mantenho meus olhos no chão porque não quero alimentar essa raiva. Ao menos, não agora. Não nesse instante, e eu preciso aprender a lidar com meus problemas de maneira mais saldável. Passeando pelo quarto, seu reflexo ondulando no piso, a velha Sirena continua:
— A vida inteira vocês comeram e usufruíram da natureza. Cada fibra do seu corpo foi construída pelos frutos dela e agora é hora de pagar o preço. Eu sou responsável por vocês. Por ensinar-lhes modos, por ensinar-lhes conduta e história. Essas senhoritas atrás de mim — apontou para as mulheres atrás de si mesma — serão responsáveis pelo seu treinamento mágico. Vocês terão lições comigo e com elas. Quando o dia do Teste Final chegar, no Equinócio de Primavera, vocês devem estar prontas física e espiritualmente.
Uma moça de rosto redondo e cabelos castanhos amarrados em um coque frouxo ergueu a mão no lado direito da fila. Involuntariamente, todas nós, que estávamos do lado esquerdo, nos inclinamos para olhá-la.
— O que exatamente acontece durante o Equinócio? — ela perguntou, relutante, mas ainda curiosa. — É que... nós ouvimos muitas histórias sobre um tipo de seleção, sobre um número preestabelecido de aprovadas, mas... hm... as histórias sempre têm versões diferentes.
— É, de onde eu venho, lá em Passo do Limiar — completou uma moça de pele bronzeada e olhos muito grandes e escuros. — Eles dizem que Ignir vai nos devorar. — Gesticulou garras com os dedos da mão — Uma a uma para fortalecer sua magia, rwar.
Ela avançou as supostas garras contra a moça ao lado, como se a estivesse devorando. Todas rimos diante da ideia, genuinamente divertidas, mas bem preocupadas, no fundo. Eu completei:
— Não é como se ele já não tivesse tentad-
Recebi outra chibatada e mordi a língua para não soltar um gritinho. A moça que fizera a piada também recebeu uma.
— Escutem aqui, pestinhas — rosnou Sirena. — É melhor terem cuidado com suas línguas. O Duque é a entidade maior do Leste e Ignir é o Rei dos Monstros. A vida de vocês agora pertence a eles, então, tenham respeito.
Sim, ela está basicamente dizendo que temos que ser respeitosas com o cara que pra, todos os efeitos, nos sequestrou. Eu não disse isso em voz alta, é claro. Eu não preciso de mais marcas de chicote no meu corpo e sou bem pouco adepta à dor.
— Sobre o Equinócio... — Sirena parou. Respirou fundo. Pressionou a ponte do nariz e, por algum motivo, isso me assustou. — É um teste. Vocês serão submetidas a um teste especialmente preparado para vocês. E não, não há um número pré-estabelecido, mas... o normal é que apenas doze consigam passar. Não é uma regra, já houveram casos em que mais garotas passaram.
— E o que exatamente acontece com as que não são aprovadas? — perguntei, os braços cruzados sobre o peito para criar alguma ilusão estúpida de autoproteção.
Sirena levantou as sobrancelhas pra mim, em desdém.
— Eu vou deixar você adivinhar.
Eu me inclinei, permitindo que aquela raiva tomasse o controle de novo.
— Está nos pedindo para morrer em nome desse teste estúpido? E pra quê? Eu tinha uma amiga que morreu durante a travessia a Seldegra! Qual a porra do objetivo disso tudo?!
Uma rajada de vento empurrou as cortinas das varandas e os galhos das árvores perto dos vitrais. A madeira rilhando contra o vidro num ruído agudo e irritante, e tudo em que eu conseguia pensar é que não era justo e todo mundo estava agindo como se estivesse tudo bem.
A expressão de Sirena endureceu. Seu olhar poderia ter me cortado ao meio, mas ela não podia só me bater de novo, principalmente quando todo mundo naquela maldita fila parecia concordar comigo. Porque eu estava certa.
— Não estou lhe pedindo para morrer, Katherin — ela disse meu nome, e soou como uma ameaça. — Estou lhe informando que você vai morrer se a natureza assim decidir. Não é assim que todos morrem? Quando a natureza diz que é a hora? Do pó ao pó. — Gesticulou. — Eu entendo que estão assustadas, pobres criancinhas, não é? Eu já estive nesse lugar. Mas é assim que as coisas funcionam e chorar e ficar com raiva não vai ajudar em nada. Dominar e lapidar seus poderes é que vai, se quiserem ter uma chance.
Parte de mim queria retruca-la. Parte de mim sabia que não é culpa dela. Parte de mim culpava esse poder maldito que não poderia ter vindo em pior hora, mas eu não o amaldiçoo em voz alta. E embora eu soubesse que as outras ao meu redor compartilhavam o sentimento, elas também não o fizeram. Como eu, mantiveram a cabeça baixa ou roeram unhas com olhar distante. Eu, por minha vez, me curvo. Meus ombros caem e não é uma postura bonita ou elegante, porque é assim que eu me sinto. Inferior.
— Muito bem — Sirena retomou o assunto e começou a caminhar de novo, seus sapatinhos secos não mais me incomodaram e até gostei do barulho deles para me distrair da frustração. — Às que conseguirem ser aprovadas, vocês ganharão um lugar na corte. Terão o mesmo status de um nobre, mesmo sem ter qualquer laço sanguíneo com um. Serão respeitadas e bem tratadas e seus poderes servirão ao Jardim e ao Leste em casos de necessidade. Isso é tudo o que precisam saber por enquanto. Aprenderão mais durante as aulas. Agora... — Fez um gesto com a mão para as três mulheres à porta e elas se aproximaram. — Essas serão suas tutoras de magia. Elas já foram Marcadas um dia, passaram no teste e conquistaram seu lugar.
À esquerda, uma mulher muito baixinha com uma pele negra reluzente e o rosto com formato de coração, usava um vestido de um amarelo suave com cintura alta e pequenas mangas bufantes. A última tinha olhos amendoados, cabelos escuros à altura dos calcanhares, trançados de um jeito complicado, e trajava um vestido marrom em formato de sino. Therissa Marygus e Alegreya Linz, respectivamente.
— Vocês serão divididas de acordo com sua Marca — informou Sirena. — Como sabem, há seis delas. Aqui temos Marcadas com a rosa e a serpente. Em outro dormitório, estão as Marcadas com o galho e a rocha. E num alojamento especial, aquelas com o coração e a pena.
Ah! Então é por isso que não encontrei nem Kendare e nem Illana. Eu sei que a primeira tem a pena, mas não faço ideia de qual seja a marca de Illana. Ela não teve tempo de se apresentar ao Duque naquela noite.
— Aquelas que têm a serpente, que o Outono as abençoe, vão com Therissa — A mulher baixinha deu um passo à frente. — E aquelas com a Rosa, que a Primavera as guarde, sua tutora é Alegreya.
Alegreya caminhou adiante com um sorriso gentil, o que me confortou um pouco. Estou cansada de lidar com gente mal humorada.
— Suas sessões de estudo mágico ocorrerão pela manhã, a partir das seis até o meio dia. Suas sessões de estudo de etiqueta e conhecimentos gerais ocorrerá comigo, às segundas, quartas e sextas — Sirena suspirou, e eu imaginei se ela não estava com a garganta doendo depois de falar tanto. Ela faz isso todo ano? Ela faz esse mesmo discurso para todas sabendo que a maior parte daqueles olhos assustados a encarando vão... só desaparecer? Ela ainda sente algo sobre isso? — Se tudo estiver claro, podem conhecer suas tutoras.
Ela deu um passo para trás e deixou as tutoras em exposição para que nos aproximássemos. As garotas ao meu redor começaram a juntar-se em grupos. Miya me cutucou no ombro.
— A sua é a rosa, não é? — sussurrou, com um pouco de frustração. — Parece que não vamos ficar juntas, minha Marca é a serpente.
Enquanto Miya se afastava para se juntar ao grupo dela, eu cochichei de volta:
— Se encontrar Illana ou Kendare, me avise.
Miya fez um sinal positivo e juntou-se à multidão. Eu caminhei até minha própria tutora, a mulher de nome Alegreya. Era uma mulher muito bonita e cortês. Recebeu a mim e mais onze garotas que estavam marcadas com a rosa com um sorriso.
— Muito bem, meninas, eu sou Alegreya Linz. — Curvou-se numa reverência simples. — Sou uma especialista em magia da natureza e, como vocês, sou uma Marcada com a rosa. Mas assim que conseguirem um lugar no Círculo da Primavera, ninguém mais as tratará por esse nome. Serão chamadas Senhoras das Flores ou Encantadoras. Agora venham comigo.
Alegreya nos guiou ao longo do quarto para uma câmara adjacente que eu não havia percebido ali ainda.
— Antes de mais nada...
A senhorita Linz abriu a porta de madeira talhada e além dela desdobrou-se a maior sala de banho que eu já havia visto. Além do piso de porcelana, o espelho que se estendia por toda a parede e o cheiro de sabonete feito com essência de lavanda, o cômodo era dividido em pequenas cabines separadas por cortinas. Havia um balde uma caneca para aparar água em cada uma delas.
— O que acham de um banho? — ela continuou e nos deixou entrar na sala. — Não se preocupem, a água foi magicamente aquecida, portanto, não está fria. Quando terminarem, escolham um dos vestidos que está ali no cabide. — Apontou para a fileira de vestidos deixados nos trilhos do outro lado da câmara de banho. — Vocês podem explorar um pouco as imediações do Castelo, mas, às dez horas, estejam nos jardins da entrada. Eu vou deixá-las para que tenham mais liberdade. — Virou-se para sair, mas, parecendo lembrar-se de algo, abriu a boca e disse: — Ah, e caso vejam alguma coisa ou encontrem algum cômodo ou jardim que lhes transmita qualquer sensação de... estranheza, não entrem. Afastem-se imediatamente e procurem uma colega. Andem sempre em grupos.
Os lábios de Alegreya continuaram esticados em um sorriso, a expressão relaxada e solene, a despeito da tensão que ondulou entre todas nós. Ela olhou para o teto, para o lado e depois para nós, e seu sorriso ainda estava lá quando ela disse:
— Eu não recomendaria tentar fugir também. — Soltou uma risadinha e percebi que o bom humor inabalável dela era ainda pior que o mal humor de Sirena. — Os Recrutadores patrulham o Palácio o tempo inteiro, há exércitos deles, chega a ser assustador. Eles as pegariam antes de chegarem a Seldegra, o que eu consideraria uma sorte.
Eu me retraí enquanto pensava que provavelmente não seríamos as primeiras a falhar tentando. Não que a ideia não tenha passado pela minha cabeça. Não que talvez ela não vá passar de novo. Alegreya finalmente curvou-se em respeito e deixou a sala.
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