Meros Encantos Mortais

13 Magia Velha e Faminta


Notas iniciais
"Tenho que engolir o nojo borbulhando em minha boca. Seu rosto perfeito. Seu corpo perfeito. Seus olhos tão duros e lindos quanto pedras preciosas congeladas. Ele me causa repulsa." — Tahereh Mafi, Estilhaça-me Boa leitura!

XI.

O Duque ignorou completamente qualquer tentativa de protesto da minha parte. Desconfio que ele fez isso porque sabia que me irritaria, mas não tenho como ter certeza. Então, o segui. Silenciosamente pelos corredores mal iluminados e vazios. Pensei em parar para acender a vela no meu castiçal, mas ele não parecia ter dificuldades em guiar-se na escuridão e, contanto que ficasse perto o suficiente, eu conseguiria acompanhá-lo.

— Vossa Graça... — comecei, o tom de voz baixo porque o silêncio fazia qualquer barulho parecer alto demais. — Vossa Graça consegue enxergar no escuro?

O Duque soltou uma risadinha, enfiando as mãos nos cabelos para tirá-los de cima dos olhos, e lançou-me uma olhadela sobre o ombro.

— Você não?

— Isso não é uma coisa que as pessoas normalmente são capazes de fazer.

O Duque não me respondeu de imediato. Sua cabeça pendeu para trás, a luz quente das tochas deslizando pelo cabelo negro bagunçado e a borda do robe que recaía em seus ombros, frouxa, quase a ponto de desnudá-lo de novo. Um feixe da lembrança dos músculos de suas costas me atingiu e eu chutei esse pensamento estúpido.

— Sua magia tem um cheiro jovem — disse ele. — Aposto que você ainda não sabe como usá-la, mas quando souber... Bem, conheci algumas Marcadas com a rosa tão poderosas que eram capazes de produzir flores luminosas.

— E elas enxergavam no escuro?

Ele balançou a cabeça.

— Não.

Movi os ombros, desviando o olhar para as paredes do castelo, os bustos e as pinturas que não eram muito visíveis com aquele nível de luz.

— Então ainda acho que isso está um pouco acima das capacidades das pessoas, mesmo as que não são normais.

— Isso é porque você não tem imaginação.

Eu revirei os olhos na escuridão, pouco afetada pelo insulto e mais afetada pelas lembranças que perambulavam acima da minha cabeça como besouros mal cheirosos.

— Pode ser verdade.

O Duque parou. Eu parei também.

— Chegamos.

Ele estendeu a mão, mas antes que fosse capaz de empurrar o grande portão de mogno diante de nós, ele se abriu sozinho, pelo lado de dentro. O rosto luminoso de Kendare surgiu da abertura da esquadria, a luz das velas de um candelabro que ela tinha na mão pairando pelas proeminentes maçãs de seu rosto e a testa lisa. Seus olhos pousaram sobre mim e suas testa deixou de ser lisa no estante seguinte.

— Katherine, sua es- Duque?

A boca de Kend se escancarou ao notar Vossa Graça ao meu lado. Seu olhar vagou entre mim e ele.

— Senhorita Blake — o Duque cumprimentou, e percebi só então que ele sabia o nome dela. E o meu. Eu estava tão irritada com ele me chamando pelo nome completo que não percebi que ele era um Duque e devia lidar com cem pessoas a cada dia, mas ele se lembrava dos nossos nomes. Bem, acho que é o mínimo que ele pode fazer, já que nos sequestrou. Já que vamos morrer em nome dele. — Vejo que as Marcadas deste ano têm uma tendência a escolher horários um tanto interessantes para explorar as imediações do castelo.

Kendare me lançou um discreto olhar de questionamento, para qual eu apenas balancei os ombros e respondi com outro olhar: “não me pergunte, eu também não sei como chegamos a isso.” Ela se virou para o Duque e sorriu:

— Nós decidimos estudar juntas em um horário em que ambas estivéssemos livres, porque minha pobre amiga Kath aconteceu de ser burra e eu, graças à Mãe Primavera, sou bastante esperta. — Estalei a língua mentalmente e evitei retrucar. — Como nossos horários diurnos colidem, temos apenas esse tempo. Espero que o senhor Duque não se incomode.

O Duque deu um passo elegante para trás, a luz do castiçal de Kend deslizando pela seda de seu robe.

— Oh, não, claro que não. É sempre bom manter a mente afiada. — Ele olhou para mim, o mesmo olhar odioso de antes, arrogância e superioridade. — Porque vão precisar. Eu não quero tomar seu tempo. Senhorita Blake — Fez um novo gesto de cabeça e, então, virou-se para mim. — Senhorita Landford. Tenham uma boa noite.

Nós fizemos uma reverência e ficamos observando enquanto ele sumia na escuridão. Cada movimento impassível e ondulante como o de um rei. Contemplei sua silhueta desvanecendo nas sombras, fundindo-se a elas, lenta e magicamente, como se saltasse entre uma outra. Como se fosse parte delas.

Lembrei do que Sirena dissera sobre Marcadas com a rosa serem naturalmente atraídas pelo que é belo, mas aquele homem não era belo. Era assustador e repulsivo. E mesmo assim, não consegui tirar os olhos dele. Só as unhas de Kendare se afundando na pele do meu braço me trouxe de volta. Engoli um gemido à medida em que era puxada para dentro da biblioteca.

— O Duque? — sibilou ela, raivosa. — Sério?

Eu massageei o braço dolorido.

— Não me olhe assim, a culpa é sua, eu me perdi. — Puxei o projeto de mapa do bolso e joguei contra ela. — Da próxima vez, desenhe um mapa decente. Ou então peça pra alguém desenhar, porque a sua “esperteza” com certeza não está voltada pra sua habilidade artística. E menos ainda pra sua caligrafia.

Kendare bufou.

— Eu achei que você tivesse o mínimo de inteligência pra conseguir chegar aqui sem que eu precisasse escrever “quente” e “frio” pelas paredes do castelo. — Forçou uma risada. — Desculpe, eu me enganei.

Eu mostrei os dentes, desgostosa. Então, suspirei.

— O Duque me encontrou. Bem no meio da sala, ele ainda estava... transformado em alguma coisa, acho que era Ignir. Você não sentiu? A onda de magia. Não conseguiu prever isso?

Kendare suspirou, espanou alguns fios de cabelo da frente do rosto e começou a caminhar para uma das mesas da biblioteca. Vislumbrei o vasto cômodo mergulhado em uma escuridão profunda, cada estante alta como um gigante, um monstro antigo guardando os segredos do mundo. Quase ouvi o estalar de sua madeira, o rangido de coisas antigas e etéreas, sussurros passados. Recolhi-me em minha súbita claustrofobia e massageei o frio de meus ombros.

— Eu senti a onda — disse Kendare, pousando o castiçal sobre o tampo. — Qualquer pessoa daqui até o vilarejo mais próximo deve ter sentido. Mas não consegui prever antes, é complicado ver coisas que envolvem entidades mágicas fortes demais.

Eu me movi até a mesa, querendo um pouco de companhia para espantar o medo. E quando Kend se sentou, eu espelhei o movimento na cadeira diante dela.

— Você o viu? — perguntou. — Ignir.

— Só uma parte. Quase nada. E ainda assim, foi assustador. Se possível, gostaria de evitar experiências como essa novamente.

Nenhuma de nós disse mais nada pelos minutos seguintes, enterradas como estávamos em nossos próprios segredos e pensamentos. Mas alguma coisa que captei pelos cantos dos olhos me trouxe de volta. Um movimento na escuridão. Como uma lufada de vento com forma enfiando-se nos vãos entre as estantes. Um sussurro de presença. Virei-me rapidamente para a direção onde vira o vulto. Não encontrei nada. Estava escuro demais.

— Você viu isso? — sussurrei para Kend.

— Isso o quê?

Esquadrinhei as estantes, as prateleiras e as outras mesas de leitura. Nada. Nenhuma silhueta nem sinal de que houvesse alguém ali além de nós. E isso, por algum motivo, assustou-me ainda mais.

— Um... vulto? — balbuciei, inquieta. Kendare soltou ar pelos lábios com impaciência.

— Deve ser um rato.

— Ou um dos supostos perigos que existem nesse castelo e que todo mundo vive alertando a gente sobre.

Eu insisti, mas Kendare moveu a mão com pouco caso. Puxou uma liga de dentro dos bolsos do vestido de lã branco que vestia e começou a amarrar os cabelos.

— Escute, há mais drama sobre esse assunto do que qualquer coisa. — Puxou os cachos para detrás das orelhas. — Eu sei que há perigos no castelo. E sei também que não são tantos quanto eles fazem parecer. E eu sei que eles precisam dizer isso pra evitar que quarenta garotas curiosas saiam xeretando por onde não devem. Essa é a questão. — Ótimo, agora eu me sinto enganada. — Não tem porque ficar alarmada, não há nada nessa biblioteca que possa machucar você ou eu. Agora, a questão mais importante...

Kendare puxou o livro em similare do bolso de seu vestido e o colocou diante de mim com todo o cuidado do mundo, como se temesse que ele fosse quebrar. Em seguida, empurrou um pergaminho vazio junto com um tinteiro e pena na minha direção

— Por favor, me diga pelo menos que sabe escrever — rogou ela, com zombaria.

Ela sabia muito bem que eu sei escrever. Ela só é chata. Eu resmunguei, puxei a pena sem muita boa vontade e comecei a desenrolar o pergaminho com cuidado. Cada mínimo barulho no silêncio ecoante da biblioteca parecia mais alto do que deveria.

— Eu sei escrever e aposto que minha letra é mais bonita que a sua— alfinetei e puxei o livro para mim. Era um volume curto, quase uma caderneta, e tinha cheiro de couro velho e vinagre. Li as palavras gravadas na capa. — Pequenos Encantos Mortais. Sobre o que é esse livro?

Virei a primeira página e o cheiro se espalhou, ocre e ácido, quase me fez espirrar. Cocei o nariz e comecei a anotar o sumário, dividido em nove subtítulos. Kendare esparramou-se na própria cadeira e começou a ler um livro qualquer no idioma comum. Ela tocou a língua com a ponta de um dedo longo e então folheou uma página.

— Se eu soubesse, certamente não estaria perdendo meu tempo com você.

Eu já estava acostumada com a grosseria. Ela não soava mais como tapas, apenas Kendare sendo ela mesma. Aposto que ela também estava habituada ao meu péssimo humor. Até que éramos bastante parecidas nisso. Eu estalei a língua e me limitei a gravar as palavras no papel. A escuridão dificultava meu trabalho. Anotei os dois primeiros subtítulos: A Origem da Palavra e a Origem do Homem. Depois deles viriam a Origem da Magia e a Origem do Encantamento.

— Então pra que diabos está tão interessada em traduzir? — joguei a pergunta de volta.

Ouvi Kendare suspirar, as pernas de sua cadeira rangendo quando ela se levantou e caminhou um pouco pelo cômodo. Minha pena continuou se movendo com os próximos subtítulos: a Origem do Caos e a Origem da Maldição

— Era da minha avó — disse Kend depois de um minuto de silêncio. — Ela disse que revelava os segredos do mundo, um livro tão antigo quanto a capacidade do homem de se comunicar.

Uma pausa. Seus passos ficaram mais distantes, embora eu conseguisse ouvi-la, mantive meus olhos em meu trabalho.

— Mas ela não conseguia ler, porque está em antigo — continuou. — Não havia uma só alma no continente capaz de lê-lo. Então, ela o deu pra mim. Ela me disse que eu encontraria alguém para e ajudar, me disse o dia exato e as circunstâncias.

Kendare parou de andar quando eu olhei para ela, senti cubos de gelo descendo pela minha garganta até meu estômago, se alastrando por meus braços e pernas. Os dedos que se mantinham no papel começaram a perder a firmeza.

— E, de repente, lá estava você, tentando ler o livro sobre o meu ombro. — O olhar dela me acertou afiado como uma espada e ácido como uma ameaça. — O que me leva a questão me importante aqui, que eu só não fiz antes porque as outras estavam sempre ao redor, mas — caminhou até mim, certeira — como diabos você sabe a língua antiga?

Eu engoli uma saliva seca, pedras de brita enchendo minha traqueia e meus pulmões. Tentei voltar ao pergaminho, concentrar-me apenas nas palavras que eu estava escrevendo. A Origem da Esterilidade e a Origem da Morte.

— Sua avó... conseguia ver também? Ela era uma Marcada?

— Ela havia sido. Durante o período de governo do avô do Duque Ignir. Como você sabe a língua antiga?

Eu senti como se já tivesse tido essa conversa com ela. Ignorei os tambores ecoando em meu peito, em minha caixa torácica e em meus nervos. Firmei a mão.

— Espera, então tem como ser uma “ex-Marcada”?

— Como diabos você sabe a maldita língua antiga, Kath? — ergueu a voz e eu borrei o texto. Nada que o prejudicasse. Tentei limpar com a manga do vestido e as coisas só pioram.

— Um amigo me ensinou quando eu era criança. Se quiser, posso ensinar a você.

Senti a mão de Kend em meu ombro e ela me virou bruscamente para olhá-la. A luz deslizava pelos vincos de seu rosto, as sobrancelhas franzidas e lábios retraído; misturando-se à pele com tanta perfeição que por um instante Kendare quase pareceu ser feita de bronze.

— Um amigo ensinou você? — Soltou as palavras com desprezo. — E você vai me ensinar? Você é estúpida?

Meu rosto se contraiu pesadamente diante da brusca mudança de comportamente de Kendare e eu empurrei sua mão para longe de mim.

— Que diabos deu em você?

— É proibido ensinar similare — sibilou ela. — E não por um decreto de um rei ou um governo, você acha que ninguém tentou passar o conhecimento da língua antiga adiante? É magia. — Sua voz se adensou ao dizer a palavra e aquela frieza em meu estômago se espalhou. — A magia impede o ensino, mesmo que você me dissesse o que cada palavra significa e como funcionam as estruturas das frases, o conhecimento não se prenderia na minha cabeça. Sumiria, imagine, magicamente durante o sono. O que ainda me mantém na pergunta: como diabos você sabe?

Eu estremeci, e outro movimento ondulou pelas estantes da biblioteca. Lânguido, soturno. Acho que estava rindo. Me obriguei a ignorá-lo. Uma súbita palpitação reverberou em meu peito.

— Eu não... eu não sei... é só...

— O homem que a ensinou, quem era? — Kendare insistiu, urgente. A proximidade com que me questionou intensificou minha claustrofobia. — Era um mago? Um feiticeiro da terra?

Eu perdi a paciência e minha mão golpeou a mesa, todo o peso do meu corpo se sustentando nela. É o que faço. Sempre. Eu uso a raiva para compensar o medo.

— Era um garoto! Tinha minha idade, uns cinco ou seis anos, eu acho, era meu melhor amigo.

Kendare só pareceu ainda mais chocada e decepcionada.

— Um garoto? Um garoto? Como raios um garoto sabe os segredos da magia? Como você o conheceu?

— Chega! Eu não vou falar disso agora! — Tentei me voltar para o livro, mas Kendare insistiu.

— É claro que vai falar disso agora, no que está pensando? Quem era esse garoto, Katherin? Ele tinha habilidades-

— Eu não vou falar sobre isso agora, Kendare! — exclamei, minha voz se erguendo e criando ecos na sala, por todo o lugar, como ondas em um lago que foi perturbado por uma pedra. Os vultos finalmente se aquietaram. — Escute, eu acabei de ter um pesadelo com ele, eu ainda consigo sentir os mortos me trazendo lembranças e é um passado que eu não gosto muito de manter em mente, então deixe eu me concentrar primeiro na tradução do livro. Depois, outro dia, nós falamos sobre isso e eu vou te contar tudo, tudo bem?

O rosto de Kendare tremulou e ela cambaleou um pouco timidamente para trás, os olhos oscilando pela primeira vez desde que a conheci.

— Desculpe — ela disse, a voz frágil. — Desculpe, eu não queria...

Gesticulei com a mão e me voltei para o pergaminho.

— Está tudo bem, só... só faça silêncio, certo?

Retomei a tradução o mais rápido possível, apenas para me livrar dos pensamentos pairavam em minha mente como vespas sangrentas. Me concentrei no pergaminho e nada ali fazia sentido. Parecia apenas um monte de poemas e palavras aleatoriamente jogadas e alguns trechos que pareciam pedaços de receitas estranhas com ingredientes que não faziam sentido: o sacrifício de um coração de pedra, a primeira noite de uma rosa, o desejo selvagem de uma besta... e assim seguia.

Era mais ou menos duas da manhã quando terminei o primeiro capítulo. Entreguei o papiro e o livro para Kendare. Despedi-me sem muitas enrolações e segui para meu dormitório, agora já sabendo o caminho.

Notas finais
Aaron Warner Supremacy!! Até mais!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.