Meros Encantos Mortais
6 A Origem do Medo
Notas iniciais
V.
Não consegui ver o interior de Seldegra de dentro do vagão. Também não me levantei para espiar a janela. Sinceramente, eu quis selá-la. Trancá-la de qualquer forma que fosse para evitar até o mínimo contato com o exterior. Os sons de grunhidos de monstros e gemidos de almas encheu o carro. Rastejaram por minha pele como pequenos insetos sem forma e reverberaram dentro dos meus ossos, dos meus pulmões, do meu crânio. Garras invisíveis arranhando, rasgando tudo em minha cabeça.
O formigamento começou pelas pontas dos meus dedos quando o vagão chacoalhou sobre a raiz seca de uma árvore qualquer. Eu conseguia ouvi-las perfeitamente, gritando em meus ouvidos, as vozes de Seldegra. Eram vozes grotescas e sussurrantes, que vinham do submundo e traziam o inferno com elas. Tive de me encolher para perceber que estava tremendo. Frio corroendo minha espinha, e agora eu não conseguia sentir meus lábios.
— Mantenha a calma — sussurrou Kendare ao meu lado, mas ela estava suando. Os olhos âmbar arregalados, os cantos vermelhos com veias saltando.
Illana já havia se enfiado debaixo do banco, a cabeça entre os joelhos, fazendo orações que se nem eu fui capaz de entender, então muito menos os deuses. Forcei ar para meus pulmões, mas foi em vão. Minha garganta se apertou.
— Vamos morrer — choraminguei pateticamente, minhas mãos fechadas com tanta força que temi impedir a passagem do sangue nas articulações.
Os dedos gélidos dos mortos passaram pelas paredes da carroça e roçaram minha pele. Era como ter baratas se enfiando no tutano dos ossos. Tentei espantá-los, eles me agarraram. Grudaram em mim, em meus braços, meus ombros, em meu pescoço.
— Não vamos — insistiu Kendare, a voz esganiçada. — O Duque vai nos manter longe dos monstros. Só temos que lidar com os espíritos. Ficará tudo bem se você manter a calma, a sua magia não se corromperá.
Silver no fundo do vagão inclinou-se e vomitou. Vomitou tudo o que comera no desjejum e depois que seu estômago ficou vazio, ela continuou vomitando. Miya estava chorando em silêncio, as unhas enfiadas tão fundo no couro cabeludo que eu quase tive a certeza de ver sangue escorrer.
As mãos dos mortos agarraram minha cabeça. Atravessaram meu crânio e chacoalharam meu cérebro. Pequenos ratinhos chiando no vão dos meus ouvidos, com perninhas ligeiras e cruéis. Vislumbrei imagens de meus piores dias, meus piores anos, as lágrimas de mamãe, o líquido branco e viscoso em suas pernas. O toque de Arthur em minha pele, o sorriso do pai dele, o cheiro férreo de sangue no beco da Rua Dismond.
Eu preferia morrer a ter que ver tudo de novo. O passado que enterrei junto ao corpo do homem que tentou me molestar aos oito anos de idade. E agora ambos voltaram para me assombrar.
— Katherin, o que quer que esteja vendo, não é real — sibilou Kandare, a voz trêmula. — É a floresta, está testando você. Precisa ser forte. É por isso que eles decidiram atravessá-la, só as mais fortes de nós sobreviveriam. Fale comigo! Diga alguma coisa, qualquer coisa!
Eu não conseguia ouvi-la direito. Sua voz era um mero eco no fundo dos meus ouvidos, enterrada sob um barulho fino e agudo, os choros, os gemidos, os gritos, as risadas e a voz de Arthur: “Isso dói? Isso dói? É melhor que doa”. Pressionei meu maxilar com tanta força que doeu. Minhas unhas se afundaram em meu couro cabeludo. Agressivo o suficiente para que eu pudesse me concentrar na dor e não nas memórias.
— Por quê? — sussurrei para Kendare, tentando afastar as imagens e os mortos, todos eles amontoados sobre mim. Cadáveres pútridos me sufocando. Olhei de relance para o nakrash no fundo do vagão, ainda imóvel. Ainda como parte da decoração. — Por que só nós...?
— S-Somos preenchidas com magia natural agora. — Kendare se aproximou, arrastando-se pelo chão da cela. Parecia que ela estava se concentrando na conversa para não sucumbir. — Todas nós. Nossa magia na-natural, ela reage com as maldições da floresta. Não afeta os outros, só quem tem A Marca. Se formos suscetíveis à magia corrompida, o encantamento nos transforma naquela coisa... naquela coisa que vimos na planície. E deixamos de ser úteis.
Seleção natural forçada. Era isso que eles estavam fazendo conosco. Nos jogando na cova dos leões pra eliminar rapidamente quem não fosse forte o suficiente. Ah, no dia do Julgamento, quando fôssemos todos pesar nossas faltas e nossas culpas, eu faria questão de colocar um peso extra na balança do Duque. Eu me concentrei nesse pensamento, cultivei essa faísca de raiva para me apartar do que eu não queria, da tristeza e do medo.
No fundo do vagão Silver engasgou. Vomitou mais. Dessa vez, foi sangue que manchou a madeira. Ela caiu tremendo, chamou o nome de alguém que eu não conhecia. Estava chorando.
— Me desculpe, mamãe. Me desculpe, mamãe — implorou.
Meu coração se partiu, mesmo dentre o medo e a raiva. Silver, tão pequena e frágil, animada e fazendo piadas sem graça, como se o mundo não estivesse prestes a acabar. Como se ela fosse acabar com o mundo.
Agora parecia um pedaço quebrado de alguma coisa que não deu certo. Imaginei que sonhos ela teria, que pesadelos a assombrariam, que tipos de espinhos se enroscam nela, todas as noites, lá pelas três ou quatro da manhã. Engolindo meus medos, tentei aproximar-me, mas Kendare me impediu.
A pele de Silver se fundiu aos ossos, seus braços se esticaram. Parecia um processo doloroso, mas ela finalmente estava alta, nada de pequena ou frágil de novo. Miya deu um salto de pavor para longe e para perto de mim quando viu o que estava acontecendo.
O vagão em que estávamos de repente pareceu minúsculo. Ouvi Illana gritar. Era difícil me concentrar no medo e no torpor, o barulho agudo nos meus ouvidos, nas mãos dos mortos me sufocando e na criatura com cabeça de cabra e ossos quebrados por todo o corpo que se arrastou em nossa direção.
— Ela vai nos matar — ri entre um soluço e outro. Por que, de alguma forma, minha mente achou aquilo engraçado. Porque, de alguma forma, essa é a forma que minha mente usa para não quebrar. — Silver e sua boca grande vai nos engolir. Irônico, não? E ela estava falando de pessoas feias algumas horas atrás. Quem é a feiosa agora? Aposto que você não quer dizer nada sobre isso, não é, Silver? Se bem que agora você tem propriedade pra falar sobre feiura, olha s-
O corpo da besta foi engolido. Como eu engoli minhas palavras e arregalei meus olhos largamente. Foi como um instante parado no tempo, entre todos os gritos e o terror. Uma serpente gigantesca havia deslizado de dentro do manto de nakrash. E simplesmente abocanhou a criatura que fora Silver. Engoliu-a de uma vez só, sem fazer alarde, e então deslizou de volta para seu manto, para a quietude que uma vez me fizera confundi-lo com uma peça de decoração.
Por um minuto inteiro depois daquilo, ninguém disse nada. O som do meu coração retumbando meio que abafou os gritos dos mortos. Então, apenas ficamos lá, encarando o nada, paralisadas, tentando entender o que acontecera.
— Nakrash — gaguejou Kendare. — Só preda um tipo específico de criatura. Marcadas corrompidas. É por isso...
Kendare caiu para frente, sua cabeça bateu tão forte na madeira que fez um eco e ela desfaleceu. Tentei me inclinar para ajudá-la, mas de repente, tudo ficou turvo e morno. As vozes ainda gritavam em meus ouvidos. Ainda havia medo em meu coração. Mas a escuridão que me envolveu era quente e acolhedora.
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