Meros Encantos Mortais
2 A Origem Da Magia
Notas iniciais

I.
Foi mais ou menos entre três e quatro da manhã do dia das mães que eu acordei com A Marca.
Acho que estava sonhando com um pernil de porco assado bem suculento quando os espinhos se enroscaram em mim, como navalhas bem afiadas. Vieram por meu pescoço, estendendo seus galhos; envolveram minhas costelas e espetaram meus pulmões. Bile subiu pela minha garganta, queimando, mas nada se comparava à falta de ar.
Passei um minuto inteiro paralisada naquela cama, as montanhas de espinhos que partiam da Marca em meu peito se erguendo sobre mim. Abraçando-me como se quisessem se apropriar de cada pedaço esquálido do meu corpo. Foi o pior minuto da minha vida. E olha que tive muitos minutos ruins e dias e anos, mas aquele... daquele eu vou me lembrar com especial desafeto.
Pelo menos, até meses mais tarde, quando outro encanto mortal viria para me reclamar como sua.
Naquela noite, depois de decidir que aquilo entre meus seios era mesmo A Marca: uma flor de quatro pontas, gravada em relevo sobre minha pele e sem previsões de querer desaparecer, reuni as cinco crianças da minha casa e as instruí:
— Eu vou precisar me ausentar por uns meses. Nada muito longo, só até o Equinócio de Primavera.
— Ótimo — resmungou Caleb, de quatorze anos, provavelmente mais mal-humorado por ter sido acordado às cinco da manhã do que por qualquer outra coisa. — A pessoa mais próxima que temos de uma mãe está nos largando no dia das mães.
— Ah, meu Santo Inverno, olhe pra ele, um órfão tão necessitado. Você quer que eu o amamente também? — zombei, e a carranca de Caleb só piorou. — Não seja dramático. Eu não estou largando ninguém. Eu vou precisar cruzar a fronteira de Alerion e ficar lá pelo menos até o fim da estação. Eu vou voltar.
Comecei a empacotar as poucas coisas que eu pudesse precisar em um saco de estopa. Só o suficiente para alguns meses. Pegaria o inverno rígido em minha viagem e o ideal era que eu tivesse mais tempo para me preparar. Só que eu não tinha tempo. Precisava partir e tinha que ser agora. Pela manhã, os Recrutadores já estariam esmurrando minha porta, atraídos pelo cheiro dA Marca, como urubus são atraídos por carniça.
— Katherin, por que a pressa? — perguntou Ana com preocupação, muito embora já inclinando-se e me ajudando a guardar casacos e cobertores no saco. Ela tinha dezessete agora. Eu sabia que podia deixar os outros com ela. — Aconteceu algo?
— Podemos ir com você? — Ginny se aproximou, um pouco sonolenta e assustada.
Minha casa não era exatamente um orfanato. Só que, conforme eu seguia a vida, fui encontrando crianças que, como eu, não tinham muito rumo. Decidi trazê-las comigo. Assim, como quem adota um cachorro vira-lata que ninguém mais quer, e acaba se apegando a ele. As crianças agora eram cinco. Ana, Caleb, os irmãos gêmeos Gilliard e Ginny, de treze, e a mais nova, Romilly, de dez.
Eu suspirei e comecei a me enfiar em camadas e mais camadas de roupas.
— Não, Ginny, não podem. Gilliard, pegue queijo e pão para mim na dispensa, por favor. O suficiente pra uma viagem longa. — O menino saiu correndo para fazer o que eu pedira. Virei-me para Ana. — Escute, Ana, tem um pouco de dinheiro escondido debaixo do seu colchão. Sim, eu mesma escondi lá. Caso esse dinheiro acabe, eu tenho uma quantia boa guardada na casa de Marilin. Pegue só em necessidades, caso precise deixar a cidade ou...
— Uau, a galera toda já está de pé! — Uma cabeça cheia de cachos loiros se enfiou pela janela entreaberta do meu quarto. Inclinou-se com os braços cruzados sobre o parapeito e fez uma expressão de admiração. — A que se deve esse evento? Ah! Já estão sabendo da novidade.
Estalei a língua para a garota mais fofoqueira do Pequeno País Leste, enfiando-se na conversa entre mim e meus irmãos como se isso não fosse nada.
— Melissa, são cinco da manhã, saia! — Tentei fechar a janela, Mel ficou no caminho.
— São quase seis já! O que acha da novidade?
— Que novidade? São cinco da manhã, porque eu saberia qualquer novidade? Vá dormir! — Tentei fechar a janela novamente, mas ela resistiu.
Mel expressou confusão, as sobrancelhas loiras formando vincos na longa testa.
— Ué, você não ouviu os sinos?
— Sinos? — Franzi e me virei para as crianças. — Vocês ouviram os sinos?
— Todo mundo ouviu os sinos — respondeu Caleb. — Menos você, devia estar surtando.
Todo o meu corpo congelou. Minha mente vagou para a lembrança do sonho que tive com os espinhos quando A Marca surgiu. Melissa, em minha frente, sorriu.
— Os sinos de aviso. Os Quatro Receptáculos estão mortos — ela disse. Tive que me esforçar para não cair tremendo no chão. — Os Recrutadores logo virão para encontrar as Marcadas. Katherin? O que houve? Você está pálida.
— V-Você despertou uma Marca? — perguntei, tentando parecer calma.
Mel bufou.
— Parece que eu despertei alguma Marca? É claro que não. A essa hora eu já estaria bem longe daqui, na Terra Selvagem, talvez. Espera... Está fazendo as malas?
Enfiei-me o mais rápido que pude dentro do casaco de pele de urso que comprei por 45 similes há dois anos e me abaixei para pegar um saco de moedas que eu tinha escondido embaixo da cama para mim mesma. Só para emergências. O que parecia ser exatamente o caso agora. O rosto rechonchudo de Mel se contorceu em choque ao tirar a conclusão mais óbvia:
— Oh, minha Santa Primavera, você despertou uma Marca! — Os rostos dos meus irmãos empalideceram. Ana, principalmente, pareceu apavorada. Vi um lampejo de medo nos olhos de Caleb pela primeira vez em muito tempo. Eu não queria que eles soubessem assim. Mel insistiu: — Qual Marca? Qual delas, Katherin?
Eu já estava à porta quando Galliard se aproximou com o queijo, pão e mel, todos devidamente guardados em uma sacola de linho menor. Ana me ajudou a erguer o saco de estopa ao mesmo tempo em que parecia segurar as lágrimas.
— Vai ficar tudo bem — assegurei. — Os Recrutadores não vão poder me pegar quando eu chegar a Alerion. Vou ficar lá até passar o Equinócio e essa coisa desaparecer. Eu vou voltar.
— Qual Marca você despertou, Katherin? — insistiu Mel, quase saltando para dentro de meu quarto com seu corpo meio roliço e o rosto vermelho.
Beijei cada um dos meus irmãos, que eram meus filhos, meus amigos e minha única família. Então, saí rapidamente sem olhar pra trás. Mel contornou a casa e veio me encontrar na porta, os olhinhos de avelã brilhando de animação.
— Qual Marca?
Eu me virei pra ela com a carranca mais pesada que consegui. Não era difícil intimidá-la, ela era bem menor e mais lenta, e eu tinha um saco pesado na minha mão apenas a um movimento de enfiá-lo na cara dela.
— Escute bem, Melissa, nenhuma palavra sobre isso. Pra ninguém, certo? Nem os deuses irão salvá-la se eu souber que me dedurou aos Recrutadores.
— Eca, não! Eu não sou tão fofoqueira assim. Além disso, eu não preciso falar. — Abriu um sorriso mesquinho. — Eles vão seguir seu cheiro daqui até o litoral, se for preciso. Mas, se sente-se mais confortável, eu juro pelo túmulo da minha mãe que eles não terão nenhuma informação sua vinda de mim. Então, qual marca?
Eu suspirei. A neve havia parado de cair, mas logo começaria de novo. Mesmo que em breve a manhã viesse, não havia nenhuma certeza de que o sol apareceria. Eu vivia em uma pequena vila na parte sul do Pequeno País, não muito longe das fronteiras com a nação vizinha, Alerion, onde eles falam uma espécie de língua comum misturada com dialetos próprios.
— A Rosa. Quatro pontas.
Mel assobiou. Então riu de um jeito que parecia que havia lembrado de uma piada muito boa.
— Combina com você. Boa sorte.
Eu me virei e comecei a andar na direção da floresta. Cada passo se tornando mais pesado na neve densa. Mais pesado ainda era o destino que eu teria.
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