Mermaid
4 The Airplane
Notas iniciais
— Me responde, amiguinho. — Sussurrava para o peixe Oscar roxo que enfeitava o lado de fora da lanchonete enquanto esperava Heather. — Tem que ter alguma coisa mais legal nisso. Você me entende, né?
O peixe me ignorava, me deixando frustrada. Imaginei que talvez pudesse me comunicar com a vida marinha, mas foi só uma perda de tempo.
— Você ficou louca mesmo quando bateu a cabeça. — Heather se aproxima enquanto andamos juntas, rindo.
— Não tem graça! — Ri. Já haviam se passado quatro dias e havia, finalmente, me livrado daquela faixa.
— Escuta. — Me parou, capturando minha atenção. — Você tem estado por fora. Então, preciso implorar para que passe uma noite com suas amigas. — Sinalizou o número um com o dedo indicador, fazendo um bico infantil.
— Claro. — Reviro os olhos, me rendendo. — Na sua casa? — Ela assente e eu sorrio, olhando para o mar.
— Eu vou falar com as meninas. Elas não te veem há séculos. — Ela sorri e acena enquanto se afasta.
Encarei as ondas baixas que se chocavam com as pedras e encontrei uma pequena mureta semi-oval, que parecia um bom esconderijo. Suspirei. Eu podia fazer isso.
Fui até aquela pequena cerca de proteção, entrando na agua de regata e short. Arqueei minhas costas quando senti a água gelada tocar minhas coxas e sorri, de olhos fechados. Sentia o formigamento em minhas pernas aumentar gradativamente e meu chão ceder, mergulhando de cabeça na imensidão azul. Era completamente diferente. Era confortável e meus olhos não ardiam. Nadei pela extensão da costa, até perceber de que alguém poderia ver a cauda que se formara na parte inferior de meu corpo. Assim, nadei rapidamente para o mais fundo que consegui, com a visão mais clara do que nunca. Quando estava em uma espécie de caverna, senti meu ar fugir dos pulmões e as pernas estavam de volta.
Desesperada, tentei subir para a superfície, mas o desespero não me permitia chegar a tempo até a entrada por onde os feixes de luz entravam, quanto mais voltar até onde estava. Me debati, mas meu corpo parecia permanecer no lugar, e meus olhos se arregalavam conforme minhas opções se esvaíam. Me obriguei a fechá-los, e minha cabeça girava conforme minha respiração se estabilizava e a cauda voltava para meu corpo. Sentia como se não tivesse uma lei certa para as coisas acontecerem, e meu receio aumentou em relação a tudo o que acontecia em minha vida.
Sem pensar, nadei na direção da barreira de corais, e meu novo eu me levava em uma velocidade inimaginável. Bolhas se formavam ao meu redor enquanto via cardumes se desviarem para seus destinos. Sentia como se meus cabelos, ironicamente, voassem, e meu rosto permanecia forte contra a pressão que vinha à minha frente.
A confiança aumentava conforme eu subia, descia e ia para todos os lados, livre. Passei minutos, talvez horas, descobrindo pequenos detalhes que cerceavam os pequenos animais, até me deparar com os grandes. Arraias desfilavam com suas majestosas mantas a centímetros de mim, e decidi descer. Sabia que um ser humano não consegue descer metros suficientes abaixo do mar antes de a pressão o matar, mas eu não estava humana. E esperava não ficar. Desci para onde a luz não parecia chegar, e apesar de sentir a presença dos mais distintos peixes, eles não me tocavam.
Quando a escuridão tapou minha visão, comecei a ficar nervosa. Fechei as mãos em punho, pensando sobre qualquer coisa que soubesse sobre tal profundidade, mas nada me vinha à mente. Fechei os olhos e, ao abri-los, via que de minhas mãos irradiavam uma luz esbranquiçada, como se eu, literalmente, brilhasse.
E me lembrei de algo: Fotóforos. Alguns seres dessa profundidade tinham esse órgão, que faz com que emanem luz como o vagalume faz. Passei as mãos espalmadas ao meu redor, espantava pelas criaturas que ali habitavam. Lentamente, analisei os animais, que pareciam não ter olhos e ter dentes afiados ou formatos questionáveis. Vi as plantas, as pedras, a areia numa textura diferente da de metros acima.
Conforme completava uma volta completa ao redor de meu corpo, percebi algo imóvel e enorme ao meu lado. Era a cauda de um avião, e o transporte continuava mais a frente. Passei a mão lentamente pelo metal pouco empoeirado, e, onde passava minha mão, se iniciava uma linha um pouco mais clara que as demais partes. Nadei até a lateral. B737-700. Era o nome que assombrava meus piores pesadelos e estava presente nos meus melhores sonhos. Era o avião de minha mãe.
Meu coração batia alto e eu parecia escutá-lo alto e claro. Engoli em seco e pousei a mão em cima do nome, com a pele entre os dedos tapando o número 3. Procurei por uma entrada segundos depois, vendo que plantas já nasciam na parte de dentro, se adaptando ao meio. Procurei pela poltrona na janela à esquerda, mas, entre todas as decomposições onde pequenos peixes pareciam fazer a limpeza, um banco estava vazio.
O banco dela.
Peguei o colar que havia abraçado algumas algas no que antes foi um corredor e pus em meu pescoço. Eu vou te encontrar, mãe. Eu prometo.
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