Notas iniciais
Bem... a narração dessa fanfiction ficou um pouquinho confusa... Algumas partes de propósito, admito.
1. Há várias partes em que o narrador-observador repete afirmações/perguntas/etc ao longo não só do parágrafo, mas da fic inteira. Isso é porque os personagens estão repetindo isso. E também para dar mais... "significado/sentimento" às palavras em questão. ;D
2. Com relação à/ao Someya, me refiro a ela/ele tanto no masculino quanto no feminino.
3. Talvez existam erros de concordância com a História Original. Me Desculpem por isso.
4. Também é possível, ainda que menos, haver erros de concordância com a própria fic. Caso isso aconteça, me avisem, por favor.
5. Talvez o conflito da fic não seja tão sério quanto é descrito, mas eu quero que seja assim e pronto! XD
6. Se a minha fanfic assemelha-se a sua de Okane Ga nai também (o que eu duvido muito, pois há pouquíssimas em português), peço desculpas, mas não vou excluí-la, a ideia veio diretamente da minha cabeça.
7. É o primeiro Lemon que eu escrevo NA VIDA, me deem um desconto, onegai.
8. Nos vemos nas Notas Finais!
Ja ne! XD

Ayase acordou ofegante, havia tido um sonho; melhor, uma lembrança. Lembrara-se do laço que unia ele a Kanou-san. Fora num dia chuvoso... que o encontrara sentado perto próximo à sua casa.

Há quanto tempo mesmo? Ah... Uns três anos atrás...

_._._._._

*Começo do Flash Back*

Caminhava em direção a sua casa, num árduo e chuvoso dia de escola. Passaria rapidamente na residência e logo voltaria a se ocupar: trabalho de meio-período.

Quase chegava a seu destino, até que em sua visão periférica notou um homem. Olhou mais atentamente. Encharcado. Sujo. Triste. Miserável. Eram essas as palavras que o definiam naquele momento.

O loirinho era bondoso de natureza própria, acolheu-o sem nem sequer hesitar – ligou para o trabalho avisando que não iria. Preparou-lhe um banho, fez lhe uma comida, conseguiu até mesmo roupas para que homem vestisse.

Um belo homem, diga-se de passagem.

E seu nome era Kanou.

Kanou-kun, como decidiu chamá-lo, explicou que era um homem de... negócios, e que após a morte do pai, fizera uns maus investimentos e perdera quase tudo. E que agora não tinha mais onde morar.

— Então você pode ficar aqui por um tempo, até as coisas se ajeitarem pra você! — Ayase ofereceu. Simpatizara com Kanou, e ele não parecia má pessoa; por que não?

Em resposta, Kanou olhou embasbacado por uns minutos; meio já recomposto meio avoado, disse — E-eu aceito.

Então os dias de convivência começaram. Ayase descobriu que enquanto estudava e trabalhava, Kanou-kun saía também, mas nunca dizia para onde e nem para quê; e também não perguntava, não invadiria sua privacidade.

Foi uma época muito feliz. Para ambos. Eram bem compatíveis um com o outro. Até demais, para falar a verdade. A intimidade entre eles se encontrava em proporções enormes. Afinal, que tipo de pessoa se vestiria na frente de alguém que conhecia a menos de meio ano? Ayase e Kanou, claro. E sem comentários sobre os banhos...

Isso não poderia ficar apenas na amizade, os dois aprenderam isso da maneira mais óbvia possível: se apaixonando um pelo outro. Não se sabe quem foi a primeiro a se apaixonar, no entanto, o primeiro a se declarar, depois de tanta hesitação de ambas as partes, com certeza fora o maior. Mas não da maneira mais convencional possível. Depois de tanto amor e libido reprimidos numa convivência tão íntima, alguém teria que estourar.

— Kanou-kun, já terminei meu banho. Gostaria de um chá antes de dormir? — era sempre assim, quando não tomavam banho juntos, o primeiro era Kanou e logo depois vinha Ayase. A visão do loirinho refrescado de pijamas com o cabelo molhado após o banho enlouquecia o moreno – assim como mal aguentava vê-lo se trocando de manhã – Mas desta vez foi diferente. Porque não era um pijama. Era sua blusa, apenas sua blusa. Branca e vários tamanhos maior. Pôde detectar a sombra dos pequenos mamilos sob o pano claro. Ficou excitado instantaneamente.

O pequeno se sentou no sofá, e Kanou, de hábito, sentava-se no chão. — Qual programa está passan- Ei! Kanou-kun, porque se levantou? Está tapando minha visão! — olhou para a enorme figura do homem mirando-o de cima.

— Ayase... — nem tentou se segurar, puxou o menino para o chão e o abraçou. Ayase sentado e Kanou com um joelho de cada lado do corpo delicado. — Kanou-kun, pode me abraçar mais frouxamente? É que tem algo na minha barrig- — e ele percebeu o que era esse “algo”. Todo o sangue subiu para o rosto, e empurrava desajeitadamente o Seme – em vão — O que está fazendo? Me largue! — de tanta vergonha, lágrimas já começavam a ameaçar de seus olhos.

— Desculpe, Ayase, não dá mais... Fiquei te desejando por tanto tempo que... — não terminou, mas deu uma lambida na branca orelha esquerda. Sorriu ao sentir o estremecimento do mais novo.

— Kanou... Kanou-kun...Ahh! — gemeu mais um pouco quando, mudando de posição, Kanou deitou o miúdo corpo e encaixou-se entre o mesmo, pressionando sua intimidade na do outro.

*Fim do Flash Back*

_-_-_-_-_

Ayase corou e engoliu em seco, depois disso eles fi-fizeram... Tudo foi uma maravilha naquela noite, e na manhã seguinte também, Kanou confessou seu amor por ele, e que alegria em seu rosto ao ouvir a resposta de que era recíproco! Mas... os problemas para si começaram quando o estudante voltou para casa e Kanou não o recebeu. Procurou-o em todo lugar, contudo, sem sucesso.

Resolveu esperá-lo, fez o jantar, sentou-se à mesa e esperou-o, mas este mesmo esfriou. Ayase se convenceu que Kanou não viria naquela noite. Foi dormir. Na manhã seguinte foi para a escola normalmente, mas com uma diferença, o café foi feito para apenas uma pessoa.

Libertando-se desse repentino transe de memória, Ayase suspirou. Kanou nunca voltou... E a lembrança dele apenas lhe trazia maus sentimentos: tristeza, indignação, abandono, depressão... Dizem que o cérebro induz a pessoa a esquecer de lembranças desnecessárias ou tristes demais.

E Ayase esqueceu-se de Kanou.

Até aquele dia, quer dizer.

No dia seguinte a uma fervorosa noite de toques e gemidos, sonhou com o que há muito esquecera. E claro que não deixaria isso passar, porque... Ainda amava o maior.

E diria a ele agora!

Que se lembrava daqueles dois meses que passaram juntos. Claro... Partindo do princípio de que o mais velho ainda o amava. O que Ayase tinha certeza que ocorria. Porque se não ocorresse, a troco do que teria trocado tantos milhões por si?

Vestiu-se depressa e desajeitadamente, mas nem se importava com isso, queria apenas ver o rosto de Kanou e ouvir sua voz.

_-_-_-_-_

Kanou trabalhava como louco naquele dia e, além disso, tinha problemas pessoais para resolver. Estava tão estressado... Três de seus clientes fugiram para não pagar as dívidas, descobrira que havia um possível espião da empresa concorrente na sua. E Ayase... Ayase nem se lembrava de si, por que ainda o acolhia em sua casa? Por que, apesar de ele lhe dever muito dinheiro, não o libertava e pronto? Todo dia voltava para casa e via o rosto da pessoa que amava, e que não o correspondia! E para piorar, um dos Kuba apaixonara-se pelo pequeno também. E odiava esse fato, de tudo, era o que mais odiava. Conseguia conviver civilizadamente com o fato de que seu amado esquecera-o, mas a possibilidade de perdê-lo para um de seus empregados mais confiáveis o ensandecia.

— Kanou-san! — a pessoa que dominava seus pensamentos entrou de supetão, e sem ninguém por perto. Ele era o único que podia entrar em seu escritório sem um Kuba acompanhando. Confiava plenamente no garoto. E este, ofegante, se pendurou no pescoço do dono do recinto, surpreendendo-o.

— Aya...se? — falou, incerto. Olhando-o, o moreno percebeu que havia algo muito errado – ou diferente, no mínimo–, os azuis orbes carregavam sentimentos distintos do usual: além de costumeiramente chorosos, via alegria, certeza, exigência, impaciência, confiança... não eram características dele, Ayase não era confiante, ou exigente ou tão seguro de si a ponto de mirar Kanou com esses olhos.

— Ka-Kanou-san! Quite minha dívida! Ambos não precisamos mais dela! Kanou-san, eu... — com estes dizeres, seu mundo caiu. Não sabia direito o que ele queria dizer com essas palavras, mas tinha uma noção. Ayase não falava isso como nas vezes interiores: chorando, implorando, miserável; ele falava como se tivesse certeza que dessa vez seu desejo seria atendido.

Imediatamente começou a pensar o pior tipo de coisas, mas as mais possíveis de acontecer. Ayase podia ter descoberto o porquê de ter sido comprado por si, podia ter se lembrado do passado, podia querer se vingar de seu repentino desaparecimento, ou podia estar usando o amor de Kanou como chantagem para se libertar. Isso não era típico do menino, mas sabia o quanto este estava desesperado, e nessas situações, um ser humano faz tudo pela liberdade.

Kanou ficou com medo.

Porque dessa vez Ayase não o amava, passara-se tanto tempo... Como nutririr ainda os mesmos sentimentos pela mesma pessoa? O mais provável era que, de tão afoito por ver-se livre, Ayase usasse seu amor [o de Kanou] como pretexto para libertá-lo. Chantagem, isso é uma chantagem.

No entanto, ainda amava o loirinho. E a ideia de perdê-lo o enraivecia e entristecia. Além do mais, Ayase era seu. Nada o tiraria de si, nem ele próprio.

Por causa de seus devaneios, não prestou muita atenção no que o menor lhe falou, no entanto não fazia diferença, sabia o conteúdo das palavras. Empurrou-o para baixo violentamente, e consequentemente, o pequeno caiu esparramado no chão. — Não seja tolo, Ayase! Com quem você acha que está falando? Você é meu, Ayase. Um pertence meu. Eu te comprei. E mais que um escravo sexual e doméstico, você é uma puta. Eu pago pela transa contigo, Ayase. E Ayase, você é um puta por opção, o mais fácil seria apenas aceitar o fato de que te comprei e pronto — talvez Kanou não devesse ter dito isso, talvez ele devesse ter dito isso. Mas o único que sabia era que aquilo era reflexo de sua desesperação. Assim como Ayase – eu sua mente – não mediria esforços para libertar-se, ele não mediria esforços para mantê-lo junto a si. Ayase... Ayase tinha a obrigação de ficar ao seu lado por todo o sempre. Por isso os juros... — Agora, deixe-me trabalhar. — sentou-se à mesa e não mais olhou o rosto do menor, não queria ver que tipo de olhar jazia em seus orbes.

Além do mais, não é como se o loirinho não tivesse um pouco de ciência disso – de que era uma...– Quando raptado, o tratavam e era chamado de puta. Quando acordava, o dinheiro jazia sobre a cama e seu parceiro em Deus-sabe-onde. Isso ocorre com putas e todos sabem, até um garoto inocente. Claro, o empresário que o comprara nunca o chamou assim – até agora –, mas será que faria tanta diferença?

Claro que faria, Kanou, seu idiota.

O menor, sentado no chão, não pensou nada, sua mente estava literalmente em branco, porém quando as silenciosas lágrimas vieram à tona, um turbilhão de pensamentos veio junto. Ele enganara-se, era isso. Kanou não o amava, nem agora, nem há três anos atrás. Devia ter sido fácil enganar um menino de 16 anos para que o abrigue. Dizendo... aquele tipo de coisas... sobre o amor. Ayase sentia-se usado, queria tanto que Kanou tirasse sua dívida para que a partir de agora vivessem juntos como... antes. Como fora enganado e como se enganara! Ele havia sido vendido como um pedaço de carne, por que seria tratado diferente? Um pedaço de carne... até para o empresário que o comprara.

Kanou – pensou Ayase – ouviu tudo o que falara antes: que o amava, que queria viver junto a ele para sempre, que se lembrava de seu passado. Portanto não havia dúvidas. Pelo que lhe dissera, ele era mesmo a puta do empresário.

E tão rápido como vieram, rápido foram-se todos esses pensamentos. Estava novamente em branco. As lágrimas secaram. A feição melancólica foi trocada por uma neutra: nem feliz nem triste. E os olhos perderam o brilho azul. Logo de cara vê-se que os olhos de Ayase tem um brilho incomum, mas agora, tornaram-se nebulosos. Era como se estes olhos estivessem... vazios.

Levantou-se vagarosamente, mas sem fraquejar, murmurou um — Me desculpe — e seguiu para a porta. Passou pelos Kuba sem nem sequer mirá-los – o que os levou ao estranhamento. E um tempo depois andando assim ininterruptamente, já passava pela porta de seu lar.

Retirou os sapatos e seguiu para o sofá sentando-se neste, lá permanecendo. Logo, apareceu a dor. Seca. Uma bolota na garganta e uma lâmina no coração. Era tanta que ficava meio tonto. Sua visão oscilava.

Dor.

Dor.

Dor.

Insuportável. — Kanou-san... não me ama. Eu sou... descartável. Uma puta qualquer... — sua voz saia etérea e profunda. Uma reflexão perfeita de seu sofrimento. Não aguentava... Tinha que fazer alguma coisa. Sanar, enganar, substituir essa dor.

Olhou os pulsos. Sua pele era alva como a neve, e as veias azuladas eram visíveis sob esta. Se... se fizesse isso, seu dono perceberia que algo estava errado. E o descartaria... Não! Não aceitaria que isso acontecesse. De que forma pagaria sua dívida então? Seria jogado num bar com outras putas e se deixaria ser estuprado? Não... não queria ser descartado por um... defeito.

Agora, seu olhar já não era tão estoico – oscilava radicalmente entre duvidosos sentimentos, na verdade –. O que se via nele era a tristeza, pura e profunda. Imundo, descartável, promíscuo, insignificante. Esse era ele para Kanou-kun.

Checou o relógio pendurado na parede. Meio-dia. Hora de almoçar. Esquecera-se de fazer as compras e não tinha o mínimo de fome. O mais velho quando podia apenas jantava consigo. Levantou-se, sairia para fazer as compras. Tinha que pelo menos ter os ingredientes prontos para o uso.

Calçou novamente os sapatos, abriu a porta e dirigiu-se ao elevador. Estranhamente, notou ao lado deste uma porta que nunca percebera antes. Nela, o aviso:

Saída de Emergência.

Escadas.

Escadas. Escadas. A palavra ecoava em sua mente enquanto as engrenagens começavam a funcionar. Abriu a porta sem hesitar e se deparou com os ditos cujos degraus. Chegaria até o térreo por lá dessa vez. E daria um jeito de que o motorista encarregado de si não o visse, pois este sempre estava à posto para servi-lo, como Kanou mandara. O contratara também para que Ayase não fugisse, ou seja, estaria sempre esperando na entrada da frente do prédio.

Olhou para baixo, o pé da escada. Não eram poucos os degraus... Se caísse dali para lá... doeria? Seria mais doloroso que as palavras de Kanou-kun? Sobrepor-se-ia a isso?

Não custava tentar.

Desceu um degrau, mais outro, e mais outro, até que finalmente fez com que seus pés não mais suportassem o próprio peso do corpo. Não deu em outra: foi rolando escada a baixo. E num baque seco, oco e alto, se encontrou de bruços com o chão.

Dor. Foi o que sentiu, e um pouco de falta de ar. Incrível. Por um segundo, esquecera-se de sua tristeza, apesar de não demonstrá-la como de costume. Entretanto, ela voltou, forte como antes; e só restava à Ayase repetir o que fizera. Uma vez após a outra, rolava escada a baixo, e aos poucos, grandes e arroxeados hematomas apareceram em sua pele, que antes era tão branca e imaculada. Bem... quer dizer... imaculada na medida do possível, pois chupões e mordidas sempre eram visíveis na pele do loirinho.

Por uns curtos segundos, ele parava de sentir sua dor emocional para sentir a física, e isso lhe fazia bem, mas não menos triste. Quando viu, já havia chegado ao Térreo, e, lenta e astutamente, chegou à rua sem que o motorista o visse.

Talvez se fosse outra situação, o menor tivesse percebido os olhares curiosos que eram jogados sobre si na rua. Um menino lindo, mas entupido de hematomas e outros machucados – sem contar nos olhos vazios que detinha, vestindo roupas da melhor qualidade, só que meio sujas e amassadas. Uma cena estranha, saída de um filme quem sabe.

Desta vez, foi muito objetivo, comprou o que viera comprar no supermercado e nada mais, apenas ingredientes para a janta. Geralmente, comprava guloseimas ou até coisas para comer de lanche durante a noite, à tarde, de manhã... Mas agora...

No mesmo estado de espírito que viera, foi-se. Novamente era vítima de olhares e cochichos. “Que hematomas são esses?”, “Por que ele anda como se estivesse em transe?”, “Olha que menino estranho!”.

Fez o mesmo que da última vez: escondeu-se do motorista, desta vez, subiu o elevador, abriu a porta, retirou os sapatos, e se deixou dolorosamente cair no chão, de bruços. Embora a dor fosse mais fraca, serviu para alguma coisa.

Já ouvira falar dessas pessoas que machucavam a si mesmas por algum motivo, e não as entendia e a seus porquês. Porém agora, compreendia o que procuravam com isso. Talvez... talvez não pudessem chorar, como ele; queria-... queria mesmo que as gotas salgadas caíssem de seus orbes, mas parecia que tudo havia secado... e se tornado um nó na garganta. Ou talvez a dor física fosse apenas mais branda que a emocional.

Seu peito pulsava em pesar, ouvia as batidas descompassadas do coração, e seu corpo se lembrava do alívio que o flagelo causava. Só que mais uma vez seria demais, não? Já seria difícil explicar o porquê dos demais hematomas... Talvez Kanou o descartasse por não querer mais seu corpo...

Não tinha esse tipo de ideias antes, por que as tinha agora?! Por que...

Mirou o relógio: quatro horas da tarde. Dali a algumas horas prepararia o jantar. No entanto, que faria agora? Nada. Essa era a resposta, ficaria lá, de bruços, esperando o tempo passar. Não que quisesse fazer algo mesmo. Não queria falar. Não queria pensar. Queria ficar quieto. Vazio.

Kanou...-san voltaria da mesma maneira que usualmente: excitado, desejoso por possuir seu corpo. E o menor cederia, como sempre. Estranhamente... aceitou esse fato com facilidade. Cederia e pronto. Uma vez ao dia, duas no máximo. Passaria rápido.

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Somuku-sama não via a hora de voltar para casa e envolver Ayase em seus braços, era só esperar o elevador e voilà!, teria o menino sob si, possuindo-o e acarinhando-o com todo seu amor, mesmo que não fosse recíproco... Mas era um homem, que apesar de estar apaixonado, via tudo racionalmente, então não via grandes problemas nisso, desde que o tivesse ao seu lado.

“Deus... quantas vezes repeti isso a mim mesmo?”

Abriu a porta – aberta. — Tadaima...! — olhou ao redor, e... — Ayase? Onde você está? Ayase? — a sua frente apareceu um Ayase todo sorridente. Este, que geralmente vestia o pijama enorme do mais velho, trajava desta vez apenas a parte de cima do conjunto, dando visão às lindas e alvas pernas. Kanou abismou-se quando foi abraçado e beijado levemente nos lábios. Simples mas desinibido. Estranho... — A-Ayase, o que temos para jantar hoje?

— Um prato ocidental, Kanou-san! Sei que gosta dessa cozinha, então o preparei para você! — puxou-o até a cadeira, o fez sentar-se nela, e logo se sentou na de fronte. — Vamos, coma! — sorriu.

Havia algo anormal naquela situação... Mirou o rosto angelical, e foi aí que viu. — Ayase! Por que seu rosto está com hematomas?!

O outro deu um sincero sorriso, parecendo se divertir com a lembrança — Ah!, hihihi. É que sou muito desligado! Para fazer as compras hoje, eu resolvi ir pela escada do prédio, mas acabei me desequilibrando e caí dela! Não se preocupe, não foi nada! — Neste momento, Kanou confirmou suas suspeitas, Ayase não se comportava como de costume... Sorria demais, envergonhava-se de menos. E quando olhou para seus orbes... seu coração apertou-se: as piscinas azuis que tanto amava encontravam-se nebulosas, e embora houvesse um sorriso estampado no rosto, as piscinas nem chegavam a esboçar felicidade; na verdade, pareciam mais... vazias.

Envergonhou-se de si mesmo, chocara-se tanto com a recepção que tivera que nem percebeu as manchas arroxeadas sobre todo o corpo magro. No pescoço, no rosto, nos braços sob a manga comprida, nas pernas que tanto mirava há uns minutos atrás.

Havia algo errado.

Havia algo errado.

Havia algo errado.

Era só nessas três palavras que pensava.

E, apesar disso, não queria acreditar nos próprios pensamentos. Por que Ayase agiria tão estranho essa noite? O que houvera para isso acontecer? — Não vai comer, Ayase? — indagou, percebendo que apenas um prato estava posto sobre a mesa: o seu.

— Já comi, Kanou-san, é que estava com muita fome, por isso resolvi comer antes. — mentira... Mentira! Ayase nunca ficaria estranho por vontade própria... Não... Não queria que isso acontecesse.

Talvez... fosse invenção de sua mente. Teria que conferir. Levantou-se, pegou o menor pelo pulso e jogou-o no chão, logo ficando em cima dele, mas sem pressioná-lo com seu peso. Lambeu seus lábios.

— Ah... Kanou-san...

Ótimo, ele gemera, era a mesma voz. Mirou o provavelmente já envergonhado rosto do loiro, que afinal, não tinha um mínimo rubor. Apenas... um gentil sorriso. Um lindo sorriso... mas tão vazio. Ele via, não era burro; que apenas seus lábios sorriam. Seus orbes nem chegavam a demonstrar algum sentimento. Completamente vazios e nebulosos.

Kanou não se aguentava de desejo naquela noite. E não deixaria de possuir seu amado Ayase por nada. Mas não sentiu o prazer que geralmente sentia. Sabia que algo estava errado. E duvidava que Ayase tivesse sentido o mesmo de sempre. Os gemidos, apesar de a voz ser a mesma, eram mais escassos, os rubores no rosto não se faziam presentes. Apenas aquele sorriso...

Aquele sorriso... era uma mentira.

O que Ayase escondia?

_-_-_-_-_

No dia posterior, o loirinho acordou com a claridade que entrava por entre as frestas das cortinas sedosas da janela. Eram cortinas da melhor qualidade, daquelas que mesmo se guardasse todas as suas economias dos trabalhos que já teve, não conseguiria comprar.

Mas acordou sozinho.

Mesmo sonolento, a primeira coisa que sentiu foi em como a cama parecia enormemente vazia e fria com apenas ele nela. O lado direito dela, apesar de vagamente desarrumado, quase não dava nenhum sinal de que alguém passara a noite deitado ali.

Ao seu lado.

Deitou-se, fechou os olhos, e deslizou o braço direito pelo lado desocupado dos lençóis-de-baixo da cama. O lado de Kanou-san. E que desagradável sensação quando o tato de seus dedos, antes macio, passou a ser “seco” e um pouco áspero.

Conhecia muito bem aquela forma: cédulas. Cédulas de dinheiro. Yen.

“Oh, tenho que agradecer a minha sorte, sou uma puta cara”. < Não reconheceu o próprio pensamento. Ele não era do tipo que fazia essas ironias secas e cruéis. Nem consigo e nem com os outros.

Mas quem disse que estava dentro de si?

Na verdade, mal sabia o porquê de estar tão deprimido – pois, Ah!, isso reconhecia que estava!–. Ele apenas fora chamado de puta. Pessoas eram chamadas disso todos os dias e nem se abalavam, sendo verdade ou não. Às vezes até levavam na brincadeira. Às vezes até erabrincadeira.

Mas no caso dele não era. Apenas não era. Aquelas quatro letras decisivamente definiam Ayase naquela situação. Eram o espelho dele praticamente. E quando a verdade veio, nua e crua, sem filtros... Não podia negá-la, não podia ignorá-la, ela tão só veio, obrigando-o a aceitá-la.

Era difícil fazer isso... aceitar a natureza de sua condição. Mas entendê-la não... não era nem um pouco complicado entendê-la...

Sujo.

Fútil.

Descartável.

Descartável.

Descartável...

A bela puta submissa de Kanou-san. Ele mesmo dissera isso. “Você é uma puta[...]”... “Eu pago[...]”... “[...]puta por opção[...]”... Flashes de memórias passavam rapidamente por sua mente, claras o bastante para fazer a dor emocional vir mais forte do que nunca.

Ora vazio... Ora cheio de tristeza. Isso se tornaria um ciclo.

“Ignore-a. Ignore-a”, pensou.

Levantou-se como se seu corpo inteiro pesasse muito. E pesava mesmo. Havia o mal-estar, o exaustão, a dor no traseiro e os hematomas que infligira em si mesmo na véspera.

Mirou o dinheiro a seu lado com olhos frívolos e inexpressíveis (Ora vazio ora triste...). Agarrou-os com suas mãos pequenas. Algumas notas passando e caindo por entre as frestas dos dedos finos. E amassou-os, apertou-os, até os nós das juntas de seus dedos ficarem brancos. E se você pensa que nada podia pará-lo agora, está errado. A desistência e a resignação chegaram arrebatando o loirinho.

Do que adiantava o que fazia?

Organizou tremulamente as odiosas notas de Yen. Guardou-as numa caixinha onde se encontrava “o resto”. Um dia... teria que usar todo aquele dinheiro... Ou Não.

_-_-_-_-_

A comida lhe parecia insossa. Forçou-se a comer dessa vez: um café-da-manhã. Ontem não havia se alimentado de nada, nem café nem almoço nem jantar e, se emagrecesse demais, Somuko-san notaria. Visto que sempre morou sozinho, cozinhava muito bem, então obviamente a comida não sabia mal por mau uso dos ingredientes. Era ele. Sua boca passou a sempre estar seca e com um gosto horrível. O tipo de gosto que se fica na boca quando se está com febre. Então, por mais saborosa que estivesse, o alimento não lhe cairia bem.

Sem comer nem metade do prato, largou-o e se levantou. Dirigiu-se de maneira arrastada a sala de estar, e mirou mais uma vez o recado deixado na mesinha que encontrara há uma meia-hora atrás.

“Fui trabalhar. Não vou almoçar com você hoje.

Espero que tenha tido uma noite boa”.

“Novidade”. Kanou quase nunca conseguia almoçar com Ayase, por causa do trabalho; mas nos últimos meses suas “passadas” em casa quase não existiam. Ele mal dava as caras durante o dia.

Noite boa... Noite boa... É, ele com certeza teve uma noite maravilhosa. Recheada de prazer, gemidos, toques... Mas ele não queria prazer, e também, não queria dinheiro. Além do mais, Kanou assumira por si mesmo que Ayase precisaria deste.

Cerrou os olhos e balançou a cabeça, descrente. Não gostava nada de estar tão atípico de si mesmo. Cínico.

Lembrou-se então de seus hematomas. Melhoraram um pouco, do roxo a um amarelado. Ainda doía – reconfortante dor–, mas o tom amarelo do machucado misturava-se à tez de sua pele alva.

Lembrou-se que hoje, quem estaria levando-o e trazendo-o para todos os lugares não seria o trivial motorista, e sim Homare Kuba. Isso não era incomum, visto que o patrão confiava mais nele que no homem que recém contratara. Kuba nunca comia consigo, nunca, então não prepararia o almoço. Nem se fosse para ele mesmo comê-lo.

As escadas salvadoras da véspera não eram uma opção hoje. Cair de alguns degraus apenas – como havia mentido – e se machucar tanto já é duvidoso, se caísse outra vez, a mentira não funcionaria.

_-_-_-_-_

— Olá, Kuba-san. — pronunciou Ayase, entrando no carro. Seu tom de voz era feliz, a curva que seus lábios faziam demonstrava isso, mas não seus olhos. Não, não seus olhos. Como poderia isso acontecer no estado em que estava?

E é neste momento que percebemos o quanto Ayase é um mau mentiroso. Kuba, mesmo apaixonado por Ayase, não o conhecia muito bem. Não o fazia há anos como Kanou. Não convivia muito com ele como Someya. E mesmo assim, captou a aura depressiva em volta do menino, e captou também a inexpressividade de seus orbes.

Só de mirá-lo, já lhe assolava a vontade de chorar, ou pelo menos a tristeza absoluta. “Oh, Ayase... Por que está assim?”. Como o amava... e fora tão de repente. Abaixara um pouco a guarda, e quando tentou reerguê-la, a sementinha de amor que o loiro brotara em si já não deixava.

E não podia nem sucumbir a este, porque era o amado amante de seu chefe. O que o tirou das ruas, por assim dizer.

Merda. Merda. Por que era tudo tão complicado?

Balançou a cabeça, desesperado por tirar esses pessimismos da mente. O levaria à casa de Someya, o destino de hoje. Era ele o encarregado da compra de roupas de Ayase. E faziam isso uma vez a cada mês: compras. Por insistência de Someya, claro.

_-_-_-_-_

Abriu a porta de trás do carro, de onde Ayase saiu. — Obrigado por me trazer até aqui, Kuba-san. Você me busca depois?

— C-como assim, Ayase? Fui ordenado a ficar até o fim com vo-

— Eu sei! Mas quero ficar apenas com Someya-san hoje. Para conversar um pouco, entende? — era mentira, uma das feias.

— S-sim, Ayase, vou fazer o que você pede. Mas se Kanou-sama descobrir... — falou, sem ter muita confiança no que fazia.

— Eu arcarei com as consequências. — putas geralmente fogem quando arranjam problemas com seus clientes? Bem, ele não faria isso.

Homare assentiu. Entrou no carro enquanto Ayase entrava no Hall do luxuoso prédio em que Kaoruko morava. Enquanto passava pelas ruas rodeadas de prédios e de gente, não deixou de pensar no quão estranho comportava-se Ayase.

E aquele sorriso... Aquele sorriso era uma mentira.

O que Ayase escondia?

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Someya Kaoruko lia uma revista de moda qualquer quando ouviu o som da tão esperada campainha. Levantou-se jogando descuidadamente a revista no chão. Abriu a porta com o sorriso maior que o mundo...

... Sorriso esse que morreu logo em seguida.

Não gostou nada da curva da boca que Ayase lhe exibia. Porque essa curva simplesmente não era dele. Sabe-se lá por quê... O ângulo, a curvatura, a cor de sua boca não era normal... Na verdade, era extremamente aberrante. Algo como... Uma tristeza, uma áurea de depressão pairava sobre o loirinho.

Aquela energia lhe fazia mal.

Quando foi olhar em seus olhos para falar-lhe, sua boca permaneceu escancarada. Catatônico. Isso o descrevia neste momento.

— Aya-chan... Você colocou alguma lente de contato fosca ou algo do tipo...? — sua voz tinha um misto de temor e curiosidade.

— Lente fosca? Claro que não, Kaoruko-san! Por que eu faria isso? — riu graciosamente, mesmo que de maneira falsa – coisa que ele não sabia que fazia. — Meu olho está estranho ou algo do tipo? — tocou levemente de baixo de seu olho esquerdo. Logo após levou os dedos ao cabelo e mirou o chão. Um lampejo da verdadeira tristeza que afetava Ayase passou por suas íris – milésimos de segundo. E com isso, Someya Kaoruko entendeu o que se passava. Por ser mulher, era mais perceptiva que os homens comuns. Entendia a mente feminina.

Agarrou bruscamente o pulso do menino, até fazer marcas. Puxou-o para dentro, jogou-o no sofá. Falava muito devagar e seu tom de voz era sereno, diferenciando-se de sua expressão — O que aconteceu, Ayase? Responda.

O outro se endireitou no sofá, apreciando a pequena dor que a recém-brusquidão lhe causara. — Do que está falando Kaoruko-san? Aconteceu alguma coisa? Você não pode estar se confundindo? Não sei de nada do que está falando... — e era mesmo, não sabia. Não sabia de nada. Nada.

O belo travesti mal conseguia olhar a mirada tenebrosa que lhe era lançada. Era como se tivessem nuvens carregadas de chuva no lugar do brilhante azul-piscina. Talvez você pense que ele exagerava um pouco, mas não. Se você, caro leitor, estivesse lá, saberia, e entenderia a situação em que se encontrava o pequeno Yukiya. Deplorável. E falsa. Mentirosa.

Ayase tentava esconder sua agonia a todo custo. Tinha medo de alguma coisa...

“Foi Kanou”, Kaoruko deduziu.

A boca rosada continuava sorrindo. Descaradamente.

— Ayase, você está estranho. Seu sorriso não é o mesmo, nem feliz é. Pra falar a verdade, parece até que você não está pensando direito! Por que se move tão no automático, hein?! Por que seus olhos estão tão sem vida...?! — a essa altura já quase gritava. Aquela expressão afetara-o mais do que queria.

Porque ela era simplesmente... Surreal. Parecia o tipo de tristeza que se vê no rosto de uma pessoa sem mais nenhuma vontade de viver. O tipo de tristeza que só se vê descrito em histórias.

Ayase pareceu pensar um pouco nisso, com a cabeça baixa e olhando para nada. No entanto, logo em seguida olhou bem nos olhos do/a mais velho/a e sorriu. Um sorriso gentil, belo, quase que uma pintura, mas incontestavelmente triste e vazio.

Pensar que havia tal tristeza no mundo fez Someya querer vomitar.

Ou melhor, pensar que havia algo capaz de originar essa tristeza nessa pessoa em especial é que fazia.

Na boa, ele era um travesti, conhecia muitas pessoas, conhecia os sentimentos que levavam uma pessoa a se mutilar ou a se suicidar por não aceitar quem realmente era. Ayase passara por muitas coisas dolorosas e difíceis na vida, mas se ele, Kaoruko Someya, não entendia a dor do loirinho, devia ser algo sério.

O que quer que fosse o causador disso, importava muito a Ayase. Poderia ser o que mais lhe importava na vida. Uma esperança destruída talvez? Medo de perder algo? Esse tipo de coisa leva o ser humano a comportar-se muito atipicamente de sua personalidade original.

Uma suposição formulada um pouco antes foi proferida bela boca pintada — Tem algo a ver com Kanou, não tem? — os olhos do menor pareceram oscilar por um milésimo de segundo, tão rápido que nem parecia ter existido.

Ayase fez parecer que fora um ledo engano do outro. Sorriu lindamente, se levantou — Por que haveria de ser ele, Someya-san? Ele é tão bom pra mim. Salvou-me, me dá de comer, de dormir... Ele é bom comigo... até quando fazemos se-...xo. — proferiu num disparate, quer dizer, não pensava muito no presente momento. Somente disse o que pensava – ou o que tentava se convencer de que era algo bom.

O sangue do de cabelos negros gelou. Kanou havia mesmo começado a relação deles como um “negócio”... Quer dizer, Ayase fora comprado por Kanou, não? Ele era um... Escravo ou algo do tipo? Só que... Eles ainda pensavam que continuava assim?! Os dois? Ou era apenas ideia de Ayase?

Sentiu ânsia de vômito novamente, mas desta vez foi por repulsa mesmo. Que coisa mais... suja e cruel Ayase dissera. Tratara isso como se fosse uma... obrigação, um trabalho. Sexo, amor. Ele mesmo se tratara como uma... puta ou um escravo..

Ergueu os olhos para repreendê-lo com tudo o que tinha de ataque verbal, e um pouco da verdade pôde se ver nas íris do outro. Tinha a ver com Kanou, com certeza.

O de piscinas azuis – agora opacos azuis – permanecia com o sorriso no rosto, mas via-se que forçava os olhos para mantê-los abertos e que seus lábios e queixo estavam trêmulos. Queria chorar. Claro que sim, lembrando-se do que era.

Este último só ouviu passos duros e ocos em sua direção antes de sentir a face esquerda quente pelo tapa em si desferido. A força não havia sido pouca – afinal, Someya era homem–, por isso, caiu de bunda no chão, chocando a cabeça com a parede.

Dor. A dor veio. E apreciou-a, gostou dela. Por um pequeno momento havia esquecido o quanto amava Kanou e o quanto significava pra ele. Puta.

Puta.

Desesperado por conseguir mais alívio, ele olvidou-se de onde estava e simplesmente levantou-se e agarrou os braços de Someya — Faça-o. Faça-o de novo — Seu agarre era frouxo e gentil. Mas seus olhos não mostravam isso. Além disso, achavam-se mais etéreos que antes.

— Eh...? O-O que, Aya-chan? Como assi- — e então percebeu. Empurrá-lo? Empurrá-lo novamente? Com a força que o fizera? O que Ayase estava tentando(?), ficar cheio de hematom- — AYASE! Isso... Isso são hematomas em você? Como? Por quê? Quando? — as marcas do flagelo eram amareladas. E a pele em que foram gravadas era quase tão branca como a neve. As duas colorações de misturavam de forma surpreendente.

— E-eu caí da escada do prédio ontem. Eu sou bem desastrado, não...? — Tentou sorrir, manter a fachada era necessário agora. Esforçou-se, esforçou-se mesmo. Mas desta vez era quase impossível. Someya o colocara entre a cruz e a espada agora há pouco; jogara-o no chão – aliviando-o–. Eram lembranças demais do acontecido. Lamentou não poder voltar a seu estado indiferente justo nesse momento. Sentia a dor emocional agora... NÃO! Tentaria não se lembrar. Queria. Precisava. — F-faça de novo.

Não havia nenhuma coerência no que falava... “Como assim ‘Faça de novo’? Ele endoideceu? Ayase é um masoquista? Essa é nova... Não... tem que haver algo errado...” — A-aconteceu alguma coisa, Aya-chan? Se-se você quiser conversar sobre isso, s-sou toda ouvidos.

Ele soltou-a repentinamente, lhe caindo a ficha de supetão. O que fazia? Agindo de forma tão suspeita... Com os braços pendendo, e a cabeça baixa, levantou-a [a cabeça] repentinamente, com um sorriso enorme — AH! Desculpe-me, Someya-san! Acho que dormi mal essa noite. Bem, será que podemos deixar pra depois a nossa saída? Acabei de notar que estou um pouco cansado...

“Ele está mentindo. Ele está mentindo”.

As feições de Someya de repente passaram de confusas para muito sérias. Quase que odiosas. Ordenou que Ayase o esperasse como estava enquanto buscava uma coisa em seu quarto. Ele fez o que ela mandara.

A dona da casa voltou mais rápido que o esperado, com as mãos carregando várias roupas lindíssimas e caras. Jogou tudo em cima de Ayase. — Leve isso por hoje, Ayase. São roupas que planejava dar-lhe quando voltássemos das compras. Apareceu um imprevisto e não vamos poder sair hoje. Talvez outro dia talvez, ok? — Sorriu fracamente, ignorando a óbvia desconfiança do menor. — Eu chamei Kuba lá do meu quarto. — Mostrou o celular em mãos. — É só você descer, ele já deve estar esperando.

Ayase, ainda com o sorriso, foi-se. Estranhara os atos de sua amiga, mas o que poderia fazer?

— Droga! — praguejou. Estava tão irritada... A situação de Ayase no momento era simplesmente amedrontadora. Ele constantemente oscilava seus olhares do estoico para o puramente triste. E aquele sorrisinho sempre presente...

Parece que isso afetara Someya mais que o esperado.

“Foi Kanou. Foi Kanou.”

Não perdeu tempo com o celular. Digitou os números rapidamente e levou o objeto ao ouvido. Demorou um pouco para ser atendido, mas quando ouviu a voz grave de Kanou, desatou a gritar. — O que você fez, Kanou?! Como se atreve a fazer isso com Ayase?! — gritou alto o bastante para fazer toda a vizinhança ouvir. E os homens com quem o outro fazia negócio também.

— S-Someya? Não vê que estou ocupado agora?! Depois nos falam-

— Não! Será agora! Ayase está parecendo um robô! Seu olhar também... está estranho...! E o que são aqueles hematomas? VOCÊ BATEU NELE POR UMA ACASO, KANOU?! — parou de falar, ofegante — IDIOTA! — e jogou o celular na parede, com tudo.

Não... Não queria ver Ayase assim. Isso simplesmente não era... normal.

Estava ofegante... e cansada. Olhou o celular, espatifado no chão. Droga... descontara quase toda a raiva e confusão nele... Compraria outro no dia seguinte.

Sentou-se no chão, abraçando os joelhos. Queria pensar... limpar a mente.

“Ayase... O que aconteceu?”

E aquele sorriso... Aquele sorriso era uma mentira.

O que Ayase escondia?

_-_-_-_-_

Somuku-sama entrou no elevador com pressa, queria chegar em casa logo. O comportamento de Ayase na noite anterior o inquietava, assim como a ligação de Someya no meio de uma reunião de negócios. Porém sua ansiosidade para ver a pessoa amada não diminuía. Sentia-se assim desde que comprara o garoto. Não podia evitar, afinal.

Abriu a porta.

— Tadaima.

— Okaeri, Kanou-san! — foi recebido com um abraço, um selinho e um sorriso. Mirou primeiro a pele do garoto; ótimo, os suspeitosos hematomas já se estavam curando. E então, voltou a atenção para os orbes azuis, ansiando por um brilho feliz. Decepcionou-se, não com ele, mas consigo mesmo. A pessoa que amava tinha os olhos nebulosos e instáveis entre a indiferença e a melancolia – o que querendo ou não era meio já era meio... – e nem mesmo sabia por quê?

— Fiz o jantar, Kanou-san! Coma antes que esfrie. — foi tipicamente amável. Os dois sentaram-se à mesa, mas...

— Não vai comer, Ayase?

— Ah... comi demais no almoço — era mentira, nem almoçara. — Estou sem fome agora.

— Ayase, coma.

— Estou sem fome, Kanou-san. — persistiu

Kanou não se aguentou de raiva, confusão, desespero pelo “volta” de Ayase. Ele estava muito diferente. Queria que ele voltasse. Queria Ayase de volta. Levantou-se de supetão, e com o braço esquerdo jogou varreu toda a comida servida ao chão.

Ayase se assustou, um pouco do sentimento verdadeiro refletido em seus olhos.

De repente, foi agarrado pelos braços e jogado ao chão, com o maior sobre si. — Ayase, o que há com você?! Ayase! Não é para você estar assim! Alguém lhe machucou? Disseram-lhe algo? Me fale Ayase, que acabarei com a pessoa em uma fração de segundo!

Riu com escárnio internamente. Não sabia o porquê de Kanou-san agir tão preocupadamente agora, talvez fosse um sentimento de possessividade com relação a ele... Ayase poderia dizer a verdade, que uma palavra o deixara assim. Mas de nada adiantaria, porque o causador disso era a própria pessoa que lhe inquiria. Porque mesmo se dissesse, nada mudaria. Simplesmente porque era verdade.

Ayase estava tão lindo... Esparramado no chão; os cabelos desordenados, com ele sobre si. Não se aguentou, acariciou-o sob a camisa fina. Kanou mordeu o próprio lábio inferior, com ódio pelo que fazia. Por que não conseguia reter-se com Ayase? Por quê? “Desculpe-me, Ayase. Desculpe-me”.

“Vai começar de novo... Aguente um pouco”, pensando isso, deu um pequeno gemido e abraçou o pescoço de Somuku-sama.

_-_-_-_-_

Os raios de sol entraram timidamente pela fresta da janela e se chocaram contra as pálpebras fechadas do loiro. Sob os lençóis desordenados, o menino encontrava-se novamente cheio de hematomas; mas estes hematomas não eram de se autoflagelar, como fizera antes, e sim de beijos e chupões e mordidas. Ao seu lado, os lençóis estavam igualmente bagunçados, porém vazios. Quer dizer, a não ser pelo monte de dinheiro jogado descuidadamente.

Mas Ayase ainda não tinha visto isso.

Acordou vagarosamente, sentindo sobre si uma brisa imaginária que o deixava com mais frio ainda.

Ah é, lembrou-se, estava nu. E com poucos lençóis sobre si.

Não sentiu o calor que sentia às vezes – poucas, admitia – irradiando da outra parte da cama. Então, Kanou já se fora... Passou a mão ali, tentando sentir um pouco do calor do homem, porém, não sentiu nada além da áspera textura das tão conhecidas notas de Yen. Fez uma careta de pura dor.

Dinheiro.

Um pouco sem ar, ergueu-se até estar completamente apoiado pelos pés no chão. Foi até os armários, abriu-os, pegou um conjunto de roupas qualquer. Vestiu-se, e no mesmo ânimo – nenhum – levou-se à cozinha.

Dinheiro.

Abriu a geladeira, pegando um pote de vidro com manteiga dentro. Por causa das mãos trêmulas, não pôde suportá-lo, caiu em um grande baque no chão, por pouco não pegou os delicados pés.

Dinheiro.

Agachou-se para catar, no entanto a única coisa que conseguiu foi um belo corte no dedo. Olhou o corte, sem interesse.

Dinheiro.

Esquece, pensou. Foi fazer outra coisa; pegou a frigideira, colocou-a cobre o fogão desligado, pegou o ovo na geladeira, mas deixou-o cair, outra vez.

Dinheiro.

Dirigiu-se lentamente a um canto da cozinha, visando pegar outra coisa. Dessa vez, foi ele quem caiu, não estava com ânimos para manter a si mesmo de pé. Arrastou-se até os armários de baixo, recostou-se neles, e abraçou os joelhos, apoiando a cara sobre eles também. Por lá ficou.

Dinheiro...

Dinheiro.

Dinheiro!

Não aguentava mais!

Levantou-se tão rápido que a tontura levou-o ao chão novamente.

Dor.

Ainda meio tonto, ergueu-se velozmente e voltou ao quarto, onde tudo começara.

Com uma sacola de pano arranjada no armário, arremessou ao chão a gaveta na qual guardava o odioso dinheiro de seu trabalho. Afoitamente, colocou-o dentro do invólucro.

Terminada essa tarefa, avistou de esguelha o bar da casa. Bebidas alcoólicas. Beberia só um pouco.

_-_-_-_-_

Encontrava-se na saída do prédio de Somuku Kanou. A saída dos empregados, mas a saída. Acomodada em seus braços, a bolsa entupida de notas verdes transbordava dinheiro, que eventualmente caía como plumas pelo chão, à medida que andava.

Como se não fosse loucura – afinal, estava meio alto –, pegou a sacola pelo final e virou-a de cabeça para baixo; a cor verde jorrou aos baldes. Curvou-se e pegou apenas dois terços do que realmente havia. Deixou o resto lá enquanto seguia seu caminho: a rua.

Mesmo com o olhar perdido, vazio, etéreo, percebeu dessa vez o olhar de ganância, choque e estranhamento das pessoas. À proporção que andava, notas e notas caiam de seus braços, e alguém rapidamente se jogava para pegá-las. O dinheiro diminuía, e Ayase amava isso.

Aos poucos, não iam apenas duas ou três pessoas furtar o dinheiro, e sim quase multidões... Alguns eram mais ousados ainda, pegavam direto dos braços do loirinho, não se preocupando se a violência no ato machucá-lo-ia ou não. Não que ele se importasse.

Quanto mais andava, mas pessoas se juntavam as que já estavam em volta de si. E mais dinheiro era arrancado de sua mão. E mais sua pele era maculada pelos arranhões das unhas e beliscões não intencionais dos outros. Ayase não se importava.

Não se importava o quanto à reação daquelas pessoas para com o dinheiro era puramente animalesca, enquanto ele queria se livrar dele.

Não importava o quanto aquela situação era ensandecida. Surreal.

Não importava o quanto ela refletia a natureza humana mais do que tudo... Não que alguém notasse.

Ayase não era humano, por acaso? Então, havia algo de errado com ele?

Dinheiro... Argh!

Não importava o quanto era bizarro policiais terem deixado sua ética para se juntar àquela quase multidão.

Só lhe importava... O que lhe importava mesmo?

Ah, sim. Kanou...

Em meio esses devaneios, mirou à sua frente e deparou-se com Someya Kaoruko, alguém que não esperava encontrar, com certeza. Não... Não queria vê-la agora, não agora. Ela lhe agarraria, lhe perguntaria o que fazia... Não.

Largando todo o dinheiro no chão, e as mãos das pessoas passando de arranhar seus braços para arranhar o duro concreto, virou-se para a esquerda e simplesmente atravessou a rua, não olhando nem para um lado, nem para outro.

Ao longe, ouviu uma sonora buzina e, ao averiguar, descobriu que um carro vinha em alta velocidade em direção a si. Estava longe, isso era certo. Daria tempo para Ayase correr e sair do caminho.

Mas ele não pensou nisso. Na verdade, pensou só na reconfortante dor que isso causaria.

Não é que ele quisesse morrer.

Ele só não queria... Não queria pensar em nada agora.

Em sua inocência, não moveu nem um músculo. A última cena que viu foi um borrão preto. Só isso.

Se ele se movesse, se ao menos se movesse, daria tempo.

Assim como deu tempo do carro desacelerar a tempo de não haver uma concussão mais grave.

Mas foi uma concussão. Ayase fora jogado violentamente contra o asfalto duro.

Sangue, muito sangue.

Todos os presentes chocaram-se muito com o inesperado acidente. Dentre esses presentes, estava Someya Kaoruko. E foi como se para ela, tudo tivesse passado em câmera lenta.

Ayase...

A ambulância.

Sangue.

Sangue.

Sangue.

Ah, Meu Deus... Como contaria isso a Kanou?

_-_-_-_-_

O fenômeno do lindo garoto que saíra pelas ruas distribuindo dinheiro seria matéria de primeira página em todos os jornais do país – e do mundo também –, se não fosse pela enorme quantidade de contatos e chantagens que Somuku Kanou e Someya Kaoruko tinham para abafar isso perante as mídias.

Ayase era uma pessoa sortuda.

Ou não, talvez.

Ele encontrava-se agora desacordado no melhor hospital de Tókio, num quarto branco sem cheiro nenhum, com duas pessoas sentadas a seus lados. Kanou do esquerdo, Kaoruko do direito.

O ambiente lá não era o dos melhores:

— Por que não o parou, Someya?! Você deixou-o ficar nesse estado propositalmente, não é?! — era a quarta vez que Kanou lhe indagava isso, tamanha sua desesperação. Não era culpa de Someya, não vira Ayase antes do acidente; fora apenas à cidade para comprar um celular novo. Além do mais, o Somuku procurava um meio de tornar impossível seu maior medo.

O de a culpa ser dele, e somente dele.

— Já lhe expliquei o que aconteceu, Kanou! Não há mais o que explicar! O que aconteceu-

— O que aconteceu?! O que o fez agir assim?!

Levantou-se, arrastando a confortável cadeira um pouco para trás. — Eu não sei! Você notou o quanto ele tinha estado estranho ultimamente! Você notou, eu notei, até Kuba o fez! Você é o mais próximo de Ayase, você é que deveria saber o que ocorreu! — exprimiu tudo o que pensava, sentindo-se um pouco cansado depois de tanta adrenalina manifestada. Voltou a sentar-se.

A expressão de Kanou após ouvir isso não era a mais altiva, traduzia-se mesmo como a mais deplorável. Kaoruko se arrependeu um pouco. — Tem razão, não é? Eu... Eu jurei protegê-lo para mim mesmo. Eu que o amo e faria tudo por ele, mas...! Mas nem sei o motivo dessa tragédia ter acontecido. Nem sabia o porquê dele ter ficado tão estranho de um dia para o outro...! — apoiou os cotovelos nos joelhos, escondendo o rosto nas mãos — Que fracasso... Ayase...

Kaoruko deixou pender os ombros. Nunca vira Kanou assim: culpado, culpando-se. A tristeza dele era palpável.

Aí então percebeu, um fato estranho, bizarro, mas até que verdadeiro: se Ayase deixasse de viver, Kanou deixaria também. De melancolia, depressão quem sabe. Ou pior, ele poderia se tornar um homem com um caráter mil vezes pior ao do que ara antes de conhecer o loirinho.

“Ayase... se... se algo mais grave te ocorrer, não será só você que perderemos.”

Olhou o relógio do celular — Tenho que comparecer no Bar agora, vou indo. — se dirigiu à porta.

— Tá. — nem dirigiu seu olhar ao travesti, mirava apenas a Ayase.

Assim que chegou ao batente da porta, Kaoruko parou — Escuta... Kanou. Faz quase duas semanas que Ayase não abre os olhos. Esse tempo todo você não tem ido à nenhuma reunião, cancelou todos os compromissos... Mal tem saído dessa sala, na verdade. E... E se Ayase nunca acordar? Continuará com isso para sempre?

Kanou se inclinou um pouco, acariciando uma faceira mecha loira que caíra no rosto sereno do menor — Se for necessário.

“Necessário? O que quer dizer com isso?”, fechou a porta detrás de si.

“Ayase, acorde!”

_-_-_-_-_

Mais uns poucos dias passaram-se assim. Kanou quase não saía de perto de Ayase, nem para trabalhar. Ele simplesmente podia mandar um dos Kuba vigiar o garoto, mas quem disse que ele queria isso? Ninguém, ninguém, poderia visitar o acidentado; ninguém além dele próprio, os médicos e enfermeiras, e Kaoruko. E claro que não deixaria o Homare Kuba ver Ayase, eram rivais, de certo modo.

Somuku e Someya sempre estavam lá, no quarto, na maior parte do tempo. Cada um de um lado.

A euforia de ver as pálpebras se levantarem e mostrarem o lindo azul-piscina dos olhos de Ayase – que não estavam mais nublados, talvez pelo esquecimento momentâneo — veio apenas 16 dias após o atropelamento.

Ele virou a cabeça para o lado de Someya quando abriu os olhos, sentindo a cabeça latejar. Piscou muitas vezes até conseguir enxergar claramente, e quando o fez, se deparou com a “mulher” morena de pé, quase gritando — AYASE! Você está bem?! Quer que eu chame um médico?!

Ele suspirou, sentindo-se cansado. Cerrou os olhos mais uma vez, recordando-se finalmente do que acontecera. A conversa entre ele e Kanou, o dinheiro, o carro... Tudo. Não tinha muitas forças para virar e olhar em volta, mas se tentasse ouvir um pouco... a voz preocupada de Someya falando alguma coisa, passos lá fora, uma respiração pesada, a sua provavelmente.

Nem sinal de Somuku Kanou.

Quando Ayase fechara suas piscinas, Kaoruko lembrou-se do dono do menino. Ele estava duro na cadeira, sem nem conseguir se mexer. Apertava os braços dessa fortemente, seu rosto se contorcia em uma carranca. Ele parecia a ponto de chorar. Kanou fez menção de se levantar. Kaoruko gesticulou para que parasse, se mantivesse ali mesmo, caladinho. Tinha a impressão de que algo importante seria falado.

Ayase sentiu uma mão em seu ombro, e com esse toque, percebeu que mexer-se se tornara um pouquinho mais fácil depois desses minutos de recém-acordado — Aya-chan, como se sente?

— N-Não chame o médico agora, por favor. Estou bem.

— Sim. — acatou. Ficaram em silêncio, até que — Ayase... Por que você fez isso...? Quer dizer... Soubemos que você saiu por aí dando dinheiro, e quando viu que seria atropelado, nem se moveu!

— Ah... — olhava para o vazio agora, seus olhos voltando a ter essa qualidade também. — Eu não pensei nisso, na hora...

— Como assim não pensou?! Você queria morrer é?! — em resposta, o outro meneou a cabeça negativamente, como se a pergunta não fosse importante.

O pequeno sentia-se pesado, na verdade, sentia-se da mesma forma que antes do acidente, a diferença era que fingir estar feliz era trabalhoso demais agora. Queria apenas manter os olhos semiabertos e manter-se respirando. Sem falar. Sem chorar. — Eu... quebrei algum osso...?

— Uns maus-jeitos. Uma perna quebrada. Um braço torcido. Uma quase fratura na costela. Muitos ralados. Muitos hematomas. E você bateu a cabeça feio, vai demorar um pouco para a enxaqueca passar. Você ficou desacordado por mais ou menos duas semanas, Aya-chan, então o processo de recuperação acelerou-se, mas nem tudo sarou.. Pelo que o médico disse, mais uma semana e os hematomas e a leve dor na costela somem, mais uma ainda e se vão os ralados. Em dois/três meses no máximo sua perna e seu braço estarão totalmente curados.

— Ah... Que bom... — preparava-se para dormir. As pestanas pesadas...

— AYASE! Não durma! Pare de fugir das coisas, menino! — Fugir...? Ah... fugir, entendia agora... Será que fazia isso? Fugir?

Ele a olhou, com desinteresse — Fugir de quê, Kaoruko-san...? Não há do que fugir...

— Não se faça de idiota, Ayase, estou falando muito sé-

— Kaoruko-san...! Quanto uma meretriz de luxo ganha...? — tal como já fizera uma vez antes, na casa do travesti, disse apenas o que rondava seus pensamentos agora, sem se importar muito. Não havia com o que se importar, se dissesse, nada se resolveria, se não dissesse, o resultado seria o mesmo, não é...? Realmente a melhor opção sempre era omitir a verdade, mas aquele comentário... não tinha muito propósito, então não tinha problema...

— Uma-uma meretriz? Uma boa... Acho que 200.000 Yen. Por quê? — estranhou muito a pergunta, totalmente imprópria para a situação.

— Eu devo ser especial então... — sorriu tristemente e sussurrou para si mesmo, esperando que só ele ouvisse. Bem, não que se importasse muito com isso. Nada lhe importava agora — Eu ganho 500.000... — Kanou congelou ao ouvir isso, um comichão passando por sua espinha. “C-Como assim?”

A expressão de Kaoruko tornou-se séria e dura, estava quase entendendo o que acontecia. Fitou Kanou rapidamente, brava. — Explique isso melhor, Aya-chan.

Surpreendentemente, não se importou em contar o resto. Talvez precisasse disso. Talvez, se contasse, deixassem-no dormir. Nada seria concertado com aquilo, mas queria dormir... Ele virou-se para a esquerda, pendendo um braço para fora da cama. — Eu... Eu estou apaixonado, sabia, Kaoruko-san...?

Ofegou — Por quem, Ayase?

— Achei que fosse óbvio... Por Kanou. — Agora fora a vez de Kanou ofegar. Levantar-se-ia e abraçaria Ayase neste exato momento se Someya não lhe tivesse falado por linguagem visual que se mantivesse onde estava. — Sabe há quanto tempo...? Três anos... Sabia disso? — E então ele lhe contou: quando acolhera o mais velho, quando se apaixonaram, quando ele fora embora sem mais nem menos.

Kaoruko lembrava-se disso. Kanou fizera uns maus investimentos e desapareceu por uns meses... Ele havia parado na casa de Ayase?! Como nunca soubera disso...? E que filha da putice dele desaparecer...! Tinha uma ideia do porquê de ter feito isso, porém deixaria para o próprio homem resolver isso depois.

— E por que não fala isso a ele?

A voz dele ficou chorosa. Percebeu que as lágrimas que tinha engolido por tanto tempo em breve mostrar-se-iam. — E-Eu... Eu falei... Eu falei pra ele! E-Eu disse para esquecermos minha dívida e ficarmos juntos...! E-Eu achei que ele também gostava de mim! — abraçou o próprio corpo e pôs-se em posição fetal, ignorando as dores no corpo. Os cenhos estavam bastante franzidos, e as lágrimas presas nos orbes.

Someya olhou furiosamente para Kanou, que via e ouvia tudo perplexo. O travesti colocou uma mão sobre o ombro de Ayase, que se lembrava de tudo traumaticamente. — E ele não o faz, Ayase? Kanou não te corresponde?

O loirinho se acalmou, mas ainda meio trêmulo — Claro que não... Ao troco do quê ele me corresponderia? Um menino burro com cara de mulher que não sabe nada da vida? Percebi finalmente que há três anos... ele havia apenas me usado para ter um lugar para morar... Usou a mim e a meu corpo... — E permanecia tão, mas tão apaixonado por ele...!

Masoquista.

— Mas, Ayase! O que Kanou lhe disse? O que o fez pensar que ele apenas te usou?

— Eu sou pago para transar com ele, sabia, Someya-san? — perguntou e, ao perceber o rosto chocado do outro — Eu não queria fazer isso com Kanou-san no começo, então ele disse que era meu trabalho... Vez após vez... Eu acordava e ele nunca estava lá... Sei que é por causa do trabalho, mas... na cama só havia eu e-... e notas e notas de dinheiro... Isso... Is-Isso...

— É repugnante, ele praticamente te trata como uma puta. — os olhos do pequeno se chocaram, e Kaoruko nunca achou que poderia lançar o tipo de olhar que lançava à Kanou agora... Raiva... Raiva borbulhava em seu peito. No entanto o moreno nem a via: sentia vergonha, culpa e arrependimento. Escondia o rosto nas mãos.

— Eu nunca tinha notado isso... Eu não gostava do que fazia, claro, mas nem percebia... Só que... Quando disse pra ele que o amava... Ele me disse que... Que eu p-pertencia a ele, q-que mais que um escravo sexual, eu era sua puta, p-porque ele me pagava pra transar comig-

— Chega! Que coisa horrível, Ayase! — ela mesma sentiu vontade de chorar ao ouvir aquilo. Via o estado em que o menino encontrava-se, tentava esconder-se debaixo das cobertas hospitalares, tremendo, suando. — Por que não falou para ele? Por quê?

— Para quê? Para Ele se aborrecer comigo? Cansar-se de mim e jogar-me em um prostíbulo qualquer até pagar a dívida?!

— A-Ayase... Você... Realmente acha que Kanou faria isso...?

— Ele me usou não usou? Me deixava sozinho na cama somente com o pagamento, não é? Por que não faria isso? — Neste momento, Kaoruko, apesar do que Kanou fizera fosse horrível, sentiu muita pena dele.

Yukiya Ayase tinha perdido totalmente sua confiança em Somuku Kanou. Todas as demonstrações de carinho do maior para com Ayase não mais importavam nessa situação.

Kaoruko se levantou de supetão — O que eu tinha para fazer aqui acabou. Tchau, Ayase, boa sorte. — Virou-se para Kanou — E você, seu grande filho de uma puta feia, terá que reconquistá-lo sozinho.

Ao ouvir essa última frase, Ayase congelou. Assim que o barulho da porta fechando-se foi ouvido, sentou-se na cama e olhou para trás. Tudo passou em câmera lenta para si.

A visão de Kanou erguendo-se de uma cadeira. Fitando-o com algum tipo de pesar.

Não.

Não.

Não.

“Sorria. Sorria. Sorria”.

— K-Kanou-san! C-c-como está? Como têm sido essas últimas semanas...? — era difícil. Muito difícil. Lutava para parar as lágrimas que já caiam havia algum tempo, o queixo tremia, tentando esconder os soluços.

Os orbes de Ayase estavam desnublando-se.

Kanou levou a mão lentamente até o rosto de Ayase, tocando-o delicadamente. — Chore, Ayase, chore.

Arranhou as próprias pernas. Engoliu mais ainda o choro. Mordeu violentamente o lábio inferior, baixando a cabeça — K-Kanou-san... D-deixe-me f-ficar com voc-cê.. P-p-p-por favor! Eu pro-pro-m-meto que-

— Sou eu que lhe peço isso, Ayase... — e abraçou-o. Abraçou-o como nunca na vida abraçara alguém. Na verdade, achava que a única pessoa que uma vez abraçara era Ayase. Este último chocou-se com a ação atípica do maior, mas não foi desagradável. Não correspondeu, contudo não o afastou. Deixou-se ser envolvido por longos e fortes braços. Uns segundos em silêncio. — Ayase...?

— S-sim, Kanou-san...? — respondeu, com a voz não tão mais chorosa. As lágrimas tinham se acalmado, o rosto não mais contorcido, a tremulidão permanecia.

— Me perdoe... Por favor! Eu estava tão estressado e preocupado com meus próprios problemas que... Nem pensei em ouvir tudo o que você tinha a dizer...! — o outro nada respondeu, esperava que dissesse mais — Eu... Eu estava tão desesperado com a possibilidade de você me deixar que acabei te machucando, Ayase! Por favor...! — apertou-o mais ainda — Me perdoe! Não fique assim.

— K-Kanou-san... Não estou entendendo. — Diante da modesta e confusa face do pálido garoto, Kanou foi muito tentado a beijá-lo e fazer amor com ele até que não conseguisse andar.

Passou os dedos pela franja dourada, levando-a para trás. — Ayase, sabe por que desapareci do nada? Para não lhe envolver em problemas... Desde sempre estou envolvido com a máfia, corrupção... Logo que conseguisse de volta um pouco do meu dinheiro, claro que sairia de lá sem deixar rastros. Imagine o que fariam com você se descobrissem que é meu ponto fraco.

— P-Ponto fraco...?

— Quem você pensa que é a única pessoa que mais me importa nesse mundo?

— Você tem alguém assim, Kanou-san? — sua voz ficou subitamente triste, lamentando essa pessoa não ser ele próprio.

— Você, Ayase. Você me é a pessoa mais importante. Se você morresse, eu não suportaria. Ayase, eu te am- — foi ferozmente apartado por seu amado, que ávido por afastar-se do Somuku, caiu de bunda da cama com tudo.

— Ah.. Ah... Isso... Isso é m-muita informaç-ção para um dia só, sabe...? Você se importaria de ir embora, K-Kanou-san? E-Eu sei que isso é m-muito repentino, só que- — a expressão de seu rosto, além de desesperada, era confusa. Não sabia o que pensar. Não sabia se entendera direito, não queria ter falsas esperanças...

O moreno se aproximou do garoto, que se arrastou para trás até encostar-se na parede. O outro se agachou até encontrar-se quase na mesma altura que o choroso menino. Pôs suas duas mãos em seu rosto — Não! Não sairei daqui até entender! Ayase... Escute bem, feche os olhos e preste muita atenção no que vou te dizer: Eu-Te-A-Mo. Eu te amo, Ayase! Há três anos tenho estado perdidamente apaixonado por você! Acredite em mim! Eu sou sádico, cruel, egoísta, possessivo, mas isso não muda o fato de que eu amo você!

Ayase chorava copiosamente agora, as lágrimas voltaram com tudo — Ka-Ka-Kanou-san.. Eu n-n-não estou enten-d-d-dendo...! V-Você...

— Quando você se declarou para mim, eu estava muito preocupado com algumas coisas... Você, clientes, Homare Kuba...

— H-Homare Kub-ba-san...?

— Bem... É. Um dia você entenderá... Eu ouvi apenas uma parte do que você me disse e assumi a situação por mim mesmo! Ayase... Eu te amo! — Kanou então abraçou-o, enterrando a cabeça em seu pescoço, e disse, com a voz um pouco abafada — Por favor, fique comigo pra sempre.

E então, parou de chorar. Começava a acreditar no que lhe era dito. As lágrimas de tristeza simplesmente haviam acabado, não estavam presas, engolidas, apenas não existiam mais.

As lágrimas de tristeza foram-se.

Mas as de alegria...

— K-Kanou-s-san... Tu-Tudo b-bem se e-eu esperar d-demais-s...? Tudo bem s-se eu t-t-tem am-mar t-t-ambém-m?

A preocupação e culpa nas feições do mais velho extinguiram-se, ficou apenas um gentil sorriso em sua boca. — Espere tudo de mim, Ayase. — o loirinho finalmente retribuiu o abraço, sorrindo.

Sorrindo verdadeiramente.

Tanto sua boca, quanto seus olhos.

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_-_-_-_-_

Três meses depois.

— Tadaima — Kanou abriu a porta, com fome.

Com fome de Ayase, claro.

Eram 11 da noite, mas como prometera, veio à casa para jantar com o loirinho, que se sentia sozinho sem a sua presença durante o jantar, com medo de que voltasse só no dia seguinte. Ayase ainda permanecia um pouco frágil e inseguro com relação ao que acontecera meses antes e com seu atual relacionamento. Tornaram-se oficialmente amantes. Sem ‘trabalho escravo’. Sem ‘trabalho remunerado’. Amantes. Simplesmente por se amarem.

— Okaeri! — A pequena figura do dono de seus pensamentos apareceu na porta do quarto; o cabelo úmido e com apenas a parte de cima do pijama branco de Kanou que sempre usava. O a perna havia acabado de se recuperar, todavía sensível. O menino andava normalmente, mas com um cuidado à parte.

Aquela visão, Ayase de banho tomado, todo fresco e cheiroso, vestido daquela forma, não pode deixar Kanou mais louco. Ainda mais quando o menino foi abraçá-lo fortemente, escondendo seu rosto no peito do maior. Abraço esse, que foi correspondido.

— Olá, Ayase... — ditou amorosamente.

A comida de Ayase estava deliciosa, como sempre, mas não era esse tipo de alimento que queria essa noite. Queria tanto, mas tanto possuí-lo, fazê-lo seu, ouvir seus gemidos, mordê-lo até deixar marcas vermelhas, sentir o gosto e o aroma de seu prazer. Ah... Queria Ayase por inteiro...

Checou a perna recém-curada, e amaldiçoou-a, se não fosse por ela e pelo braço torcido... Poderia fazer tudo o que quisesse com o loirinho. Dois meses de espera, dois meses para poder fazer amor devidamente com o menor; quer dizer, haviam se tocados umas tantas vezes, porém nunca até o final, com penetração. Tinha medo de ser engolido pelo prazer e perder a noção do estado do pequeno, não queria machucá-lo.

Ayase enternecera-se com isso nesses meses. A cada dia tinha mais certeza de que o amor de Kanou por si era verdadeiro. E estava tão... eufórico. Eufórico com tudo, cada coisa que faziam juntos era para si uma experiência única. Queria fazer tudo com ele, até... aquilo. Sabia o quanto aquilo era bom, então fazê-lo com a convicção do amor recíproco devia ser devastador, em todos os sentidos da palavra. Além do mais, não admitiria nunca isso, contudo seus membros machucados eram mesmo... Inconvenientes.

Kanou terminou de comer, coisa que Ayase já havia feito — Obrigado pela comida, Ayase, estava realmente deliciosa. — Mirou o menino assentir, olhando pro’ prato vazio e envergonhado. Agradecia cada dia por seu modo tímido de agir ter voltado, corado, hesitante... Amava isso nele, apenas o deixava mais sexy. Continuou fitando-o, analisando cada pedaço de seu corpo; não se aguentava mais de desejo pelo menino. Poderia atacá-lo a qualquer momento. Teria que sair do recinto agora. Levantou-se — Bem... Já é mais de meia-noite, vou dormir, ok? — acariciou a cabeça loira e virou-se.

De repente, um barulho de cadeira arrastando-se foi ouvido, e Kanou sentiu finos braços abraçando-o por trás. — E-Escuta... Kanou-san... Eu já m-melhorei comp-pletamente então... Então t-t-tudo bem se... Se... Kanou-san... T-tudo bem se... — Ah... Fora como imaginara, não conseguia dizer, tamanha a vergonha. “Por Favor, Kanou-san, entenda o que eu quero dizer”; e foi exatamente isso que o maio fez, compreendera o que o menino queria, mas o choque, a incredulidade e a felicidade impediam-no de mexer-se.

Os braços folgaram ao redor de sua cintura — Ah... Bem... Deixa pra lá... Pode ir dormir, Kanou-sa-

— Ayase! — Dessa vez, fora o maior que o abraçou. — Você é tão fofo, pequeno... Tão lindo, tão sensual... — O menino corou. Beijaram-se, apaixonadamente. Kanou surpreendeu-se quando sentiu que Ayase já estava com a boca aberta, esperando ser invadido. As línguas enrolavam-se, batalhavam, dançavam uma com a outra, lutando por espaço, por mais toque... Kanou mordeu o lábio inferior de Ayase, o que foi respondido com um gemido abafado pelo beijo.

— Hunn! — A mão grande do mais velho foi até aquela parte do menor, que já estava semi-desperta.

— Já assim, Ayase...? Que corpo luxurioso o seu... — Sorriu maliciosamente, percebendo que o menor estava tão necessitado quanto ele próprio. Ele aferrou-se a blusa social chique do moreno.

— Ka-Kanou-san... — Kanou ergueu o menino em seus braços, ao que ele rondou-o com as pernas. Dirigiu-se ao seu quarto. Sem muito interesse, percebeu que era a primeira vez que faria sexo com Ayase em seu quarto, e não no do menor.

Mas era porque lá tinha um espelho maior.

Na cama, Ayase sentado em Kanou, a blusa aberta; o maior notou algo curioso: Ayase estava mais lascivo, ele gemia fartamente em meios aos toques de ambos, dava para sentir as leves contrações de prazer do menino, a vermelhidão de seu rosto, as arranhões que causava na pele morena do Seme.

Errara ao achar que o de orbes azuis estava tão necessitado de sexo quanto si. Ele estava mais necessitado. Riu internamente, e pensar que seu amado fosse tão pervertido...

Parou imediatamente de tocá-lo, para o desagrado do outro, que fez uma careta. Ficou imóvel, sentado na cama apoiando-se pelas mãos, com Ayase ainda em seu colo.

— Kanou-san... O... O que aconteceu? Fiz algo errado, Kanou-san...? — indagou inseguro, tinha mesmo feito algo que não devia? Em resposta, recebeu apenas um sorriso malicioso e misterioso. — Kaanoou-saan... P-Por favor... — implorou manhosamente, dando-lhe um casto beijo no pescoço, ao que Kanou estremeceu.

Mas nenhuma resposta. “Ele realmente vai parar?”. Ayase apertou os ombros largos, envergonhado. “Por favor, não pare, Kanou-san...! Não posso aguentar...”. Passou-lhe a língua pequena no mesmo lugar que beijara um pouco antes, um pedido mudo para que o mais viril continuasse. Ele espantou-se, porém nem se mexeu, tinha outros planos, e melhores. O choque veio quando sentiu ele mover-se sobre suas pernas. Bem, não mover-se exatamente, mas esfregar-se.

— Ayase... O que está fazendo...?! — mas o menino não ouvia. Apoiava-se nos ombros do moreno para conseguir mais atrito, mesmo que ambas as intimidades estivessem cobertas pelo incômodo pano. O movimento era frenético, e por causa disso os dois membros tanto começaram a crescer quanto uma agradável dor no baixo-ventre mostrou-se também. — E-Escuta, Ayase... Se você fizer isso, não conseguirei me controlar... Estou falando sério! M-me tornarei mais agressivo e-

— Ka-... Kanou-san... — Ah... Que surpresa agradável. Ter Ayase tão submisso e desejoso assim sobre si era de ensandecer. Ele disse, com a voz entrecortada pelos gemidos. — N-Não precisa, Kanou-san... Pode ser um pouco mais agressivo... Eu não me importo, Kanou-san, porque eu te am- Ahh! — gemeu ao ter suas nádegas fortemente apertadas pelo maior. Este mesmo puxou-o até deitar-se de costas na cama, com os quadris levantados até a bunda estar rente ao rosto másculo de Kanou.

— Q-Que posição vergonhosa, Kanou-san...! Ahhh! Ah! Huun! Par-r- — gemeu ao sentir uma molhada língua na freta de seu bumbum.

— Quer sentir mais prazer hoje que qualquer outra vez, Ayase...? Quer fazer algo especial...? — o menor virou o rosto corado, evitando responder a pergunta. Kanou abriu a fresta repuxando-a bastante, fazendo-o gemer languidamente. — Responda, pequeno... — Assentiu.

Kanou largou o menino na hora, causando um descontente estranhamento neste. — Kanou-san, por que saiu? Por que está de pé? Fiz algo errado? — Ah... o garoto estava realmente inseguro... — Eu... Voc-

— Acalme-se, Ayase, você não fez nada de errado. Vim pegar algumas coisas...

— A-Algumas coisas?

— Sim. Coisas como isso. — se agachou e pegou algo do chão, para logo depois mostrar uma gravata meio amassada, que fora largada recentemente. — Ayase, feche os olhos. — O menino o fez, sentiu por isso algo cobrir-lhe os olhos, a dita cuja gravata.

— K-Kanou-sa-

— Não se preocupe. Você vai gostar. — logo então sentiu-o se afastar, e ouviu um abrir de gavetas, para logo então aproximar-se novamente.

De repente — AHH! Ka-Kanou-saaaan! — um líquido pegajoso e gelado fora inserido em seu interior, lambuzando-o por inteiro. O menino contraiu-se.

Meio que por reflexo, foi descendo até encostar o rosto na cama, de joelhos, empinando a bunda, mostrando totalmente sua rosada entrada.

— Ah, como você está fofo nessa posição, Ayase... Tive mais uma ideia. — logo após dizer isso, Ayase sentiu suas mãos serem atadas atrás das costas também, contudo não machucava.

— HAAA! Pare! Aí nããoo. — apenas conseguiu emitir isso ao sentir três ousados dedos entrarem de uma só vez em sua apertada entrada. — Não os mova, não os movaaaaah! — estreitou um pouco suas paredes ao ser tão luxuriosamente invadido e deflorado.

Sem perceber, começou a mexer os quadris para frente e para trás, acompanhando o ritmo dos dedos grossos e calejados. Kanou segurou-os. — Calma, apressadinho... Farei vagarosamente... E você, tente não se mexer. — Ayase anuiu, logo dando uma gemidinha. Sabia o que Kanou queria fazendo isso, parecia que ele apreciava deixá-lo louco e sedento por mais quando diminuía o ritmo das coisas.

E como poderia não se mexer? Só lhe restava gritar então...

Engasgou quando os dedos ficaram mais ousados. Eles remexiam-se loucamente para frente e para trás, girando, em tesoura... Mais fundo!

“Mais fundo, por favo-!”, nem teve tempo de completar o próprio pensamento, porque do nada sentiu um vazio dentro de si: os dedos haviam sido retirados, e a lenta e gradativa perda do prazer apareceu. Nem chegara a próstata...

— Kanou-san... Por quê...? — foi ignorado. Kanou, sem aviso prévio, sentou-se na cama e puxou-o para que voltasse a seu colo, em uma posição diferente da anterior, claro.

— Vou lhe dar um presente, Aya-chan, por ter sido tão obediente até agora... — e com esses dizeres, trouxe-se para mais perto a bunda lívida, abrindo-a e a seu adocicado orifício.

— AHHHH! Não! Não! A... A língua não..! — mordeu os lençóis, tentando não gritar como fizera muitas vezes antes já.

Só que... essa sensação maravilhosa foi tirada de si tal como a dos dedos. Conteu-se novamente em fazer um muxoxo de descontentamento.

— Triste, Ayase? Que fofo...Mas isso era apenas uma preparação, o melhor ainda está por vir, Minha Boneca. — em resposta? Outro gemido. Recentemente o mais velho vinha mesmo chamando-lhe assim: Minha Boneca. Não sabia a natureza deste apelido, no entanto não o desagradava. Quando ele vinha à tona, recebia um tratamento à parte do amante, duas vezes mais gentil e delicado. Quer dizer, a rudeza e brusquidão nunca fora 24 horas por dia presente quando se tratava de Ayase, mas nestes momentos – os do Ayase “Boneca” –, era tratado como se um menor descuido fosse quebrá-lo.

Algo como... O Ayase de Porcelana?

— Reconhece esse barulho, Minha Boneca...? — a malícia em sua voz era quase palpável. O barulho era baixinho, e nem um pouco familiar, lhe lembrava de um zumbido... Algo tremendo, será? Negou com a cabeça — É, foi o que imaginei. Que bom, Ayase... Tão fofo... Creio que você saiba o que é isso só de falar o nome. — a tal coisa tremendo acariciava todo o seu corpo, passando por todo canto. Parecia grossa e... longa, não fazia ideia do que era. — É um vibrador. — Ah... Um vibrador... Sabia sua função, mas... Espere!

— Huun! AAgh...! — chegou a seu intumescido pênis, demorando-se lá. O vibrador se esfregava entusiasmadamente em suas partes, ora no membro, ora no saco. Apertando, friccionando, tremendo... Ah... Era muito bom! E Ayase concordava mesmo com isso, babava sem vergonha, rebolava, esfregava-se mais ainda no objeto inanimado, tentando fazer o mesmo com seu amado.

Kanou arqueou as sobrancelhas. Francamente, se soubesse que seu amor seria recíproco e que com a certeza deste Ayase ficava “extrovertido” assim, teria o feito há eras atrás.

Abriu com os dedos a bundinha empinada, esticando sua entrada. Deslocou um pouco o vibrador, posicionando-o sobre o pregado e pequenino botão rosa. Este mesmo contraía-se tímido, o buraquinho. — Já se contraindo, Minha Boneca? Anseia tanto por mim em seu interior? — viu-o corar mais ainda. — Sinto muito, pequeno, mas não agora. — Inseriu-o lentamente, degustando os gemidos finos de dor e prazer. A culpa por causar dor à pessoa amada pesava um pouco seu coração, mas a satisfação de vê-la rebolando contra o aparelho logo após o sofrimento passar sobrepunha-se a isso.

O objeto ainda não estava totalmente dentro, demorava-se um pouco ao fazer isso porque sabia que a probabilidade de alcançar a próstata do menor era enorme. Fazia-o sofrer assim apenas para prolongar o doloroso prazer de ambos. — Ayase...? Sabia que um pouco mais fundo, e o vibrador toca sua próstata...? Você quer isso, pequeno? Quer ter seu ponto doce estimulado ininterruptamente até gozar? — Ah...! O quanto gemia só de ouvir a rouca voz do maior sibilando essas coisas em seu ouvido. Não queria responder, era vergonhoso. — Peça, Ayase. Implore, suplique, ou então continuaremos aqui para sempre.

— Ahh! Kanou-san! Por favor! Por favor! E-... Enfie em mim, Kanou-san! Eu te amo! — a declaração repentina surpreendeu-o um pouco, mas foi muito bem-vinda, ela enterneceu-o mais ainda.

— Como quiser..., meu amo. — e o fez, ligeiro.

— AAAHHHHH! HHHUUUNN! Nãão! — berrou, tremendo. O vibrador tocara mesmo a próstata, e o menino já não aguentava mais de tanto prazer. Gozaria em breve.

— Bom, então é isso. — o menor não entendeu o que queria dizer com isso. Assustou-se quando se viu tirado do colo do maior, que mais uma vez dirigiu-se à gaveta. Como das outras vezes, voltou rapidamente.

— Kanou-san...? O que está fazendo...?

— Shhh, Ayase, já já verá. — dito isso, colocou uma mão sobre a anca de Ayase enquanto outro espalmava-se no estreito peito. O garoto, antes de quatro com a bunda empinada, foi forçado a prostrar-se de joelhos sobre o colchão, até arqueando-se um pouquinho. Seus mamilos excitados e sua intimidade acordada estavam perfeitamente a mostra.

Algo se enrolando ao redor de seu pênis — Kanou-san, o qu-UUHGG! AH! — engasgou, a tal coisa lhe apertava fortemente na base.

Kanou pegou o menino no colo, colocando-o de joelhos no macio carpete. Logo pôs-se de joelhos também, atrás do menor, suas pernas uma de cada lado das de Ayase.

— Olhe, Ayase. Admire a si mesmo. Está tão lindo... Tão sensual... — mordeu seu lóbulo, ocasionando um tremor.

Após ter a gravata extraída de seus olhos, a primeira coisa que viu foi a si mesmo. “Um espelho...”. Nem notara um enorme espelho no quarto de Kanou quando entrou lá pela primeira vez. — Huunn... — remexeu-se, sentindo prazer somente mirando-se neste momento.

Kanou segurou-o pelo queixo gentilmente, segurando seu rosto apenas em direção a seu “outro eu”. — Veja, Ayase, o quanto vocês almeja por isso. O quanto você me almeja. — o loirinho inconscientemente esfregou suas nádegas na virilidade presa do maior.

Este começou então a tocar novamente cada parte do menor, que permanecia com as pequenas convulsões de prazer, remexendo-se, debatendo-se – embora tentasse esconder isso. Contornava sua panturrilha com a ponta dos dedos, passando para a parte interna das coxas, massageando sua virilha, nunca tocando em seu membro preso. Seguiu pelo baixo ventre, abdome, cintura, apertando-a e... Finalmente, os mamilos.

— Ayase, olhe. — Os dedos masculinos rondavam ambos os mamilos, nunca tocando-os. Ah, que tortura...!

Gemeu.

Com os orbes cerrados e quase no paraíso, apenas sentiu que a viscosidade do lubrificante também estava sobre seu peito. Kanou tinha-o colocado.

Finalmente, beliscou-os, arrancando um sôfrego gemido — Tão rosadinhos... Parecem botões de rosa... Olhe, Ayase, o estado de seus mamilos — beliscou-o mais uma vez. Outro gemido.

E os mamilos estavam mesmo como botões de rosa, vermelhinhos, intumescidos e excitados. Ah, que vontade de lambê-los e mordê-los!

Mas não, não podia agora.

Largou Ayase do nada, espantando-o. “Mas... O quê?”. Virou-se de costas — Ah... Acho que vou tomar um banho. Você pode ficar aqui me esperando, Ayase... Se tocando, gemendo... As amarras estão frouxas... Você é que não notou... — sua voz era rouca e maliciosa, muito sexy, isso arrancou outro tremor do menor. Ignorando sua própria masculinidade implorando por alívio, entrou no banheiro.

É verdade, estavam frouxas mesmo. Soltou-se fazendo um mínimo de força.

Ayase nem pôde observá-lo indignado, por que agora que Kanou fora-se e não mais era o centro de sua atenção, sentia o vibrador com mais intensidade.

“N-Nossa, isso...” era enlouquecedor. Nunca tivera sua próstata pressionada por tanto tempo sem poder se liberar. A necessidade de gozar preenchia-lhe todo o corpo. O pequeno contorcia-se no chão macio, remexia-se, gritava, gemia.

Tocava-se.

E seu promíscuo reflexo não lhe ajudava em nada.

A mão esquerda lentamente foi para a glande, tocando-a gentilmente — Ahh! — passava a ponta da unha na superfície, aproveitando as sensações que isto lhe trazia. Pela primeira vez, se tocava por livre e espontânea vontade.

Enquanto isso, a outra mão jazia sobre um botão rosa molhadinho em seu peito. Fez consigo o mesmo que Kanou uns momentos antes, beliscou, apertou, massageou, rondou. De prazer, mordia o lábio inferior fortemente, nem notando a saliva que escorria pelo canto da boca.

E então, outra surpresa: a intensidade do vibrador aumentou. — AARRGGHH! — “Piedade, alguém”, clamava por algum alívio, clamava por Kanou, na verdade. Aquilo não parecia ser suportável, era muito, muito prazer. Era como se... fosse explodir, simplesmente.

A mente de Ayase oscilava entre o consciente e o não consciente do que fazia e, quando por uns segundos notou como estava, gemeu mais ainda. Encontrava-se na mesma posição da cama há minutos passados: de joelhos, a bunda bem empinada, o rosto apoiando-se no chão, as mãos ocupadas demais para apoiarem o corpo nele. E em frente ao espelho.

O loirinho via seu reflexo perfeitamente, conhecia já a expressão de prazer que fazia enquanto Kanou tomava-lhe, mas esta... Esta expressão superava todas as outras; a boca trêmula, escorrendo desta saliva, a pela toda marcada de chupões e mordidinhas, o pênis de um tamanho que nunca pensaria que pudesse ficar, a bunda para cima, abrindo-se, mostrando a base do vibrador...

Deus.

Apenas notou que Kanou havia voltado, completamente nu e – ao contrário do que pensava ­­– com o membro maior que o seu (levando em conta que ele naturalmente era maior que o seu), quando este lambeu-lhe uma nádega

— Kanou-san! Kanou-san! Kanou-s-

— Que lindo... Que lindo — seu coração, apesar da situação, preenchia-se de muito calor, carinho, amor... Estava terno como nunca ficara. Seu pequeno amado parecia desfrutar da situação mais do que imaginara, não duvidava que a qualquer momento ele pulasse sobre si e começasse a lambê-lo.

A pessoa que amava tentou levantar-se, mas sem sucesso, não tinha forças o suficiente. Kanou então fez esse “trabalho” por ele, não mudando-o de posição, e sim de direção. Agora, seu bumbum aparecia sensualmente no espelho, enquanto seu olhos miravam apenas as pernas cruzadas e o pênis ereto de Kanou a sua frente.

— Kanou-san...! — a baba escorria e o menino inutilmente tentava levantar.

— Ayase... — acariciou seus cabelos desordenados — O que quer fazer, Minha Boneca? — observou o olhar azul direcionar-se a sua virilidade, e espantou-se. Ayase... Ayase queria dar-lhe prazer? Queria colocar sua boca lá? Mesmo sendo tão... inibido? Além do mais, ele nunca havia feito isso sem que pedisse.

Confirmaria se era isso que ele ansiava. Abriu as pernas e aproximou o resto de traços femininos de si, colocando-o bem rente à virilidade desperta. — É isso que quer, Ayase? Você quer... fazer isso? — indagou incerto

Ayase assentiu, desejava e faria isso. Queria... Queria agradecê- Assustou-se assim que foi agarrado não muito brutalmente pelos cabelos e beijado docemente pelo mais velho. — Eu te amo, sabia, pequeno?

Sim, ele sabia. Ah, como sabia! E como amava esse fato!

Abriu a boca em direção à glande, e só para provar, lambeu-lhe. Ouviu um ofego. Percebeu pela primeira vez que não era ruim... Bem salgado, de fato, porém não ruim. Experimentou então lamber-lhe toda e extensão, e duas, três, quatro vezes, e quando menos esperou, viu-se lambendo-lhe e mordendo-lhe todo.

Suspiros e ofegos vinham da boca do maior, que acariciava gentilmente seus cabelos, estimulando-o a fazer mais. E quando colocou seu tamanho inteiro na boca? Engolindo-o e chupando-o tão prazerosamente com os olhos entreabertos e o rosto vermelho... Ah... O paraíso. Ayase fazendo esse tipo de perversões consigo era uma cena que sempre pensara ser encontrada apenas em suas fantasias. Tê-lo agindo assim... — Ah! Ayase!

Percebeu então pelo espelho a base do vibrador. Ah... Tinha se esquecido dele. Riu internamente quando lembrou-se do volume do gemido do menor quando com o controle remoto aumentara a intensidade deste. Muito, muito belo. Esticou um pouco o braço e alcançou o aparelho no ânus rosado, em um movimento leve, usando apenas a ponta do dedo, empurrou-o mais para fundo.

— Huuunn! — gemeu o menino abafado, apertando-lhe o pênis na boca. Kanou arregalou os olhos. “Ah, Meu Deus, eu vou gozar!”. Tirou abruptamente a molhada e quente cavidade de sua boca, ambos praguejando em descontentamento. Virou novamente a direção do menor.

— Ayase, quer que eu tire isso aqui...? — falou, dando umas batidinhas no aparelho, o que o fez o pálido menino gemer mais ainda — Hein...? — mirou o garoto assentir.

— S-Sim, K-K-Kanou-s-san, m-m-mas eu qu-quer-

— Que eu coloque o meu dentro, não é? Ah... Que menino pervertido eu fui arranjar! — foi retirando o vibrador lentamente.

— UUnn.. Haa... AArrrgghh! — emitiu o loirinho, ao sentir o aparelho completamente retirado de si. Gozaria nesse exato momento, se não tivesse uma coleira especial impedindo-o. Suspirou, esperando o falo de Kanou penetrar-lhe. Mas não veio.

— K-Kanou-san...?

— Perguntando-se onde está meu pênis, Ayase...? — o silêncio do menino afirmou isso ­— Estava pensando... O que acha de você mesmo colocá-lo em si...? O que acha? — ergueu Ayase, colocando-o sobre seu colo. O peito másculo tocando as costas estreitas.

— Nã-... Não consigo... — já há muito tempo lágrimas escorriam por seu rosto, consequência do prazer sentido, e sua voz era chorosa também.

— Ah, não se preocupe, te ajudo, pequeno... — sem escapatória, o mais novo assentiu, ajoelhando-se de modo que desse ângulo para a penetração. Com as mãos, abriu as nádegas o máximo que podia, deixando a mostra o cú avermelhado que piscava incessantemente, em expectativa. Tudo que Kanou fez foi segurar o próprio falo, para que o menino não errasse.

— Nhaaa! — miou o Uke, à medida que a cabeça violava-lhe. Por causa da efetiva preparação com o vibrador, talvez; doeu muito menos do que esperava, o prazer tendo muito mais espaço. Rebolou então. Desceu toda a extensão do membro assim, rebolando, remexendo-se, coisa que nunca fizera antes.

— AH! A-Ayase... — Como era apertado o interior de seu amante! Assim que todo seu falo foi comprimido e engolido pela cavidade apertada de Ayase, esperaram alguns segundos – poucos – para começarem o movimento.

Não suportando mais a espera, Kanou, agarrando a cintura fina, tirou-se com tudo de seu amante, penetrando-lhe logo a seguir numa força surpreendente.

— AHH! — gemeram em uníssono, desejando mais daquele movimento.

E o vai-e-vem começou, cada vez mais fundo, cada vez mais forte. Não se sustentavam em tanta luxúria. Para Kanou, ver as feições e caras de Ayase em frente ao espelho era maravilhoso: via-lhe tanto as costas quanto a frente.

— Kanou...-san! Mais for...-te! Ma-Mais! Mmmmm- — Ayase inconscientemente foi curvando-se pra frente, até o chão, forçando Kanou a acompanhá-lo. Ou seja, Ayase mais uma vez apoiava-se de quatro, enquanto seu Seme lhe metia o falo bem profundamente, segurando os quadris macios.

O Somuku mordeu a orelha direita do menor, e com a voz ofegante e roucamente sensual, ditou — Vamos, Ayase... Diga meu nome enquanto lhe completo tão sublimemente... Grite-o, chame-o, gema-o, eu quero vê-lo saindo dessa sua boquinha...

Em resposta, lambeu os próprios lábios, tentando raciocinar o que ele dizia. Nome... Nome... Ah, como queria proferir o nome de seu amado agora. Não se absteria de tal luxo, afinal, sabia que seu amor era recíproco. — Ka-... Ka-... Kanou-san! Kanou-san! — quanto mais forte a estocada, mas alto era gritado o nome do mafioso, o que o fazia empenhar-se ainda mais. — Kanou-san! Kanou-san! K-Ka... Ka... nou- — e percebeu, seu baixo ventre apertou-se, tal como suas paredes, o prazer crescia e crescia, ele... — NNNNHHAAAAAA! Kanou! Kanou! Eu vou gozar, eu vou... Por favor... Me liberte... Meu... Meu... Eu-... Vou-...

O moreno enfim lembrou-se que Ayase continuava com aquela espécie de coleira/anel apertando seu pênis, impedindo-o de gozar. Retirou seu impedimento, e não deu outra — AHHHHHHH! UUUNNHH! — seu leite sujando-lhe a barriga e o rosto. O ânus ondulava, tremia, apertava loucamente o pênis de Kanou, que por sua vez, urrou sonoramente ao liberar-se também.

Meio dopado, deitou sua cabeça sobre as costas do menor sem perguntar, abraçando-lhe. Ambos, suados, sujos, no chão, de bruços, um em cima do outro, ofegando. Mas muito felizes.

— K-... Kanou-san, isso... isso... Eu...

— Você gostou, Ayase? — sorriu ao ver o menor afirmar.

— Isso é bom, porque essa não será a última vez essa noite. — avisou, levantando a si mesma e ao menor, no colo, dirigindo-se à cama. Ayase sorriu ternamente ao escutar essa afirmação, sabia disso, e até almejava por tal.

Amava Kanou com tudo.

E ele lhe amava também.

Tinha certeza disso.

_-_-_-_-_

Ayase abriu os olhos repentinamente, desesperado. “Não respiro!”. Mas uma fração de segundos depois, lembrou-se de qual deveria ser sua situação, acalmando-se. Em seu campo de visão encontrava-se apenas um largo peito moreno e bastante definido, muito perto de si. Sentiu um braço rondando suas costas e outro sua nuca, prendendo-o fortemente.

“Como eu saio daqui agora?”. Com um pouco de dificuldade (lê-se: muita dificuldade), tirou lentamente os braços longos de Kanou de ao redor de si, vendo-se finalmente livre para respirar. Feito isso, apenas deitou-se normalmente na cama, observando seu amante enquanto refletia.

Ele ressonava alto parecendo estar em um sono mais que profundo, quase que permanente. Já vira muitas vezes o rosto dormente do Somuku, porém sua face nunca mostrara aquela serenidade. Kanou nunca se dera ao luxo de ressonar, e seu cenho, quer estivesse acordado quer estivesse inconsciente sempre esteve franzido.

Acariciou amorosamente uma bochecha. Ele nem se mexeu. Ah... Kanou-san...

— Aya... se... — essa pequena palavrinha foi suspirada pela boca de lábios finos do maior. Fazendo uma retrospectiva de sua vida ao lado daquele homem, uma pontada de remorso abateu-lhe: imaginava o quanto devia ser triste ter a pessoa que ama nem se lembrando de si. E ele próprio havia feito isso. Em sua “amnésia”, fizera coisas horríveis a Kanou: dizia-lhe que era anormal, demonstrava o quanto repudiava seu toque (coisa que era somente uma semi-verdade), negava-lhe muitas coisas, omitia-lhe, mentia-lhe. Ele também foi cruel com Kanou.

E só agora se dava conta disso.

Na verdade, achava que nem Kanou tinha conhecimento desse fato nesse momento de alegria pelo qual passavam.

— Ayase. — ouviu ser chamado. Kanou tinha acabado de acordar, e mirava-lhe tal como era mirado uns segundos atrás. — Ayase. — abraçou o corpo esguio mais uma vez, dessa vez dando lhe espaço para que respirasse.

Por sua vez, o menino deixou as pestanas entreabertas, aproveitando o calor que o abraço provinha. As faces se avermelharam ao pensar no que faria agora, contudo tinha que proferir aquelas palavrinhas, necessitava proferi-las — Eu te amo, Kanou-san. — sentiu o abraço intensificar-se.

Ao ouvir aquilo, Kanou descobriu que poderia chorar naquele exato momento, tanta a felicidade. Sinceramente, não acreditava que pudesse ser plenamente feliz àquelas alturas, já tinha perdido a esperança de que Ayase recobrasse suas memórias ainda amando-o. — Eu sei, Ayase, eu sei. — trouxe-o ainda mais para perto, escondendo parte de seu rosto no pescoço alvo. — Eu também te amo, Ayase.

— K-Kanou-san...

Ambos se olharam, exprimindo nas íris todos seus pensamentos.

Comer juntos.

Banhar-se juntos.

Rir juntos.

Chorar juntos.

Lutar juntos.

Brigar juntos.

Dormir juntos.

Acordar juntos.

Amarem-se juntos.

Viver juntos, afinal.

Ayase estaria lá para Kanou.

E Kanou estaria lá para Ayase.

Finalmente.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
Por favor, como é a segunda fic Yaoi (a primeira está na minha outra conta) e primeira Lemon que faço, gostaria que comentassem o que acharam, o que posso melhorar, e o que está muito bom!
E dizendo só de passagem, independentemente do conteúdo dos Reviews, vou fazer uma continuação para a história, e não será uma oneshot. Então, para os que gostaram, se puderem e quiserem, adoraria se vocês a acompanhassem... hehe XD
Talvez demore um pouco para eu começar a postá-la, mas é só deixar no Review se quer ou não acompanhar a próxima fic que os aviso quando for publicá-la.
Obrigada por terem lido até aqui,
Ja ne! XD
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!