Notas iniciais
Olá :)

Eu não podia ficar sentada na casa dos Black, esperando notícias. Não podia ficar parada enquanto meus amigos, minha família, lutavam.

Na carta de Remo havia instruções de como ir para Hogwarts para a batalha. Eu tinha que ir para Hogsmeade e chegaria na escola por uma passagem no Cabeça de Javali.

Peguei meu lenço e o coloquei, cobrindo todo o cabelo.

O único jeito de ir para Hogsmeade seria aparatando. Eu nunca tinha ido tão longe assim, mas tinha que tentar.

Admito que fiquei surpresa ao chegar inteira no meu destino. Eu não era a única chegando, entrei com algumas pessoas da Ordem que tinha visto no Largo Grimmauld.

Havia uma grande tensão em Hogwarts, um clima de medo e esperança. Alunos e adultos passavam rapidamente pelos corredores, conversando sobre instruções. Olhei de rosto em rosto, procurando alguém familiar.

Uma mulher esbarrou em mim, quase me derrubando.

—Desculpe!-Pediu. Era Tonks. -Meredith! Eu nem te reconheci. O que está fazendo aqui?

—Vim ajudar. Essa também é a minha guerra. -Assentiu.

—Também não consegui ficar em casa. Deixei Ted com a minha mãe e vim.

—Ted?

—Meu filho. -Arregalei os olhos.

—Não acredito que esqueci sua gravidez. Aconteceu tanta coisa que eu simplesmente... -Dei de ombros. -Ele está bem?

—Está. -Sorriu, mas eu podia ver lágrimas se formando nos olhos dela. -Eu pareço uma mãe horrível, deixando-o, mas eu precisava estar aqui. Remo e eu vamos voltar pra ele. Sei que vamos.

—É claro que vão. Vamos todos ficar bem. -Assentiu.

—Eu tenho que ir. Preciso encontrar Remo. -Continuou seu caminho.

Tirei o lenço e voltei a andar. Tinha que achar Sirius. Passei por uma aluna que estava tendo um ataque de pânico, chorando e gritando. A professora Sprout pediu que ela fosse retirada do castelo o quanto antes, para o seu próprio bem.

Encontrei vários alunos conhecidos nos corredores, alguns nem me notaram, outros acenavam rapidamente. Neville foi o único a parar para falar comigo.

—Você está aqui!

—Estou. -Afirmei. -Tenho que ir, preciso encontrar uma pessoa.

—Boa sorte.

—Pra você também, Longbottom.

Minutos depois, encontrei Sirius fora do castelo, sozinho. Ele não pareceu muito feliz em me ver.

—O que está fazendo aqui, Meredith? Eu te disse pra ficar em casa!-Suspirou. -Devia saber que não ia me obedecer.

—Não vou me desculpar por isso.

—Agora não importa mais. A batalha começou.

Eu nunca tinha visto um tsunami pessoalmente, mas a sensação que tive naquela hora me fez lembrar de um: dezenas de pessoas entrando em Hogwarts como se fossem um só, avançando como se não tivessem medo.

Meu coração acelerou. Eu estava pronta para ter um ataque de pânico como a garota da Lufa-Lufa, mas não podia, era tarde demais para recuar ou gritar de medo. Eu estava numa batalha de verdade. Era lutar ou morrer.

Mesmo congelada por dentro, alguma coisa em mim me fez respirar fundo e lutar. De repente estava duelando com uma Comensal e nem sabia como isso tinha começado.

Quase fui atingida por duas Maldições da Morte, mas me recusei a usar o mesmo feitiço. Tive meses para aprender várias azarações e feitiços incapacitantes. Era eles que ia usar. Não ia apelar para Maldições Imperdoáveis.

—É só dizer “Avada Kedrava”!-Sirius gritou, quando derrubei a Comensal definitivamente.

—Não vou matar ninguém!

—É matar ou morrer!

—Não pra mim!

A batalha continuou. Não sei dizer com quantos bruxos duelei. Mas sei que foram muitos. Sirius salvou minha pele várias vezes e eu a dele. Éramos uma boa dupla. Até ele ser atingido.

—Não!-Gritei. -Sirius!-Me virei, encarando o Comensal. Era Pedro Pettigrew, o traidor. -Você. Expelliarmus!-Peguei a varinha dele.

—Meredith, é bom ver você. -Recuou, apavorado. -Lembra quando éramos amigos?

—Lembra quando traiu os Potter?

—Você não vai me matar, vai?

—Não. Eu não vou, mas também não vou deixá-lo ir. Você foi responsável pela morte de Lílian e Tiago. Além disso, fez Sirius ser preso por isso!

—Ele confessou!

—Por que se achava culpado. Por que confiou em você, seu rato asqueroso.

—Meredith... Meri... Abaixe a varinha. Nós podemos conversar...

—Acredite, Rabicho, você não vai conversar com ninguém por um bom tempo. Petrificus Totalus!

***

—Sirius? Sirius, acorda. -Toquei o rosto dele. -Por favor, você prometeu... Não pode me deixar.

O ar esfriou de repente. Fiquei de pé, a varinha pronta. Um Dementador se aproximou rapidamente.

—Você não vai beijar ninguém hoje, coisa feia. -Me concentrei na lembrança de reencontrar Sirius no Largo Grimmauld. -Expecto Patrono!

Um São Bernardo saiu da minha varinha e avançou no Dementador, afastando-o. De repente, algo grande apareceu na minha frente.

—Volte pra cá!

O Patrono se aproximou, mas se desfez. Abri a boca para conjurá-lo de novo quando a “coisa” diante de mim falou.

—Eu não sou um Dementador. Eu sou a Morte. -Recuei. O mundo pareceu desacelerar.

—Se... Se você é a Morte... Pode me dizer por que voltei.

—Você tem a Marca da Fênix. -Senti uma queimação no pulso e o olhei. -Essa marca que está vendo agora. Você só a vê quando estou diante de você.

—Por que eu tenho isso?-Abaixei o braço.

—Por que você voltou. Eu a deixei voltar. Essa noite, há muitas possibilidades. Uma delas é a vitória de Voldemort. Harry Potter pode ser morto por um Comensal. Você voltou para morrer no lugar dele.

—O que?-O ar escapou, eu não conseguia respirar. -Eu... Eu vou morrer?-Lágrimas encheram meus olhos.

—O Comensal da Morte é aquele. -Apontou para um homem caído no chão. -Você o derrubou meia hora atrás. Ele não matará ninguém essa noite. Você não morrerá.

—Não? Tem certeza?

—Eu sou a Morte, Meredith Gruwell, eu sei quem morre e quando.

—Mas há possibilidades... Como poderia saber?

—Eu simplesmente sei. -Voltei a respirar normalmente. -Você não cumpriu seu destino. Você não morreu para salvar Harry Potter.

—Isso... Isso é ruim?

—Depende do ponto de vista. Para você, não é.

—Veio apenas pra me dizer isso?

—Vim recolher almas e entregar algo à você. -Recuei de novo.

—O que é?-Estendeu a mão.

—Sua recompensa.

***

—Sirius, acorde. -Sussurrei, ajoelhada ao lado dele. -Sirius. -Abriu os olhos.

—Meredith?-Franziu a testa. -Você... Você está diferente. -Fez uma pausa. -A batalha acabou?

—Não. Fizeram... Voldemort recolheu seu exército. Se Harry não ir até eles, a batalha recomeçará. Precisamos entrar.

—Não. Você tem que ir até Harry. Eu o conheço, ele é como Tiago, vai se entregar à Voldemort.

—Eu vou, mas você precisa de ajuda.

—Eu estou bem, apenas faça o que eu disse. -Suspirei.

—Volto logo.

Corri de volta para o castelo. As pessoas continuavam agitadas, mas agora havia lágrimas e gritos por toda parte.

Encontrei Neville na escadaria.

—Você viu Harry?-Perguntei.

—Não. Não o vejo há um tempo. Você... Está diferente.

—Estou? Não importa, tem alguém precisando de ajuda lá fora.

—Tudo bem. Vamos. -Começou a me seguir. Luna correu para andar ao meu lado.

—Vou com vocês. -Avisou. -Você está diferente, Meredith.

—Eu disse isso. -Neville comentou. -Ela parece...

—Por aqui, rápido. -Interrompi. Nos aproximamos de Sirius.

—Espera, esse é...

—Toquinho Boardman!-Luna exclamou, sorrindo. -É bom vê-lo de novo.

—Temos que levá-lo para dentro. -Disse. Olhei para Neville, ele parecia meio assustado. -Longbottom?

—Para dentro -Concordou, assentindo.

Carregamos Sirius até uma das salas, mesmo com seus protestos. Eu não sabia que feitiço tinha o atingido e nem o que fazer. Luna saiu e voltou com a professora McGonagall.

—O que aconteceu?-Perguntou, se aproximando.

—Ele foi atingido. -Se abaixou do outro lado de Sirius.

—A Madame Pomfrey está ocupada no Salão Principal, temos muitos feridos. Eu vou ter que servir. -Olhou pra mim. -Gruwell, alguém já disse que você está...

—Diferente? Já.

—Se quer usar essa, palavra. Tudo bem. -Encarou Sirius. -Agora vamos cuidar de você.

***

Aquela pareceu ter sido a noite mais longa da minha vida. Durou uma eternidade. A batalha continuou depois de um tempo, eu podia ouvir de onde estava. Como Sirius estava ferido, ficamos na sala de aula, apenas ouvindo, esperando e torcendo.

Em algum momento, tudo silenciou de novo, e pouco depois gritos recomeçaram.

—Isso é uma comemoração ou o som de um massacre?-Perguntei, segurando a mão de Sirius.

—Eu não sei. Não entendo o que estão... -A porta abriu de repente e Neville entrou.

—Nós vencemos!-Gritou. -Acabou! Nós vencemos! O Lorde das Trevas está morto!

—Acabou. -Repeti. -Você ouviu, Sirius? Nós ganhamos. -Sorriu. -Neville, me ajude a levá-lo para fora.

Saímos da sala, com Sirius apoiado em nós. Todos estavam no Salão Principal. Paramos na porta. Harry nos viu e correu até nós, abraçando o padrinho. Hermione se aproximou lentamente.

—Meri?-Perguntou. Assenti. Ela sorriu e me abraçou.

—Como estão as coisas?-Perguntei, me soltando dela. -Os outros estão bem?

—Tivemos muitas mortes. -Harry disse. Olhei para dentro do Salão, os Weasley estavam reunidos, chorando.

—Algum deles...?

—Fred ficou muito ferido, mas achamos que vai sobreviver.

—Tonks e Remo?

—Estão bem. -Hermione o cutucou, lançando um olhar significativo. -Preciso dizer uma coisa. É sobre Snape. Ele esteve do nosso lado esse tempo todo. Só fingiu estar com Voldemort.

—Eu disse!-Exclamei, olhando para Sirius. -E você achando que eu estava errada!

—Meredith. -Olhei para Harry de novo. -Snape morreu. Voldemort o matou.

—O que? Não. -Recuei, lágrimas encheram meus olhos e escorreram pelo meu rosto. -Não...

—Meri... -Sirius começou, se aproximando. Me afastei.

—Preciso... Ficar sozinha um pouco. -Assentiu.

—Tudo bem. Mas estamos aqui se precisar.

Saí do Castelo, ainda chorando. Severo Snape estava morto.

Memórias do garoto que conheci passaram diante dos meus olhos. Meu amigo, meu antigo amigo, estava perdido para sempre. Eu jamais conseguiria que ele me desculpasse pelo passado, jamais faria as perguntas que precisava, jamais veria seu enorme mal humor de novo.

—Você é um idiota, Severo Snape. -Murmurei, tentando limpar o rosto com a mão. -Morrer assim, sem se despedir... Sem me contar a verdade... Seu morcego velho e idiota.

—Sorte sua não ser mais uma aluna, Gruwell, ou tiraria cinquenta pontos da Grifinória por isso.

Me virei lentamente, incrédula. Era Severo. Vivo, intacto. O mesmo de sempre.

—Você... Você está vivo. -Murmurei.

—Estou.

—Você está vivo!-O abracei, quase o derrubando-o. -Harry disse que você estava morto. -Me afastei.

—Talvez agora acreditem em mim quando digo que sei enganar a morte. -Ri.

—Achei que tinha te perdido para sempre. Mas aqui está você... Vivo. E me deve algumas respostas. -Suspirou.

—Eu vi você entrando no Largo Grimmauld. Os homens que você viu eram Aurores, procurando por Comensais. Eu os fiz ir para lá para garantir que nenhum Comensal tentasse entrar na casa.

—Aurores? Mas por que acreditaram em você?

—Por que eles não sabiam que a informação foi dada por mim. -Assenti.

—Se você se importava comigo desse jeito... Por que tinha tanta raiva de mim? Por que se afastou?

—Quando você morreu... Eu não pude me desculpar. A última coisa que te disse era que você não passava de uma sangue-ruim detestável. Eu só queria ter... Dito que não achava isso de verdade. Depois Lílian se foi também... E eu não disse a ela que... -Desviou o olhar.

—Você roubou minha varinha para ficar com ela.

—Roubei. Convenci uma aluna da Grifinória a pegá-la e a guardei. Era uma parte sua que estava viva. Quando você voltou, entreguei a varinha à Dumbledore, e pedi segredo.

—Entendo. -Sorri. -Severo Snape... Você pode ser surpreendente. -Olhou pra mim. -Vamos. Os outros precisam saber que você está vivo.

Entramos no Castelo. Sirius, Harry e Hermione ainda estavam na porta do Salão Principal, e agora Remo tinha se juntado a eles.

—Ah, não, Ranhoso. -Sirius disse. -Achei que tinha me livrado de você.

—Se eu soubesse que você estava vivo, Black, não teria me esforçado tanto para sobreviver.

—Não comecem. -Remo pediu. Franzi a testa, alguma coisa estava errada. -Meredith? Tudo bem?

—Acho que estou esquecendo de algo. -Comentei. -Eu só não sei o que... Ah, lembrei. Podem me dar uma ajudinha?

Entramos na sala de aula mais próxima. Abri o armário nos fundos, Pedro caiu de lá como uma pedra.

—Rabicho. -Sirius murmurou, pegando a varinha. -Como ele veio parar aqui?

—Eu o petrifiquei e o escondi aqui.

—Por quê?

—Ele é o único que pode provar sua inocência. Se eu o matasse, você ainda seria culpado pela morte de Tiago e Lílian. -Sorriu.

—Cinquenta pontos para Grifinória!

Minutos mais tarde, nos reunimos com os outros no Salão Principal. Os mortos e feridos estavam sendo levados para lá, enquanto instruções eram esperadas.

Olhei em volta, havia uma mistura de alegria e tristeza no ar. Havíamos ganhado, mas perdemos muitos.

Meu olhar caiu na família Malfoy, que estava no lado oposto do Salão. Draco, Narcisa e Lúcio.

Uma luz brilhante apareceu diante dos meus olhos, fazendo tudo sumir. Outra cena apareceu.

Era a noite da minha morte.

“-Me deixe em paz!-Gritei, correndo o mais rápido que conseguia.

Um flash de luz.

Estava diante do vidro agora, na Torre do Relógio. Lúcio estava atrás de mim. Me virei.

Outro flash.

Suas mãos acertaram meu peito e eu caí...”

—Meredith?-Sirius chamou, segurando meu braço. Me soltei dele e atravessei o Salão até os Malfoy, parando na frente de Lúcio.

—Foi você. Você me empurrou da Torre do Relógio. Você me matou.

—Pai, do que ela está falando?-Draco perguntou. -Pai?

—Confesse!

—É verdade. -Lúcio afirmou, em voz baixa. -Eu a segui naquela noite... E a empurrei.

—Por quê?-Respirei fundo, tentando não chorar. -O que eu te fiz?-Lançou um olhar rápido para Narcisa e Draco. -Responda!

—Eu já confessei e isso é o suficiente.

—Responda!-Todos à nossa volta se calaram, tentando entender o que estava acontecendo. Sirius se aproximou rapidamente, com Snape e Remo.

—Eu queria provar pra mim mesmo que não sentia nada por uma sangue-ruim. Que era só um engano. E que poderia me juntar ao Lorde das Trevas um dia. -Narcisa abaixou a cabeça.

—Você me matou por que tinha... Sentimentos por mim? Você sempre me tratou mal!

—Ele estava fingindo. -Remo interviu, se colocando ao meu lado. -Um jeito de disfarçar e negar a si mesmo o que sentia. Acho que isso não te ajuda muito, Lúcio.

—Teve algo a ver com meu envenenamento?

—Controlei uma aluna da Grifinória com a Maldição Imperius. -Respondeu. -Não podia deixar você se lembrar... -Sirius ergueu a varinha.

—Não! Acredite em mim, se sujar com ele não vale a pena. Você pode se safar agora, Malfoy, mas um dia vai pagar pelo que fez. Isso não é uma ameaça. É uma certeza. -Me afastei e segurei a mão de Sirius. -Vamos para casa, por favor.

***

Assim que chegamos à casa dos Black, me apressei até o banheiro. Todo mundo disse que eu estava diferente, só não entendi o por que... Até me olhar no espelho.

A pessoa no reflexo parecia comigo, mas não era eu... Quer dizer, não era a eu de dezessete anos. Aquela era Meredith Gruwell com trinta e poucos anos. A Meredith adulta.

—Como isso aconteceu?-Sirius perguntou, parado na porta.

—Eu... Eu não sei.

—Aconteceu enquanto eu estava apagado. Antes disso você estava... Como sempre.

—Mas não aconteceu nada... Eu só... Petrifiquei Pedro e o escondi no armário. Depois voltei pra você, tentando acordá-lo. A batalha foi interrompida e você acordou pouco depois.

—Só isso?

—Eu acho que sim. -Franzi a testa. -Não me lembro direito... É como se tivesse só escuro nessa parte. -Encarei meu reflexo no espelho. -Eu envelheci.

—Se minha opinião conta... Você está linda. Não mudou muito. -Sorri e me virei pra ele. -Ainda é a Meredith Gruwell que eu amo. E vai continuar sendo. -O abracei.

—Acha que as coisas vão ficar em paz agora?-Riu.

—Espero que sim. Você e eu precisamos de umas férias urgentemente.

Notas finais
É, eu sei que as cenas da batalha não foram tudo aquilo. Eu não sou muito boa nesse tipo de cena. E sim, sei que ficou bem clichê essa coisa do Lúcio ter matado a Meri, mas era algo que eu tinha decidido desde o início e não podia mudar do nada. E então, o que estão achando? Comentem. O próximo capítulo é o último.