Mercado Negro.
1 O labirinto.
Meu corpo estava dormente, consegui abrir os olhos com uma enorme dificuldade, as pálpebras estavam pesadas e o foco de visão lento, no início estava tudo escuro e demorou para que a fraca luz desse origem ao lugar a minha frente. Eu gritei. Um ato impensado, embora ninguém tenha me escutado, aparentemente. Tentei me mover, sair daquele lugar arredondado que parecia quebrar cada parte de minha coluna vertebral. Pelo menos tentei deixar todo aquele horror mais confortável para ele. Passei delicadamente os meus dedos finos por cima da pele quente de minha barriga, tentando reconfortá-lo. Uma descarga de pânico percorreu minha espinha.
Onde ele estava? O que fizeram com o meu bebê?! Eu não o sentia mais, seus pequenos batimentos cardíacos não estavam mais no interior do meu corpo. Haviam arrancado um pedaço de meu corpo, um pedaço da minha vida, de longos oito meses da minha vida.
Passou alguns minutos terríveis, minutos de pura concentração em mover-me para fora daquela banheira, meus pés trabalhavam pisando em falso, escorregando no líquido vermelho que estava por toda a superfície de onde eu me encontrava. Era o meu próprio sangue lavando aquele cenário sanguinário de um filme de terror assustadoramente real que não havia fim.
Finalmente caí sobre a superfície imunda daquele recinto cinza-sujeira. Arrastei-me até a porta, que parecia estar a quilômetros de distancia, tive de agir como um pano de chão limpando toda aquela superfície coberta de as camada grossa de sujeira, minhas pernas não estavam se mexendo, não pareciam machucadas, talvez o efeito de seja-lá-o-que ainda estava relutando em meu organismo.
Eu consegui abrir a porta que me mantinha presa ali. Fácil demais, estranhei não estar trancada com chave, talvez pensassem que eu estava morta. Deu-me a impressão de ser uma outra dimensão, um lugar totalmente diferente de onde eu estava, e o que separava os dois ambientes opostos era uma porta e uma parede. Móveis de luxo nos corredores cobertos com um luxuoso carpete vinho, tudo em extrema perfeição, uma bela casa de luxo. O que se destoava no local era aquele cheiro forte de formol que incomodaria qualquer um, estava por todo o lugar.
Consegui sustentar meu peso sobre meus pés sonolentos que se mexiam aos poucos agora. Alguns minutos passaram-se até que eu finalmente tinha o controle de todos os movimentos de meu corpo, a dor insuportável que vinha de meu útero estava suportável agora, finalmente conseguindo me mover em direção a lugar algum daquela casa.
Um corredor acabava em outro que acabava em outro, não tinha fim. Eram aproximadamente seis portas em cada um deles, três de cada lado, me perguntava se aquilo não era um cativeiro em forma de labirinto, mais uma vez como os filmes de terror registravam. Em um dos corredores encontrei um homem bem vestido, parecia ter posse de muito dinheiro, ele olhou para mim de uma maneira singular, indiferente e acabou me ignorando por fim. Eu agarrei um de seus braços com força exagerada, implorando, eu precisava descobrir onde estava.
— Senhor, pelo amor de Deus, me diga onde é que nós estamos.
Ele olhou para minha mão suja de sangue em sua roupa de linho com um olhar de reprovação, me pegou pelo colarinho bruscamente, por um momento fiquei sem ar.
— Sua idiota. Estamos na feira ilegal de órgãos, porém pelo seu estado, assim, toda em trapos, parece que em breve serão os seus órgãos em exposição dentro dos vidros de formol, até quem sabe eu não possa garantir os seus rins para minha mulher. – Ele abriu um sorriso assustador entre os lábios, deixando todos os dentes brancos expostos, falava baixo em um tom de deboche, ameaçador.
Um arrepio percorreu por minha espinha, lágrimas rolaram espontaneamente sobre minhas bochechas e eu corri o mais rápido que pude para longe daquele senhor sinistro. O meu bebê devia estar muito longe de mim agora, eu não tinha mais esperanças, sabia que eu seria a próxima.
Desci algumas escadas, subi algumas também, virei em varias direções, entrei em todos os cômodos possíveis. Ninguém. Nenhuma pessoa além daquele homem, não parecia ser um mercado negro, uma “feira” como ele havia dito, ninguém estava ali. A maioria dos cômodos estavam sempre vazios e os que não estavam eram preenchidos por estantes repletas de livros, alguns possuíam as paredes forradas de recortes de jornal, outros possuíam adereços que aparentavam aqueles usados em fetiches masoquistas, outros eram inteiros brancos como uma sala médica, muitos banheiros e os mais medonhos eram os que possuíam estantes e prateleiras repletas de recipientes contendo fetos, globos oculares e órgãos desconhecidos, todas aquelas entranhas eram aparentemente iguais ao meu ponto de vista desesperado.
Ouvi um barulho atrás de mim, bem próximo. Próximo demais. Não houve tempo para gritar ou ao menos tremer. Minha língua registrou um gosto estranho, amargo de consistência pegajosa, logo desceu minha garganta e eu perdi a consciência.
Acordei com uma luz forte e artificial sobre as pálpebras, uma mão batia em meu rosto e eu pude ouvir uma voz grave e masculina tentando me acordar, rispidamente. Eu estava amordaçada, tentei gritar, chorar, implorar e questionar minha estadia naquele local bizarro, nada funcionou. O homem sorriu sadicamente para mim e disse baixinho:
— Obrigada, querida. O bebê me rendeu muito dinheiro, tanto dinheiro que duvido que você vá valer mais do que sua própria cria. – estremeci ao ouvir o riso afetado ao fim da frase. – Mas, como você foi de perfeita utilidade para nós, graças à sua perfeita genética européia, nós demonstraremos um ato de extrema bondade e gratidão à você, amor.
Ele me causava repugnância, nojo, cuspiria nele se fosse possível. O ar parecia diminuir de meu campo de respiração, estava cada vez mais difícil de respirar na presença dele. Tentei me soltar dos nós fortes que me prendiam amarrada em uma cama em um daqueles quartos brancos que simulavam uma sala hospitalar, o pânico era crescente. Ele aproximou-se mais de mim, segurando sem delicadeza o meu maxilar, impedindo que eu desviasse o meu olhar daqueles olhos perturbados. Nunca havia visto olhos azuis tão assustadores como aqueles, pareciam se divertir com a minha tristeza, com o meu pânico, com a minha vontade falha de viver.
Ele disse bem baixinho, em um tom de ameaça, de puro controle sobre a vida alheia, sobre minha vida.
— E como gratidão nós aplicaremos uma injeção letal em você, para que você não morra de dor enquanto arrancarmos cada órgão válido de seu corpo. – Uma risada ecoou pelo recinto, aumentando o clima tenso que ocupava cada molécula de ar que preenchia o espaço em nossa volta.
Meu corpo estremeceu dando sinais de alguns leves espasmos involuntários de medo. Senti uma agulha penetrando a veia que ligava meu braço a meu antebraço. Em questões de segundos, tudo estava embaçado, o corpo pesado e lento, mas eu sabia que aquele não era o fim. Talvez meu rim, meus pulmões, meu coração, ou qualquer um desses estaria ilegalmente, porém perfeitamente encaixados no corpo de alguém. Algum desconhecido, qualquer afortunado poderia ter uma parte de mim agora.
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