Mentiras e Decepção
11 Lembranças
Notas iniciais
Jacob sorriu emocionado. Não acreditava que ainda podia se sentir feliz em meio a toda aquele caos e tristeza que sua vida estava, mas ali estava ele com o coração saltando em seu peito de alegria. Conseguiu o que foi buscar, Bella ia ver o pai e Charlie ia poder pedir perdão a filha antes de partir desse mundo.
Esse pensamento o trouxe de volta a realidade, a dura realidade em que sua esposa era uma vadia maldosa e invejosa. E que por culpa dela, sua melhor amiga teve tudo o que mais amava arrancado de seus braços e agora seu sogro estava entre a vida e a morte numa UTI de hospital. Respirou fundo, ignorando o aperto em seu peito.
— Lauren por favor, ache Ana e peça a ela que prepare uma mala para cada uma das crianças. Diga que coloque apenas o essencial, se precisarmos de alguma coisa compramos lá.
— Vai viajar senhora ?
— A vida dos patrões não é da sua conta, Chica. — A velha governanta falou ao entrar na sala.
— Maria por favor, deixe a menina.- Bella diz de forma complacente, não entendia a implicância da bondosa mulher com sua empregada — Sim Lauren, eu vou viajar e tenho muito pressa, então por favor adiante-se.
— Claro senhora, agora mesmo.- A moça fala e sai de cabeça baixa e com a face corada.
— Não confio nessa chica! – Maria diz observando a menina se retirar do recinto.
— Madre por favor, agora não. Eu preciso muito da senhora. – A angústia nos olhos e o rosto banhado em lágrimas chama a atenção da velha senhora, que vai até a menina a sua frente e toma suas mãos entre as suas.
— O que houve, Nina ? – Maria pergunta suavemente
— É meu pai Madre. Ele descobriu a verdade e teve um enfarte, ele está morrendo Madre. — Ela fala enquanto mais lágrimas caíam de seus olhos.
— Não diga isso, Nina. Tenha fé e tudo dará certo. É pra lá que você está indo?
— Sim, preciso vê-lo Madre. Não quero que ele morra sem saber que eu o amo. — Bella murmurou entre soluços.
— Minha menina, tens o coração mais bondoso que já vi. Mesmo depois de tudo é incapaz de odiar. Não se preocupe Nina, tudo dará certo. – Enquanto a abraçava, observou o homem a sua frente tentar limpar as lágrimas pra ninguém percebesse e lhe sorriu docemente.
— Preciso que vá comigo, não posso ir sozinha com as crianças. Além do mais, vou precisa muito do seu colo de mãe.
— Claro que sim filha, vou me preparar. — Jacob ? Acha que cabemos todos em seu carro? Eu não tenho condições de dirigir. – Bella se vira pra olhar enquanto fala e ele sorri levemente ao lhe responder
— Claro Bella.
— Ótimo vou me arrumar e já volto. Fique a vontade.
Depois de tudo pronto e com coração batendo forte, Bella vai com seus filhos e Maria rumo ao carro de Jacob quando alguém a segura pelo braço gentilmente lhe chamando a atenção. Felix, seu motorista e homem de confiança de seu marido, a olhava um tanto envergonhado.
— Senhora! Desculpe mas não posso permitir que saia assim.
— Você não têm que permitir nada Felix, eu sou sua patroa. – Ela fala furiosa, não tinha tempo para simpatia agora.
— Sei disso senhora mas se têm de sair, eu a levo. Sabe que se eu deixar que saia sem segurança nenhuma, o senhor Alec arranca minha cabeça. – Felix fala de modo apreensivo
— Não se preocupe, ela está comigo. Sou policial, posso muito bem protege-la — Jacob responde estufando o peito e entrando no modo policial.
— Tenho certeza que pode senhor, porém prometi ao meu chefe que em sua ausência protegeria sua esposa e filhos com minha própria vida e pretendo cumprir. — Ele fala e então se vira pra Bella a olhando nos olhos — Senhora por favor, sabe que não posso deixá-la ir assim.
Felix trabalhava para os San Romão a anos. Além de motorista e segurança da família, era um grande amigo de Alec e o homem em que ele mais confiava. Estava sempre ao lado dele, até quando ele viajava. Porém, depois da chegada de Bella em sua vida, Felix era o único em quem ele confiava para cuidar dela e Felix fazia de tudo pra cumprir sua tarefa perfeitamente. Daria sua vida se preciso fosse e Bella sabia disso. Após respirar fundo, entendeu a situação do homem a sua frente e por fim se rendeu.
— Tudo bem Felix, leve as crianças e Maria com você. Eu vou com Jacob e você nos segue.
— Sim senhora!- ele falou com um sorriso aliviado no rosto.
x—x Edward caminhava nos corredores do hospital arrancando suspiros das enfermeiras mas ele nem percebia como elas ajeitavam o decote tentando chamar sua atenção. Seus pensamentos estavam longe. A vontade que ele tinha era de jogar tudo para o alto e desistir desse contrato com o San Romão mas infelizmente isso afetaria profundamente seus negócios, sem contar que ele tinha que prestar contas ao seu sócio também. Será que Isabella armou tudo isso também ? Será que é isso que ela quer, me destruir? Maldita seja! Esses pensamentos não saiam de sua cabeça.
Porém depois da conversa que teve com Alice, a possibilidade de ela ser inocente também estava presente, mas ele se negava a cogitar essa hipótese. Na maioria das vezes, é mais fácil acreditar na mentira do que na verdade, mesmo ela estando em sua frente. É menos doloroso e era isso que Eduard estava fazendo. Estava tão concentrado em seus pensamentos que nem viu a porta a sua frente ser aberta, só sentiu a pancada ao dar de cara com ela.
— Porra! — exclamou levando a mão a testa — Porra pai! Quase quebra meu nariz.
— Desculpe filho. — Ele então percebeu a tristeza no olhar do pai e isso o preocupou.
— Pai ? Aconteceu alguma coisa ?- Carlisle o olhou com olhos cheios de preocupação.
— Sua mãe acabou de me ligar e dizer que Charlie teve um enfarte e está na UTI. Eu estou indo em casa buscar sua mãe, nós vamos pra Forks pra que sua mãe fique com Renée nesse momento difícil e eu tentar ver se posso fazer alguma coisa.- Edward estava meio tonto com toda essa informação, não via os Swan desde que tudo aconteceu. Tinha muita estima por eles, afinal eles não tinham culpa do que a filha tinha feito e não podia esquecer que Charlie o apoiou, expulsando Isabella de casa.
— Vou com vocês, talvez eu possa ajudar em algum a coisa também.
— Certo, então vamos! – Carlisle respondeu já seguindo em direção a porta de saída do hospital.
x—x O caminho até Forks foi tortuoso pra Bella. Ela contou sobre sua vida a Jacob, como tudo havia acontecido e Jacob ficou ainda mais decepcionado com a frieza da esposa. Sua cunhada tinha sido vítima de uma armação cruel e saber que sua esposa tinha feito parte de tudo aquilo de uma forma tão fria, o entristeceu ainda mais.
Bella observava pela janela a chuva fina que caia dando a tudo um ar ainda mais triste e nostálgico. Quando passaram pela placa de “Bem Vindos a Forks” seu coração bateu acelerado no peito. Tudo parecia igual, era como se os anos não tivesse passado por ali. Ainda era tão verde e úmido como a 10 anos atrás, as casas também lhe pareciam iguais exceto pelas pinturas que agora estavam desbotadas. A cada quilômetro percorrido, a cada rua que passavam, as lembranças viam forte em sua mente o que fazia seu coração apertar ainda mais.
Ao passarem em frente a pracinha, seus olhos se encheram de lágrimas, era como se ela pudesse ver a pequena menina de 7 anos montada em sua bicicleta cor de rosa enquanto o garoto ruivo de olhos cor de esmeralda a segurava.
FLASHBACK ON
— Edward, eu vou cair. – A menina dizia de forma desesperada enquanto se segurava ao máximo em sua bicicleta
— Não vai pequena, eu estou segurando você. – O garoto tentava a tranquilizar.
— Não me solta, por favor! – A garotinha suplicava.
— Nunca minha menina, eu sempre vou estar aqui pra te segurar. – O garoto sorriu ao proferir tais palavras e beijou a cabeça da sua menina.
FLASHBACK OFF
Ela não pôde mais segurar as lágrimas. Ela não podia, não queria. Aquela cidade guardava sua história, sua e de Edward. E por mais que ela quisesse apagar essa parte de sua vida, ela sabia que não era possível, não se pode apagar o passado.
— Bella, está tudo bem ? — Jacob chamou sua atenção, ela o olhou saindo de suas lembranças, viu a preocupação estampada nos olhos do amigo.
— Estou bem Jacob, esse lugar me trás muitas lembranças. — Ela fala com um olhar perdido, Jacob aperta a sua mão gentilmente lhe passando um pouco de segurança.
— Imagino que sim. Eu sinto muito Bella, não queria que tivesse que passar por isso.
— Tudo bem Jacob, uma hora eu teria que enfrentar tudo isso de novo. Eu vou ficar bem- ela diz enquanto lhe corresponde o aperto de mão e olha em volta, se dando conta de que já estavam parados em frente ao hospital.
—Nossa! Eu nem percebi que já tínhamos chegado.
— Você está pronta?
— Sim! Vamos Jack, eu preciso ver o meu pai.
— Após respirar fundo, ela abre a porta do carro e sai.
x—x Isadora estava na sala de espera do hospital tentando mais uma vez convencer sua mãe a ir pra casa descansar.
— Mamãe por favor, a senhora precisa dormir um pouco e comer alguma coisa.
— Não vou sair daqui enquanto seu pai não melhorar. – A mãe responde decidida.
— Mas ficar aqui desse jeito não vai adiantar nada mãe, ele nem ao menos quer nos ver. – Isadora suspira
—Ele está magoado, com raiva e isso vai passar. — Elas foram interrompidas pela entrada de Jacob. Isadora respirou aliviada e esboçou um pequeno sorriso, o marido tinha sumido e não tinha dado notícias. Mas a frieza que viu nos olhos dele fez o sorriso em seu rosto desaparecer. Ela olhou pra mãe que tinha o olhar petrificado em algo ao lado do seu marido, então seguiu o olhar da mãe e sentiu seu sangue gelar ao ver a pessoa que estava ali.
Isabella olhava as duas mulheres em sua frente sem emoção nenhuma. Viu quando Renée deu um passo em sua direção mas o olhar gélido que ela lhe deu a fez recuar. Bella caminhou até Isadora de cabeça erguida e a olhou nos olhos.
—Se ele morrer, eu acabo com você! — Isadora apenas abaixou a cabeça. Não tinha o que dizer, sabia que merecia o disprezo e o ódio da irmã.
— Filha – Renée até tentou falar mas Isabella a interrompeu.
— Não me chame de filha. — Bella pontuou cada palavra — Eu não sou mais a sua filha, você a matou 10 anos atrás — ela falou e Renée não pode conter o soluço que prendia em sua garganta. Dor, perda, arrependimento, tudo junto lhe nublavam a visão.
— Eu — ela tentou dizer mas Bella não deixou.
— Alice me disse que não pode ver o vídeo porque ele sumiu naquela mesma noite. — Bella falava e a olhava nos olhos. — Foi você, não foi ? Você também percebeu o que só eu percebi e tratou de sumir com ele antes que alguém mais percebesse.- Ela falava sempre olhando nos olhos da mãe. Não transmitia nenhuma emoção mas seu coração sangrava por dentro. Ela sabia que não era hora pra aquilo, seu pai era mais importante porém ela precisava saber. Renée limitou-se apenas a abaixar a cabeça enquanto grossas lágrimas caíam de seu rosto, dando a certeza de que Bella precisava. -Jacob, me leve até meu pai! – Bella se virou em direção a ele.
— Por favor Bella, me ouve. – Renée ainda tentou segurar o braço da mulher a sua frente porém ela foi mais rápida e tirou o braço do alcance.
— Agora não é hora pra isso senhora, preciso ver o meu pai. — Dizendo isso, Bella e Jacob saíram em direção a recepção. Renée se jogou nos braços de Isadora chorando copiosamente.
— Ela me odeia, não vai me perdoar. – Balbuciava em meio as lagrimas
— Eu sinto muito mãe, é tudo minha culpa. Eu vou falar com ela, vou explicar que foi tudo culpa minha e ela vai te perdoar — Pelo menos era isso que ela esperava e pedia a Deus. Quem sabe também até ter seu próprio perdão.
x--x
Alec tentava se concentrar no que seu administrador falava mas a verdade é que não ouvia nada. Não conseguia parar de pensar em Bella, a sensação de que algo não ia bem ficava cada vez mais forte. Tentou de tudo pra prestar atenção mas por fim, desistiu.
— Amador, você vai me desculpar mas vamos ter que deixa essa conversa para depois. Preciso agora que mande preparar meu avião, tenho que voltar imediatamente pra casa. – Alec explana ao se levantar de sua cadeira.
— Mas senhor, não pode voar com esse tempo. A chuva ainda é muito forte e de carro é impossível. O rio transbordou e não têm como passar pela ponte.
— Você não entendeu, Amador. Eu sinto que minha mulher precisa de mim, os telefones de casa não funcionam devido a queda de energia e meu celular não têm sinal. Eu vou enlouquecer se não falar com minha esposa, meu coração diz que ela precisa de mim e não tem tempestade nenhum que vá me impedir de ir até ela. Agora por favor, faça o que lhe pedi.- O jeito autoritário e aflito que ele falou, não deixou brechas para indagações.
— Imediatamente, senhor! – Amador responde e sai da sala para providenciar o que foi pedido.
x—x
Bella parou em frente a porta do quarto onde Charlie estava e respirou fundo. Estava preocupada e angustiada, ela desejava do fundo do coração deixar todo o rancor e a mágoa pra trás e perdoar de todo coração seu pai, mas se perguntava se seria realmente capaz disso. Tomando uma última respiração profunda, ela abriu a porta e adentrou o quarto. Charlie estava deitado em seu leito, uma máscara de oxigênio o ajudava a respirar, tinha vários fios em seu peito, alguns deles para medir seus batimentos cardíacos e uma agulha em seu braço direito, que levava o medicamento necessário ao seu corpo. Estava pálido e parecia extremamente frágil, em nada lembrava o homem forte que sempre fora, exceto por seu inseparável bigode.
Ver o pai tão debilitado trouxe mais lágrimas aos olhos de Bella e a lembrança da última noite em que se viram invadiam a sua mente, a fazendo tremer. Seus olhos ficaram perdidos sem foco, como se ela não estivesse ali e realmente não estava.
Charlie acordou de seu sono sentindo a doce fragrância de morangos que ele conhecia bem. Seu coração debilitado disparou ao ver sua filha parada na porta. Era felicidade, arrependimento, saudades, dor em uma completa mistura.
— Filha. — Ele chamou mas sua voz estava muito fraca. Se não fosse pelo barulho do bip do aparelho ter aumentado, Bella não teria percebido que ele acordou. – Filha — Tentou mais uma vez lhe estendendo a mão — Você veio, você veio. — Ele falava ainda com a mão estendida. Queria se levantar e abraça-la bem apertado, pra ter certeza que era ela ali mesmo e não uma alucinação.
Vendo que a filha não se movia, ele foi abaixando a mão aos poucos. De seus olhos as lágrimas já caíam, medo de não ser perdoado era o que ele sentia, a dor em seu peito lhe invadia.
— Me perdoa filha, me perdoa. — Era cada vez mais difícil falar, ele sentia que seu tempo estava acabando. – Eu voltei. Eu voltei antes mesmo de chegar em casa. — Ele continuava com sua fala, respirar ficava cada vez mais difícil. Isso fez com que Bella saísse de seu estado de transe e se aproximasse, ela segurou a mão de seu pai e lhe beijou a testa.
— Tá tudo bem pai, o senhor não pode se cansar. Por favor, não se esforçe.
— Não. Eu preciso filha, eu fui um monstro com você. — Ele sussurrava ofegante. — Agi por impulso, por orgulho. Mas eu voltei minha princesa, voltei pra te buscar mas você não estava mais lá. — Ele falava em meio às lágrimas. — Me perdoa princesa, me perdoa filha.
— Eu te perdoou paizinho, te perdoou do fundo do meu coração. Eu te amo tanto papai. — Bella já soluçava abraçada ao pai. Charlie também chorava de felicidade, sentia que finalmente tinha paz.
— Obrigada filha, obrigada. — Sua voz quase não era mais ouvida.
— Não fale mais paizinho, descanse. — Bella ainda com a cabeça no peito pai, sentia o carinho que ele lhe fazia nos cabelos como quando era criança. Estava feliz por ter o pai de volta a sua vida, seus filhos poderiam enfim conhecer o avô.
— Eu te amo princesa, nunca deixei de te amar. — Ela o ouviu sussurrar e então o bip do aparelho parou, deixando apenas um som agudo que anunciava que o coração dele parou de bater.
— Pai, pai, por favor! Por favor paizinho, não faz isso comigo. — Bella pedia desesperada. As lágrimas não a deixava ver mais nada e mais uma vez seu coração se quebrou.
—PAI! – Gritou com todas as forças que tinha, mas talvez já fosse tarde demais.
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