Mentiras Sinceras

3 "O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer"


Notas iniciais
Aviso Legal: Saint Seiya não me pertence, e sim à Toei, Shueisha, Bandai e todo esse povo que não sabe direito o que fazer com eles. Nhé. Disclaimer: Essa fic é continuação direta do Epílogo de Faro Fino, portanto também ambientada no universo Sui Generis/Sideways (e não vai conter yaoi/shounen-ai). Nela existem vários spoilers de Faro Fino e dos capítulos 1 e 6 de Sideways - por isso, antes de começar aqui e se você não tiver lido Faro Fino ou esses capítulos de Sideways... Cola lá e dá uma lidinha, nunca te pedi nada, vai. E o título da fic? Desavergonhadamente roubado de outra música do Cazuza.

— Bom dia, Vossas Graças Duque e Duquesa de Apulia(1)!

O sorridente Comissário de Bordo os recebia dentro do Azamara Journey, guiando-os por um breve tour pela embarcação.

Que, ao vivo e a cores, era muito mais impressionante do que Shina imaginava.

A embarcação era massivamente grande — a ponto de, uma vez dentro, a pessoa quase se esquecer que estava dentro de um navio. Piscinas de um azul intenso, jardins com plantas exóticas, tudo muito bem feito com um acabamento de primeiríssima. Mas as áreas descobertas do cruzeiro não eram nada perto do luxo opulento dos seus ambientes interiores: Dentro do cruzeiro, podia muito bem se pensar que aquele era um castelo árabe de mil-e-uma-noites.

Por isso Shina pensava com seus botões que, se ela fosse Marin e soubesse que viria parar ali dentro com Aiolia, tinha deixado passar o deslize do Leão e se enfurnado na cabine com luxos de hotel sete estrelas para, bem, aproveitar bastante a cama king-size de molas encapadas com lençóis e travesseiros de algodão egípcio penteado de mil fios.

Ela duvidava que mesmo Milo — ou Aiolia — tivessem visto tanto luxo assim alguma vez em suas vidas. Tá que eles eram cavaleiros de Ouro e tinham sim suas mordomias, mas como aquilo? Jamais.

— Espero que Vossas Graças aproveitem vossa estadia conosco! — Disse o polido comissário. — Estaremos à disposição para quaisquer eventualidade, basta usar nosso serviço de quarto através da central telefônica ao discar o número nove. Há algo mais em que eu vos possa ajudar?

— Não, senhor comissário. Muito obrigado, o senhor foi muito gentil.

Ao ouvir a voz de Milo, Shina saiu um pouco do transe em que estava ao olhar as acomodações da cabine onde ficariam para se lembrar que, bem, todo aquele luxo não aliviava em nada a situação em que ela estava.

Falando assim, um até podia achar que Milo era uma pessoa cordata e educada. Bom, ele até era, com quem ele queria. Porém, algumas horas atrás enquanto se reuniam com os agentes da CIA, Shina tivera a certeza de que ela não estava na lista das pessoas que Milo queria agradar. E isso a lembrava de que, se antes ela tinha a vontade de lhe falar sobre o que aconteceu entre eles, agora ela tinha praticamente que a obrigação de fazê-lo — mesmo que a coragem para isso seguisse lhe faltando.

Pois, até mesmo por conta da missão, era melhor ela falar com ele e arriscar-se a enfrentar a sua ira do que seguir sendo solenemente ignorada pelo guardião da oitava casa.

Depois que o Comissário saiu, Milo tirou os sapatos e, em silêncio, foi até o frigobar para pegar uma garrafa de água Perrier. Então sentou-se na cama ao lado dela depois de ajeitar os travesseiros, pegou o controle remoto e ligou a televisão.

— Milo — Ela disse, respirando fundo porque sabia que o que tinha que fazer não ia ser fácil. — A gente… precisa conversar.

Shina achava que ele a ignoraria como vinha fazendo até então, mas não. A televisão apagou-se ao toque do dedo dele no botão do controle remoto, e ele virou-se em sua direção.

— Diga.

O tom da voz dele não era o tom autoritário que lhe era habitual, tampouco era agressivo. Muito pelo contrário, ele falava com ela mantendo a voz moduladamente suave.

— Eu… Presumo que você se lembre do que aconteceu quando o Saga te deixou no seu quarto, comigo. — Shina nunca foi de enrolar para fazer as coisas. — Eu gostaria de te dizer que… Minha conduta naquela ocasião foi extremamente inadequada.

— Inadequada. — Ele repetiu, novamente num tom suave e condescendente.

Ela respirou fundo. Não podia se irritar. Milo tinha sim o direito de estar com raiva dela. Aquele era um pedido de desculpas, uma oferta de paz.

Se não por ela, pelo menos pela missão que tinham de compartilhar.

— Eu queria te deixar claro que me arrependo, e muito. E se você achar necessário… me disponho a reparar o mal que eu te fiz, e...

— ...O mal que você me fez.

Lá estava ele, fazendo isso de novo.

— Olha, Milo… Eu sei que você não tem obrigação nenhuma de me perdoar, eu não tenho como te obrigar a isso. Mas entenda que… Eu não pedi pra estar aqui, nem você pediu, mas aqui estamos. E eu estou aqui, de peito aberto, porque eu sei que eu errei muito feio quando fiz o que eu fiz, brinquei com os seus sentimentos daquele jeito...

— ...Meus sentimentos.

Aquilo não era uma conversa.

Ele repetia o que ela dizia como que para que ela escutasse o quão estúpida ela soava aos ouvidos dele.

E por mais que ela se arrependesse do que ela fez, por mais que ela soubesse do tamanho do erro que cometeu e que não, Milo não estava disposto a perdoá-la; Shina não pretendia deixar que ele tivesse carta branca para continuar espezinhando-a daquele jeito.

— Olha aqui — Sua voz agora já traía toda a irritação que não queria mostrar. — Eu tô tentando me desculpar com você. Se você não quer aceitar tudo bem, mas entenda uma coisa: Isso que você está fazendo, não vai funcionar. Vai comprometer a missão.

— ...Comprometer a missão.

Ela crispou os dedos no lençol, ele se levantou da cama.

— Benzinho — Ele disse, o mesmo maldito tom de voz de quem fala com uma garotinha que beija o chão que ele pisa. — Eu vou tomar um banho. Eu até tinha pensado se não era uma boa te chamar pra gente tomar banho junto, mas sabe como é. Às vezes você tem essa mania de me pegar para cometer atos libidinosos contra minha vontade, tem horas que isso fica bem inconveniente. Então, benzinho, você fica aqui, tá? Eu me arrumo em quinze minutos. Daí você se arruma depois e a gente desce pro brunch no salão de festas.

— Isso que você está fazendo, Milo — Shina quase bufava de raiva. — Não. Vai. Funcionar.

— Meu benzinho — Ele ladeou a cabeça, olhando para ela como se ela fosse seu bibelozinho de estimação. — Não fica assim. A gente tá no começo do nosso relacionamento, agora é pra gente se dar bem. Ainda falta um pouquinho pra gente chegar naquela parte onde você despedaça meu coração porque me larga pra correr atrás de um japonês de pau pequeno.

Como ela foi tonta.

Ela, que ligou para Geist para chorar porque achou que tinha ferido os sentimentos dele, que achou que ele era um guerreiro honrado. Ela, que ouviu Geist quando ela lhe veio com mais uma de suas loucuras; a de que Milo sentia alguma coisa por ela. Ela, que sentiu seu coração doer pela culpa por ter considerado que ela tinha razão, e por ter usado a fraqueza dele a seu favor e lhe trazido desonra mesmo depois que ele a protegeu de Teófanes.

Ela, que chegou a considerar que havia alguma coisa especial por trás do insuportável Escorpião Celeste, Guerreiro Modelo das Tropas.

Pois ela estava certa era quando achava que Milo desfilava na cara das adolescentes porque queria jogar com ela, queria que ela fosse mais uma delas, que lambesse suas botas de ouro até que ficassem lustrosas.

— Milo — Uma última tentativa. — Nós não podemos ficar nesse pé por cinquenta dias.

— Ah, não. Cinquenta, não. — Ele meneou a cabeça, olhando para o rádio-relógio do lado do seu criado mudo. — Quarenta e nove dias, onze horas e trinta e cinco minutos.

A porta do banheiro se fechou.

OOO

No espelho do banheiro da cabine, Milo dava os últimos ajustes no visual para de lá sair pronto para convencer como um Duque.

Vestia uma camisa de manga longa branca, uma calça social creme e cinto de couro lustroso que seriam complementados por um paletó azul-marinho; vindos diretamente dos itens pessoais colocados à sua disposição para essa missão. Tudo muito caro, podia ver pela qualidade do tecido e etiquetas famosas.

Uma mala inteira de roupas pelas quais Afrodite de Peixes seria capaz de matar — e sem nem um pingo de remorso.

Mas ele, no caso, tinha que ser sincero: não via a si mesmo gastando seu soldo para andar vestido ‘de marca’ até a ponta dos pés como fazia o colega da Décima Segunda Casa. Ele sempre foi mais do time do jeans, camiseta e sua amada jaqueta preta de couro que só faltava sair andando sozinha atrás dele. De uma falta de classe terrível, até parecia ouvir a voz afetada do cavaleiro de Peixes.

Olhou para os cabelos úmidos, a franja molhada quase lhe caindo nos olhos. Chasqueou a língua, insatisfeito.

Não que se considerasse um homem feio. Isso ele até não poderia, porque ele sabia que era (bem) mais apresentável do que a média. E também sabia impor presença: Não só pela armadura dourada, mas ele também sempre considerou que boa aparência e o impacto visual de um cavaleiro dourado eram meio que exigência da profissão.

Contudo, realmente não era acostumado a fingir que era rico ou nobre de nascimento; afinal de contas era justo o fato de não o ser que geralmente levava crianças até o Santuário. E ele não fazia parte da exceção.

Por isso — por nunca ter tido muita coisa além da vida de cavaleiro, era até meio irônico que agora ele tivesse que posar por aí como um nobre.

Era irônico por outras coisas também.

Olhou de relance para a aliança de ouro em seu dedo, talvez a parte mais importante de seu disfarce. Ironia pouca é bobagem, pensou, porque da cabine para fora ele teria que tratar Shina como sua amada esposa; tomá-la pelo braço e andar por aí ao lado dela, só sorrisos. E antes que sua consciência lhe viesse martelar que talvez ele tivesse pegado pesado com ela ainda há pouco, lhe vieram as memórias surpreendentemente claras daquele dia pelo qual ela tentava se desculpar.

Aliás, puta desculpa fuleira. Na remotíssima hipótese de haver perdão para o que aquela desgraçada fez, com certeza seria algo bem mais elaborado do que aquela tentativa choca de um “minha conduta foi extremamente inadequada”.

Então que sim, ele tinha pesado a mão, mas isso serviria para que ela entendesse a deixa e mantivesse sua distância.

Penteou os cabelos para trás, tirando a franja da frente de sua testa o máximo que pudesse. Tinha que tentar parecer um pouco mais velho, a franja não estava ajudando. Alguns fios teimosos, porém, voltaram para seu rosto; mas ainda assim estava melhor do que antes. Amarrou o restante do cabelo num rabo de cavalo baixo, deu uma última checada no maxilar e no queixo para ver se não seria necessário fazer a barba.

“É”, pensou para si mesmo e deu de ombros. “Vai dar pro gasto.” Fora que ele também tinha que desocupar o banheiro para que aquela outra lá entrasse e desse seus pulos para se transformar em algo que lembrasse remotamente uma recém-Duquesa.

Sim, porque sem dúvidas a diaba era bonita, isso ele não ia ter a cara de negar mesmo depois de toda a água passada por debaixo da ponte — ou até mesmo por causa dela. Mas duquesas não são só bonitas; aliás a maioria das duquesas nem bonitas são. Elas são finas, educadas e gentis; coisa que aquela bonitinha-mas-ordinária estava há anos-luz de ser.

Ao sair do banheiro já preparando o discurso meloso que se traduziria por ‘corre aí que a gente tá atrasado, estúpida’, parou em seco.

Ela estava com um vestido de manga curta, num tom que não era um branco puro mas também que não chegava a ser um bege. O decote de ombro a ombro deixava exposto o colo elegante pelos ossos aparentes nos lugares certos, mas moldava o busto fornido na medida em que descia justo pela cintura para se transformar em uma saia rodada na altura dos quadris — cuja graça equilibrava o corpo atlético de amazona. Os cabelos escuros estavam presos num coque alto, a franja jogada para um lado a fim de mostrar as orelhas enfeitadas com brincos de pérolas que certamente nenhum dos dois teria dinheiro para comprar, mas que também não eram daquele tipo de joia gritante que certos novos-ricos gostavam. O rosto devia ter maquiagem, claro, mas até nisso a danada acertou: um batom clarinho e alguma coisa que ela passou nos olhos para que os cílios ficassem ainda maiores do que já eram.

E aqueles malditos olhos de gata que ela tinha; não tinha joia no mundo que batesse aquilo.

Não podia ficar puto porque ela tinha acertado na mosca, afinal no fim das contas era essa a ideia. Mas também não tinha como ficar feliz porque — inferno, inferno, mil vezes inferno— os deuses bem sabiam que não era fácil pra ele ver aquela criatura daquele jeito.

Então ela se aproximou dele, os olhos verdes sem nenhuma sombra de raiva ou irritação, os lábios rosados curvados num sorriso.

— Eu já estou pronta.

A batida na porta indicou que os agentes Stan e Jack já os estavam requisitando.

Fucker and Sucker(2), ironizou Milo em sua mente, lutando contra a vontade de afastar Shina de si.

— Olha, olha — Stan disse, baixando os óculos escuros até a ponta do nariz. — E não é que vocês realmente tão parecendo gente fina.

— Obrigada, Agente Stan. — Shina disse, sua voz suave e melódica muito diferente do tom estridente que ela usava no Santuário. — Fico feliz que tenham ficado satisfeitos.

— Você também fez um bom trabalho, Milo. — Jack assentiu em sua direção. — Está muito bem.

— Obrigado, Agente Jack. — Assentiu de volta.

— Chegou a hora, crianças. — Stan lhes indicou a porta aberta. — Tá na hora do show.

— Vamos, benzinho? — Ofereceu a ela o braço, que ela aceitou com a doçura de uma delicada dama da sociedade.

— Vamos — E ela meneou a cabeça para apoiá-la em seu ombro como uma namoradinha apaixonada. - mon amour.

Milo trincou os dentes, engolindo a raiva para lhe refletir a expressão amena.

É guerra que ela quer? Pois muito bem.

OOO

— Vossas Graças! — O homem conhecido como Mohammed Al-Rifai os recebeu na porta do imenso salão de festas do último andar da embarcação. — Sejam bem vindos ao Azamara!

Ele era um dos mais proeminentes magnatas da marinha mercante saudita, e com fundos próprios bancou o cruzeiro que, segundo ele, era um de seus sonhos de infância.

Ele era, também, parente do terrorista cuja transação eles vieram interceptar.

— Muito obrigada, senhor Al-Rifai. — Milo meneou a cabeça enquanto o cumprimentava. — Mas, por favor, me chame de Milo.

Sem dúvida o Escorpião estava muito à vontade no papel de Duque de Apulia. Entrara no salão tão cheio de si quanto como ficava ao portar todo o ouro de sua armadura — e isso não era pouca coisa. E estava dando bem certo: Dava para perceber os pescoços femininos se virando para ver o pretenso duque chegar com sua esposa. Já esperava que ele chamasse a atenção porque, verdade seja dita, era difícil ignorar um homem com aquele corpo, aqueles olhos e aquela arrogância nata. Mas tinha que dar o braço a torcer: com os cabelos presos e penteados para trás ele ficava bem melhor do que com o cabelo solto que usava no Santuário.

— E esta beleza, é sua esposa? — O magnata agora firmou os olhos nela. — Uma visão encantadora. Prazer em conhecê-la, Madame(3) de Apulia.

— Muito obrigada, senhor Al-Rifai. — Shina sorriu discretamente enquanto o saudita lhe beijava a mão. — O senhor é muito gentil.

— Mas por favor, entrem, vou acompanhá-los até a mesa de vocês…

O salão era magnífico. Não havia outra palavra para descrevê-lo. Lustres de cristal, tiras de organza enfeitando o teto de vidro e vigas cobertas por vinhas, mesas cobertas com toalhas de linho bordadas e pratos de porcelana, talheres dourados e prateados perfeitamente enfileirados em meio a guardanapos de linho, sous-plats prateados e taças de cristal — tudo rigorosamente como manda a etiqueta.

Não que ela entendesse muito de etiqueta, mas ela sabia que essas coisas existiam e tinha a curiosidade de conhecê-las.

Uma pena, uma pena mesmo que ela estivesse nesse cenário de conto-de-fadas na situação em que estava.

— Oh, venham, venham! — O armador saudita os instou até uma mesa onde se sentava um homem que, pelo ghutra em sua cabeça, deveria ser saudita. — Vou apresentar-lhes ao Sheikh Abdullah. Vossa Alteza… — Agora ele se dirigia ao Sheikh, que se levantou para cumprimentá-los. — Vossas excelências, o Duque e Duquesa de Apulia, da Família Real Grega.

— Oh, sim, prazer em conhecê-lo, Excelência. — O homem cumprimentou Milo em estilo ocidental. — E em conhecê-la, Madame. — Também lhe fez uma mesura enquanto lhe beijava a mão. — Encantado com vossa beleza.

Disfarçou o incômodo pelo olhar demorado que o Sheikh lhe dispensou.

— Sentem-se — O próprio Sheikh apontava-lhes as cadeiras vazias de sua mesa. — Nos acompanhem, por favor.

— Muito obrigado. — Milo agradeceu com um meneio de cabeça, puxando a cadeira para que ela se sentasse.

— Excelência… — Agora o Sheikh se dirigia a Milo. — Ouvi dizer que ainda moras na Inglaterra.

— Sim, sim. — Milo respondeu, enquanto bebericava uma taça de água. — Moramos eu e minha esposa em uma propriedade nos arredores de Londres.

— Oh, sim. — O Sheikh franziu a testa, num sinal de pesar que deveria ter a ver com a situação da família real grega: exilada de seu país e vivendo em Londres e arredores. — Mas… Onde você conheceu sua senhora?

— Ah? — Milo se voltou para ela, e ela lutou contra o reflexo de endurecer a espinha enquanto ele hesitava para responder. — ...Eu a conheci na Itália, quando estive visitando...

— A Toscana — Respondeu, mantendo a voz doce enquanto pensava que Milo era um idiota por hesitar assim. — Nossas famílias se conheciam, numa dessas visitas nós fomos apresentados…

— E com certeza ficou imediatamente encantado por sua beleza — O Sheikh se dirigiu a Milo. — E muito bem fez em não deixá-la escapar. Uma conquista e tanto, vossa Graça.

Milo meneou a cabeça, discretamente sorrindo de lado. Para o Sheikh, que não o conhecia, podia parecer um cacoete qualquer, mas não era seu caso.

Era exatamente essa a cara que ele fazia quando aquelas pirralhas o paqueravam na cara dura e ele fazia que não via.

— Na verdade foi meu benzinho quem não me deixou escapar. — A mão direita de Milo, cujo braço descansava no encosto de sua cadeira, foi até seus cabelos para delicadamente ajeitar uma mecha atrás de sua orelha. — Nosso romance começou quando ela, num de seus arroubos, me roubou um beijo. Literalmente. Não foi, benzinho?

Dizer isso na frente de um Sheikh saudita, certamente acostumado com outros padrões de comportamento feminino?

Filho de uma puta.

— Oh… Ousado, com certeza... — O Sheikh parecia um tantinho escandalizado, e era exatamente essa a intenção desse bicho imundo. — Mas com certeza sua ousadia valeu a pena.

— Pode até ser… — Shina meneou a cabeça com um sorrisinho inocente, esperando que isso disfarçasse o rubor em suas bochechas. — Foi a maneira que eu encontrei de fazer mon amour driblar o seu recato e prestar atenção em mim.

— Recato? — O Sheikh agora lhe olhava com vívida curiosidade. E Milo, com os olhos azuis faiscando.

— Sim. — Ela disse, com um sorriso brilhante. — mon amour é um rapaz de ouro. Bom filho, educado, respeitador das boas tradições, ciente de seus deveres em relação à sua família... e muito religioso, sabe? Muito recatado também. Estudou a vida toda em um internato católico para rapazes... E era um rapaz tão dedicado aos colegas de internato que a família acreditava que ele tinha vocação divina.

— Vocação divina?

— Sim, vocação sacerdotal. — Shina assentiu ao Sheikh, ainda sorrindo. — Ele amadureceu tarde para certas coisas, as pessoas achavam que ele acabaria sendo padre, ele e seu amigo inseparável que persistiu da época do internato. E quando eu o conheci… Eu não pude resistir. Tão educado, tão delicado, tão bom filho, amigo tão fiel e dedicado…

Agora o olhar escandalizado do Sheikh ia em direção a Milo — Porque decerto os padrões de comportamento masculino da sociedade onde ele vivia eram diferentes dos de um moço recatado de um internato de rapazes.

— ...Mas eu acho que mon amour não se arrependeu, não é? — Olhou para Milo, lhe dando seu melhor sorriso. — De se casar comigo...

Milo sorriu de volta, mas seus olhos lhe diziam claramente que, se ele pudesse matá-la, ele o faria ali. Agora.

Stan e Jack, próximos a eles, também não paravam de encará-los com uma expressão alarmada no rosto.

— Nunca, meu benzinho. — Milo novamente acariciou seu cabelo. — Você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida.

OOO

Foi só no final daquele dia de cão que Milo reparou em outra parte do problema que era dividir a cabine com Shina.

Obviamente, eles foram alojados em uma cabine de casal; que equivalia a um quarto luxuoso como ele nunca tinha visto até hoje. Com isso Milo até contava.

Mas lhe era meio incrível — no mau sentido — que com todo o luxo ninguém tivesse se lembrado de colocar um sofá ali. O máximo que havia era uma poltrona estampada de madeira laqueada com dourado. O tipo de coisa que Afrodite adoraria: Bonito, sim, mas com praticidade zero.

E sem um sofá, ou ele dividia a cama com Shina, ou um deles dormiria no chão.

Nem morto que ele ia dormir no chão; ainda mais por essa criatura leviana, baixa, vil, venenosa que ela era. Depois das de hoje? Depois do amigo inseparável? Internato para rapazes? Mon amour?

Ela que dormisse no fundo do mar com uma pedra amarrada pelo pescoço. Ele até fazia questão de ser ele quem a jogasse para fora do navio.

Falar nisso, lá estava ela no banheiro há mais de, sei lá, vinte minutos.

Ainda por cima folgada.

Aproveitou que ela estava enganchada lá dentro para mudar ele de roupa. Colocou uma camiseta por cima da cueca boxer, estava bom demais para ele que era acostumado a dormir só de cueca ou mesmo sem nada. Pegou um livro para ler — tinha pensado nisso e trazido alguns, afinal seriam cinquenta dias onde, uma vez dentro da cabine, ele precisaria de um bom passatempo. Mas o cheiro de sabonete na lufada de ar úmido e quente vinda do banheiro o fez levantar levemente os olhos.

Ela estava de blusinha sem alça de mescla e um short moletom puído — essa sim, uma roupa de dormir típica da Shina de Cobra que ele conhecia. O que ajudou bem menos do que ele pensou que ajudaria, porque mesmo que não fosse uma roupa pouco ‘composta’, era ainda capaz de atiçar bastante a imaginação de qualquer um.

Ajudavam ainda menos os olhos verdes dela fixos nele, mas ele se focou na expressão um tanto injuriada dela ao vê-lo na cama

Mon amour já vai se deitar?

Sério que a folgada realmente estava achando que ele ia ceder a caminha para ela?

Votre amour(4) está cansado. — Colocou o livro no criado-mudo ao seu lado. — E meu benzinho, não vem para a cama?

— ...Mon amour promete que se comporta?

— Mas benzinho… Era eu quem precisava estar preocupado, não? Foi você quem me agarrou na última vez que nós dividimos uma cama. Me roubou um beijo, lembra? Que durou até bastante tempo, se não me falha a memória (5).

Ela estreitou os olhos, mas logo voltou a usar aquele sorriso meloso no rosto.

— Ah sim, mon amour. Foi assim que nosso relacionamento começou, não?

— Foi sim, benzinho. — Devolveu o sorriso. — Além do que… Eu sou um rapaz muito recatado, despertei tarde para certas coisas. Não foi isso que você disse?

— Foi sim, mon amour. — Ela andou até a cama, se sentando nela com uma lentidão insuportável. — Espero que você tenha gostado da ideia, eu tive que improvisar.

— Ah é, benzinho?

— Me baseei na sua ideia. — Ela esticou as pernas para cobri-las com a colcha. — Não foi você mesmo quem disse que vamos chegar na parte onde eu te dou um pé na bunda para correr atrás de um japonês de pau pequeno? Eu tenho que ter um motivo, não tenho?

— Eu vou sofrer tanto… — Ele fechou os olhos e meneou a cabeça, levando as mãos ao peito num gesto dramático. — Talvez até precise da ajuda dos meus amigos do internato para rapazes. Mas pelo menos eles podem me consolar. Já o japonês de pau pequeno… Não creio que ele vá te ser de muita ajuda. Nós também sabemos como acaba essa história, não sabemos?

— Sabemos? — Ela estreitou os olhos de novo. — Eu não sei se eu sei…

Ele sentiu a bile subir até o fundo da sua garganta.

Se ela era uma trouxa que se insistia em se iludir atrás de um moleque comprometido, ele não tinha mais nada com isso. Isso não deveria mais mexer tanto com ele. Aliás, isso não nunca deveria ter mexido com ele, ponto final.

— Pois devia, porque dicas, palavras e fatos não estão te faltando... — Ele assentiu lentamente, olhando nos olhos dela para que ela lesse nos seus o quanto ela era imbecil por se prender a uma causa tão perdida quanto aquela. — ...Boa noite, meu benzinho.

Ele se virou para apagar a luz do abajur ao seu lado; a hesitação dela lhe parecia um sinal de que esse golpe em particular talvez tenha lhe doído.

Que bom.

— Boa noite, mon amour. — Sentiu o peso dela mexer o colchão na medida que ela se deitava. — Durma bem. Sonhe com o carinho de votre inséparable ami(4), do internato para rapazes.

Ele rilhou os dentes, mas não respondeu. Se respondesse, eles iam ficar a noite inteira nessa ladainha. E ele queria — mesmo — dormir.

A cama era grande, eles mal sentiriam a presença um do do outro.

...Mas ela estava ali, deitada do seu lado, o corpo dela esquentando o dele mesmo à distância pelo calor aprisionado entre as cobertas.

Milo não pregou os olhos a noite inteira.

OOO

— Eu sinceramente não sei qual que é a desse Santuário. Não sei. Me escapa à compreensão...

A voz indignada de Afrodite para os companheiros de roda, no pé das escadarias das doze casas, chamou a atenção de Camus quando ele voltava do Administrativo. Onde ele foi para — sorte triste a dele — resolver algumas pendências que Milo deixara na Corregedoria.

Certo que Milo não pediu — como não pediu nem falou merda nenhuma antes de se largar para uma missão sabe-lá-zeus-aonde. Mas os pendentes não se resolveriam sozinhos e, de todos os outros cavaleiros de ouro, ele era o que melhor entendia os garranchos de Escorpião.

— ...Quando tem uma missão espinhosa, daquelas cascudas, o Afrodite vai. É pra exterminar geral na ilha de Andrômeda? Manda o Peixes. É pra atuar em campo sob disfarce com roupa de mulher? Peixes. Mas na hora que aparece uma missão filé pra ficar à disposição da CIA num puta cruzeiro de luxo? Aí não. Não é pro meu bico.

Afrodite se sentindo injustiçado pela vida e discorrendo sobre suas agruras para Shura, Máscara da Morte e um improvável e sorumbático Aiolia? Quanta novidade, pensou Camus enquanto rolava os olhos e se preparava para subir os lances de escada até Aquário.

— Mas aí, calma lá. — Shura estava apoiado numa pilastra. — Tá certo que a missão é filé e tudo, mas tem suas dificuldades. Tipo, qual o sentido de cê ir num cruzeiro desses pra passar cinquenta dias fingindo que é casado com a Shina de Cobra?

Camus, que já ia subindo em direção a Áries, parou em seco.

Ma che, te falar ó — Máscara da Morte replicou. — Tá certo que eu nunca pensei em pegar a Cobra, mas numa missão assim? Ela ia falar Venha Cobra toda santa noite, pode anotar aí.

Camus voltou para tentar discretamente acompanhar a conversa do grupo.

— Você só tá falando isso com essa desenvoltura toda porque um certo artrópode não anda por aqui esses dias. — Shura ironizou.

— Aliás, falando nisso… Ei, Camus! — Afrodite esticou o pescoço para incluí-lo na conversa. — Conta aí pra gente como foi a reação do bicho quando descobriu que ia dividir cama, mesa e banho com a Shina. Deve ter dado pulos de alegria, porque bora falar de oportunidade de ouro, né, colega. Porque se a coisa não sair agora… Não sai nunca mais.

— Ei, francês, que cara é essa? — Shura estranhou. — Vai dizer o quê, que não sabia?

— Aaaahhh — Afrodite sorriu malevolamente. — Quer dizer então que ele nem te falou nada? Mas que espécie de melhor amigo você é?

— Uma espécie em extinção, protegida por umas leis aí de preservação ambiental: O amigo da onça — Máscara da Morte fez um muxoxo. — Não foi ele quem largou o bicho pra se foder lá sozinho junto com a Shina? E não dá nem pra dizer que foi a primeira vacilada. Agora não adianta ficar aí com cara de bosta, não.

Camus fechou ainda mais a cara.

Não por estar magoadinho porque o melhor amigo não lhe contou um detalhe tão importante que ele teve que descobrir assim, sendo o último a saber. Imagina, fosse uma coisa banal ele nem teria feito questão de tomar conhecimento.

O problema era que justamente por ser o melhor amigo daquela criatura e conhecer o bicho como conhecia, ele também sabia que para Milo aquilo não era uma missão.

Era uma puta de uma roubada.

Em que ele entrou de cabeça.

Aiolia, que permanecia totalmente alheio ao grupo, dessa vez olhava para ele com a mesma apreensão que ele devia estar lendo em seu rosto.

Porque ele também sabia o tamanho da encrenca onde o bicho tinha se metido.

OOO

Notas finais
(1) Título emprestado de Sua Alteza Real Princesa Olga de Grécia, Duquesa de Apulia. Obviamente Milo não é um príncipe, é um reles duque de uma família real que foi desterrada de seu próprio país. (2) São uma paródia do Casseta e Planeta aos "enlatados" policiais norte-americanos transmitidos pela TV entre os anos 1970 e 1990. Os atores Johnny De Bruce (na verdade, Hubert) e Chuck Smegman (na verdade Reinaldo) representam "uma dupla de dois tiras" (a pair of two double cops) cujo delegado é também um chefe do narcotráfico (embora eles nunca tenham notado). Um dos bordões mais famosos do esquete era “Vamos, fucker, mexa esse traseiro gordo!” (3) Para duques e duquesas, o título honorífico é Sua/Vossa Excelência ou Graça, mas Madame também é muito utilizado. (4) Votre amour: Seu amor. Votre inséparable ami: Teu amigo inseparável (5) Faro Fino, epílogo.