Mentiras Sinceras
2 "Estou pedindo a tua mão - e um pouquinho do braço"
Notas iniciais
— Um, dois! Um, dois! Um, dois!
Na arena de treinos do ginásio feminino do Santuário, as amazonas e saintias trotavam em volta da pista de atletismo — parte dos exercícios de finalização da sessão diária de treinos que lhes cabia. Shina as seguia supervisionando, os cavaleiros e aprendizes homens continuavam a vir assisti-las e isso continuava dispersando a atenção das meninas em relação aos treinos para ficarem sapeando quem entrava e quem saía nas arquibancadas.
Para todos, tudo continuava igual.
Para Shina, porém, havia uma diferença. Algo banal para uns, mas que para ela era tão profunda que tornava toda a rotina que ela repetia diariamente há tanto tempo ali, naquele campo, algo totalmente distinto do que ela um dia foi.
Milo não apareceu mais para assistir os treinos. Nem em nenhum outro lugar em que pudessem se encontrar.
Ele se lembrava (1). Claro que ele se lembrava, ela mesma foi a primeira a vislumbrar essa possibilidade como sendo o mais provável dos cenários.
Nas poucas vezes que viu Milo, ao longe, no campo de treinamentos do Ginásio Masculino ou a caminho da sala da Corregedoria, sua máscara de Soldado Modelo das Tropas estava firme como nunca: a expressão arrogante, olhos duros, a boca torcida na altivez pretensiosa do Escorpião Dourado.
Era irônico saber que ele, agora, lhe era mais inatingível do que para as suas admiradoras adolescentes. Irônico principalmente porque ela sabia o que havia por trás daquela pose — e esse saber lhe doía.
Pensar nisso, porém, era contraproducente. Ela tinha trabalho a fazer.
— Amazona de Cobra. — A voz de Misty de Lagarto a tirou de suas divagações.
— Cavaleiro de Lagarto. — Meneou a cabeça numa continência.
— Você tem um minuto?
— Ah… — Olhou de esguelha para as meninas, que já estavam finalizando a sessão de treinos com os alongamentos. — Claro.
Afastaram-se da Arena o suficiente para que pudessem conversar com relativa privacidade.
— Então — Shina disse para evitar rodeios. — O que foi?
Ele lhe estendeu um comunicado por escrito, uma convocação formal. Estava sendo aguardada no Salão do Grande Mestre.
Seu rosto não se alterou, mas ela trincou os dentes.
— Eles adiantaram algo sobre do que se trata?
— Não. Apenas recebi o informe. — Misty deu de ombros. — Não é como se eles se dessem ao trabalho de avisar a gente. Nisso, pouca coisa mudou desde os tempos do antigo Patriarca.
— Shion era o antigo patriarca… — Shina sussurrou entre os dentes enquanto o outro já se afastava. — ...Imbecil.
Suspirou, olhando para o pedaço de papel em sua mão.
Era provável que ela fosse chamada para prestar explicações sobre seu incidente com a Polícia de Rodorio. Certamente não mencionaria detalhes comprometedores acerca de como saiu de lá — ou o que aconteceu com o lunático do escrivão Teófanes — mas alguma coisa teria que dizer sobre como e porque acabou dentro da cadeia da delegacia.
Certamente, uma ocasião longe de ser seu momento mais brilhante. Longe disso.
Não deveria deixar o Grande Mestre esperando, então seguiu em direção às escadarias das Doze Casas — o último lugar do Santuário onde gostaria de estar.
Andou por elas de cabeça baixa, falando o mínimo possível; a maioria dos cavaleiros estava ou em horário de serviço, ou em treinamento. Para sua sorte — e em algum momento da sua vida ela tinha que ter sorte — Escorpião era uma das casas que estava vazia.
O único cavaleiro que a interpelou, na verdade, foi Aquário — que calhou de estar naqueles dias em que ficava conversador.
E que não devia ter recebido comunicado nenhum porque, na ocasião da aparição de Teófanes, ele fez o que sabia fazer de melhor: Sumiu do mapa para deixar o ‘melhor amigo’ Milo na mão. O resto, como dizem por aí, foi História.
— Uma voltinha no Salão do Grande Mestre? — Camus disse, recostado numa pilastra enquanto balançava um copo de destilado entre os dedos. E, pelo que conhecia da peça, o líquido transparente no copo dificilmente seria água.
— É — Ela assentiu, mostrando a ele o comunicado escrito.
— Por conta do negócio da delegacia?
— Provavelmente. — Ela torceu a boca. — Lá vou eu subir pra me explicar como entrei de gaiata na estripulia que vocês dois arrumaram.
— Nossa, estamos de mau humor hoje. — Camus deu de ombros.
— Não é mau humor — Não conseguiu segurar a língua. — Mas bem que você também devia estar lá levando sua parte do sermão. O Milo não te chamou para se explicar, não?
— Nada — Camus deu uma bufada que era pra ser irônica, mas saiu um tanto ressentida. — A gente não se fala desde aquele dia.
‘Bem vindo ao clube’, teve vontade de dizer, mas dessa vez ela deu conta de se segurar. Que era muito bem-feito Milo dar um Gelo no melhor-amigo-da-onça, era; mas ela também estava no time do Freezer de Escorpião.
E no caso dela, provavelmente, sem data para sair.
— Enfim, se te serve de consolo não foi pra você que sobrou a pior parte da história, non?- Camus virou o resto do copo de uma vez. — Um sermãozinho do Shion não é tanta coisa assim.
Shina respirou fundo. Por mais que Camus estivesse lhe jogando uma indireta deliberada, ele tinha um ponto — e ela, melhor do que ninguém, sabia o quanto ele tinha.
Rolou os olhos quando viu que o outro já ia porta adentro em sua área privativa.
Passar por Peixes foi como de hábito — Afrodite não lhe deu sequer o cabimento de sua presença, devia estar enfurnado em seu jardim. Tomou a via lateral da Décima Segunda Casa para não ter que passar pelas roseiras tóxicas, afinal o Grande Mestre devia querê-la acordada. No Templo do Patriarca, foi entrando no seu escritório sem muita cerimônia, apenas dando uma batidinha na porta para avisar sua chegada.
Sentiu o rosto perder a cor assim que viu, também sentado diante da mesa de Shion, ninguém menos que Milo de Escorpião em pessoa.
E ela que achava que hoje ela teria sorte.
— Sente-se — Shion, de pé, colocou uma xícara de chá diante de Milo e outra diante da cadeira para qual ele apontava. — Fique à vontade.
Em seguida acrescentou à mesa um pratinho com biscoitinhos amanteigados.
Shina sentou-se, sentindo seus joelhos moles e as mãos geladas. Não deveria nem poderia ficar assim nervosa diante de Milo, mesmo apesar de tudo. E, pensando bem, ela tinha que ter antecipado a possibilidade de prestarem juntos as devidas explicações a respeito do ocorrido.
Milo, que apenas olhou-lhe de esguelha enquanto se sentava, não disse uma palavra.
— Bem, bem… — Shion sentou-se diante deles, e Shina não conseguia evitar que a sensação de frio nas mãos se espalhasse pelo corpo. — Agora que estamos todos aqui, podemos começar.
Milo assentiu e deixou em cima da mesa do Grande Mestre um envelope de papel pardo.
— ...O que é isso? — Shion parecia surpreso. — Milo, você fez um relatório sobre você mesmo?
— A lei vale para todo mundo. — Ele disse calmamente. — Então também vale para mim.
— Ora, Milo, deixe de bobagens. — Shion pegou o envelope rindo como se Milo fosse uma criança adorável fazendo alguma gracinha. — Esse assunto já foi resolvido, deixemos isso para lá…
Resolvido, sim, com um Satã Imperial de Saga na cabeça de Teófanes; pensou Shina enquanto via o Grande Mestre colocar o envelope de lado e pegar outro para colocar diante de si.
Um envelope com o carimbo da S.H.I.E.L.D, Shina pensou, fazendo o possível para não trair o nervosismo que agora fazia seu corpo formigar inteiro. Olhou de lado para Milo, que também olhava fixamente para o envelope nas mãos de Shion.
Que olhava para eles, sorrindo, com aquela cara cretina de ‘querem uma bolachinha?’ enquanto estava designando a eles — eles dois — uma missão conjunta. Sim, porque aquilo só podia ser uma missão conjunta.
— Vamos direto ao ponto…
Shion abriu o envelope e pegou dali algumas cópias de documentos — com o selo ‘top secret’ da CIA — e… um folder turístico?
Azamara Journey — O luxo das arábias, agora em alto mar!
— ...Temos uma solicitação de uma missão conjunta com a CIA através da S.H.I.E.L.D, e gostaria de saber se poderia contar com a colaboração de vocês.
— Claro — Milo disse, o rosto impassível. — Do que se trata?
— Bem… — Shion meneou a cabeça e isso não era um bom sinal. — Antes de contar com sua anuência definitiva, é necessário que eu vos explique os pormenores desta missão particular.
— Por favor — Shina acenou afirmativamente com a cabeça. — Continue…
Sim, porque se era pra ela se foder desse tanto, era melhor que pelo menos Shion não se demorasse.
— ...É uma missão um tanto atípica, já que a nossa equipe não atuará diretamente em campo. Na verdade, a única função do time é garantir a segurança da CIA enquanto eles fazem o trabalho deles. Que é capturar alguns homens de confiança ligados a um magnata saudita que resolveu fundar um grupo terrorista para depôr a família real de seu país. Para isso ele está se ligando a um grupo extremista do Afeganistão, o Taleban, e suspeitamos que ele os está custeando com armas e conhecimento militar que ele adquiriu quando lá atuou no combate aos soviéticos… Bem. Os detalhes a respeito estarão nas cópias que eu vou disponibilizar para que vocês levem para casa.
Milo acenou com a cabeça, Shina espelhou seu movimento.
— ...Enfim, a CIA conseguiu levantar algumas informações a respeito de uma transação em que o terrorista irá transferir uma larga quantia em dinheiro para o Taleban, que controla algumas partes do território afegão. Claro que, na verdade, ele está baseando seu grupo por lá: Ele conhece o território, tem experiência nele e, a bem da verdade, não há melhor lugar para se esconder no mundo do que nas cavernas do Afeganistão tendo o Taleban como aliado.
— Mas por que a CIA não rastreia a transferência de dinheiro entre contas? — Milo perguntou. — Uma soma grande é bem difícil de ser transferida sem rastros.
— Aí é que está. — Shion respondeu. — Ele não vai transferir via banco. Ele vai entregar a soma em dinheiro vivo.
— Pior ainda… — Shina se ouviu dizer.
— Não se o território onde acontecer a transação for um cruzeiro marítimo saudita, cujos donos são a sua família. — Shion mostrou-lhes o folder. — Onde eles controlam exatamente quem entra e quem sai, o quanto entra e o quanto sai.
— Então vamos nos infiltrar junto com a CIA para tentar interceptar o dinheiro?
— Sim, Milo. Mas são eles quem vão fazer a operação toda. Vocês só vão interferir caso a CIA solicite expressamente a sua ajuda. O provável é que não, mas nunca se sabe.
Shina respirou aliviada. Das missões que já recebeu, essa era seguramente a mais fácil de todas. Mas… quando foi mesmo que as coisas lhe vieram fáceis na vida?
Porque isso — uma missão diet em um cruzeiro de luxo com tudo pago pela CIA — era o tipo da coisa que nunca acontecia com ela.
— Grande Mestre — Ela disse, Milo voltou levemente o rosto em sua direção. — Eu tenho uma dúvida…
A expressão neutra de Milo mudou momentaneamente para uma de desprezo, como se ela estivesse para fazer a mais tola das perguntas. Bom, talvez estivesse, mas era bem como Geist dizia: ‘Alguma coisa errada não está certa.’
— Diga. — Shion ignorou o muxoxo de Milo e lhe dirigiu um sorrisinho simpático. Simpático demais para os padrões do Grande Mestre, e isso também não era bom sinal.
— ...Entendo que seja uma missão onde estaremos à disposição da CIA, mas… Eu não entendi porque o time precisa ser composto necessariamente por um cavaleiro e uma amazona.
Por incrível que pareça, o chispar sardônico dos olhos de Milo — como se ela fosse uma fracote por insinuar que podia arregar de uma missão com ele — foi bem menos preocupante do que o olhar desconcertado de Shion.
— Bem… — Shion hesitava a olhos vistos até para Milo, que agora também encarava o Grande Mestre com os olhos vivos de curiosidade. — A S.H.I.E.L.D especificou que queria um cavaleiro de ouro e uma amazona com experiência de campo. Nunca se sabe, foi o que eles disseram. Mas…
Era nítido que Shion procurava as palavras para dizer o que precisava dizer, e isso definitivamente não era bom.
— ...Esse é um cruzeiro de alto luxo, praticamente um hotel saudita sete-estrelas em alto mar. Coisa muito exclusiva, então… não dá para simplesmente mandar um time de cavaleiros sem um disfarce, ou toda a operação pode ir por água abaixo.
— Um disfarce. — Milo repetiu lentamente, sua voz grave e baixa.
— É. O disfarce da CIA é a identidade de um abastado… Casal de nobres europeus em lua-de-mel que passará cinquenta dias no mais luxuoso cruzeiro do mundo.
Shina sentiu suas entranhas dando um nó, e rezava para que seu rosto não estivesse tão branco quanto ela achava que estava.
— A própria CIA requisitou que a equipe fosse preferencialmente um casal, assim o disfarce seria o mais convincente possível; mas o casal que tínhamos em mente… Não é mais um casal, como vocês já devem saber. Eu entendo que é uma situação inusitada para uma missão Santuário, mas a própria Atena sugeriu vossos nomes para a S.H.I.E.L.D.
‘Ah, claro’, pensou Shina, porque sabia que mesmo que Saori se engraçasse com Julian Solo, ela jamais esqueceria do seu oh-tão-precioso Seiya — por mais namorando firme que ele estivesse. E já que ela não conseguiria se livrar daquela japonesinha insossa… Pelo menos de uma das ‘preteridas’ do Pégaso ela podia se livrar, não?
Não era muito devotado de sua parte querer enfiar as suas garras na cara daquela sonsa — porque por mais Atena que ela fosse, Saori era uma sonsa — mas ela não estava conseguindo evitar.
— ...A não ser, é claro, que vocês tenham alguma objeção pessoal para trabalharem juntos em uma missão como esta. O que é perfeitamente compreensível pela natureza delicada que ela envolve…
— De minha parte não há objeção alguma. — A voz de Milo soou firme, resoluta, interrompendo Shion em sua tergiversação. — Como sempre, Santuário poderá contar comigo.
Shina sentiu o olhar de Milo sobre ela, mas não olhou de volta.
— Também não tenho nenhuma ressalva a fazer. — Forçou a voz pela garganta para que ela soasse tão calma quanto a de seu futuro parceiro de missão.
— Ótimo. — O alívio na voz de Shion era quase palpável, esse velho remoçado filho de uma puta. — Vocês partirão do Porto de Atenas em três dias.
Milo assentiu com a cabeça e se levantou, impávido como sempre, enquanto Shion se despedia.
— Boa sorte a vocês dois.
OOO
Camus sinceramente não entendia porque as pessoas o criticavam por ser, como elas diziam, ‘recluso’.
Ele é que não conseguia entender como aquele povo conseguia viver no meio daquela fornalha a céu aberto. Todas as vezes que ele saía no horário de sol mais forte ele tinha a vívida impressão de estar entrando em um dos círculos do Inferno de Dante; e aqueles selvagens andando como se aquele mormaço escaldante nada fosse.
Depois as pessoas ainda tinham coragem de questionar os malefícios do Efeito Estufa, vejam vocês.
Por isso as pessoas por quem ele se dispunha a sair de sua Casa — cuidadosamente arrumada e projetada para ser seu recanto naquela Sucursal do Inferno que é o Santuário de Atena — deviam considerar essa uma prova de sua mais alta estima.
Era isso o que ele pensava enquanto subia as escadarias em direção à Casa de Escorpião. Pois eis que Milo não lhe dirigia a palavra desde que acordou em seu quarto sob a supervisão de Aiolia, orientado por Shina a não deixá-lo sozinho porque Teófanes o dopou com três dardos pressurizados onde cabiam, cada um, drogas suficientes para derrubar um elefante (1).
Não que Milo e ele ficarem sem se falar fosse novidade. Pelo contrário. Milo era um homem de temperamento forte e rancores demorados; ele mesmo também não era santo e tinha plena consciência disso. Eventualmente, porém, ou ele ou Milo davam o braço a torcer e um aparecia na casa do outro com a disposição de lavar a roupa suja; aí tudo continuava bem.
Logo, o que o incomodava, e muito, não era o silêncio ressentido de Milo em relação a si.
Era o silêncio ressentido de Milo em relação a todo mundo.
Bem que ele estava tentando esperar que Milo esquecesse o perrengue da delegacia e voltasse a falar com ele ou que surgisse uma oportunidade de interpelá-lo em território neutro; mas a situação estava piorando em vez de melhorar. Hoje, por exemplo, Milo subiu para sua Casa sem sequer passar na área de treinos dos cavaleiros de ouro, coisa que ele nunca fazia mas agora vinha fazendo quase todos os dias.
Entrou no “Templo do Escorpião Celeste”, que sequer veio recebê-lo na porta. Oh, merda, pensou enquanto entrou na área privativa apesar do cosmo claramente hostil do dono da Casa.
— Vem cá — Camus revirou os olhos quando deu de cara com Milo no sofá de sua sala, iluminada apenas pela luz da tela da televisão. — Você vai ficar nessa humor de merde até quando?
— Eu não te chamei aqui — A voz dele deveria ter parecido monótona, mas apenas soava cansada. — Pega teu rumo.
— Milo, pára com isso, vai. Você sabia que eu não ia ficar lá pra ser preso junto com você.
— Mas é claro que eu sabia. — Ele ironizou, ainda com os olhos fixos na TV. — ‘Milo eu sou seu amigo contanto que você não me incomode’ é a tônica da minha vida quando se trata de você.
O francês suspirou, absorvendo o tom ácido e o sotaque francês carregado que ele usou para imitá-lo. Era bem verdade que ele não estava com disposição para uma DR desse tamanho, mas ele não teria como evitá-la dessa vez.
Então que sim, Milo estava puto com ele e puto com o mundo, isso não era novidade. Mas dessa vez Camus sabia que isso não era tudo. Não era uma questão de Milo fazer uma tempestade num copo d’água por uma coisa que, vá, em pouco tempo renderia a ele próprio umas boas risadas. Aliás, isso era só — para usar um termo ‘ártico’ em sua figura de linguagem — a ponta do iceberg.
O temperamento direto e combativo de Milo sempre forçava as coisas para fora, mesmo quando não era essa a intenção. Era por isso que o amigo tinha a capacidade — admirável, ele tinha que admitir — de fazer o que tem que ser feito e não sofrer tanto pelo que poderia ter sido e não foi. Raivas, tristezas, frustrações ou alegrias, tudo terminava saindo uma hora ou outra para encontrar seu devido lugar na superfície dos sentimentos e atitudes de Milo.
Mas agora ele via o melhor amigo de anos travar uma batalha encarniçada contra si mesmo porque ele agora queria — desesperadamente — segurar os sentimentos dentro de si. Algo completamente antagônico à sua natureza, e que não seria um problema se Milo não tivesse também sua tenacidade inumana.
Não tinha como aquilo dar certo, e Milo ia se machucar pra valer se continuasse tentando.
Só que ele não tentaria esse tipo de merda à toa. Ele não se esforçaria tanto para se esconder de tudo e todos por conta de uma bobagem.
Fosse o que fosse que tinha acontecido no intervalo entre Saga largá-lo dopado aos cuidados de Shina e ela chamar Aiolia para seu lugar e sair ventando de Escorpião… Dessa vez foi alguma coisa séria. E tinha o dedo de Shina nessa história, Camus podia apostar.
— ...Eu não mandei você sair? — Milo se levantou em direção ao quarto.
Camus revirou os olhos pensando se não era melhor tentar desentocar o bicho outro dia, mas uma coisa o fez parar em seco.
Na mesa da sala havia alguns papéis e envelopes — como sempre, aliás, o corregedor sempre trazia trabalho para casa. Mas o carimbo ‘top secret’ característico da CIA não era serviço administrativo do Santuário.
Era só o que faltava.
— Que encrenca foi essa que você se arrumou com a CIA?
— Uma missão. — A voz de Milo se fez ouvir do quarto. — Ir de navio até a Arábia Saudita e voltar, coisa simples.
Só que com Milo mexido desse jeito, nada seria assim tão simples.
— Vai quando?
— Amanhã eu vou pra Atenas, de lá pego a embarcação.
Camus estava preocupado, sim, e também sabia que tinha dado uma pisada na bola com o amigo. Mas sabia também que quando ele ficava desse jeito, não adiantava muito dar murro em ponta de faca.
Soltou um suspiro resignado e foi em direção à saída dos fundos.
— Ei, Milo, quando você voltar a gente conversa. — Elevou a voz para que o outro o ouvisse do quarto. — Mas qualquer coisa me liga de lá, certo?.
Foi respondido com o silêncio do amigo, exatamente como esperava.
OOO
Uma coisa ninguém podia dizer da CIA: A lendária agência de inteligência americana não perdia tempo.
Pois lá estavam ele, Milo, e Shina; já vestidos à paisana dentro de uma sala secreta de reuniões socada dentro de um restaurante de beira de esquina em Atenas para receberem os materiais que seriam usados na missão em que estavam prestes a embarcar.
Não trocou uma palavra com ela, e não pensava em fazer isso a não ser que fosse estritamente necessário. Ela podia ser uma safada, uma rameira desonesta que merecia coisa muito pior do que se arrastar no chão por Seiya de Pégaso; mas ele era um profissional. Se ele foi designado para a missão, ela ia ter que funcionar.
E ele ia garantir que ela funcionasse, custe o que custar.
— Olá, bom dia, desculpem o atraso… — Um homem de meia idade, cabelos curtos e castanhos entrou na sala acompanhado de outro, também de cabelos curtos mas grisalhos e com entradas na testa, os olhos cobertos com óculos escuros. O terno preto de ambos dizia que deviam ser os agentes que os acompanharia.
Outros dois homens entraram com duas malas grandes — que deviam conter os artigos pessoais que usariam na missão.
— Muito bem… — O homem de cabelos castanhos falou de novo, devia ser o falante do grupo. — Vocês são Milo de Escorpião e Shina de Cobra, não é? Eu sou o Agente Jack, e esse — apontou para o outro, que acenou em resposta. — É o agente Stan.
— Bem vindos à melhor missão da vida de vocês — O agente Stan disse, risinho ladeado e meio sacana. — Não é todo dia que um casal ganha uma puta lua-de-mel assim, de mão beijada, com tudo pago no cruzeiro mais luxuoso do mundo.
O olhar desconcertado de Shina, porém, logo deixou claro para o tal agente — que devia ser o engraçadinho dos dois — que aquilo não seria uma “lua-de-mel”.
— Não somos um casal. — Milo disse, mantendo a voz calma.
— Como assim, não são? — O outro agente, Jack, franziu a testa. — O Fury tinha nos falado que mandaria uma dupla do Santuário que era um casal…
— O casal não é mais um casal. — Respondeu ao agente. — E nós somos melhores que eles para esse tipo de missão.
— Melhores, como assim? — O agente Jack perguntou.
— Minhas habilidades são mais adequadas para missões desse tipo. — Milo assentiu, sorrindo levemente. — Nada de grandes explosões de cosmo, portanto posso atuar mesmo em locais fechados ou lotados de civis.
— Ah, é? — O tal Stan sorriu de volta. — Muito bem… Milo.
Dito isto, ele tirou do bolso duas caixinhas azuis-piscina fechadas com um laço-de-fita em cetim branco, colocando-as em cima da mesa bem diante de seus olhos.
Tiffany & Co; escrito em baixo relevo prateado.
— Uma interferência direta é cogitada apenas e somente em casos de extrema necessidade. Mas a função principal de vocês é, na verdade, servir de álibi para nós. — O agente Jack completou. — A identidade que forjamos pra vocês é a de um descendente da Casa de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg e sua também nobre esposa, que estão comemorando o casamento recente no cruzeiro. Nobre anônimo dessa Casa é o que não falta na Europa, então fica razoavelmente fácil criar um casal de nobres de quem ninguém nunca ouviu falar. Mas podem confiar nesses documentos; são tão legítimos que vocês dois poderiam até mesmo matar uma pessoa usando essas identidades...
De fato. A antiga Família Real Grega perdeu muito de seu prestígio e de suas riquezas desde que foram desterrados pelo Coronel Geórgios Papadópoulos. E certeza que, mesmo antes disso, a Realeza grega devia bem mais do que um favorzinho ou dois para os ianques e os ingleses.
— Eu e o Agente Jack — Stan recostou-se na mesa, braços cruzados na altura do peito. — seremos seus seguranças particulares. Afinal, vai que aparece um terrorista para atrapalhar a realeza.
Shina torceu a boca num muxoxo, Milo rolou os olhos.
Podia garantir que ele estava gostando muito menos da ideia do que qualquer um dos presentes naquela sala; mas ninguém o veria fazer biquinho porque está se sentindo contrariado.
— ...E para que nós consigamos cobrir o território, vocês precisam circular pelo cruzeiro como o casalzinho apaixonado e feliz. — O Agente Jack continuou. — Tudo seria mais fácil se vocês já fossem um casal, mas se não são… vão ter que improvisar. E bem.
— Então, Milo e Shina… — O Agente Stan abriu as caixinhas, uma por uma, e de dentro delas tirou dois porta-joias de veludo preto. — A única coisa para que vamos precisar de vocês nessa missão é disto. Vocês unidos e felizes na alegria, na tristeza, na saúde, na doença; sabem como é.
Shina tinha à sua frente uma aliança de ouro amarelo. Ele, um delicado anel solitário de brilhante.
— Ah, desfaçam essas caras… — O Agente Jack bufou. — Se vocês são solteiros convictos pode parecer meio assustador o realismo da coisa; mas veja lá, são só cinquenta dias. Garanto que nem vai ser tão difícil assim.
Sem que Shina percebesse, ele deu uma piscadela na direção de Milo. Que travou os dentes, mas segurou a cara no lugar.
Profissional, ele tinha que ser profissional, pensava ele enquanto segurava com muito custo sua vontade de dar na cara daquele infeliz que tinha o desplante de lhe insinuar, mesmo que com uma piscadinha de olho, que ele deveria aproveitar a chance para se divertir com a companheira de missão que ele tinha, decerto, achado muito bonitinha.
Hah.
Só não dizia que ela era uma cobra porque essa era uma ofensa grave à classe dos répteis inteirinha. E se tinha alguém nesse mundo que podia dizer isso com pleno conhecimento de causa, era ele.
Mas os tais agentes Stan e Jack não precisavam saber disso. Ninguém envolvido naquela missão precisava saber disso. E também não daria àquela ordinária o gostinho de achar que ela seria capaz de afetá-lo ao ponto dele pôr a perder uma missão.
Esticou a mão para pegar a caixinha com o anel de brilhante, e com ele em mãos olhou para Shina enquanto estendia sua mão esquerda, pedindo pela dela.
Conseguia ver a apreensão dela clara nos olhos verdes e enormes, mas ela estendeu sua mão para que ele lhe colocasse o anel no dedo.
— Sua vez — Ele disse ao terminar, um certo tom de satisfação em sua voz porque sim, aquela vagabunda ia entender bem direitinho que o troco, ah, o troco sempre vem.
OOO
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