Mentiras Sinceras
9 Epílogo
Notas iniciais
Cruzeiro Azamara Journey, entrada da Cabine Luxe 7S08
— Mon amour— A jovem de vestido de gala falava com uma voz arrastada para o rapaz de fraque que, ao que parecia, lutava para acertar a chave na fechadura da porta. — Abre logo esse negócio, eu tô apertada...
— Pronto, pronto — O rapaz respondeu com a voz igualmente pastosa, cambaleando para endireitar-se e pegar a garrafa de Don Pérignon das mãos da moça. — Meu benzinho já pode entrar, não vai mais se mijar nas calças…
— Ei — Ela parecia querer protestar. — Calma aí, você não vai beber tudo sozinho, Me dá...
— Mas você não tava apertada? Vai pro banheiro logo!
Enquanto ela dava passos vacilantes em direção ao banheiro, ele virava goles grandes do champanhe no gargalo. Ouviu o barulho da descarga e os passos dela em sua direção.
— Ei — As mãos da moça agora tentavam tirar a garrafa da sua boca. — Solta que agora sou eu!
— Hmmmm — Ele balançava a cabeça enquanto seguia bebendo no gargalo, tentando se desviar das investidas da jovem para tomar-lhe a garrafa. — Hmmmm- eeeei, me devolve aqui, eu-
— Seu idiota! — Ela se afastou de pronto quando uma considerável quantidade de champanhe caiu sobre ela e o lençol da cama. — Meu vestido, meu vestido!
— Mas quem mandou você ficar tentando tirar a minha garrafa?...
— Vai manchar, o que eu faço?... Me dá essa garrafa aqui, olha só o que você fez, seu bêbado!
Ela deixou a garrafa em cima da mesinha em frente à cama, para depois lutar uma inglória batalha contra o zíper do seu traje de gala.
— Ai, benzinho, pera que você vai arrebentar o zíper desse jeito! — Ele a puxou para então virá-la e começar a soltar os colchetes do vestido para então baixar o zíper. — A pessoa tá chapada desse jeito e ainda quer beber, socorro, viu…
— Nem vem que esse zíper é um saaaco pra descer! — Ela respondeu de bate-pronto. — Aliás, mon amour, que prática toda é essa pra descer zíper de roupa de mulher? Desse jeito você deixa seu benzinho com ciúme!...
— Ah, não, até você com isso, pelo amor dos Deuses do Olimpo tudo…
— Mas mon amour agora vai pagar de mocinho recatado? Encarnou o personagem, foi?
— Pfffff… A propósito, você sabe uma coisa que eu ia gostar, benzinho?... — Ele se afastou para pegar a garrafa de novo. — ...Que eu transasse tanto quanto o povo pensa que eu transo. Juro que eu ia ser um homem muito mais feliz…
— Coitadinho de você. Tinha a loiruda lá, te secando, por que não foi atrás dela?...
— Eu ia, quando eu vi que você tava com aquele shei- shhhei- Ele não acertava a palavra. — ...aquele playboy de merda.
— Ei — Ela apontou o dedo para ele, os olhos dela pesados. — Ele só estava me escoltando até eu achar você…
— Ele tava te escoltando pra cabine dele, benzinho…
— ...Por isso que eu mandei ele pra puta que pariu ele. — Ela meneou a cabeça. — Aquele babaca tava viajando na droga se achava que ia me comer…
— Ah, é?
— Claro que é, eu sou uma mulher casada! — Ela levantou a mão para mostrar o anel de brilhante, tentando ser irônica mas falhando miseravelmente pelo seu grau de embriaguez. Em seguida, caminhou de novo em direção ao banheiro, tirando o vestido no trôpego trajeto.
Ele, ocupado bebendo champanhe no gargalo, não percebeu.
O barulho da torneira ligada indicava que ela devia estar molhando o vestido inteirinho, não só o lugar onde se derramou o champanhe. Ele, então, resolveu que ia começar a se desfazer do fraque — apanhou um pouco dos botões do colete para retirá-lo, depois desafivelou o cinto e tirou a gravata. TIrar os sapatos foi toda uma epopéia de sua embriaguez contra seu equilíbrio, mas depois deles retirados foi fácil desfazer-se da calça.
— Mon amooooouuuurrrr— A voz dela, de dentro do banheiro, o tirou da batalha momentânea contra os pequenos botões da camisa. — Cadê minha roupa de dormir?...
— Sei lá — Ele voltou a tentar desabotoar a camisa.
— Me traz uma roupa! — Ela choramingou. — Eu tô pelada aqui!
— Aaaaai minha santa paciência… — Ele saiu de onde estava e pegou um roupão no armário. — Bota isso, benzinho, e sai que eu que preciso ir no banheiro…
Devidamente ataviada em seu roupão, ela saiu do banheiro para deixar ele entrar. Andou na direção da garrafa de champanhe, pegando-a para beber do gargalo como ele estava fazendo antes. Depois foi até seu lado do armário para trocar o roupão por sua roupa de dormir.
Assim que a encontrasse, na verdade.
— Mas onde caralhos tá… aaaai, também não vou ficar com essa calcinha, diabo de coisa entrando na bunda que incomoda, arre!...
Jogou a calcinha longe, abaixou pra procurar outra. Ao abaixar, porém, viu o mundo rodar e seu estômago se contrair. Apoiou-se na cama, ouvindo ele tossir e engasgar dentro do banheiro.
— Ei… — Forçou-se de pé, mal sentindo os pés tocando o chão pela dormência. Andou até o banheiro, escorando-se pelas paredes até chegar na porta. — Destranca a porta, eu…
— Eu tô bem — Dentro do banheiro, ele seguia vomitando um pouco do que bebera, mas sua tontura estava piorando em vez de melhorar. — Fica de boa, eu tô bem…
Ele ouviu o barulho de algo caindo no chão.
Levantou escorando-se nos cabideiros de metal, saiu do banheiro para vê-la no chão, ofegando.
— Vem — Ele a puxou para que se levantasse, quase caindo junto. Foram ambos se escorando até o banheiro, onde ela cambaleou até ficar de joelhos na privada.
— ...Meu cabelo... — Ela balbuciava, sentindo seu estômago expulsar o que bebera em jatos. — ...Meu cabelo…
— Calma — Ele puxou seu cabelo do rosto, enrolando-o atrás das sua nuca enquanto ela seguia vomitando. Quando ela parou, ele a ajudou a levantar e entrar dentro da banheira, para que ela se agachasse e sentasse embaixo do chuveiro.
— Tira o roupão — Ele disse, puxando-o de seu corpo.
— Mas aí eu vou… ficar pelada e… Ahhh! — A água gelada do chuveiro começou a cair em cima dela e, momentaneamente, diminuindo sua tontura e a ânsia de vômito. Aproveitou para respirar fundo, abraçando os joelhos para tentar deixar sua nudez menos evidente.
Mas ele, no estado que estava, não a perceberia nua nem se ela estivesse numa sessão de pole dance. Estava ocupado demais em não deixar sua tontura levá-lo ao chão.
— ...Tá melhor?... — Ele disse, ela balançou a cabeça dizendo que sim. Ele desligou o registro de água fria.
— ...Meu roupão… — Ela murmurou, ele pegou-o e estendeu a ela. Ela o colocou, mesmo molhada como estava.
Escorou-se nele para que conseguisse chegar até a cama, para onde ela cambaleou para puxar as cobertas, o roupão úmido lhe atrapalhando os movimentos.
— Tira isso — Ele puxou a gola do roupão. — Tá todo molhado…
Ela usou as cobertas para, por baixo delas, tirar o roupão com alguma dificuldade. Tentou sentar-se, segurando o edredom junto ao seu peito, desajeitadamente usando o roupão para enxugar o que desse da água em seu cabelo. Deitou-se, usando o edredom para se cobrir até o pescoço.
Ouviu ele cambaleando até o banheiro, segurando-se nas paredes para não cair. Uma parte remota de seu cérebro embotado sabia que ele precisaria de ajuda, mas não conseguia mais impedir seus olhos de se fecharem e o torpor se espalhar pelo seu corpo.
Já ele, uma vez no banheiro, se desfez dos últimos botões da camisa e de sua roupa íntima para entrar embaixo do chuveiro gelado, segurando-se na parede porque sabia que se ele se agachasse para sentar, não levantaria mais. Deixou a água cair sobre sua cabeça, o frio fazendo seu queixo tremer junto com os calafrios que a náusea causava. Continuava com vontade de vomitar e até tentou, mas não havia mais o que sair. Firmou as mãos na parede e baixou a cabeça, fixando sua atenção na água que escorria pelo ralo enquanto o jato do chuveiro caía sobre sua nuca. Assim ficou até que o frio fizesse seu corpo tremer inteiro, porque isso ajudava-o a se sentir menos nauseado e mais alerta.
Desligou o chuveiro, andando devagar até um cabideiro com duas toalhas. Colocou uma por cima da cabeça, numa tentativa de secar o cabelo, e cobriu-se com a outra. Respirou fundo, o mais fundo que pudesse, porque uma vez que a sensação de frio o deixava, sentia a tontura voltar.
Precisava deitar-se o mais rápido possível, ele sabia disso.
Andou devagar até a cama, jogando as toalhas no canto da parede para se cobrir com as cobertas. Mas, de barriga para cima, a náusea começava a voltar. Curvou-se de lado e então de bruços, sentindo a sensação de tontura melhorar um pouco.
A luz começava a incomodá-lo, o quarto estava aceso, mas do seu lado do criado mudo havia interruptores para desligar todas as luzes do quarto. Bateu a mão neles até que tudo ficasse escuro. Isto feito, afundou o rosto no travesseiro, respirando fundo para afastar a sensação de morte iminente que a bebedeira lhe trazia.
Não demorou muito até que fosse vencido pelo torpor do álcool e se entregasse ao sono dos bêbados, assim como ela, ao seu lado.
OOO
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