Notas iniciais
Herói: Homem-Aranha. Local: Nova York. Ano: 1975.

Peter Parker caminha devagar. Suas costas doem, suas pernas estão no limite das forças. Se ele tivesse que disputar uma maratona, com certeza chegaria em último lugar, com poderes de aranha e tudo. Ele bem que poderia se balançar no alto com sua teia, mas a quantidade de músculos usados, num simples salto e balanceio no ar, era muito maior do que simplesmente andar a pé.


Apesar do cansaço físico, ele estava calmo e resignado. Sobrevivera a uma difícil prova de resistência física e mental, estava extenuado, mas saíra vivo. Seu finado tio Ben poderia ficar orgulhoso do sobrinho. Com grandes poderes... vinham grandes provações e confrontamentos aquém de sua capacidade, mas quem disse que herói era aquele que só lidava com o que fosse possível?


Esse era ele, o herói.


Peter abriu a porta da frente da casa de sua tia. Logo passos se aproximaram. Seu sentido de aranha não disparou. Anna Watson apareceu. Ela ficou pasma, em seguida atirou-se sobre ele para um breve abraço. Começou a falar com lágrimas nos olhos.


– Peter! Deus do céu! Estávamos preocupados. Pensamos o pior. Graças a Deus que você está bem. Sua tia... bem, venha vê-la.


Anna Watson mal teve tempo de se afastar de Peter, quando outra pessoa avançou sobre ele abraçando-o forte. MJ, sua colega da escola e sobrinha de Anna.


– Bom te ver, gatão! Bom te ver! — MJ afastou-se limpando as lágrimas para não borrarem sua maquiagem.

Peter poderia jurar de que estas eram lágrimas sinceras de felicidade e alívio, por vê-lo com vida. Não que estivesse rolando algo sério entre eles. Depois de Gwen Stacy, o coração dele estava fechado para novos relacionamentos. MJ era só uma boa amiga, com quem poderia jogar conversa fora ou ser uma referência de seus tempos de escola.


Anna Watson agarrou Peter pelo braço e o levou ao quarto de sua Tia May. Ela estava deitada, quieta, dormindo. Um calafrio percorreu Peter. E se sua tia tivesse morrido de preocupação? E se ele a perdesse também? Peter precisou de autocontrole para não se atirar aos prantos nos braços de sua tia, pedindo mil perdões por sua ausência naqueles meses todos. Ele não sabia o estado dela, poderia estar doente, e ele simplesmente não poderia transtorná-la ainda mais.


– May! May! Abra os olhos, querida. Seu sobrinho Peter está aqui. — Anna Watson falou docemente.


– Hã... O que... Peter? Peter, onde você está? — May Parker falou debilmente.


– Estou aqui, tia May. — Peter falou solícito.


– Oh, Peter, meu sobrinho. — May falou com a voz embargada.


Peter se atirou em seus braços, não se contendo mais. Ambos choraram de saudades e alívio.

– O que houve, Peter? Onde você esteve? — Anna Watson perguntou, depois que May Parker se recuperou da emoção de reencontrar seu sobrinho desaparecido.


– Eu, hã... é difícil de explicar. Eu ... estive perdido em outro país. — Peter falou engolindo em seco.


– Como assim, Pete? Que outro país? Lá não tinha telefone?


– Eu não falava a língua das pessoas e eles não confiavam em mim, então... sem telefone.


– Estranho. E não tinha embaixada americana nesse outro país?


– Se tinha, nunca me contaram o endereço.


– E como você foi parar lá?


– Houve um mal entendido... e fui levado em uma viagem de barco no lugar de outra pessoa.


– Você foi sequestrado, Peter? — May Parker perguntou com um soluço estrangulado no peito.


– Não, Tia May, nunca. Foi tudo um mal entendido. Eles não falavam inglês, e eu não consegui me fazer entender, mas depois tudo se resolveu.


– E isso demorou três meses para ser resolvido? — Anna Watson voltou à carga.


– Isso mesmo, Senhora Watson.


– E que país é esse?


– Não sei dizer o nome corretamente, mas acho que pertence à Rússia.


– Oh, meu Deus! Comunistas! — May Parker gemeu.


– Acalme-se, tia May, o mundo não está mais em guerra. Os russos são amigos, agora.


– Se são amigos, por que o mantiveram preso por três meses? — Anna Watson não queria deixar o assunto esfriar.


– Veja, eu não fui preso pelo governo russo. O governo russo nem sabe da minha existência. As pessoas que me levaram, me confundiram com outra pessoa. Quando perceberam o erro cometido, eles me libertaram.


– Depois de três meses?


– Não, senhora Watson... eu não saberia dizer quanto tempo isso decorreu. Eu perdi a noção do tempo.


– Mas isso é um caso de polícia. Você foi sequestrado, levado contra a vontade para um outro país, e só foi solto, porquê era o homem errado? O governo russo nos deve um pedido de desculpas. — Anna Watson estava indignada.


– Senhora Watson... eu estou cansado, e a última coisa que quero é um incidente diplomático me colocando na capa de um tablóide.


– De qualquer jeito, Peter, você terá que se apresentar à polícia. Há uma busca nacional no seu encalço.


– O que?


– Você sumiu por três meses. O que esperava?



Peter teve que prestar depoimento na delegacia de polícia. Eles foram mais incisivos que Anna Watson, e inclusive ameaçaram envolver o governo russo nas investigações. Diante disso, Peter resolveu mudar seu depoimento. Disse que era tudo mentira, que a verdade se resumia a uma fuga da rotina que ele vivia, para experimentar a vida ao natural, em uma comunidade hippie. Peter, entretanto não soube dizer onde foi isso e que comunidade era essa. A polícia achou que ele estava mentindo novamente. Então ele foi submetido a um exame de corpo delito. E tudo foi por água abaixo.


Peter simplesmente silenciou quanto ao motivo de ter equimoses espalhadas em todo o corpo, arranhões e vergões, além de cicatrizes de cortes nas costas. O nível de lesões apresentado era compatível com extrema violência, inclusive com risco de vida. O perito se espantou por Peter ainda estar vivo. Todos os outros indivíduos já examinados, com o mesmo tipo de lesões, já estavam mortos. Ele também fez indagações, mas Peter manteve o mutismo.


Como o caso precisava de uma conclusão, escolheram a história da comunidade hippie, e quanto às lesões de Peter, concluíram que ele se metera em brigas com os hippies. Quem poderia garantir que eles eram mesmo tão pacíficos, depois de todo o estardalhaço dos crimes da "Família Manson"?


Os tablóides foram evitados, mas não a curiosidade alheia. Peter teve que aguentar as gozações dos colegas da faculdade, mas isso era algo a que já estava acostumado. Flash Thompson o tornara expert em aguentar bullying, e Harry Osborn, seu melhor amigo, o apoiou quando as piadinhas começaram. Harry até brincou dizendo que o imitaria qualquer dia desses, dando um sumiço da escola, embora suspeitasse que seu pai, o magnata Norman Osborn, o acharia antes de dobrar a esquina.

Faltava aparecer no trabalho, mas sendo fotógrafo freelancer, tinha total independência de horários, sem ter que prestar explicações pelo seu desaparecimento. Peter sabia que precisaria apenas de algumas fotos do Aranha em ação, para conseguir seu emprego de volta. O velho J. J. Jameson era um osso duro de roer, mas em se tratando de negócios, o chefe era uma raposa. Sabia que as fotos do aranha eram como galinhas dos ovos de ouro, vendiam muito.


Peter voltou a se balançar entre os prédios, à noite. Seus ferimentos aos poucos foram sarando, o que permitiu que ele pudesse voltar a fazer acrobacias durante os vôos com a teia. A cada flexão muscular o vigor e a adrenalina o deixavam elétrico e bem disposto. Era bom estar de volta a sua velha rotina em Nova York.


O que havia acontecido há três meses? Seres alienígenas o haviam levado contra a vontade, após um encarniçado combate, rumo a outro sistema estelar, em nave espacial, através de um buraco de minhoca espacial. Lá chegando ele foi escravizado e usado como gladiador, lutando contra super seres intergaláticos. A cada luta, ele chegava ao limite de suas forças, mal resistindo por um fio, um segundo, uma piscada, uma batida de coração.

Nunca entendera como sobrevivera a todas aquelas lutas. Cada soco, rajada de energia, arremessos, murros, golpes certeiros em sua cabeça, costas, abdomen, braços e pernas... O corpo humano não fora preparado para combates em outros mundos. Ele deveria estar morto a essa altura. Mesmo tendo o poder de um aracnídeo, mesmo sendo uma espécie de híbrido radioativo entre um humano e um artrópode. Em seu próprio mundo ele era fantástico e poderoso, em outro planeta ele não passava de carcaça.


O que o mantivera vivo durante todo esse tempo foi a lembrança do lar. Sua tia, seus amigos, sua cidade. Nunca imaginara que seu planeta natal fosse tão bonito, e que as pessoas que conviviam consigo fossem tão maneiras e amigas. Até os vilões toscos que combatia pareciam gente boa, apenas mal encaminhados na vida, comparados com a fonte de maldade e aniquilação, que eram os gladiadores alienígenas.


Ao final do último torneio de combate, após Peter perder a batalha, um dos gladiadores vencedores pediu por sua liberdade. Ficara compadecido do pequeno humano aranha, ou vai ver chegaram a conclusão de que ele não era bom o suficiente, para aquele tipo de esporte. Esse foi o único gesto de simpatia que Peter conseguiu daqueles seres. Fora devolvido a seu planeta natal, no limite das forças, no último alento de vida que ainda possuía, e podia sentir-se sortudo por isso.


E essa era uma história que não poderia compartilhar com ninguém. Afinal quem acreditaria?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!