Dim, dim, dim

O som irritante do despertador começou a ecoar pelo quarto, abri os olhos com dificuldade tateando lerdamente a cabeceira da cama em busca do celular, que estava embaixo do livro que eu li na noite passada.

Desliguei a função despertador e olhei pela janela ampla do quarto, meus olhos ainda estavam um pouco embaçados, mas pude ver que era uma manhã nublada e um pouco nebulosa, a temperatura era baixa, como o normal dessa época do ano em Santa Ágata, no litoral do Rio de Janeiro.

O vento entrava pela brecha da janela, me fazendo encolher debaixo do edredom, fechando os olhos sem a mínima vontade de reabri-los tão cedo.

— Sofia! Levanta! Você tem que ir para escola! – minha amada, pequena e robusta avó gritou entrando no quarto.

— Eu não quero ir – cobri a cabeça com o travesseiro esperando ela ir embora.

— Mas você tem que ir.

Senti o travesseiro ser puxado e logo depois o edredom ser arrancado cruelmente de cima do meu corpo, permitindo que o vento frio batesse contra ele ainda quente me fazendo despertar a força.

— Você venceu! – me levantei com o mau humor estampado na cara.

— Não precisa ficar com essa cara, as férias do meio do ano estão bem próximas. – tentou me animar. – Sua mãe volta para casa no seu primeiro dia de férias. – essa última frase Vovó falou de maneira hesitante.

Ela sabia que a notícia, "Marina estava voltando para casa", não era algo realmente agradável, eu tinha um péssimo relacionamento com minha mãe.

Fui em direção ao banheiro sem falar mais nada.

— Eu vou terminar de preparar o café. – Vovó falou por fim, se retirando do quarto.

Assim que eu cheguei ao banheiro, apoiei minhas mãos na pia larga e encarei o espelho. Meus cabelos castanhos claro estavam bagunçados e meus olhos do mesmo tom estavam um pouco avermelhados, assim como meu rosto que normalmente era pálido.

Fiquei na frente do espelho uns cinco minutos, isso com certeza iria me atrasar para escola, mas já era normal eu me atrasar. Minha avó já tinha recebido umas duas cartas de advertência da escola falando sobre meus atrasos, só esse ano, mas ela só falava para eu me esforçar mais em chegar cedo, e jogava a carta em uma gaveta qualquer.

Nos cinco minutos que fiquei em frente ao espelho me analisando eu pensava sobre minha vida, porém eu pensava mais sobre minha antes vida.

Eu podia dizer que eu era bonita como minha mãe, na verdade uma versão de 16 anos da minha mãe. Mas diferente de Marina eu era uma beleza comum, já ela tinha uma beleza mais chamativa, talvez por causa dos seus olhos verdes extremamente brilhantes e suas bochechas coradas. Com certeza era isso que a fazia mais bonita e essas eram as únicas coisas físicas que eu não tinha herdado dela, o que me fazia deduzir que meus olhos eram parecidos com os do meu pai, ou não, era uma questão que talvez eu nunca tivesse a resposta.

Eu nunca havia visto meu pai, nem por foto, eu nem ao menos sabia seu nome, e Marina se sentia satisfeita por isso, ela nunca falava dele e se eu tentasse tocar no assunto era sempre cortada, esse era um dos motivos por nós duas não nos darmos bem, além dela nunca estar presente, sempre está trabalhando e viajando obviamente a trabalho.

Marina é casada com o trabalho, o mesmo é a prioridade número em sua vida, mas de certa forma eu acabei me acostumando com isso. Eu tenho a Vovó e isso já é o bastante, ela me ama e eu a amo, acho que isso já é o suficiente para ser considerada uma pessoa feliz.

Desci as escadas correndo em direção a cozinha onde estava minha mochila, enquanto eu terminava de vestir meu casaco de capuz, que eu nem lembrava que existia, por cima da camisa do uniforme.

— Toma. – Vovó me entregou um copo descartável grande cheio de cappuccino de caramelo que eu amo, junto com um sanduíche enrolado em um guardanapo.

— Obrigada! Até o almoço. – dei um beijo em seu rosto e fui embora apressada.

A escola era no final da rua, não era uma rua muito grande, mas minha casa era a primeira. Desembrulhei o sanduíche e comecei a tomar meu café da manhã enquanto caminhava, não era o hábito mais saudável do mundo, mas eu estava bem atrasada.

Eu já estava na frente da casa de Alana, ela era minha melhor amiga e uma das poucas pessoas com quem eu me relacionava de forma próxima. Ela abriu a porta de sua casa e veio correndo ao meu encontro, com seus cabelos cor de fogo ao vento.

— Bom dia! – falou sorrindo simpática como sempre, ela era a simpatia em pessoa, muito diferente de mim.

— Bom dia, Alana. – eu já tinha terminado meu café, coloquei o copo e o papel no bolso lateral da mochila e puxei o capuz sobre a cabeça, o vento havia ficado mais forte e mais frio.

— Por que você não me chama de Ariel como todo mundo? – ela entrelaçou seu braço com o meu tremendo um pouco por causa do frio.

— Primeiro eu não sou todo mundo, segundo nem todo mundo te chama assim e terceiro você não é a Pequena Sereia. – muitas pessoas a comparavam com a personagem dos contos infantis fortalecendo sua cisma com a comparação.

Alana era nadadora, parecia até um golfinho, e era por esse apelido que seus pais a chamavam desde criança. Ela amava praia, principalmente no verão, não saia de lá e sempre arrumava um jeito de me levar, mas eu sempre ficava embaixo de um guarda-sol com quilos de protetor solar preservando minha palidez. Além desse amor pela praia e pela água, Alana parecia fisicamente com a Pequena Sereia e vivia como se o mundo em que vivemos fosse seu conto de fadas.

— Isso é você quem está dizendo, Chapeuzinho! – ela sorriu brincalhona olhando para o meu capuz.

— Só por causa do capuz? – questionei nos aproximando da frente da escola.

— Não só, você também mora com a vovozinha e é uma inocente nada inocente. – ela me soltou e entramos na escola.

— Atrasadas de novo. – a inspetora nos fitou acusadora, mas nos deixou seguir para sala.

A aula do primeiro tempo era filosofia, nosso professor era um louco apaixonado pela matéria. Quando entramos na sala ele nem nos percebeu, pois estava ocupado demais falando enquanto só dois alunos prestavam atenção nele, os outros dormiam ou estavam conversando. Eu e a Alana fomos para o fundo da sala como de costume.

— Só pra você saber a Chapeuzinho não morava com a vovozinha. E o que seria uma inocente nada inocente? – falei assim que nos sentamos nas carteiras.

— Não importa se ela morava ou não com a vovozinha, tinha uma vovozinha na história. E uma inocente nada inocente é o que você é. – ela falou com se fosse algo óbvio.

— E como eu sou? – perguntei muito interessada em sua resposta. Ela me encarou pensativa por um breve momento.

— Bem, você é toda quieta, boa aluna, tirando os atrasos nunca teve problemas com a escola, todos acreditam que você é uma verdadeira santinha e parece que não faria nada de comprometedor. – seu tom era debochado como se tudo que ela falasse fosse uma mera ilusão.

— É eu sou assim inocente, quase que um anjo. – sorri de um jeito fofo.

— É. Só que não. – ela agora tinha um tom mais sério sem deboche. – Acredito que você nunca faria mal a ninguém, mas eu te conheço de verdade como ninguém aqui te conhece, você é mais esperta que qualquer um aqui, tem quase que um detector de mentiras em si própria e sabe como manipular cada pessoa nessa sala, exceto o cara que faz com que você não seja uma santinha. – ela indicou com a cabeça Pedro que estava dormindo em sua carteira, próximo do local em que estávamos sentadas.

— Por que ele faz com que eu não seja uma santinha? – questionei corada.

— Eu tenho certeza de que você tem diversos pensamentos e sonhos nada santos com ele. – ela riu maliciosa sabendo que eu ficaria ainda mais corada.

— Isso não é verdade. – tentei disfarçar minha vergonha.

— Eu te conheço Sofia. Por isso digo e reafirmo que você é uma inocente nada inocente, igual a Chapeuzinho Vermelho. – eu entendia o que ela queria dizer, e de certa forma concordava.

Pelo fato de eu ser muito quieta e discreta, conseguia observar bem as pessoas e apesar de não ter nenhum interesse de usar suas fraquezas contra elas, eu poderia fazer isso.

— Você até que pode ter alguma razão sobre isso. – eu não cederia jamais, dizendo que o que ela falava era verdade e que concordava plenamente.

— É! Eu tenho razão, ainda mais sobre o Pedro. – ela falou baixinho me provocando.

— Eu não quero falar disso. – corei violentamente e ela riu baixo.

— Por que você não tenta se aproximar dele? – insistiu.

— Já disse que não quero falar sobre isso. – repeti desconfortável com o assunto.

— Eu sei que ele é meio fechado, ninguém o acha normal, e o irmão dele é o maior mentiroso da escola, ou melhor, do bairro. Mas ele parece ser um cara legal, além de ser um gato. – ela continuou como se eu não a tivesse pedido para parar de falar desse assunto, eu a encarei sem saber o que responder a ela.

Eu gostava do Pedro a uns dois anos, eu acho. Ele mora na rua detrás da minha e acredito que estudávamos nas mesmas escolas desde sempre, já que as escolas mais próximas para nós eram as mesmas. Ele é dois anos mais velho do que eu, ele tinha repetido de ano duas vezes, uma no 8º ano do fundamental e outra no 1º ano do ensino médio.

Desde ano passado éramos da mesma sala por causa de suas reprovações e ninguém as conseguia entender direito, ele era um garoto muito inteligente, mas só dava atenção às matérias das quais ele gostava e essas eram as que praticamente ninguém gostava, como matemática, física e artes, a última até que todo mundo gostava, mas não pelos mesmos motivos de Pedro, ele realmente se interessava pela matéria, já os outros só viam como menos uma matéria para se preocupar com nota.

Por sua inteligência, as pessoas falavam que Pedro estava ficando reprovado para ficar na mesma sala do irmão e poder ficar de olho no Grande Mentiroso, e esse ano ele repetiria novamente, mas eu tinha certeza de que não era isso, ele era mal compreendido, ninguém fazia realmente questão de entendê-lo.

Eu passava pela loja de móveis personalizados do pai do Pedro e ele sempre estava lá ajudando o pai, fazia isso com paixão, a paixão que ele nunca tinha na escola, mesmo quando estava com alguma garota que fosse louca por ele pelo simples fato dele ser lindo e com estilo de menino mau.

Podia não conversar com ele e nunca me aproximar, mas eu sabia que eu era a única garota que gostava dele de verdade, porque eu tinha me apaixonado pelos olhos alaranjados cheios de vida e paixão que ele tinha quando estava na loja.

Eu tinha me apaixonado pelo seu sorriso reluzente de satisfação ao ver que uma peça de decoração, que ele havia concluído, tinha ficado perfeita. Eu tinha me apaixonado pelo jeito como ele passava a mão pelos cabelos negros e perfeitamente bagunçados ao analisar a estrutura de algum móvel. Eu tinha me apaixonado por sua pele escura que exalava satisfação por todos os poros ao ver o móvel em que trabalhava finalizado. Tinha me apaixonado por quem ele era de verdade, mas eu nunca tinha conversado com ele não sabia se era bom ou ruim.

Tudo bem que uma pessoa apaixonada por arte e design parece ter uma alma sensível demais para ser uma pessoa ruim, mas psicopatas também parecem bonzinhos de primeira. Eu tentava me convencer de que isso fazia total sentido para ser uma boa desculpa para não me aproximar, podia esconder minha covardia através desse argumento.

— Sofia! – Alana me cutucou chamando minha atenção para si.

— Desculpa. – eu tinha me distraído olhando para Pedro.

— Em vez de ficar babando nele, você deveria falar com ele. – ela me incentivou.

— Não, eu prefiro ficar na minha, como você mesma disse, ele é o único que não consigo decifrar totalmente. – ela semicerrou os olhos, irritada por eu ter usado suas próprias palavras contra ela.

— Mas, você pode conseguir, ele só é um pouco mais difícil. – ela que era difícil, difícil de me deixar em paz.

— Na verdade, as pessoas daqui que são óbvias demais. – rebati.

— Pode até ser, mas você deveria tentar, ele, com certeza, não é igual ao irmão. – Ela era o que? Algum tipo de Team Pedro?

— Realmente igual ao Pinóquio ele não é, o irmão dele é patético. – o verdadeiro nome do irmão do Pedro era Plínio, mas todos o chamavam de Pinóquio ou Grande Mentiroso, o motivo era óbvio.

— Por que o Plínio você chama de Pinóquio e não me chama de Ariel? – ela parecia insatisfeita.

— Simples, ele é mentiroso e cara de pau igual ao Pinóquio, já você é Alana não Ariel e já está grandinha demais para agir como se o mundo fosse um conto de fadas. – sorri sabendo que ela ficaria irritada.

O sinal tocou, uns três alunos acordaram assustados com o barulho do sinal, um deles era Pedro.

Teríamos aula de biologia, peguei minha mochila que ainda estava como tinha saído de casa.

Sinceramente, não via necessidade de usar caderno na maioria das matérias e uma delas era filosofia, não pelo fato de eu achar filosofia inútil, na verdade eu até que gostava bastante da matéria, mas preferia estudar por conta própria, assim como as outras matérias, já que muitos professores parecem estar mais preocupados em expor seu vasto conhecimento em vez de compartilhá-lo e por vezes até mesmo não se preocupam nem em expor o que sabem, ou, pelo menos, deveriam saber, como lecionar fosse o que lhe restou e não o que escolheu fazer.

Nas aulas de biologia em laboratório nós sempre éramos divididos em duplas e nessa aula, como em todos os outros trabalhos escolares, Alana era minha dupla.

— Vamos continuar a matéria de fisiologia comparada da aula passada. Cada um com sua dupla. – a professora falou enquanto folheava um livro grosso.

— Professora, o Tiago faltou e eu estou sem ninguém para fazer dupla. – Pedro se pronunciou e assim que escutei sua voz me senti extasiada. Eu achava isso patético, mas não conseguia evitar.

— Faz trio com a gente. – Alana respondeu prontamente. Eu gelei na hora e fuzilei Alana com os olhos, mas ela apenas sorriu ignorando minha expressão.

— Obrigado! – ele sorriu agradecido e veio em nossa direção, meu coração disparou.

"Não seja idiota ele é só um garoto como qualquer outro." Me recriminei mentalmente, mas eu sabia muito bem que ele não era um garoto como qualquer outro, e por esse motivo meu coração continuava acelerado, quase saindo pela boca.

Só quando Pedro se sentou ao meu lado, que percebi que Alana estava sentada na cadeira do canto, encostada na parede, ela nunca sentava ali, sempre era eu quem sentava.

— Eu te mato! – falei baixo e entre os dentes só pra ela ouvir.

— Eu sei que não. – ela respondeu no mesmo tom, só que sorrindo satisfeita.

— Eu não faço ideia do que fazer, o Tiago que fez tudo aula passada, eu sou péssimo em biologia. – Pedro parecia envergonhado com sua confissão.

— Não tem problema. Sofia é ótima em biologia, ela te ajuda. – Alana falou como se estivesse tentando vender um produto.

— Eu odeio biologia. – reagi a sua afirmação, olhando para ela indignada.

— É, mas mesmo assim você é boa. Você não vai se recusar a ajudar o Pedro, vai? – eu ia matá-la assim que terminasse a aula.

— Eu não quero atrapalhar, eu posso dar outro jeito. – Pedro falou um pouco sem graça tentando não gerar um conflito entre mim e Alana.

Seu jeito envergonhado, mas sem perder a firmeza do olhar era tão doce e sexy, que não pude deixar de sorrir um pouco de forma discreta.

— Não, eu te ajudo. – ele voltou a sorrir daquele jeito perfeito, que me deixava tonta e se ele continuasse a fazer isso, não sei por quanto tempo eu ia continuar a agir de forma minimamente normal perto dele.

— Obrigado! – ele pegou o livro para eu lhe explicar a matéria, aproveitei esse tempo para dar um tapa no braço da Alana que choramingou baixo.

Notas finais
Comentários?