Mentes Quebradas
8 Uma nova luz
Notas iniciais
Os meus olhos abriram-se lentamente. Não conseguia distinguir nada á minha frente. A minha cabeça latejava de dor. Sentia os meus pensamentos dispersos e não conseguia conectá-los. O que me tinha acontecido?
Após ter recuperado totalmente a visão, deparei-me com um quarto muito diferente daquele em que acordava todas as manhãs. Era muito mais moderno: a cama onde me encontrava era muito confortável, tendo um lençóis brancos e pretos, o quarto era pintado em bege, com um tapete cinza-escuro no centro, e era consideravelmente grande. Tinha um armário e uma secretária, mas esta encontrava-se vazia, assim como o quarto em si. Dava a impressão que devia ser limpo praticamente todos os dias pois não havia sinal do mais ínfimo resquício de pó, no entanto, parecia que ninguém ali dormia. Seria um quarto de hóspedes?! Olhei para a televisão á minha frente. Reparei que tinha a função de olfato. Esta função era algo novo e bastante caro, e também tinha aumentando a fúria aos anti tecnologia, pois, segundo eles, esta função de olfato como nos fazia sentir o odor que era emanado no local onde a televisão estava a filmar, levava a uma maior percentagem de sedentarismo, pois fazia com que as pessoas sentissem como se estivessem mesmo no local, não precisando de sair do seu sofá para ir visitar outros lugares. Tinham tudo ali. Tinha que concordar um pouco com eles… Mas não havia tempo para pensar nisso agora! Tinha de descobrir onde estava e porque é que estava ali!
Tentei resgatar as minhas últimas memórias. Eram apenas imagens enfraquecidas, mas disponibilizaram-me peças para conseguir recriar o puzzle do que tinha acontecido. Havia uma ponte. Chuva. Três homens, não, quatro. Tinham-me agarrado e neutralizado. Mas um deles tinha dito algo que me tinha inquietado. Pesquisei mais a fundo nas minhas memórias e por fim as suas palavras vieram á minha memória. “Nós sabemos que tu és o chefe dos Unknowns…”
Os meus sentidos regressaram alertando-me para o perigo que me rodeava. Como raio eles tinham descoberto? Mais importante que isso, o que planeavam fazer comigo?
Várias opções me passaram pela cabeça. Podia ser o Quebra-Mentes que queria nos eliminar de vez, podia ser alguém que nos queria utilizar para um fim completamente diferente... Nenhuma era satisfatória. Tinha de sair dali.
Saltei da cama e fiquei em silêncio tentando distinguir sons de passos ou de vozes. Como não havia nenhum fui em direção á janela. Olhei para baixo e pude constatar que a casa onde estava era logo ao pé da estrada e os carros passavam de um lado para o outro, calmos devido ao trânsito. Se fosse pela janela provavelmente eles ver-me-iam e iriam achar estranho, sem falar que, para piorar a situação, estava no terceiro andar e também seria visto pelos membros da casa enquanto descia. Enquanto olhava pela janela deparei-me que já era de manhã. Tinha passado toda a noite ali! A minha família devia estar preocupadíssima! Tinha que tomar uma decisão!
Ir pela janela era arriscado. Podia ir pela porta mas não sabia o que me esperava para lá dela. Ahhhhhh! O que devia fazer?!
Ouvi passos ao longe. A ideia da porta estava anulada. Tinha que arranjar uma solução rapidamente!
Dei mais uma vista de olhos rápida ao quarto e a solução chegou por fim. Fui na direção da janela, desviei as cortinas e abri a janela, dando a impressão de que alguém tinha saído por ali. O som dos passos aumentava. Com este trabalho feito, fui para o armário e, para minha alegria, tinha apenas um cobertor numa das prateleiras. Sem hesitar, entrei e fechei a porta lentamente, evitando qualquer ruído.
Os passos aproximaram-se cada vez mais e por fim cessaram. Ouvi o som da porta a abrir-se e aguentei a respiração para evitar que me descobrissem. Para meu contentamento, ele caiu no que eu tinha aprontado:
-P*rra! O diabo do rapaz consegui escapar!
Saiu apressadamente do quarto, deixando a porta aberta. O som dos passos cessou e eu expirei, por fim, o ar que tinha aguentado. Esperei um pouco antes de sair. Quando ia a abrir a porta, o som de passos retornou e tive de me manter no meu esconderijo. Pude constatar que deviam ser uns quatro ou cinco a vir na direção do quarto. Assim que chegaram, o homem que tinha vindo primeiro falou:
-Vê, ele escapou pela janela, e sem nenhum de nós perceber!
Houve um silêncio e então houve-se uma voz mais rouca e grave:
-Tudo o que aprenderes agora deve-te servir de lição, pois a próxima vez que me fizeres isto estás despedido!
Estanquei. Estaria a falar do facto de ter fugido? Ou estaria a referir-se a outro assunto? O homem da voz rouca continuou:
-Era praticamente impossível para este rapaz sair pela janela, qualquer passo em falso poderia levá-lo para a estrada onde podia bem conhecer o seu fim. Sem falar que vós os quatro estavam a guardar os andares de baixo, ao pé das janelas. Para ele conseguir fugir sem ser notado, teria de ter habilidades físicas impressionantes, algo que vós podeis contrariar pois ontem conseguiste-lo neutralizar facilmente. Mas a prova mais significativa está no parapeito da janela. Caso não se lembrem, ontem choveu o suficiente para deixar tudo molhado, inclusive o parapeito da janela que se encontra molhado ainda agora. Ora, no momento em que ele tentasse se agarrar as suas mãos escorregar-lhe-iam e ele cairia. Para descer em segurança teria de limpar isto, mas como podem ver o parapeito está ainda com as gotas bem nítidas, ou seja, ele não saiu por aqui!
Nunca tinha estado tão nervoso na minha vida! Quem era aquele homem?! Em breve iria descobrir onde me encontrava, tinha de pensar numa solução!
-Mas então, ele abriu a janela para nos enganar e saiu pela porta?
-A porta também está fora de questão. Eu instalei câmaras nos corredores para não haver sujeitos indesejados… O alarme não soou, por isso ele não fugiu por aí.
-Então quer dizer…
-Que ele está neste quarto a ouvir tudo aquilo que dizemos!
O meu coração começou a bater de uma forma alucinante. Estava tramado! Eles viriam a este armário e iriam-me descobrir, tinha de tomar uma decisão!
-E, sabendo isto, podemos deduzir que o único lugar onde ele se conseguiria esconder é neste armário!
Os passos vinham na direção do armário. A minha única escapatória era atirar-lhes com o cobertor, no momento em que abrissem as portas. Depois tentaria a minha sorte.
As portas abriram-se e eu atirei com o cobertor, atirando-me eu logo de seguida, sem sequer hesitar. Umas mãos fortes agarraram-me os braços, impedindo que escapasse. O cobertor jazia no chão. O meu plano tinha fracassado:
-Já acabou o jogo das escondidas?
Olhei para o homem da voz rouca que tinha descoberto o meu plano. Consegui-o reconhecer imediatamente, levando um choque interno gigante. Era Albert. Um dos candidatos á presidência. O seu cabelo de um branco acinzentado e os seus olhos verdes eletrizantes eram características dele que lhe davam um ar de superioridade. Porque é que um homem daqueles tinha interesse no facto de eu ser o chefe dos Unknowns?
Estes pensamentos passaram como um raio na minha cabeça, enquanto Albert continuava:
-Tenho que elogiar a tua inteligência conseguiste enganar estes meus ajudantes. Mas deixamos isso de lado. Aposto que já me reconheces-te e deves ter um monte de perguntas na tua cabeça. Eu vou respondê-las a todas no seu devido tempo. Segue-me.
O homem que me tinha agarrado, que era o mesmo que me tinha também agarrado ontem, empurrou-me para seguir Albert. Este saiu pela porta e conduziu-nos por um imenso corredor pintado a preto e branco, com algumas lâmpadas que davam um bom ambiente ao local. A minha mente divagava num local onde eu não sabia distinguir o que era real do que era imaginação. Estaria a sonhar? Seria ilusão? Não sabia…
O corredor chegou ao fim e tinha uma porta no seu final. Albert abriu essa porta e mostrou uma sala de estar luxuosa, onde o que me saltou logo á vista foram vários quadros a representar diferentes animais. Um quadro mostrava um leão a rugir no topo de uma colina, outro mostrava uma serpente a rastejar, havia um onde estava um falcão a voar livremente pelo ar e ainda outro onde estava um tubarão com a boca aberta mostrando os seus dentes afiados. Estavam pintados realisticamente e davam uma certa impressão de medo e desconforto. Albert, como que lendo os meus pensamentos, disse:
-Fascinado com estes quadros? Tenho que admitir que são o meu orgulho! Foi a minha esposa que os desenhou, até vos apresentava mas ela está neste momento a apresentar o seu novo quadro em Nova Iorque, só deve voltar daqui a duas semanas. Mas enfim, já iremos por a conversa em dia – virou-se para os ajudantes – Deixem-nos a sós.
Eles saíram prontamente, ficando apenas eu e Albert na sala. Ele apontou para uma poltrona preta atrás de mim:
-Senta-te.
Assim fiz, sem contrariar nada. Aquele homem emanava uma aura de superioridade que fazia com que as pessoas lhe obedecessem imediatamente. Ele também se sentou numa poltrona negra que ficava exatamente á minha frente. Os seus olhos encontraram os meus fazendo que um arrepio percorre-se a minha espinha, como se me trespassasse totalmente. Naquele momento sentia-me fraco e inútil. O que aconteceria ao nosso país se este homem fosse presidente? Albert quebrou então o silêncio:
-De que estás á espera? Começa a fazer as tuas perguntas!
Engoli em seco. Tinha muitas perguntas para fazer, mas acabei por optar pela mais banal, na esperança de conhecer aquele homem melhor:
-O que significam aqueles quadros?
Albert deu uma grande gargalhada antes de responder:
-Bom, eu disse que responderia a todas as perguntas. Estes quatro representam os quatro animais pelo qual eu me sigo para enfrentar os obstáculos que me aparecem. O leão representa a coragem, a vontade de seguir em frente. O falcão mostra-me como devo encarar as situações, ou seja, de cima, de um lugar mais amplo, onde se consegue ver bem os inimigos. A serpente e o tubarão mostram como devo encarar esses inimigos: se o inimigo for fútil e pequeno, ataco como um tubarão, mostrando os meus dentes para os afugentar. Se o inimigo possuir mais poder, ataco como uma serpente, sorrateiro mas mortal. Já tens factos o suficiente sobre mim?
Dei um pequeno sorriso. Ele tinha descoberto o motivo daquela perguntava, mas não importava. Agora sabia que ele fazia tudo para se livrar daqueles que se lhe opusessem. Decidi começar com as perguntas mais importantes:
-Como é que descobriu que eu era o chefe dos Unkowns?
-Não me querendo gabar, eu sou um homem de posses, e quando eu preciso de alguma coisa eu arranjo. Podes não saber, mas eu já sigo os teus passos desde o começo deste grupo.
-Como assim?
-Conheces o usuário FrozenHands?
-Não me diga…
-Não sou eu, é a minha mulher.
Estanquei sem saber o que dizer. FrozenHands tinha sido um dos primeiros que se juntaram e um grande impulso para o grupo, quem saberia que estava ligado aquele homem?!
-Continuando, ela ficou fascinada com a ideia do grupo, tão fascinada que fez um quadro belíssimo que está agora a apresentar em Nova Iorque. Tenho que admitir que também adorei a ideia. No entanto, após o ataque do Quebra-Mentes o grupo caiu drasticamente. A minha mulher perguntou-me desapontada: “É apenas isto que este grupo consegue fazer?”. Ela ficou desapontada e foi triste para Nova Iorque, ao contrário do seu habitual. Detestei ver a minha mulher naquele estado por isso tomei a decisão de te procurar. Os teus programadores podem ser muito bons, mas não se comparam com os meus, por isso podes bem ver o resultado.
-Mas então, se tudo o que queria era dizer-me para continuar a melhorar o grupo não precisava de me ter raptado!
Os seus olhos ficaram mais frios e encararam os meus:
-E tu aceitarias uma coisa destas de um adversário do teu pai?
A minha mente embranqueceu. Ele tinha descoberto que o meu pai estava a concorrer para a presidência?!
-Quando eu pesquiso, eu pesquiso tudo! Também sei que tens uma irmãzinha chamada Ana, e que perdeste uma irmã mais velha, vítima daquele que te está a destruir o…
-CALE-SE!
Não consegui conter a raiva. Ele podia saber tudo sobre a minha ligação aos Unknowns, mas pronunciar coisas sobre a minha família era demais! Tentei-me acalmar e desculpei-me sobre a minha súbita irritação. Ele sorriu e disse:
-Eu entendo perfeitamente, eu não volto a tocar neste assunto. No entanto, tenho mais um motivo para te trazido aqui. Quero-te fazer uma proposta.
Franzi o sobrolho. Que proposta seria?
-Sou todo ouvidos.
Ele aclarou a voz e encarou-me mais fortemente:
-Quero propor uma aliança entre os Unknowns e a minha campanha.
Estava a ponto de me voltar a enervar. Desta vez consegui-me aguentar e falar num tom mais calmo, embora ainda houvesse um certo nervosismo:
-Você tem noção do que me está a propor?! Está a fazer com que eu vá contra o meu próprio pai!
-Eu entendo, mas esta é a tua única opção. Ou preferes que toda a gente saiba que tu és o chefe dos Unknowns?
Se antes me tinha sentido fraco, agora sentia-me como um inseto que tinha sido preso numa teia de aranha, e essa mesma aranha preparava-se agora para o jantar. Ele tinha feito tudo de um jeito onde eu não tinha opção sem ser obedecer-lhe. Estava completamente na mão dele. O sorriso dele abriu-se ainda mais perante a minha reação. Esperou um pouco para eu assimilar este facto e então continuou:
-Mas pensa bem, se o teu pai fosse presidente não podias continuar com o grupo.
-Como assim?
-O teu pai falou ontem sobre isso, ora vê.
Tinha-me esquecido completamente que o meu pai tinha falado ontem num discurso, nenhum de nós ia por isso tinha-me esquecido. Albert bateu as palmas duas vezes e a televisão ligou-se. Ele disse:
-Gravação 23.
Apareceu então o meu pai. A gravação mostrava apenas uma parte do seu discurso:
-É por estes motivos que, se eu for feito presidente, vou cortar as ligações de Internet. Não vai ser abruptamente, mas de pouco a pouco. Eu sei o que devem estar a pensar, mas isto não é apenas pela minha filha. Aliás a morte da minha filha serviu-me apenas para me mostrar o quanto a Internet nos está a destruir. Não é só o Quebra-Mentes, existem vários perigos no mundo virtual. Esta é a hora para nos unirmos! Vamos acabar com isto para que ninguém sinta a dor que eu senti quando perdi a minha filha.
As palmas encerraram o discurso dele. Eram palmas fortes e vívidas, de pessoas que apoiavam esta decisão. Eu sempre soube que o meu pai era contra a Internet mas anunciar publicamente?! Nem sabia o que pensar.
Acabou o discurso e a televisão desligou-se. Albert voltou-me a confrontar:
-Achas que é isto que queres para o futuro deste país?
Não respondi. A resposta era óbvia. Discordava totalmente com o meu pai.
-E agora que entendes a situação podes começar a trazer os Unknowns de volta á vida. Tenho um computador que te vai ajudar em muito.
Outro problema veio então á minha mente:
-Mas a minha família deve estar preocupadíssima!
-Não te preocupes. Eu tomei a liberdade de usar o teu telemóvel e de mandar uma mensagem á tua mãe a dizer que ias passar o fim-de-semana em casa de Edward, tendo este retornado.
Até os meus amigos?! Tinha-me tornado um peão nas mãos dele. Albert estendeu a mão e disse:
-Por um mundo melhor?
Olhei para a mão dele. Não tinha outra opção. Suspirei e apertei-lhe a mão:
-Por um mundo melhor.
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