Notas iniciais
Desculpem-me pelo grande atraso! Mas aqui está o capítulo. Aproveitem!

Quando é que as minhas lágrimas deixaram de correr? Fiz-me esta pergunta enquanto olhava a fotografia da minha família, no tempo em que ainda estava unida. Elas não vinham, mas a dor no meu peito não tinha cessado. Passei o dedo sobre o rosto do meu filho e senti um ardor na garganta com o qual já estava habituada. A perda de um filho é uma dor insuportável que nos persegue toda a vida, por mais tempo que passe…

Mas eu tinha decidido que vingaria a sua morte, revoltando-me contra esse assassino implacável que me tinha tirado uma das duas coisas mais importantes na minha vida e que precisava de ser parado a todo o custo. No meio desta busca por vingança, deparei-me com um facto que me abalou ainda mais do que já estava: esta sociedade estava “podre”. Tenta manter as aparências por fora, mas por dentro está cheia de corrupção onde ninguém confia em ninguém, e quanto mais alto se for na escadaria do poder, pior é. Com o passar do tempo tornei-me numa máquina cujo combustível era ódio. Revoltei-me contra as pessoas, seres iguais a mim, o que me fez revoltar contra mim mesma e, se caso existisse um Deus, ele também era culpado. Não importava quem fosse, eu queria por as culpas a alguém. Acabei por encontrar pessoas que pensavam da mesma maneira que eu e juntos iríamos acabar com este estado de porcaria em que vivíamos.

O meu flashback foi interrompido pela voz do meu comandante:

-Pessoal venho-vos recordar que a missão de hoje é de extrema importância! É hoje que mostraremos às “pessoas importantes” e ao resto que nós não estamos aqui a brincar. O nosso ataque no aeroporto tornou isso bem claro, mas está na hora de sublinharmos bem a mensagem!

Todas as nove pessoas que ali estávamos lhe batemos palmas. Ele levantou a sua mão, dando sinal para pararmos e olhou de relance na minha direção:

-Eu também preferia que não houvesse nenhumas “pontas soltas” como da última vez. – Desviou o olhar da minha direção — Se alguém vos vir, elimem-o(a) sem hesitações, podemo-nos ter safado devido a questões de cosmética, mas não quero ter riscos.

As “questões de cosmética” a que ele se referia era o facto de eu usar lentes que tornavam os meus olhos azuis e de pintar o cabelo de dourado, antes das missões, tornando-me uma loura de olhos azuis, quando na verdade os meus cabelos eram pretos e os meus olhos verdes. Se não fosse isso, provavelmente estaria agora atrás das grades, por causa daquele pirralho que tinha escapado. Mordi o lábio inferior, se visse aquele garoto novamente eu iria desfazê-lo em picadinhos…

Estava-me a deixar levar pelos nervos. Tirei o meu “sagrado” pacote cinzento da minha bolsa e tirei dois calmantes. Meti-os na boca e tirei uma garrafa de água, para me ajudar a empurrá-los para dentro. Tinha-me tornado dependente daqueles comprimidos que me ajudavam a manter calma. Sem eles, provavelmente entraria em colapso.

O comandante olhou para o relógio e voltou a levantar a voz:

— Está na hora! Assumam as vossas posições! Não quero cá falhanços! Quero uma vitória! Não podemos deixar que continuemos neste estado de m*rda! Vamos mudar esta sociedade! Vão!

-Sim, comandante! – Dissemos em uníssono, ao mesmo tempo que nos levantávamos, começando a sair em direção á saída.

Vestimos os fatos que se encontravam ao pé da porta, enquanto o comandante ia-nos dando os nossos cartões de identificação (que obviamente não eram nossos). O meu coração batia cada vez mais forte e a adrenalina aumentava enquanto me tentava lembrar de todos os passos do plano. O objetivo era atacar uma prisão do país conhecida por conter criminosos que cometeram crimes de alta gravidade e tornar todos os que ali estivessem em reféns, procurando também por novos aliados. Foi preciso muito trabalho árduo para planear esta missão, e com uma ajuda de um dos nossos membros infiltrado na prisão, não havia espaço para erros. A missão iria ser um sucesso!

Dois jipes azuis e brancos, cedidos pelos nossos “intrusos” na polícia, estavam á nossa espera, e o nosso grupo dividiu-se. Eu entrei no jipe á direita, juntamente com três colegas meus e os restantes foram para o da esquerda. Assim que nos acomodámos fintamo-nos uns aos outros, trocando olhares de incentivo. A nossa parte do plano consistia em infiltrarmo-nos dentro da prisão e conversar com todos que pudessem estar interessados em entrar para o nosso grupo, enquanto os nossos colegas faziam os “fogos-de-artifício”. Respirei fundo. Tudo iria correr bem. Não havia razão para me sentir tão nervosa.

Assim que o jipe se começou a mexer, entrei num transe onde não sabia se estava acordada ou a dormir. Tudo na minha mente estava claro, mas ao mesmo tempo estava uma grande confusão. Sentia uma pontada de dor no meu peito e uma comichão na garganta a cada solavanco dado pelo jipe. Sentimentos que me faziam lembrar da minha primeira missão, e, também, a missão onde matei uma pessoa pela primeira vez. Foi um deslize, não era suposto e nem queria matá-la. Ainda hoje tenho bem presente a memória do corpo dela, estendido sobre o chão, envolvido numa poça vermelha. Foi nesse momento que percebi que tinha virado um monstro, pois não consegui sentir nada, e, fintando aquele pedaço de carne morta, a única coisa que me vinha à cabeça é de que a vida humana é frágil e a qualquer momento se pode partir…

Abanei a cabeça várias vezes. O que estava a acontecer comigo? Já há muito tempo que estas memórias não me afetavam durante o dia, embora de noite os pesadelos fossem constantes. Mas hoje, sentia-me mais stressada que o costume. Alguma coisa não estava bem. Estaria a ficar doente?

Voltei a remexer na minha mochila e tirei mais um calmante, e repeti o processo necessário para o ingerir. Fabiana, a mulher que se encontrava ao meu lado e uma das minhas melhores amigas, percebeu que eu não estava nos meus melhores dias:

-Estás assim tão nervosa? É já o terceiro calmante que te vejo meter à boca!

Hesitei um bocado antes de lhe responder:

-Hoje sinto-me mais ansiosa que o normal, não sei porquê…

-Tás com medo de voltares a estragar tudo, é tão simples como isto. – Disse Bruno, um dos dois rapazes que se encontravam à nossa frente, num tom sarcástico.

-Não precisas de atirar-lhe isso à cara dessa maneira! – Replicou Fabiana.

-Porque não? Factos são factos, e quanto mais inconvenientes forem, melhor! Se ela está assim tão afetada devia ter ficado em casa, assim só vai atrapalhar a nossa missão. Não achas, Mike?

O africano, corpulento e de pele negra como o carvão, limitou-se a encolher os ombros, sem oferecer nenhuma resposta concreta. Fabiana veio em meu auxílio, começando uma discussão com Bruno que eu não deixei prolongar.

-Parem de discutir! Eu tenho plenas consciência que o erro foi meu – virei a minha atenção para o homem de olhos azuis e cabelos castanhos-claros – E não precisas de te preocupar, Bruno, esse erro não vai influenciar de modo algum a missão!

-Espero bem que não. – Resmungou Bruno, dando por encerrada aquela discussão.

A partir daí o silêncio instalou-se dentro do jipe. Bruno pôs os fones e começou a ouvir música, Fabiana começou a murmurar uma canção e Mike limitou-se a olhar pela janela. Eu deixei-me levar pela minha mente, pensando em tudo e em nada.

Passou-se meia hora, talvez um pouco mais, não tinha a certeza. Para mim, tinha passado num instante, nem sequer tinha reparado na paragem que fizemos na inspeção. O jipe parou e o condutor disse:

-Está na hora.

E estava mesmo. Foi-nos aberta a porta de trás e saímos os quatro. Deparámo-nos com um cheiro intenso a mofo. Assim que os meus olhos se adaptaram ao ambiente escuro, pude notar que estávamos numa garagem com demasiada humidade, com ar degastado e a cair aos bocados. O motorista, ao ver-nos observar aquele espaço deplorável, veio falar-nos num sussurro:

-Esta garagem quase nunca é utilizada, por isso nem se preocupam em limpá-la. Ou seja, é o local perfeito para a nossa missão.

A mim tudo me parecia demasiado simples e conveniente. Uma prisão que continha o maior número de criminosos perigosos do país não se apercebe da presença de intrusos que cedem informações a grupos terroristas e que dá também disfarces e cartões de identificação que permitem a entrada no edifício e para uma garagem que, convenientemente, não era vigiada nem tratada. Não sabia explicar bem, mas algo nisto não me estava a cheirar bem. E não me referia só ao cheiro a mofo daquela garagem.

Ocultei os meus pensamentos e disfarcei ao máximo para que ninguém notasse o que me passava pela cabeça, à medida que o nosso motorista nos ia dando as últimas indicações, e passando um mapa da prisão:

-A área assinalada a vermelho representa o local onde cada um de vós vai atuar. Assim que o sinal for dado ireis vos deslocar para a vosso local respetivo. Não se preocupem, os guardas devem ir todos para o local dos “fogos” e devem deixar estas áreas livres. Os nossos intrusos vão fazer com que tal aconteça, no entanto, pode ficar um ou dois guardas a patrulhar por isso vão com a maior cautela. Se virem algum não lhe deem tempo para lançar o alarme. Também não se precisam de preocupar com câmaras de vigilância pois elas vão estar desligadas, mas isso vocês já sabiam.

Acenámos afirmativamente com a cabeça. Nenhum de nós dizia nada. Todos nós estávamos concentrados na tarefa que tínhamos para cumprir. Eu continuava com o pensamento que tudo parecia simples demais, mas permaneci calada, mais uma vez.

Uma explosão ouviu-se ao longe e olhámos imediatamente uns aos outros. Era o primeiro sinal. Fintámos o motorista:

-O meu trabalho está feito, é hora de sereis vós a atuar!

-Conta connosco! – Dissemos os quatro em uníssono.

Trocámos palavras de incentivo entre nós, com Bruno a fazer uma das suas piadas, como sempre:

-Tem cuidado não venha um garoto estragar-te os planos. Olha que os putos de hoje em dia são perigosos…

Limitei-me a fazer um risinho sarcástico enquanto Fabiana vinha em meu auxílio:

-Não lhe ligues, provavelmente ele queria que o rapaz lhe aparecesse a ele…

-Posso saber o que a menina quer insinuar com isso?

Estava para começar mais uma discussão. Ia-me intrometer mas Mike antecipou-se-me:

-Acabem lá com essas brincadeiras! Foquem-se na missão!

Nenhum dos dois deu mais um pio. Mesmo o Bruno que geralmente dava um dos seus últimos resmungos remeteu-se ao silêncio. Quem quebrou o silêncio foi o próprio Mike:

-Vamos lá pôr-nos nas nossas posições, que o alarme já deve ter sido dado.

Começou a andar e nós os três seguimo-lo. Entrámos por uma porta e deparámo-nos com uma escada em espiral. Começámos a subi-las verificando o mapa a cada ponto. Eu ia ficar no primeiro andar, seria a primeira a abandonar o grupo.

Assim que as escadas acabaram, soube que tinha chegado ao meu destino. Separei-me deles e segui em frente, enquanto eles começaram a subir outras escadas. Acenei-lhes um adeus sem me virar para atrás, para que não vissem o meu nervosismo. Respirei fundo. Estava na hora!

Notas finais
E então gostaram? Não esqueçam de dar a vossa opinião! Até à próxima!