Mentes Quebradas
5 Altos e baixos
Notas iniciais
Não consegui esconder um sorriso. Apenas em um mês, o grupo Unknowns tinha viralizado e já era tópico nas notícias. Chamavam-nos os “Guerreiros da Internet” e as nossas ações estavam cada vez mais a chamar pessoas. Começamos por falar com pessoas online, tentando evitar que entrassem em contacto com o Quebra-Mentes, e fazendo com que elas não se sentissem sozinhas, prevenindo-as também dos perigos da Internet. Á medida que o grupo foi crescendo tivemos contacto com informáticos que aderiram á nossa causa e começaram a tentar proteger pessoas contra ataques de Hackers. E, a nossa mais recente ideia que estava a entrar em progresso era o de procurar sites que enganassem as pessoas, ou que transmitissem ideias falsas, conduzindo as pessoas em erro. Cada passo levava-nos mais longe e o grupo contava agora com mais de cem mil usuários, cada um com as suas funções.
O processo de seleção destas pessoas tinha passado para cinco usuários que tinha inicialmente, e a constante entrada de “intrusos” tinha obrigado a passagem para outro site, que alguns dos informáticos protegiam, não deixando ninguém, que não fosse desejado, passasse. Tudo estava a correr bem melhor do que eu tinha planeado e a uma velocidade tão alucinante que eu mal conseguia acompanhar.
A porta da cozinha abre-se, quebrando os meus pensamentos. O meu pai entra, vestido de fato e gravata, pronto para um dia de trabalho:
-Bom dia meninos!
Eu e a minha irmã respondemos em sincronia:
-Bom dia pai!
Ele dirige-se á máquina e começa a pedir o seu habitual café com uma torrada. Após o pedido feito ele olha para a televisão e dá um estalo com a língua, mostrando o seu desagrado:
-Este grupo não vai servir de nada, não é com palavras mansas que se irá acalmar um furacão.
Aquelas palavras foram como um murro no meu estomago. O meu próprio pai discordava com o meu grupo. Mantive a compostura e perguntei-lhe:
-Porque dizes isso?
-A Internet, e tudo o que é tecnológico, está demasiado embrenhado no nosso dia-a-dia. Obviamente, muita gente utilizou-a desde começo para fins maliciosos. Eu entendo que este grupo tente proteger e tente tornar o mundo virtual um lugar melhor, mas é só dar um pouco de tempo que vão acabar por inventar alguma maneira de fazer mal às pessoas, é assim que o ser Humano é.
Controlei-me o máximo possível para não o começar a contrariar. Respirei fundo e optei por lhe fazer outra pergunta:
-Então o que sugeres que se faça?
A máquina indicava que o pequeno-almoço do pai estava pronto. Ele tirou a sua torrada, barrando-lhe manteiga por cima, e dando-lhe uma dentada. Mastigou e depois bebeu um pouco de café, como se tivesse a tentar criar um clima para a sua resposta, que veio com um peso enorme:
-Por mim acabavam com a Internet no mundo inteiro.
Fiquei pasmado sem saber o que fazer. Havia muita gente que afirmava que se devia acabar com a Internet, mas nunca tinha visto alguém a afirmar isso tão naturalmente. Não tinha resposta para aquilo. O silêncio foi quebrado por uma gargalhada da minha irmã que lhe disse:
-Essa é boa, pai! Mas tens que ver que muita gente vive do que a Internet lhe dá, sem falar de grandes empresas que têm o seu grande pilar na Internet. Há quem diga que cinco segundos sem Internet no mundo inteiro poderia levar a enormes decadências na economia mundial, e que mais de um minuto podia bem levar à loucura total, e tu queres simplesmente acabar com isto?! Entendo o teu ponto de vista mas tens de perceber o mundo em que vives.
Eu e o meu pai ficámos sem resposta. O jeito como ela nos respondeu não parecia ser ela, parecia muito mais a irmã mais velha. Fiquei mais uma vez sem palavras e foi o meu pai a quebrar o silêncio, mas com menos firmeza na voz:
— Sim filha, eu sei, mas se isto fosse planeado com antecedência e se essas empresas arranjassem outra maneira de sustentar, seria uma opção muito mais viável do que isso – e aponta para a televisão.
E é então que na televisão aparece em letras grandes – ÚLTIMA HORA. E a apresentadora falou então:
-“Esta notícia de última hora vem a ter com o assunto que estávamos a debater. Há mais uma vítima do Quebra-Mentes! Para relacionar as notícias esta pessoa tinha já feito contacto com um dos membros dos Unknowns, e esse tinha-a indicado como segura. E com esta notícia faz-nos aumentar a questão: Será que este grupo poderá proteger o mundo virtual?”
Foi como se tudo começasse a desabar. Olhei para a foto apresentada e o seu perfil online que estava a passar em rodapé. A pessoa em questão tinha sido contactada por mim, e tinha dado sinais de ser uma pessoa que não precisasse de grande ajuda e por isso tinha-a identificado como segura, estava enganado. Ele tinha acertado mesmo num ponto vital. O que havia de dizer agora ao resto do grupo?
O meu pai abriu um sorriso triunfante e disse:
-Viram? Quem estava certo era eu!
Acabou de comer a sua torrada e de beber o seu café. Despediu-se de nós e antes de sair olhou-nos por um tempo e disse:
-Não se preocupem eu vingarei a vossa irmã.
E saiu porta fora com determinação a vibrar pelo seu corpo inteiro. A minha irmã olhou para mim:
-O que será que ele quis dizer com aquilo?
Encolhi os ombros e acabámos de comer o pequeno-almoço. Fomos cada um para a sua casa de banho a lavar os dentes. Recebo uma mensagem, era do grupo, e estava-se a acumular a muitas outras que perguntavam a mesma coisa: “O que fazemos agora?”.
Essa era uma boa pergunta.
O que faço agora?
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