Mente Psicopata
1 Tão somente eu.
Notas iniciais
Há cinco anos, a vida morreu e a morte viveu sob as perspectivas do meu pai. E ele, enfim, enforcou-se numa árvore idosa no Cemitério Avante e Já. Minha mãe ficou solitária e depressiva. E eu me enfurnei em uma Biblioteca, naquela época eu não entendia nem a vida nem a morte a papai dizia que o conhecimento estava nos livros, então, eu os busquei em prateleiras empoeiradas e quebradas. Passei meses ignorando o luto doentio da minha mãe para me deitar notapete vermelhoe duro dos corredores estreitos e luminosos da biblioteca.
Assim conheci o senhor Quebec.
O senhor Quebec. Raquítico, bondoso, pálido. ESPERTO. Por tanto tempo, trazia-me lanches. E me fazia ficar por mais tempo em sua vazia biblioteca. Vivia sozinho, sem ninguém para se apegar. Eu virei sua melhor amiga naqueles tempos, garotinha de doze anos inocente, a única e melhor companhia que o senhor Quebec poderia arranjar. Quando o terceiro mês se corroeu entre as páginas amareladas, eu decidivoltar para casa. O senhor Quebec já tinha vindo a minha casa, ele me trazia roupas.
Assim ele conheceu minha mãe. Bem, foi o que ele disse.
Quando a porta abriu-se em um rangido gélido, vi minha mãe deitadano sofá. Moscas em volta da carne podre de seus pulsos cortados. Pálida, fedia como meu pai. Seus olhos estavam fechados e sua boca abertaem forma deum círculo, recordando um buraco negro que sugava qualquer felicidade que o via. Eu caí de joelhos ao chão. Li livros, tantos livros, um por dia, três por dia às vezes; e mesmo vendo minha mãe no sofá, que nunca veio me buscar na biblioteca do senhor Quebec, não podia entender nada de nada.
O senhor Quebec me fez de sua prisioneira. Para sempre, eu achava. Chorei nos primeiros meses, compreendi depois. Quando ele tirou o corpo da minha mãe da sala – o cheiro de podridãonunca maisiria sair dos móveis, das paredes, das casas –, disse a mim que só queria meu bem, não merecia sofrer com o egoísmo e fraqueza dos outros. O senhor Quebec disse que nunca me deixaria. Parei de ir à escola, saía de casa com o rosto coberto apenas para fazer compras ou limpar o quintal, tinha medo de fugir. Seria mesmo medo? Eu odiava o senhor Quebec, mas não conseguia fazer nada quando ele me batia. Ou, quando eu cheguei a puberdade, me estuprava. Eu fazia o que mandava, ele nunca ousava se retirar da casa. Todos nos esqueceram com o tempo. TODOS. Eu não fiz falta a ninguém, nem mesmo se preocuparam em fazer cartazes sobre meu desaparecimento, nem mesmo alguém fez uma busca pela minha casa. Moramos longe do centro, longe de outras pessoas, longe da preocupação; por isso ninguém se lembra ou se importa, ele dizia. Eu entendia. Andava cinco quilômetros todo domingo para ir ao supermercado, e mais sete quilômetros as terças para ir à feira. Voltava segurando três quilos de alimento.
Foi assim que conheci Carroll.
Não sei de onde vem ou para onde vai. Carroll me faz companhia, bela companhia. Seus olhos azuis não são acolhedores, muito pelo contrário, são frios. Mas Carroll me faz sorrir e, melhor do que os livros, fez-me entender o porquê do suicídio dos meus pais e a maldade do senhor Quebec. Ele é tão bonito quanto um Anjo e tão mal quanto um demônio. Carroll consegue invadir minha casa sem ser percebido e conversa comigo por horas incontáveis, sempre some quando o senhor Quebec surgi das sombras para me tirar as roupas. Diferente de mim, Carroll conseguia se expressar. Ele sentia raiva e dor por mim, urrava por vingança. E eu escutava, sem expressão, admirava-o às vezes e temia-o outras.
Numa noite, ele surgiu pela janela. Seus cabelos claros bagunçados e seus olhos brilhando na imensa escuridão me fizeram sorrir. Ele não dizia muito sobre minhas situações, porque eu não gostava de conversar, mas sempre tentava.
– Por que não foge? – ele perguntou, sentando-se no parapeito da janela –Pode fugir agora. O canalha dorme como um bêbado que é.
– Eu não sei. Eu só... não quero – gemi.
– É medo? – ele sorriu maldoso.
– Não sei.
– Eu sei. Ele vai te estuprar de novo pela manhã e vai doer de novo.
Nunca perguntei o porquê de Carroll não me ajudar. E também nunca me perguntei o porquê de eu nunca pedir. Achava que ele não era mal nem bom, não se importava e aparecia apenas para conversar comigo e me irritar. Certo dia, eu tentei um beijo. Estávamos na feira, movimentada. Ele recusou, pousando seus dedos gélidos e finos em meus lábios secos. Trocou por um beijo suave em minha testa. Doeu. Arderia por horas, tinha certeza. Parecia o beijo da própria Morte. Passei meus dedos quentes para acariciar.
– Não pode me amar – sussurrou em meu ouvido – Assim como não pode me odiar.
Estranhei, mas como sempre nada perguntei. Volteipara casa, Carroll sempre um metro a frente, andando de costas silencioso, encarando-me sádico. Horas depois, quando o senhor Quebec se jogou cansado e suado ao meu lado, eu saí do quarto. Vesti-me, sentia o sangue deixar o sangue quente descer pelas minhas pernas, caindo em gotas que marcariam o assoalho, manchando meu shorts. Manquei e me sentei na sala, o fogo da lareira estava fraco. Chorei por um tempo. Não podia ser real, não deveria. Sempre doía, tudo doía. A dor externa não era nada comparada a dor interior, meu coração se contraía e minhas veias pulsavam. Queria gritar, mas não encontrava forças sequer para falar direito. Sussurrei por Carroll, e ele desceu as escadas, silencioso. Sentou-se ao meu lado e eu pousei minha cabeça em seu colo, com sua mão grande, ele acariciou meus cabelos. Lembrei-me do meu pai, naquele momento, Carroll não tinha maldade e sua risada seca não ecoava em meus ouvidos. Na verdade, não o conheci quando estava fazendo compras, e sim, quando estava prestes a me jogar de uma ponte. Ele surgiu do nada, como sempre o fez, e se sentou ao meu lado, na beirada. Ainda lembro-me de suas palavras, por anos soando: “domine sua dor. Pois ela está te dominando.” E eu tento.
Acordei cansada pela manhã. Tudo que vi durante a noite foi uma tela preta. Sentei-me, massageei minha têmporas. Chamei pelo senhor Quebec, levantei-me e andei até a cozinha. Carroll estava virado de costas, como se encarasse a geladeira paralisado.
– O que faz aqui? – perguntei.
Ele se virou devagar e quase me engasguei com a saliva quando andava até mim. Sua camiseta estava manchada de sangue fresco e suas mãos pingavam o líquido vermelho. Ele esboçou um sorriso largo. Virei de costas e saí correndo, subi as escadas apressada, chamando pelo senhor Quebec. Abri a porta desesperada, encontrando-o deitado sobre a cama, o rosto apavorado, a boca aberta e um fio de baba descendo pelo queixo duplo. Estava sem as mãos, caídas ao chão numa poça de sangue. Os pés, as mesma coisa. Um dos olhos arrancado e boiando numa poça enorme e vermelha. Uma faca atravessando seu peito gordo. Caí no chão de joelhos, cobri meu rosto com as mãos, que suavam e tremiam sem igual.
Carroll entrou no quarto, ainda sujo.
– Todos são maus por dentro – ele balbuciou.
Antes que pudesse perguntar, percebi que minhas mãos estavam úmidas e molhei meu rosto com algo. Caí de costas no chão ao perceber minha situação, ainda pior o que de Carroll. Minha camiseta, meu shorts, meu corpo, imundo, sangrento. Sangue do senhor Quebec. Apoiei-me na parede, tonta. Olhei mais uma vez para Carroll, para vê-lo limpo, sem manchas, sério.
– Quem é você? – perguntei.
– Sou o que você realmente é. Sua loucura pessoal.
– C-como assim? Carroll, você existe!
– Bem, só na sua mente. Sabe, não é? Você é louca – deu uma pausa – Sempre foi isso. Somente esperava. A sua mente esperava. E você sabia.
– Vai embora agora, Carroll?
Não queria que fosse, não mesmo.
– Sua loucura não vai embora tão fácil.
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