Parece que minhas últimas horas foram todas planejadas. Primeiro eu fugi e recuperei o meu arco e flecha. Se não fizesse isso meu amigo estaria morto. Depois pude me vingar do caçador. Caso contrário, nós dois estaríamos mortos. E agora estou do lado de fora de minha caverna à limpar o sangue de minha flecha com água do lago. Hoje eu matei o primeiro membro do governo: o caçador.

Quando voltei para meu abrigo, contei tudo o que havia acontecido comigo ao Leo. Desde o motivo de minha fuga até a hora em os observava por trás de uma árvore. Ele ouvia tudo atentamente. Ele e eu presenciamos a morte de alguém que eu matei hoje. Sim, eu.

Na hora em que atiramos, a bala foi mirada ao chão. Ou seja, não atiramos no caçador. Ele morreu por culpa da perda de sangue de seu braço direito, devido à flecha que atirei naquele mesmo lugar. Resumindo, eu mesma matei um homem hoje. E, por mais que eu pensasse me sentir culpada, a minha sensação era totalmente o oposto.

Eu estava preenchida por orgulho. Uma de minhas vinganças já havia sido concluída. Eu vinguei a morte de minha mãe e de todas as pessoas que este ser matou. Agora vem uma das partes mais complicadas: vingar a morte de milhares de pessoas mortas pelo RG. Isso será a tarefa mais difícil.

Mais uma vez o Leo teve de curar o meu pé. Da última vez, ele apenas limpou a ferida e me deixou descansando. Agora ele a limpou, colocou algumas folhas limpas para cicatrizar e não me deixou sair da caverna até que amanheça. Estou me sentindo como se eu o tivesse colocado para fazer tudo no meu lugar. Mas eu sei que, no fundo, ele só quer me ajudar.

Neste exato momento estamos sentados no chão de nossa caverna em silêncio, encarando um ao outro. Após eu ter contado tudo o que ouve, estávamos analisando cada informação de tudo que aconteceu nessas últimas horas. É muita coisa para aguentarmos em poucos minutos. Tanto é que, a gente já deve estar sentado dessa maneira há uma meia hora.

Como já devo ter dito antes, o silêncio me incomoda. Não conseguimos nem escutar barulhos de pássaros, ventos ou as folhas balançando. Apenas o silêncio. Acho que o único som que rompe é o de nossas respirações. Não estão ofegantes, mas estão altas o suficiente. Até que Leo finalmente falou.

— Sua mira é muito boa — Ele sorriu, me fazendo corar. — Onde foi que aprendeu à atirar?

— Minha mãe me ensinou. Eu tinha era apenas uma criancinha na época — lhe respondi.

— E onde você pegou este arco?

— Na hora que eu fugi, fui direto para a árvore em que tinha o escondido. Por sorte, ele ainda estava lá. Então eu peguei-o e o trouxe. E isso me fez poder salvar a sua vida!

— Acho que estamos quites agora, certo?

Sorri-lhe. Ele salvou minha vida e eu salvei a dele. E eu que pensava que nunca iria conseguir lhe retribuir este favor. Pelo jeito pensei errado, pois agora salvamos a vida um do outro. Acho que realmente somos amigos. Ou melhor, tenho certeza que somos melhores amigos. Sei que posso contar com ele e ele pode contar comigo.

Mas pensando melhor, acho que deveríamos se afastar. Eu sou uma ameaça. Ele cause morreu hoje por minha culpa, o caçador estava atrás de mim. Ele estava o forçando à falar onde eu estava sendo que Leo sequer sabia. Ele apenas estava tentando me proteger e, por pouco, não perdeu a vida. Mas, por quê será que isso aconteceu? Por que foram atrás de mim?

Pelo que eu sei, o governo devia estar imaginando que eu morri na floresta durante a nevasca falsa. Então porquê atacariam? Provavelmente, eles estavam me observando para saber exatamente onde eu estaria. Esse deve ser o motivo de terem achado o Leo também, pois ele foi me salvar e deve ter sido visto.

Acho que de tudo que aconteceu hoje o que me resta é ir dormir. Não tenho noção das horas, mas já deve ser bem tarde. Soltei um leve bocejo.

— Leo... — Esfreguei um dos olhos com a mão fechada. — Estou com sono.

— Certo. Quer que eu te empreste meus cobertores? Eles são bem quentes. — balancei a cabeça em concordância e ele se levantou para buscá-los. — Aqui está.

Ele me entregou e eu me aconcheguei para dentro. Realmente, é bem quente. Me lembra até o cobertor que eu tinha antes de vir para cá. Aquele que esqueci enquanto corria para fugir do caçador. Me virei um pouco, ficando deitada de lado. Leo se aproximou e sentou-se de maneira levemente esticado ao meu lado. Ele acabou se deitando com o meu saco de dormir. Também é quente, mas seus cobertores vencem.

Dessa vez não havíamos ascendido nenhuma vela. A escuridão tomaria conta daquele lugar se não fosse pela leve e tênue luz vinda da pequena abertura da caverna. A rocha que tapava a entrada estava um pouquinho para o lado, fazendo com que a luz da lua pudesse entrar.

— Bella — Leo quebrou o silêncio -, será que amanhã você pode me falar mais sobre seu passado? Eu cansei de falar apenas sobre mim e o RG. Tudo bem?

— Claro. Pelo menos terei alguém com quem desabafar. — Dei um leve sorrisso, mas não sei se foi possível enxergar.

— Boa noite!

Ele segurou meu rosto com ambas as mãos e deu-me um beijo. Mas não um beijo qualquer. Ele beijou o canto de meus lábios. Quase um selinho! Corei instantaneamente e torci para que ele não percebesse. Parece que não ascender as velas essa noite foi ótimo. Decidi falar algo para não continuar esse silêncio entre nós.

— Boa noite! — sorri.

Estou tão nervosa que a única coisa que consigo falar é boa noite? Bela frase a minha...

Ele se aproximou mais ao meu lado e senti minhas maçãs do rosto queimarem. Foi nessa hora que percebi que estávamos a encarar um ao outro. Seus olhos cor de mel refletidos pela luz da lua ficam maravilhosos. Seu cabelo despenteado dá um charme ao seu rosto. E seu braço fortes está ao meu ombro.

Espera um minuto! Seu braço forte está ao meu ombro? Desde quando? Como foi que eu não percebi ele levando um de seus braços sobre mim? Eu devia estar tão encantada com seus olhos que acabei me desconcentrando. Minha expressão agora deve ser de choque, novamente. Eu devia me revirar, me contorcer e tirar seu braço dali. Mas não conseguia. Pelo contrário, eu estava me sentindo segura. Seus braços fimes estavam mais uma vez sobre mim. Da primeira vez ele estava me consolando quando eu lhe disse que perdi minha mãe. E agora... Por que ele está com seu braço sobre mim agora?

Minha cabeça da voltas e voltas e eu continuo sem entender. Não estou reclamando, nem nada do tipo. Estou apenas tentando descobrir o motivo de ele estar com os braços sobre mim. Mas me sinto tão segura, tão protegida. Esses braços...

Decido parar de pensar e apenas relaxar. Minha cabeça se vira um pouco para encaixar meu pescoço perfeitamente ao seu braço. Depois disso fecho meus olhos lentamente e tento adormecer. Mas antes de o sono me alcançar, sinto uma mão sobre meu cabelo. Ele está a me fazer cafuné? Agora que o sono chega bem rápido.

Algo se aproxima de minha orelha. Percebo rapidamente — mesmo com os olhos fechados — que era Leo. Sua voz soou baixa e quente, porém maravilhosa.

— Você fica fofa quando está vermelha. Boa noite!

Socorro! Vou desmaiar aqui! Quer dizer que ele me viu corar? Como? Não estava com nenhuma vela ascesa. Com a luz da lua, Bella!, pensei. Não consigo fazer nada, estou caindo de sono e meus olhos não conseguem mais se abrir. Então apenas digo:

— Seu cafuné é relaxante. Por favor, não pare!

Eu disse mesmo isso? Pelo menos eu não menti. É melhor eu dormir o mais rápido possível antes que eu acabe fazendo mais alguma besteira. Isso não é tão difícil, considerando que eu estou sobre um braço firme e forte, estou tendo um cafuné relaxante e acabo de ser elogiada quando fico vermelha. Acho que não podia estar melhor.

Fracos raios de sol que batem em meu rosto acabam se aumentando e me fazendo acordar. Minha vista está embaçada e enxergar é uma tarefa de extrema dificuldade. Minha mão esquerda vai de encontro aos meus olhos e os esfregam para ver se minha visão melhorava. Não sei ao certo, mas sinto minha outra mão relando em algo macio.

Assim que consigo ver o que se passa à minha frente, consigo entender minha situação: eu ainda estou nos cobertores do Leo e ele ainda está com o braço sobre meus ombros, a única diferença é que estamos mais pertos um do outro e eu estou segurando a gola de sua camisa com a mão direita. Soltei-a rapidamente e me ajeitei para ver se pegava no sono novamente.

Essa minha reação acabou fazendo Leo acordar. Que pena, ele fica tão lindo quando está dormindo! Espera aí! O que foi que eu pensei?

Ele retirou o seu braço e se espreguiçou. Só nessa hora que percebi o quando seu braço ficou bem ali, pois agora minha cabeça acaba de encontrar a superfície dura do chão. Depois de piscar algumas vezes, ele me olha e sinto formar-se um sorrisso em meu rosto. O que é que está acontecendo comigo?

— Bom dia, Bella! — ele disse.

— Bom dia, Leo! — respondi.

Nós levantamos e demos uma arrumada nos cobertores e no meu saco de dormir. Afastamos a rocha que tapava a entrada e meus reflexos fizeram meu braço ir na altura de meus olhos ao ver a luz forte do sol. Depois de me acostumar a claridade, retirei-o. Virei para trás e vi Leo a me encarar.

— Está tudo bem? Por que está me olhando? — perguntei.

— Estou ótimo. Só quero saber mais sobre você. Esqueceu-se do nosso combinado? — balancei a cabeça em negativa. — Então vamos comer e durante o café você me conta. Certo?

Fomos buscar algumas amoras. Depois da nevasca não vou mais me atrever a buscar maçãs nem que vá alguém comigo. No caminho consegui atingir um esquilo com meu arco e flecha. Leo preparou dois recipientes com trepadeiras para tomarmos água e pegou um de seus lençóis e o estendeu no chão. Estamos agora parecendo comer em um piquenique. Sentamos no lençol ao lado do lago, comemos as amoras e estamos quase acabando com a carne do esquilo.

Ele começou a me encarar novamente, dessa vez com um olhar de quem está querendo algo. Então decidi começar a contar.

— Por onde quer que eu comece?

— Pelo começo. Me diga o porquê de sua mãe e você virem para floresta.

— Certo. Ela me contou que fugiu da cidade quando estava grávida de mim. Isso por que ela, provavelmente, quis me esconder do RG. Eu nasci aqui, vivi aqui, cresci aqui... Eu nunca fui para a cidade. Minha mãe ia lá uma vez por mês para comprar rémedios, roupas, recipientes e outras coisas que não tínhamos na floresta. Ela nunca me deixou ir com ela. E eu nunca soube o motivo disso.

— E o que houve com seu pai?

— Eu não sei. Cada vez que eu perguntava ela me dava uma resposta diferente. Ela havia me dito que ele foi atropelado, comido por um tubarão, caiu de um abismo, se afogou, fugiu e foi preso, virou pó. Nunca soube da verdade, mas tudo que ela me contava era como se ele estivesse morto. Mas eu percebia algo em seu olhar, como se ela estivesse mentindo cada palavra. Eu não sei nem o seu nome.

— Acho que deve ter acontecido algo muito trágico com seu pai e ela não queria que você soubesse. Ou ele fez algo muito ruim.

— Pode ser. Mas eu quero saber da verdade. Eu me sinto como uma excluída do mundo. Eu não sabia sobre o governo, sobre o RG, sobre as pessoas e nem sobre o meu próprio pai. Às vezes eu me comparo à uma criancinha de cinco anos que não sabe nem escrever.

— Não fala assim. Sua mãe com certeza escondeu a verdade de você para o seu próprio bem. Eu sei que ela só fez isso para te proteger.

— Assim como você me salvou da nevasca? Me emprestou seus cobertores? Me apoiou quando eu falava da morte dela, é isso? Para me proteger?

— Exatamente — ele sorriu.

Acabei sorrindo também e pareceu que o mundo havia parado, pois nós ficamos a olhar um para o outro durante uma eternidade. Seu sorrisso se desfez junto ao meu, mas continuamos a nos olhar. Eu deveria estar incomodada com o silêncio entre nós, mas eu não ligava. Não conseguia retirar meus olhos dos seus. Eles me aprisionaram e não queriam me largar. Queriam estar mais perto um do outro.

Foi aí que percebi que nós dois estávamos indo mais para perto um do outro. Nossos rostos ficaram a poucos centímetros de distância e nossas respirações se misturavam. Conseguia sentir o nervosismo em sua respiração e tenho quase certeza que ele também sentia o mesmo de mim.

Sua mão direita foi se levantando lentamente em direção a minha bochecha. Consegui sentir o calor em meu rosto quando a tocou. Seus olhos largaram os meus e foram em direção aos meus lábios. Ao mesmo tempo, acabei olhando para sua boca. Aqueles lábios levemente grossos. Foi nessa hora que o silêncio se quebrou.

— Já te disse que ficas fofa quando cora, certo? — ele perguntou.

— Sim — respondi sorrindo-lhe.

Ele sorriu rapidamente e logo em seguida quebrou a distância entre nós e me beijou.