Mentalizada
8 Capítulo 7
Se tivesse que descrever seu estado nesse momento em poucas palavras, quais seriam? Bom, o meu eu resumo em apenas duas. Estou em choque! Certo, foram três, mas nesse exato momento estou tão paralisada que até pensar está difícil.
Eu acabei de descobrir que o pai do meu melhor amigo — na verdade é o meu único amigo — foi o criador do RG. Sim, o RG. Uma ferramenta tão mortal, que lhe tira a vida aos 64 anos. Milhares de pessoas foram mortas por culpa dele desde o ano de 2064, quando a guerra na Califórnia acabou. Tantas vidas roubadas por culpa de um maldito livro. Por culpa da idade-limite. Por culpa do RG. Por culpa do pai do meu melhor amigo.
Nunca pensei que o Leo teria um pai assim. Como o pai de alguém tão legal pode criar uma arma mortífera como o RG? Como é possível existir alguém assim? Como é que as coisas vão ficar à partir de agora? Eu realmente não sei. O Leo é muito legal. Se não fosse por ele eu já estaria morta. Ele, por mais que tenha me magoado, continuará sendo meu melhor amigo. O meu único amigo até agora. Minha cabeça está explodindo. É uma informação muito pesada para eu alguentar sozinha. Antigamente minha mãe estaria me consolando nessas horas. Atualmente seria o Leo à me apoiar. Mas como é que eu posso aceitar apoio do filho de alguém que mandou um caçador para matar eu e minha mãe?
Acho que o que eu preciso agora é de ar fresco. Para aliviar os pensamentos e colocar as informações em ordem. E eu conheço um lugar pefeito para isso.
Saí da caverna ignorando o Leo que gritava por meu nome e perguntava para onde eu ia. Comecei a correr. O que não era certo, eu sei. A dor no meu pé ja havia passado, já que o Leo fez um ótimo trabalho cuidando dele, mas se eu corresse poderia acabar reabrindo a ferida e começar a sangrar em minhas botas. Mas isso não importava agora. Dei uma leve espiada por cima de meu ombro e já não conseguia enxergar nosso abrigo. Ao meu redor só haviam árvores e mais árvores. Poderiam parecer todas iguais, mas existia uma diferente. Uma especial. Uma que eu estava à procurar.
Diminui a velocidade, andando silenciosamente dentre a floresta. Conhecia muito por lá. A floresta é minha casa, minha cidade-natal. É um lugar que eu conheço como a palma de minha mão. Eu nasci aqui. E é aqui que eu quero ficar. Mas há algo que eu quero muito mais do que morar na floresta: destruir o RG. E, para isso, terei que ir para a cidade. Eu não suporto a ideia de ter que criar um livro para registrar cada pessoa aqui nascida e depois matá-las. É como se eles controlassem nossas vidas, marcassem o dia de nossa morte e nesse tempo nos davam alguns direitos. Não é justo.
Finalmente cheguei aonde queria: uma árvore que eu escondi o arco e flecha que ganhei de minha mãe. Se a escalassem dava uma vista perfeita para a cidade. Um lugar que eu gostava de ir quando pequena. Minha mãe me ensinou a escalar árvores aqui. Essa foi a primeira árvore que eu subi. E é com ela que irei desabafar tudo o se passa pela minha mente agora. Ela irá me apoiar.
Comecei a escalar. Não foi tão fácil quanto antigamente, pois um de meus pés não está em perfeito estado. Mas, depois de muito esforço, cheguei ao ponto mais alto dela. Peguei meu arco e prendi a aljava de flechas em meu ombro. Observei a cidade atentamente. Daqui algum tempo irei conhecê-la pessoalmente e me vingar de cada um que matou pessoas inocentes. Me vingar daquele que matou minha mãe. E, acima de tudo, irei me vingar no lugar de cada família que odeia tanto o RG quanto eu. Eu irei começar uma nova guerra.
Mas há algumas informações explodem em minha mente. O Leo é filho de Roger Moojes, o criador do RG. E foi esse Roger que mandou um caçador para a floresta, à procura de qualquer um que não houvesse passado pelo RG. No caso, eu e minha mãe. Minha mãe, dona Martha, foi apenas uma das vítimas. Há milhares de pessoas que morrem por ano quando chegam na idade-limite. Quem pode criar algo assim? E por quê criou? A única coisa que se ganha com isso é ódio e culpa. O ódio de cada família que teve um parente morto e a culpa por ter sido você o assassino. Isso é o que se ganha. E isso eu não posso deixar passar assim.
Meu melhor amigo é filho do criador disso. Ele irá se vingar do próprio pai. Nós iremos contra o RG, contra o governo, contra tudo e todos que tentarem nos impedir. Queremos justiça. E quando eu quero, eu posso e consigo. Esse é meu lema. Esse será nosso lema. E a partir daí, iremos para a cidade e faremos o que for preciso para dar liberdade à todos.
E se Leo não topar, irei sozinha. Liderarei os rebeldes para uma luta contra o governo. Não quero ser morta por culpa de um livro sem valor. Quero ter uma morte digna e só quando a minha hora chegar. De preferência depois dos 64 anos. E para isso eu irei para a luta. Eu tenho de convencer Leo à ir comigo.
Estava prestes à voltar ao meu abrigo. A árvore já havia me consolado e apoiado. Mas decidi fazer algo antes disso. Peguei uma pedra e risquei em minha flecha: PREPAREM-SE. Posicionei no arco e atirei. Minha mira ainda estava boa, pois a flecha caiu exatamente aonde mirei. Na cidade. Isso foi apenas para o governo saber que estou viva e que irei atacar brevemente. Mas não estarei sozinha.
Desci da árvore — junto de meu arco e flechas -, o que pareceu mais difícil do que subir. Dei uma observada de leve em meu pé para ver a situação que lhe encontrara. Para minha surpresa havia algumas gotas de sangue pingando de meu dedo. Não estou surpresa, pois sei exatamente os motivos de ele estar nessas situações. Eu abusei além dos limites do curativo que Leo me fez.
Confirmei se ele estava bom para eu andar. Sorte minha de não doer tanto, mas não vou me arriscar à correr e depois ficar mancando novamente. Nunca se sabe quando o governo pode voltar à atacar e eu não quero descobrir. É bem melhor eu estar preparada caso algo aconteça, e se eu começar à correr agora garanto que cinquenta metros depois não aguentarei mais.
Andava calmamente pela floresta de volta ao meu abrigo. A cada árvore familiar que se passava pela minha frente, uma dor começara à me atingir por dentro. Só de pensar que cada uma delas foi um lugar onde eu estive com a minha mãe. Eu não posso deixar a morte dela passar em vão. Eu tenho de me vingar. Me vingar do caçador. Me vingar do RG. E, acima de tudo, me vingar do governo. Me desculpe Leo, mas eu vou me vingar de algo que seu pai criou.
Estava na mais calma paz. Relembrar cada parte por onde passei, por onde vivi e por onde nasci me trazia momentos tranquilos. Os lugares onde ri, chorei, brinquei, me machuquei... A floresta é minha vida. Não há lugar mais bonito que eu já vi além daqui. Não dá para se comparar à cidade. Aquele lugar barulhento, movimentado e poluído. Não sei como as pessoas vivem tão bem lá.
Vozes familiares vindas à alguns metros à minha frente me tirou de meus pensamentos.
— Eu não sei de nada, eu juro! — Uma voz masculina inocente implorava.
— Pare de mentir, garoto! Onde ela está? — Um homem já adulto, também familiar, gritava com sua voz grossa.
O garoto tremia de medo. Me escondi atrás de um tronco de árvore grosso, de um ponto de vista de onde podia ver atentamente quem eram os dois homens à discutir. Meus olhos se arregalaram ao perceber seus rostos. Leo e o caçador.
— Não! — Sussurrei baixinho. Apenas eu pude ouvir. Já não basta a minha mãe e agora o Leo? Pensa Bella, pensa! Faz alguma coisa!
— Maldito moleque! Eu sei que você sabe dela! — Dela? Será que o caçador está se referindo à mim? Não posso deixar que o Leo seja prejudicado por minha causa. — Me diz logo! Onde está a garota? — Certo, ele está se referindo à mim.
Rapidamente, peguei meu arco e posicionei a flecha pronta para atirar. Um segundo depois a indecisão me alcaçou. Eu não posso matá-lo. Pelo menos não agora. Eu tenho de ajudar o Leo, mas o que eu faço? Nunca matei ninguém e não estou pronta para isso. A flecha está posicionada mirando para as costas do caçador, mas se eu atirar e ver que sou uma assassina me culparei pelo resto de minha vida. Embora eu precise achar uma maneira de vingar a morte de minha mãe contra o caçador, não quero que seja agora.
— Por favor, me deixe em paz! Eu não sei onde ela está, apenas sei que ela fugiu!
A voz do Leo me causou outra dor em meu peito. Nunca o vi tão abatido como agora, e isso machuca-me. Não posso continuar parada aqui enquanto ele implora à alguns metros de distância de mim. Depois de tudo que ele me fez, não merece ser ameaçado por qualquer pessoa desse mundo.
— Ah, cansei de palhaçada garoto! — O caçador retirou sua arma do cinto e mirou na cabeça de Leo. Não! Eu não posso deixar que isso aconteça. Será que esse homem pretende tirar a vida de todas pessoas à quem me aproximo? Considerando os tantos anos que já existe o RG, acho que isso não se compara à minha situação. — Vou repetir pela última vez. Onde ela está?
Ele falava com os dentes cerrados. Sua voz grossa penatrava medo em mim. Nem quero imaginar, então, o quanto medo que o Leo deve estar sentindo. Faça alguma coisa, Bella! Você não pode deixar seu melhor amigo morrer assim!
O caçador preparou o gatilho. Suor queimava minhas bochechas, enquanto o desespero o acompanhava. Vi-o colocar o dedo pronto para atirar. Leo fechou seus olhos com força. Alguns segundos à mais e ele caira no chão com sangue a se espalhar. Mas eu não posso deixar isso acontecer.
De repente uma ideia me veio à cabeça. Leo virou sua cabeça lentamente para o lado, ainda com os olhos fechados. Levantei o arco à mira perfeita. E atirei.
Ouvi o tiro e corri de encontro com o Leo. A bala havia sido atirada no chão perto de seu pé. O caçador estava caído no chão gritando e contorcendo-se de dor. A flecha que atirei havia ido de encontro ao seu braço direito, fazendo assim, com que a arma fosse retirada de sua mão e caísse perto de Leo. Certifiquei que ele não poderia se levantar por alguns segundos e corri abraçando Leo com a maior força.
Ele se surpreendeu e abriu um de seus olhos. Após me reconhecer retribuiu o abraço.
Depois o soltei e comecei a encará-lo. Eu havia abraçado seu pescoço com tanta força que agora ele estava à recuperar o ar. Nossos olhos se encontraram e pude perceber o agradecimento em seu olhar. Depois de voltar à realidade, lembrei-me do caçador caído ao chão. Olhei de relance e o vi se rastejar a tentar recuperar sua arma.
Pisei em sua mão fazendo-o gritar mais ainda. Ainda com o pé em sua mão, agachei e peguei sua arma. Entreguei-a ao Leo, para ele decidir o que faria a respeito da situação anterior. Ele a segurou e encarou o homem ao seus pés com um olhar de fúria. Mirou a arma em direção à sua cabeça e disse com raiva em sua voz.
— Nunca mais mecha com nenhum de nós dessa maneira.
Sua voz foi tão firme que até eu me assustei um pouco. Ele não piscava e não desviava o olhar. Tentei imaginar o quanto de raiva estava prenchida em seus olhos. Os últimos minutos atrás sua vida foi ameaçada. E agora ele está à vingar-se. Mas espere! Eu também devia vingar-me daquele maldito homem que retirou a vida de minha mãe.
Juntei a minha mão por cima da de Leo e ele me olhou com curiosidade. Nossos olhos se encontraram novamente e pude perceber as intenções dele e ele percebeu as minhas. Ambas eram as mesmas. Olhamos com a mesma fúria nos olhos para o caçador. Uma poça de sangue estava ao seu lado, devido à flecha que atirei. Mas mesmo assim não me senti culpada.
O ser à minha frente nos encarava chocado. Acho que ele finalmente provou o seu próprio veneno. Até que ele disse suas últimas palavras.
— Quem são vocês? — Ele estava à gaguejar.
Dei-lhe um sorriso de lado com os lábios juntos que ao mesmo tempo foi misterioso.
— Nós somos o início da rebelião!
E atiramos.
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