Mentalizada
4 Capítulo 3
Sabe aquelas situações onde você pensa centenas de possibilidades que podem acontecer, mas o que realmente acontece é algo que nunca te passou pela cabeça? É como estou agora.
Eu havia feito uma simples arapuca, para capturar um esquilo. Mas aconteceu totalmente o inesperado. Eu capturei um garoto! Não! Não! Não e não! Não podia ser capaz de capturar um outro ser dezenas de vezes maior. Não poderia acontecer isso, a armadilha iria arrebentar e estaria toda destruída. Como está agora.
E se está arrebentanda e destruída dessa maneira, significa que não capturei um garoto aparentemente inocente, pelo contrário, ele destruiu minha arapuca e comeu as nozes que deixei por conta própria. Pelo que estou analisando, ele não está mais me parecendo inocente. Ele acabou de destruir a armadilha que demorou demais para eu conseguir terminar, e estragou todas as chances que eu tinha de conseguir carne com uma arapuca. Quem esse garoto pensa que é eu não sei, mas eu já estou morrendo de raiva dele.
— Olá! — disse ele ainda com uma das nozes na boca.
— Por que você destruiu a minha armadilha? — explodi gritando — Você não faz a minima ideia de quanto tempo eu demorei pra construir isso! E depois de destruir, ainda é cara de pau de vir com um 'olá' super simpático! Como é que eu vou conseguir comida agora? Que desgraçad...
— Opa! Calma aí ta, nervosinha! — ele me interrompeu — Quem disse que você não conseguiu comida? Olha isso aqui!
Ele estendeu a mão com dois esquilos pendurados pelo rabo e com um corte na cabeça — que provavelmente foi causado pela faca em seu cinto. Fiquei supresa demais com os esquilos em sua mão que a minha maior vontade era de me desculpar por ter gritado com ele sem motivos.
— Sério que eu consegui um animal? Ou melhor, dois! Muito obrigada e me desculpe por ter gritado com você — depois disso fiquei até envergonhada. Ele foi tão gentil em guardar os esquilos para mim, enquanto eu apenas gritava.
— Tudo bem. Acho que não nos apresentamos direito. Sou Leonardo Martins. Mas pode me chamar apenas de Leo.
— Prazer Leo. Sou Bella. Bella Christine.
Ficamos uns três segundos em silêncio enquanto ele me encarava. Tempo suficiente para eu perceber todos de detalhes de seu rosto. Ele tinha olhos cor de mel, sua pele era levemente escura, seus cabelos eram castanhos escuros e seus lábios um pouco grossos. Ele tinha braços musculosos e mãos bem firmes. Algo me fez pensar que ele conseguiria levantar uns cinquenta quilos e arremessar à mais ou menos dez metros de distância.
— Vai querer jantar esquilo? — quebrei o silêncio. Ele balançou a cabeça rapidamente, como se estivesse se livrando dos pensamentos, e abriu um sorriso.
— Não vejo a hora!
Fomos andando em direção ao meu abrigo. Não sabia se essa era a escolha certa — levar um desconhecido para o meu esconderijo, mas algo me diz que posso confiar nele. Ao chegarmos, ele se surpreendeu com a beleza da grama refletida no lago que despencava a cachoeira e o leve e perfumado aroma da flores ali encontradas.
— Uau! Que lugar maravilhoso! — seus olhos brilhavam de admiração e seu queixo deve ter caído por ficar chocado pela beleza do local.
— Certo, eu sei que você adorou, mas será que pode me dar uma ajudinha com a fogueira? — atrapalhei seus pensamentos.
— Já vou, já vou!
Ele buscou alguns pedaços de madeira e eu peguei os fósforos na minha mochila. Acendemos a fogueira e ele assou o esquilo. Pude perceber que ele tinha mais prática com isso, então deixei que ele se encarregasse dessa parte. Assim que ficou pronto, eu comi metade de um esquilo e ele comeu um inteiro. Após terminarmos, lavamos nossas mãos no lago e entramos na caverna para dormimos.
Leo foi abrindo seu saco de dormir enquanto eu acendia as velas novamente. Fechei a entrada com a rocha e me deitei. Ficamos conversando até pegarmos no sono.
— E então, o que foi que te fez vir para a floresta? — ele perguntou.
— A floresta é minha casa. Eu nasci e cresci aqui junto de minha mãe desde quando eu ainda era um bebê de colo.
— E desde aquela época até agora você não sabe caçar?
— Minha mãe iria me ensinar assim que eu completasse doze anos. E eu vou completar a idade certa amanhã. Mas ela...
A lembrança de minha mãe sendo enforcada na minha frente faz com que uma lágrima escorra por minha bochecha. Mesmo eu tendo dito à mim mesma que não choraria até conseguir me vingar do caçador, não consegui conter.
Ele se sentou e percebeu que eu estava chorando. A lágrima que escorria foi interrompida com seu polegar passando suavemente pela minha bochecha.
— O que houve com ela? — ele me perguntou delicadamente, pois deve ter percebido que eu estava sensível.
— Ela foi morta dois dias atrás, bem na minha frente — disse entre soluços. Agora as lágrimas não eram mais silenciosas.
— Eu sinto muito. Vem cá — ele abriu os braços para me abraçar e eu não rejeitei.
Tudo o que eu mais precissava era de apoio. E agora eu havia acabado de encontrar em seus braços. Aqueles braços firmes, fortes, seguros e prontos para proteger alguém. Enterrei minha cabeça em seu ombro e o abracei mais forte. Era muita pressão pra cima de mim, que dividí-la com alguém era bem mais fácil de me recuperar.
Me afastei e limpei a lágrima que escorria por meu rosto com o dedo. Olhei para o Leo e percebi que seus olhos estavam à lacrimejar. E me senti obrigada à dizer algo à ele.
— Obrigada por me apoiar. Mas você devia dormir agora. Eu perdi o sono.
— Então eu vou ficar acordado também até você reencontrar seu sono novamente.
— Você é muito gentil! Mas pode descançar. De manhã nós conversamos.
— Certo, então. Boa noite!
— Boa noite!
Fiquei sentada enquanto ele dormia. O que houve hoje à noite fez com que eu ficasse sensível. Não o fato de ter abraçado ele, e sim por ter lembrado da morte de minha mãe. Balancei a cabeça para me livrar dos pensamentos, se não começaria a chorar novamente. O que estou precisando é esquecer isso tudo e seguir em frente.
Amanhã vou falar com Leo para ver o que ele me diz sobre a minha vingança contra o caçador. Por ele aparentemente parecer conhecer mais sobre a cidade e as pessoas de lá. Vou perguntar também sobre o que sifnifica passar pelo RG. Tenho muitas perguntas à ser feitas.
E as respostas estão com Leo.
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