Está ficando frio. A noite está surgindo acompanhada dos ventos gelados que a seguem. Se eu continuar aqui posso morrer congelada enquanto durmo. Meus cobertores desapareceram dois dias atrás, junto de minha mãe. Quando o caçador nos achou aqui na floresta. Minha mãe tentou me proteger. Mas acabou morta. Ainda não sei o motivo da vinda do caçador ao nosso abrigo e muito menos o porquê dele tentar nos matar. Desse momento em diante eu fugi. Sem rumo. E vim para aqui, perto de uma cachoeira que despenca em um lago, da qual a água é tão limpinha que dá para se beber sem problemas. Como eu saí correndo em disparada sem me preocupar com o que deixei lá, acabei esquecendo de meus cobertores.

Um pingo de água caiu em meu nariz. Eu estava à alguns metros do lago, então esse pingo só poderia ter caído do céu. Isso significa que se eu não achar um abrigo coberto e quente, além de morrer de frio, vou morrer ensopada. Olhei ao redor para ver se enchergava algo. Nada. Peguei minha jaqueta, uma das poucas coisas que havia trazido, e vesti. Me sentei no gramado, que estava tão bonito e cortado de uma maneira perfeitamente linda. Ao redor dele tinham arbustos decorados com belíssimas flores, onde seu aroma era o mais puro doce. Aquela paisagem era magnífica, mas ficaria muito melhor se eu estivesse com minha mãe ao meu lado.

Me encostei em uma árvore onde sua copa era tão grande que devia me proteger por uns quinze minutos da fina garoa que caía lentamente. Eu não poderia ficar ali. Se começasse a trovejar e eu estivesse debaixo daquela árvore, as chances de eu levar um raio em meu corpo eram grandes. Decidi me levantar e olhar novamente em meu redor. Para minha sorte encontrei umas rochas, não muito longe, que por estarem juntas, serviriam de uma mini caverna. Peguei minhas coisas, coloquei em minha mochila e saí andando até lá. Entrei dentro da "caverna" e ajeitei minhas coisas lá dentro. Por estar escuro, acendi duas velas que peguei de minha bolsa. Por ter clariado o local, consegui enxergar melhor o ambiente. Dentro das rochas havia espaço para umas quatro pessoas, o que era bem maior do que eu imaginava. Ajeitei minhas coisas no fundo e usei uma pedra grande para fechar a entrada da caverna. Peguei meu saco de dormir e tirei um cochilo. A partir de agora, meus dias seriam assim.

Enquanto dormia, tive um pesadelo. Era aquele caçador novamente. Eu estava ali, parada e comendo amoras, enquanto ele se aproximava. Sua pele escura, seus cabelos desalinhados e pretos e seus olhos negros como carvão poderiam fazer com que ele participasse de um filme de terror. Mas o que mais me assustava era a cicatriz que surgia ao lado de seu olho direito e percorria sua bochecha até parar no canto de seu lábio. E ainda para piorar seu uniforme era preto, suas calças tinham as barras sujas de terra e ele possuía um cinto com uma arma pendurada. Era de arrepiar!

— Oh não! — disse minha mãe. Algo me diz que ela já conhecia ele de algum lugar.

Parei de comer as amoras e as gardei em um potinho. Minha mãe se levantou com uma expressão de medo em seu lindo rosto. Seus cabelos eram ondulados até a metade das costas e castanhos escuros. Seus olhos verdes refletiam o pavor daquele momento e sua testa escorreu uma gota de suor.

— Vocês passaram pelo RG? — perguntou o caçador. Eu o chamo assim pois não sei o que ele é. Embora tenha um crachá em sua roupa, não dava para se ler por conta da imundisse em que se encontrava.

Minha mãe permaneceu em silêncio. Eu não sabia o que estava havendo naquele local e nem do que estavam falando. Por fim o caçador continuou.

— Será que não fui claro? Vocês passaram ou não pelo RG? — sua voz grossa e alta ecoava medo por meu corpo.

Novamente minha mãe e eu permanecemos em silêncio. Eu não tinha ideia alguma do que poderia acontecer. Apenas fiquei paralisada.

— Bella, corre! — disse minha mãe quase sussurrando.

Continuei ali imóvel. Observei o sorriso torto do caçador. Seus dentes eram amarelados e podres. Posso apostar que se eu estivesse mais perto era capaz de sentir um mal hálito vindo de sua boca. Olhei para minha mãe. Nossos olhos se encontraram e eu pude ler através dos dela que era melhor eu fazer o que ela mandou o mais rápido possível.

— Ghrrrrr! — rosnou o caçador e antes de ele fazer qualquer outra coisa eu já estava com a mochila na mão preparada para correr.

— Vai logo, Bella! — gritou minha mãe enquanto socava a bochecha com a cicatriz do caçador. Ela não precisou dizer mais nada para que eu já estivesde à mais de vinte metros longe dela.

Olhei para trás rapidamente para ver se ela estava me seguindo, mas o que vi me chocou mais do que tudo. O caçador estava apertando o pescoço de minha mãe com uma mão e mexendo em seu cinto com a outra. Não conseguia me mexer. Eu via minha mãe tentando soltar a mão de seu pescoço, mas ela não tinha sucesso. Comecei a correr para ir ajudá-la mas parei quando ouvi um sussurro saindo de seus lábios.

— Não... Bella. Fuja! Agor... — antes que ela pudesse terminar a frase vi sua cabeça encostando lentamente na mão que lhe enforcava. O caçador lhe soltou e seu corpo caiu duro no chão. Ele me olhou com seu olhar tenebroso e mirou a arma em minha direção. Olhei fixamente para ela. Não havia como eu fugir agora, estava condenada. Ouvi ele puxando o gatilho e apertando para disparar. Eu iria morrer. Click!

Nada. Abri os olhos, que antes tinha os fechados, e olhei para o caçador. A arma estava sem balas. Sem arriscar ficar parada ali, comecei a correr como nunca havia corrido antes. Corri e corri. Não olhei para trás, pois iria lembrar de minha mãe e começaria a chorar, fazendo com que minha vista ficasse embaçada e eu fosse obrigada a parar. Chacolhei a cabeça para me livrar do pensamento e continuei sem rumo. Continuei dessa maneira até não aguentar mais e ter que parar para descansar. Olhei para trás. Nada de caçador. Olhei para frente e me deparei com um lago que se formou onde caía uma cachoeira. Lavei meu rosto, que estava cheio de suor por ter corrido tanto e cheio de lágrimas por ter olhado para trás. Minha mãe... ela foi... morta bem na minha frente.

Comecei a chorar sem parar mais. E aí eu acordei, ainda na caverna e chorando. Levei as mãos ao rosto para tentar me consolar. Apaguei as velas e afastei a pedra que tapava a entrada da caverna. Saí de lá e me ajoelhei no mato de frente para o lago.

Meu nome é Bella Christine. Eu fui isolada do mundo e me esconderam do tal RG. Mas eu estou disposta a descobrir o significado dele e ter uma palavrinha com o caçador. Ah, eu vou descobrir! Eu vou me vingar da morte de minha mãe, não vou deixá-la morrer em vão. E o meu primeiro passo é parar de chorar.

Notas finais
Gostaram?