Mensageiros 2 - Versão Alternativa
2 Capítulo 2
Notas iniciais
POV MARY
Voltei de mais um dia cansativo de escola, mamãe preparava um assado pro jantar.
_Devíamos levar um pouco de comida pro filho do falecido Rollins não acha mamãe, ele está sozinho naquela fazenda e não deve saber cozinhar. Falei enquanto arrumava a mesa de jantar.
_Tem razão, vou fazer um prato e depois peço pro seu irmão levar.
_Eu levo, Simon trabalhou o dia todo não me custa.
Ela me olhou de uma forma estranha por alguns segundos.
_Leve seu irmãozinho com você, não fica bem uma mocinha ir a casa de um vizinho solteiro sozinha. Disse ela.
_Ai mãe isso é tão século passado pra uma mulher tão moderna quanto a senhora.
_Acontece que as pessoas dessa cidade continuam pensando assim e eu não quero saber de fofoca envolvendo o nome dos meus filhos por ai, sabe muito bem que essas pessoas veem maldade em tudo. E além do mais você sabe o pai que tem.
Jantávamos pontualmente as 17:30 horas pra maioria das pessoas seria cedo demais, mas pra quem tinha que levantar as 4:00 da manhã pra cuidar dos animais e da plantação era a hora certa pra refeição. Depois do jantar peguei o prato que a minha mãe havia servido, o embrulhei , chamei Michael pra ir comigo, mas ele estava entretido demais brincando com os filhotes de cabra. Cortei caminho pelo meio da plantação era um atalho e tanto, pela estrada daria quase uma hora de caminhada, isso que era nosso vizinho mais próximo. Sai da plantação que ficava quase na frente da casa, o velho Senhor Rolins gostava de “aproveitar espaço” então a fazenda toda era uma enorme plantação de milho que nos últimos meses causava inveja aos moradores da cidade por ser a única a sobreviver a terrível seca que enfrentávamos.
Avistei John concentrado tentando concertar uma bomba de água que irrigava a plantação.
_Senhor Rollins. Falei.
_Mary, não é mesmo? Que faz aqui?
_Minha mãe preparou um assado e achei que podia estar com fome. Falei estendo o prato.
_Que gentileza, obrigado. Só um minuto eu não sei o que houve com essa bomba, não quer funcionar.
Ele secou as mãos, notei como seus braços eram fortes, ele estava diferente do dia anterior, usava uma camisa xadrez e calças jeans surradas parecia mais com o pessoal da região.
_ Eu to com um problema no celeiro, tem uma ovelha que parece mal não come e fica o tempo todo deitada sabe se tem algum veterinário por aqui?
_Tem o dr Sheper, mas deixa eu vê-la talvez eu possa ajudar. Falei
Caminhamos até o grande celeiro vermelho a ovelha estava deitada em um canto.
_Ei pequena qual o problema? Falei acariciando sua cabeça e depois o lombo macio e peludo.
_Ta tudo bem com ela, só esta em trabalho de parto. Falei.
_Parto? E o que eu faço? Perguntou John com uma cara de assustado, os anos na cidade devia ter feito com que ele esquecesse o quão aquilo era comum.
Continuei a examinar a ovelha eu sempre adorei animais e cuidava deles na nossa fazenda desde pequena.
POV JOHN
Fiquei observando Mary tao cuidadosa e gentil com o animal, eu já tinha reparado que ela era bonita, mas não tão detalhadamente, tinha jeito delicado e encantador.
_Já sei qual é o problema. Disse ela franzindo o rosto._São dois bebês eles devem estar presos na bacia, ela vai precisar de ajuda.
_Vou ter que chamar um veterinário então.
_Não eu resolvo isso, já fiz isso com uma vaca na nossa fazenda. Pode me arranjar um par de luvas?
_Tem certeza Mary?
_Tenho, além do mais até o veterinário chegar os bebês podem acabar morrendo.
_Bem eu vou pegar as luvas.
Entreguei o par de luvas, ela virou o animal com certa destreza e me pediu pra segurar as patas da frente, a ovelha tentou escapar.
_ Hei tá tudo bem menina vamos trazer os seus bebês pro mundo. Disse ela acariciando o animal que se acalmou imediatamente.
_ela introduziu uma das mãos no animal.
_Nossa, são três que coisa estranha. Nunca vi uma ovelha com três filhotes ao mesmo tempo. Disse ela
Aos poucos ela começou a puxar um dos animais e em pouco tempo as patas ficaram visíveis, ela retirou o pequeno carneirinho e o colocou sobre o feno ainda sujo e continuou o trabalho, minutos depois havia três pequenos filhotes que eram lambidos pela ovelha.
_Pronto, são lindos. Disse ela.
_Vai ter que amamenta-los, ela não vai dar conta de tri gêmeos. Disse ela com um sorriso lindo e os olhos brilhando.
_Nossa você é incrível Mary, vem, vou preparar um suco pra gente. Falei.
Ela me olhou com o rosto corado com o elogio.
POV MARY
_Entra. Disse ele entrando na casa.
_Ah eu cortei caminho pela sua plantação o seu espantalho deve ter caído com o vento, e nossa é o espantalho mais assustador que eu já vi, não é atoa que a sua plantação tá livre dos corvos.
_Corvos? Disse ele abrindo o embrulho.
_Estão atacando todas as plantações e comem tudo, meu pai ta uma fera, como se já não bastasse a seca.
_ Seca? Disse ele já colocando um pedaço do assado na boca.
_É, já faz uns três verões, tem sorte de ainda haver água nos seus poços.
_Humm isso ta uma delicia, faz muito tempo que eu não como comida caseira, em Los Angeles viva base de hambúrguer e fritas.
_Humm hambúrguer e fritas. Falei.
_Coma isso todos os dias pra ver a droga que é. Nossa isso está muito bom, sua mãe é uma cozinheira de mão cheia.
_A melhor da região. Falei orgulhosa.
_Vamos ter uma quermesse na cidade no fim de semana, pra conseguir dinheiro pra manter o abrigo de idosos, mamãe e eu venderemos tortas, se quiser aparecer. Eu tenho que ir, boa noite Senhor Rollins.
_Pode me chamar de John eu não sou tão velho assim. Espera, me mostra onde está esse espantalho.
Caminhamos em meio a plantação e eu o levei até o espantalho.
_Nossa ele é feio mesmo, que estranho, meu pai nunca acreditou que espantalhos ajudassem em algo na plantação, na verdade eu e meu irmão lembra dele Timothy?
_Sim eu lembro.
_Quando éramos garotos nos fizemos um e usamos uma camisa do meu pai ele ficou furioso e nos deu uma surra. E olha que ele era bem bonitinho colocamos até flores na lapela. Disse ele com um sorriso bonito.
_Vai pendurar ele de volta?
_ Bom vamos lá, pode me ajudar?
_Sim.
Penduramos o espantalho nas estacas, ele ficava ainda mais assustador lá em cima.
_Pronto. Disse John descendo._Obrigado pela ajuda e pelo jantar.
Imediatamente o sistema de irrigação começou a funcionar, eu levei um susto com o jato de água que foi lançado nas minhas costas e dei um pulo esbarrando em John. Ficamos nos olhando por um tempo tão próximos que eu podia ouvir a respiração dele. Ele me olhava com aqueles olhos azuis profundos como se visse meus pensamentos, senti meu rosto corar e ele se afastou.
_Uauu acho que esse é o espantalho da sorte! Passei o dia todo tentando concertar aquela bomba.
_Eu tenho que ir, até mais senhor... Ah John.
_Até mais Mary, eu irei a Quermesse. Disse ele.
Cheguei em casa toda molhada pela irrigação da plantação dos Rollins. Vi meu pai parado a frente da varanda com o cinto na mão. Passei quieta.
_Mary?
_Senhor.
_Posso saber onde diabos você estava? Perguntou ele calmamente dobrando a cinta entre as mãos.
_Eu fui levar um prato pro senhor Rollins, a mamãe permitiu. Falei sentindo o medo tomar conta de mim.
_E sua mãe não disse também pra você levar o Michael?
_Sim, mas ele estava brincando eu não quis atrapalhar, papai... antes que eu pudesse terminar senti a cinta bater com força nas minhas pernas.
_Papai! Não por favor, eu não fiz nada errado por favor! Implorei.
_Não fez nada errado? Sair sozinha a noite feito uma vadia mundana e não fez nada errado Mary! Aposto que estava se esfregando com algum imbecil sem eira nem beira pelas plantações não é? Gritou ele enfurecido.
_No papai eu juro e nem escureceu ainda. Falei.
_A nem escureceu ainda? Você vai ver nem escureceu ainda. Disse ele me pegando pelo braço e me arrastando pra dentro de casa.
_Robert por favor, não a machuque Robert! Suplicou mamãe tentando impedi-lo. Ele apenas deu um tapa no rosto dela e a empurrou, Michael começou a chorar enquanto papai me arrastava escada a cima.
Ele me jogou dentro do quarto e mandou eu me ajoelhar.
_Não papai por favor.
_Vamos Mary eu não tenho a noite toda.
Me ajoelhei e imediatamente comecei a sentir as cintadas nas minhas costas, eu fazia um esforço enorme pra não chorar de dor, ele bateria mais se eu chorasse. Depois de umas quinze cintadas eu mal conseguia me manter naquela posição, tamanha a dor que sentia ele finalmente desistiu e afagou meus cabelos.
_Faço isso por você, pro seu bem sabe disso. Vá dormir, amanhã tem escola. Ah e eu vou até a fazenda dos Rollins amanhã perguntar ao John se você realmente esteve lá, se tiver mentindo comece a rezar. Disse ele saindo pela porta.
Assim que ele saiu debrucei sobre minha cama e comecei a chorar, eu não aguentava mais aquela vida.
“Calma Mary até o fim do ano, você vai conseguir aquela bolsa e vai sair daqui, estudar, arranjar um bom emprego e tirar a mamãe e o Michael desse inferno, você vai conseguir” pensei.
POV JOHN
O dia amanheceu olhei pela janela a plantação parecia ainda mais verde e grande com o imponente espantalho bem ao centro dela. Vi uma caminhonete se aproximando, me vesti e desci imediatamente.
_Robert, falei estendendo a mão.
_Como está John?
_Estou levando a vida, tentando manter a plantação viva. Veio buscar o prato? Diga a sua esposa que o assado estava ótimo!
_Então Mary esteve aqui mesmo.
_Esteve, algum problema? Aconteceu alguma coisa?
_Não ela está bem, eu só tento ficar de olho nela sempre, filha mulher da muito trabalho ainda mais na idade que ela está. Os garotos caem em cima feito abelha no mel, se eu não fico de olho hora ou outra ela cai na boca do povo ou pior aparece barriguda. Disse ele.
_Entendo.Quer entrar? To preparando um café.
_Eu vou aceitar sim.
Entramos e o levei até a cozinha, servi as duas xícaras de café.
_Vai ficar por aqui ou vai vender a fazenda? Perguntou ele.
_Ainda não sei, pensei em ficar até a colheita, a fazenda está com dívidas, com o dinheiro da colheita eu posso quita-las ai eu vejo o que eu faço.
_Bem vai ser uma colheita farta, todos na cidade queriam saber qual era o segredo do seu pai pra conseguir manter a plantação assim.
_Bom espero descobrir esse segredo e manter os pés de milho até a colheita. Falei.
_Devia ficar por aqui, casar e ter filhos, é um bom lugar pra se criar crianças, eu teria tido mais meninos mas a Georgine não é boa parideira.
_Vocês tem três filhos! Falei espantado.
_Eu queria uns oito meninos, adoro vê-los correndo pela plantação empinando pipas, me lembro de quando Simom, Tim e você eram pequenos aprontavam muito. Eu adorava aquela bagunça, ah sabia que Simon já tem um filho? Um garoto tem um ano de idade, esperto que só ele.
_ Assim que eu me organizar dou uma passada na fazenda de vocês pra conhece-lo. Falei.
_Apareça lá hoje a noite pra jantar com a gente, eu digo a Mary pra preparar uma torta de sobremesa.
_Imagina não precisa se incomodar.
_Eu vou indo embora, só vim aqui confirmar se Mary não tava me mentindo.
_Ela parece uma boa menina, devia confiar mais nela. Falei.
_O seguro morreu de velho John, reze pra Deus só te dar filhos homens, evita muita dor de cabeça. Esse ano ela termina o colégio e inventou que quer fazer faculdade, tá até tentando bolsas de estudo, eu já disse que ela até pode ir mas não com o meu dinheiro.
_Simon não se formou?
_Formou, em agronomia, tenho o diploma dele pendurado na minha sala, mas pra que Mary vai querer estudar? Só pra jogar dinheiro fora? Mulher tem que saber passar, cozinhar, cuidar dos filhos e da casa, sabendo escrever e fazer as contas do mercado já está bom demais pra elas. Apareça pro jantar. Até mais tarde.
Vi a caminhonete de Chandler se afastar pela estrada, fiquei pensando nas palavras dele, aquela realidade do campo parecia tao longínqua pra mim depois de ter passado tanto tempo na cidade, onde homens e mulheres competiam por igual e muitas vezes elas até levavam vantagem. Mas ali era assim nem se quer os pais queriam dar a chance as filhas de terem uma vida diferente.
Fale com o autor