Mensageiro do Futuro
4 IV
Notas iniciais
De noite, Victor voltou de sua cansativa investigação nas ruas. Quando entrou na casa, todos estavam reunidos na sala de estar, e a atenção deles se voltou para ele. Parou bruscamente, com os pés vacilando e um sentimento de insegurança, havia tantos olhares o encarando, ele não estava acostumado àquilo.
“Ouvi do Rael que estava investigando.” Frankenstein foi o primeiro a puxar conversa, com os braços cruzados e um olhar seco no rosto.
“Bem vindo de volta!” Tao tentou quebrar a tensão que havia se instalando naquele único minute que o garoto chegou e pôs o braço ao redor dos ombros do rapaz de cabelos castanhos, arrastando-o para o sofá “Chefe, ele deve estar exausto, não seja tão rígido com ele! Deixa ele descansar e respirar um pouco, certo?”
“Ele acabou de interromper o Frankenstein, não foi…?” M-21 comentou num tom baixo.
“Foi. Ele quer morrer.” Takeo completou o raciocínio do outro.
“Ele não estava ferido?” o Landegre fitou o garoto, cheio de desconfiança.
“Meus ferimentos devem ter se curado completamente… Eles não são um problema…” o novo residente respondeu timidamente, olhando para o chão.
Tao sentiu pena dele e tentou fazer a situação ficar mais confortável para o garoto que sempre acabava se sentindo pressionado pelos olhares intensos e recheados de dúvidas que sempre recaíam sobre ele. Por alguns segundos, a sala caiu num estranho silêncio, e quando Victor ergueu os olhos, Raizel o fitava, e ele não consegui determinar que pensamentos o Noblesse tinha. Ele era tão imparcial, desprovido de qualquer emoção inteligível que ele tenha visto.
Logo o vampire de cabelos negros voltou a beber seu chá, desinteressado nas implicações da situação.
“Eu farei um checkup no seu corpo para ver se está realmente tudo bem.” Frankenstein disse despreocupadamente.
“Ah, sei…” o rapaz respondeu sem dar muita atenção, então, pausou e quase pulou do assento “Espera! O que disse?!” os olhos dele se abriram.
“Eu vou fazer um checkup médico pra saber se seu corpo está mesmo bem.” Repetiu calmamente, sem entender a súbita mudança de comportamento do garoto.
“Algum problema com isso?” Takeo ergueu uma das sobrancelhas.
“Não-” ele tentava pensar numa resposta “Quero dizer, sim! Não preciso disso, meu corpo está perfeitamente saudável!”
“Oh!” Tao exclamou quando uma ideia iluminou sua mente “Garoto, será que está com medo do chefe fazer experimentos em você?”
“T-Tao…” os amigos dele estavam boquiabertos e temiam a reação do mestre da dark-spear, porque ele estava logo atrás deles.
“Quê-? Não! Não é isso!”
“Eu sei que ele faz o tipo cientista locou, mas ele não é esse tipo de pessoa!” Tao pôs uma mão no ombro do jovem.
“Eu não modificaria o corpo de ninguém sem autorização prévia, é claro.” Frankenstein surpreendeu ao responder ao tópico ridículo “Que tipo de impressão você tem sobre mim?”
“Estou tentando dizer que não é esse o problema…” uma gota de suor escorreu nervosamente pelo rosto dele.
“Então por que não quer que ele cheque suas condições? Ele está fazendo um favor. É inelegante recusar a generosidade de alguém.” Regis franziu o cenho.
“Bem…” o jovem de cabelos castanhos ponderou por alguns segundos e engoliu seco, sem saber a qual argumento recorreria.
“Nos pediu para confiar em você, mas não pode responder a uma pergunta tão simples?” Regis continuou com as palavras pressurizadas.
“Ahem” Victor pôs uma das mãos na boca “Eu vou responder… É porque eu não existo nesta época ainda, então ver o meu DNA também será uma quebra às regras de não envolvimento… Quero dizer, se ele deseja saber se meu corpo passou ou não por aprimoramentos, não posso permitir. Se ele quiser ser um cientista melhor, ele devia estudar mais ao invés ficar espiando o DNA alheio.”
Ele pronunciou a última sentença com palavras firmes, mas não ousou encarar Frankenstein nenhuma vez e ele nem precisava, embora todos estivessem olhando para o humano loiro, analisando os mínimos movimentos dos músculos do sorriso dele enquanto uma aura negra emanava e uma fúria fervente crescia dentro dele, fazendo seu sangue correr furioso nas veias.
“Ei, pirralho. Isso foi um insulto?”
“Meu Deus! Ele perdeu a cabeça!” todos os presentes na sala tiveram o mesmo pensamento, até Seira estava ansiosa para saber o desfecho daquele diálogo.
Tao se pôs em frente ao Victor, Takeo e M-21 fizeram o mesmo, com medo de que o chefe dele pudesse matar o garoto bem no meio da sala de estar.
“Frankenstein.” A voz de Raizel rompeu a tensão no momento certo “Seu poder…”
“Minhas mais sinceras desculpas, Mestre.” Ele restringiu os poderes imediatamente e se curvou “O caso foi apenas que… aquele pirralho…” ele olhou irritado para o garoto do futuro “parece que ele precisa de algumas lições para consertar esse comportamento insolente dele …”
O canto da boca de Victor se torceu num sorriso forçado, mas não era de felicidade ou satisfação, se parecia mais com o sorriso de alguém que tinha acabado de cometer o erro mais grave possível e assinado uma sentença de morte.
“Me desculpe. Eu sinto muito muito mesmo, mas você é muito esperto. Me perdoe, por favor, pode me repreender pelo meu comportamento o quanto quiser no futuro, só entenda que eu estou num dilema aqui…” ele pensou, sem pronunciar uma palavra sequer.
“Com licença.” Ele se curvou e saiu da sala, e sua alma quase saiu do corpo quando ele entrou no corredor e se apoiou nas paredes, arrependido das palavras impulsivas que havia dito.
Na sala de estar, o mestre da dark-spear ainda se lembrava dos insultos. Como poderia ele, um grande cientista se valer de métodos tão desprezíveis tais como enganar crianças para estudar o DNA delas ou fazer experimentos sem o consentimento delas? Ele sentia-se extremamente ofendido como cientista e como um Diretor de escola. Ele nunca quis machucar nenhum de seus estudantes; e nem iria começar a fazer isso agora.
“Ele pode ter dito aquelas palavras, mas não senti nenhum tipo de hostilidade vinda dele.” Seira, pela primeira vez, comentou algo relacionado ao garoto.
“S-Seira?” Rael a fitou nervoso “Por que está defendendo ele?”
“Ela está certa, Rael. Apesar das intenções dele não serem claras para nós…” o líder de clã de cabelos prateados reforçou a posição dela.
“Eu sei que ele nos auxiliou em batalha, ainda assim…”
Rael não conseguia engolir o papel de bom-moço que Victor fazia, mas antes que ele pudesse contestar os argumentos de Seira e Regis, uma voz familiar surgiu em meio à esquisita conversa:
“Ele me lembra Ashleen.”
Os comentários de Raizel sempre chamavam a atenção, porque ele dificilmente falava, e ele sempre dizia coisas interessantes quando abria a boca. Todos os ouvintes estavam admirados e ao mesmo tempo, confusos.
“Mestre… Ashleen não é a filha do Muzaka…? Aquela que ele teve com uma humana…?” Frankenstein perguntou, para se certificar de que ele não tinha ouvido mal.
“…” o mestre dele afirmou com a cabeça e foi o suficiente para ele completar o raciocínio.
“Está insinuando que Victor não é um humano modificado, mas um meio-humano como a Ashleen?”
“M-meio humano… Então a outra metade seria… U-um lobisomem?” M-21 estava .
“M-mas mesmo se ele for meio-humano e meio-lobisomem, isso ainda não explica o motivo dele ter os poderes da dark-spear…” Takeo estava complexado com aquilo.
Eles todos olharam para Raizel enquanto ele tomava o chá elegantemente, e colocou o copo na mesa, respondendo sem olhar para eles.
“Ele tem uma presença semelhante à de Ashleen, e ao mesmo tempo, sutilmente diferente…” ele prosseguiu com a sábia explicação “A mãe de Ashleen era uma humana comum, enquanto a presença dele se assimila mais a…” o olhar dele se moveu para o lado e pousou em Frankenstein.
“Hm? Mestre?” interrogações apareceram acima da cabeça de Frankenstein.
“…..” ele encarou o subordinado, com a face inexpressiva, quase analisando-o.
“Mestre…?” os lábios de Frankenstein se curvaram forçosamente, tentando formar um sorriso “Está sugerindo que eu…” ele não terminou a sentença.
“Ele puxou o seu temperamento.” Raizel concluiu, segurando seu copo de chá novamente, bebendo-o calmamente, desengajando-se do diálogo.
“O que foi isso?” Tao questionou confuso.
“Ele estava tentando implicar outro sentido naquelas palavras?” Regis ficou curioso.
“Q-quem sabe… Raizel-nim não deveria ser incomodado dessa forma… Aposto que ele quer que descubramos a verdade sozinhos!” Rael ficou maravilhado com o noblesse que sempre tinha conselhos e palavras construtivas para dar aqueles a seu redor.
Frankenstein sabia disso também, e começou a refletir seriamente sobre a situação, tentando entender quais pistas que ele pode ter perdido no meio do caminho. Quanto ao trio humano, Tao e Takeo estavam tão perplexos quanto os demais, mas ficaram preocupados ao verem o rosto de M-21. Ele estava zangado.
Cerrando os punhos, ele saiu apressado da sala, causando confusão nos outros. Tao e Takeo gesticularam para que os outros também os seguissem, ele iria agir imprudentemente de novo. Sem hesitação, M-21 avistou o rapaz na entrada do quarto onde estava hospedado, e agarrou a gola dele. Os olhos dele flamejaram em indignação.
“Vamos acabar com esses segredinhos que você vem escondendo de nós.” Franziu o cenho “Você é mesmo meio-humano e meio-lobisomem?!” ele quase gritou.
“M-21!” Takeo tocou no ombro dele, mas sua mão foi rebatida.
“Não tente me impedir! Esse garoto vai nos contar tudo!”
“Sei que provavelmente está ansioso para descobrir mais coisas sobre ele, mas fazer pressão ou bater nele não vai resolver nada, certo? Vamos nos acalmar…” Tao tentou aplacar a irritação do seu amigo, mas ele não escutava.
“Me responda!” ele apertou ainda mais a gola do garoto.
“… E se eu for?” Victor não quis fazer uma piada, o rosto dele estava completamente sério.
“Grrr… A União te criou? O que está fazendo aqui?! Por que inventou toda aquela história sobre o futuro?!”
Ele perguntava inúmeras questões, toda sua fúria estava concentrada nas palavras e nos punhos, Tao e Takeo estavam preocupados com a situação, eles sabiam como o M-21 devia estar se sentindo e que o garoto era a existência mais similar a ele já que ambos tinham uma parte humana, mas eles se preocupavam com o garoto também, ainda que não dissessem nenhuma palavra, como se estivessem esperando o M-21 descontar toda a raiva no garoto, a expressão dele estava aflita.
Então, o homem de cabelos cinzentos parou de interrogar e sacudiu o garoto de uma maneira brusca, exigindo a resposta para suas perguntas, o jovem finalmente falou:
“Eu sei que deve estar confuso agora, mas por favor, não me pergunte mais nada… Eu realmente-” ele parou, consternado “… Realmente queria dar as respostas que você espera, mas-”
“M-21…” a mão do Takeo chegou aos ombros dele desta vez.
Gradualmente M-21 largou a gola do garoto, e a ira dele foi se esvaindo enquanto observava a expressão entristecida no rosto de Victor.
“Me perdoe…” ele se curvou num ângulo obtuso “Eu sinto muito de verdade…”
“Não peça desculpas, por favor. Nosso amigo só perdeu a paciência…” Tao coçou a cabeça e sorriu para atenuar o clima tenso, mas o garoto não estava satisfeito com o final daquela situação, e respondeu:
“É verdade que somos parecidos, porque nós dois temos uma essência humana…” ele levantou a cabeça e a face dele expressava uma mistura de preocupação e determinação “Mas você foi o primeiro a despertar seus poderes verdadeiros mesmo tendo a ‘essência humana’ que os lobisomens tanto subestimam… Portanto, não há nada que eu saiba que seja mais valioso do que os esforços que você fez para lutar orgulhosamente com os poderes concedidos a você… Raizel-nim despertou seus poderes, e Frankenstein ajudou a estabilizar a condição do seu corpo, mas todo o resto sempre esteve em suas mãos… Se conseguiu chegar tão longe, não acho que terá problemas para encontrar as respostas que busca… Além disso, foi o senhor que me ensinou muitas coisas sobre meus poderes no futuro…”
“….” Ele abriu a boca para responder, mas fechou logo em seguida.
“Uau! O M-21 te ensinou?” Tao riu seco, mas a face dele tinha um tom sério na próxima sentença “Está bem informado sobre nossos passados… Sabia que ele era um lobisomem também?” ele estava um tanto incomodado com a quantidade de informações que Victor possuía.
“Sim, isso é porque meu pa-” ele parou de falar no meio da palavra e estremeceu, cobrindo a boca, encarando-os impacientemente “… me contou…”
“Seu o quê?” os olhos de Tao quase pularam fora.
“Quero dizer, conheço todos vocês no futuro… Por acaso alguém acabou me contando sobre todos vocês…” ele tentava parecer calmo, mas estava completamente desconcertado.
“Hein? Alguém? Quem?” Takeo ergue as sobrancelhas.
“De qualquer forma, estou muito cansado. Podemos terminar essa conversa amanhã? Ficaria feliz se me fizessem esse favor.”
Victor virou-se e entrou no quarto, se trancando, antes que eles pudessem fazer mais perguntas. Tao ainda estava inquieto, elaborando teorias. Ele queria ter certeza de que não tinha ouvido nada errado:
“Ele ia dizer mesmo ‘pai’, não ia?”
“Não sei, pode ser qualquer outra palavra…” Takeo tentou brecar a falta de noção do Tao antes que piorasse, mas foi inútil.
“Hehehe…” ele sorriu brincalhão e até M-21 o que iria acontecer agora que Tao estava começando a criar histórias sem noção de novo.
“Vou dormir.” M-21 disse deixando o local o mais rápido possível.
“Tao, se controle…” Takeo suou frio.
“Mas eu nem disse nada ainda!” ele reclamou “Mesmo assim, essa história sobre o pai está fazendo meus sentidos tinirem… O grande Tao vai descobrir a verdade!” exclamou animado.
“Isso não é um drama de detetives. Pare de sonhar acordado.” Takeo bronqueou.
“Corta essa! Sou um gênio, minhas teorias geralmente estão certas! A verdade espera para ser revelada!” ele riu escandalosamente, com as mãos na cintura.
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Na cidade na qual os altos edifícios tinham luzes que ofuscavam o brilho das estrelas. As pessoas caminhavam ocupadas, numa correria, sem sequer perceber este fato. Acima deles, no topo do prédio mais alto, três lobisomens estavam de pé, observando as peculiares e efêmeras existências abaixo.
“Esses humanos são mesmo engraçados… Eles mudaram tanto e ainda assim, posso sentir a ganância deles” Bertrand comentou com um sorriso.
“Pode admirá-los depois. Temos uma missão a cumprir, Bertrand.” Kentas franziu o cenho, lançando um olhar de perfil para o lobisomem de cabelos brancos.
“Ele está sendo bastante incisivo, isso é influência sua, Lunark?” fitou a mulher.
“Nosso Lorde foi perfeitamente claro sobre nossa missão aqui, Bertrand. Vamos procurer pelo Muzaka-nim. Se prepare, quando o encontramos, iremos lutar contra ele…”
O tom dela era sério e ela rapidamente deixou o topo do edifício, abandonando Kentas e Bertrand. Os dois trocaram um olhar violento.
“Eu particularmente não gosto de você.” O de pelos marrons declarou “Mas… já que se trata de uma ordem direta de nosso Lorde, vou lidar com isso. Porém, não pense que eu confio plenamente em você, sei que está aqui para nos vigiar, mas fique alerta porque eu também vou supervisionar suas ações…”
Após pronunciar isso com um olhar mortal, Kentas saiu, deixando Bertrand, que mantinha o sorriso cínico no rosto. Quando o outro sumiu de vista, o sorriso dele se alargou, impressionado pelo companheiro.
“Oho… Kentas e Lunark ficaram bem espertos… Deve ser por causa dos humanos da União com quem eles mantém contato… Pft…”
“Bem, isso não muda o fato de que vou vigiá-los e ver como lidam com Muzaka… será que eles são realmente leais ao nosso Lorde atual, ou será que etes sentimentos de respeito e ‘honra’ no qual acreditam irão ficar no caminho?” uma gargalhada sonora escapou dos lábios dele antes que ele seguisse os dois.
O tabuleiro de xadrez estava posto, e as peças estavam se movendo. Teria o futuro alguma relação com esta noite? Quem sabe, isso seria apenas o início de uma tempestade que eles nunca haviam visto antes.
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