Menos Solitária.
4 Como nunca tinha se sentido antes.
Assim que saiu pela porta do quarto em que morava, Emily sentiu uma onda de desespero. Ela não poderia ficar sozinha, não de novo. Não poderia ficar sozinha, não agora. Agora ela precisava de alguém para se apoiar, se alguém que não a deixasse cair. Andou milhas e milhas apenas pensando em tudo pelo o que tinha passado com Naomi, não só os momentos maravilhosos e repletos de alegria em ambas as partes, mas também nos momentos em que se magoou, deixou pra lá e perdoou Naomi. Mas não podia esquecer que ela não era essa santa. Ela tinha errado, sim. Muitas vezes. Isso estava claro para ela.
Quando já era noite e já estava no caminho de casa, avistou de longe Naomi, ao lado de um menino, "seria o tal menino?", ela pensou. Aproximou-se mais, tentando não ser vista e tentou acompanhar um pouco da conversa.
- Fique longe disso, tá? Fique longe disso. Eu não preciso de alguém como você na minha vida, eu estou bem assim. — dizia Naomi, determinada.
- Ficar longe eu fico, agora vamos ver se você vai ficar. Isso não é só problema meu, é seu também. Na real, o que eu to fazendo demais? To aqui, na boa, na minha, você veio me procurar, eu só pedi seu telefone e te liguei. Então pare de ser mimada e achar que o mundo gira em torno de você.
"Isso" pensou Emily, vendo que era aquilo que precisava dizer para Naomi, mas não se lembrava. "O mundo não gira em torno de você." Sem perceber, deu um pequeno sorriso.
- Tá.. — disse Naomi, sem jeito. — Então acabamos por aqui.
Ao ver Naomi se distanciando, foi chegando mais perto do menino, até ver que Naomi já estava longe o suficiente para notá-la. Cuidadosamente, sentou ao lado de Kurt.
- Oi? Quem é você? Parece uma tartaruga perdida. — disse ele, com um pouco de malícia.
- Emily, que você falou no telefone mais cedo.
- Ahhhh! Eaí, Emily? Parece que a sua menina não ficou feliz por eu ter ligado pra ela. Estranho, ela me deu o telefone, era de se esperar que eu ligasse. E você? Também não parecia feliz, o que tá fazendo aqui?
- Você não tem casa? — disse ela sem pensar, ao ver a situação da roupa de Kurt, e também pelo cheiro, uma mistura de cigarro, maconha, e algo que tenha álcool, que ela não reconhecia.
- Ter casa eu tenho, por quê? É de se esperar que eu tenha casa, já que eu tenho um celular, né. Esperta, você. Mas não passo muito por lá. — disse ele, acendendo um cigarro e o levando a boca.
- Por que não?
- Ah, sabe como é, o mundo é maravilhoso. Sou jovem e moro em uma das cidades mais lindas do mundo. Tenho que aproveitar e em casa eu não aproveito nada da vida.
- Então o que tá fazendo aqui sentado? Isso não parece ser "aproveitar a vida".
- Naomi me mandou um sms mandando encontrar ela aqui. E aqui estou eu. Mas já pretendo sair. E você? Já disse que parece meio perdida.
- Não to perdida, só sou nova na cidade.
- Então veio falar com a pessoa certa. Começa a sair comigo que em cinco semanas te mostro tudo disso aqui. Na verdade, se quiser, podemos começar agora mesmo.
Tudo o que Emily não queria era ter que ira pra casa e encontrar Naomi. Então pensou, "por que não?". Afinal, esse menino parecia ser legal. De início pensou que poderia ser um estuprador ou sei lá o que, mas já tirou a ideia da cabeça. Ela queria se divertir e ele parecia ser capaz de proporcionar certa diversão a ela. Se Naomi se importasse com isso, ela teria argumentos para usar, afinal ela tinha feito o mesmo com Emily.
Os dois andaram um pouco, enquanto descobriam coisas um sobre o outro. Ela viu que aquilo poderia ser melhor do que esperava. Ele a levou para conhecer o Big Bang, foram a Lodon Eye (aquela roda gigante enorme que ela nem sabia que tinha nome), o que a fez se divertir bastante, e ao Green Park.
Pegaram um taxi de volta ao local a onde tinham se encontrado pela primeira vez, e Emily decidiu ir pra casa.
- Como você sabe tudo isso? É incrível. — disse Emily, surpresa com todas as explicações que Kurt tinha sobre os lugares que tinham ido. Ele sabia cada história, de cada lugar.
- Experiência. Comecei cedo e não saio da rua mais. Só vou em casa pra dormir e as vezes pra tomar banho. — disse ele, rindo, e conseguindo uma risada que saiu fácil de Emily.
- Isso foi mais divertido que eu imaginava.
- É, e eu não acredito que você morava tão perto e nunca tinha se interessado em conhecer melhor essa cidade. Aqui existem coisas que surpreenderiam você três vezes.
- Então mal posso esperar para ser surpreendida — disse ela, rindo. — Então, ficamos assim. Já tenho seu número, te ligo depois.
- Tudo bem, vou esperar.
Até ali, Emily tinha se esquecido completamente da "coisa" com Naomi. Ao perceber isso, sentiu uma fisgada de culpa.
- Você não vai me perguntar... sobre a coisa com a Naomi? Quero dizer, você fez tudo isso comigo, e com ela também, e como fica?
- Você me falaria se quisesse falar. Não vou perguntar nada, afinal não sei quase nada sobre vocês duas. Você escolhe.
- Então vamos deixar assim. Você no seu canto e eu no meu. Mas se eu não ligar ou não atender sua ligação, você já sabe por que.
- Tudo bem, então. — disse Kurt, se virando e acenando para Emily enquanto se afastava.
No caminho para casa, Emily percebeu que havia tempo que não se divertia como hoje. Estava rezando para que, quando chegasse em casa, Naomi estivesse dormindo, para que essa felicidade pudesse durar mais um pouco. Cruel, ela sabia. Cruel pensar assim. Mas ela não tinha medo.
Assim que entrou em casa, Naomi estava acordada, fumando e lendo um livro. Pareceu não se importar com o sumiço de Emily, o que foi bom. Quer dizer, mais ou menos. Mas ela preferiu não pensar nisso.
- Ei, boo. O que temos pra hoje? — disse Naomi, com um tom animado, o que surpreendeu Emily.
- Hmmm, você escolhe.
- Então vem cá, toma essa garrafa porque essa noite seu corpo vai ser meu e o meu será seu. — disse ela, passando a Emily uma garrafa de vodka e puxando ela pra perto, já tirando sua blusa.
E então, Emily se sentiu feliz, completa. Ela não sabia o que esperar, e não queria pensar nisso agora. Agora ela iria terminar de aproveitar o dia e pensaria no que fazer amanhã.
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