Meninos Não Choram
1 One-shot
Ernesto levantou os olhos desfocados quando Jack o chamou, mas teve de piscar algumas vezes para que sua visão pudesse ficar mais clara ― estivera divagando por tempo demais.
― Como você está? ― Jack perguntou com as mãos ossudas enfiadas bem fundo nos bolsos do casaco militar que seu pai trouxera do Vietnã; não estava tão frio assim, entretanto, Ernesto sabia o quanto qualquer brisa o incomodava.
― Bem ― o mexicano respondeu.
Abrindo espaço para o amigo sentar à seu lado debaixo da árvore, questionou:
― Lembra aquela vez em que a cadela da sua vizinha apareceu morta?
Jack assentiu, duro como pedra.
― Todo mundo disse que fui eu. Até aquela vaca da mãe não acreditou em mim. Eu bem queria abrir a barriga daquele bicho estúpido, que não parava de latir a noite inteira...
― Você sempre disse. Ela não te deixava dormir, né?
Enquanto remexia na manga arrebentada de sua camisa rosa da Betty Boop ― nem sempre a igreja recebia doações suficientes de roupas masculinas, mas, para desgosto da "madre", Ernesto "não se importava" ―, ouviu a curiosidade na voz de Jack ao dizer:
― Por que está falando sobre isso agora? ― O mexicano encarou o melhor amigo. Os olhos deste, roxos como hematomas, reviraram o interior de sua alma no chão como alguém que revira um baú.
― Nesto, você a matou, não é? ― questionou calmamente.
― Me desculpe, Jack ― percebendo que, apesar do coração acelerado, não parecia estar prestes a chorar, o mexicano recostou a bochecha no ombro do amigo, sentindo o acrômio dele lhe espetar a bochecha. ― Me desculpe, de verdade: acho que amo você.
― Tipo aquela música do Aerosmith?
― É.
Jack passou o braço em torno de seu pescoço gentilmente. Devagar, começou a assobiar "Crazy" daquele jeito afinado que deixava Ernesto feliz e o fazia mergulhar nas lembranças.
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A escola não era nada impressionante, só mais um lugar que o governo criara para jogar os miseráveis, desajustados, negros, porto-riquenhos e derivados. Ainda assim, Ernesto não conseguia se sentir confortável enquanto o professor de história americana, um homem desagradavelmente cinza e alto chamado Sr. Storm, o obrigava a ficar de pé na frente da turma do 5o ano com os outros dois alunos novos.
― Digam seus nomes! ― ele ordenou.
Para o mexicano, ele só precisava de um chicote para assumir o papel de feitor do período escravocrata.
― M-meu n-no-me... ― começou o garoto à sua esquerda, um filho de imigrantes japoneses que nem sequer conseguia esconder as manchas de suor embaixo dos braços.
― Muito bem, senhor Law ― Storm cortou, impaciente, mandando-o para uma carteira no final da sala. ― Tenho certeza que o senhor será um ótimo orador. Próximo!
Ernesto achou (em seus pensamentos) que se sairia melhor que Law, mas se viu emudecido diante dos olhos cinzentos do professor; apesar dos lábios se moverem, nenhum som era emitido.
― Você é mudo, rapaz? ― Storm indagou com um olhar venenoso. Diante do balançar de cabeça do mexicano, soltou um suspiro irritado e prosseguiu: ― Mais um "chicano" retardado, que maravilha! Sente na última cadeira do canto direito, perto da janela. Isso, onde eu não possa ver sua cara feia e escura.
Se controlando para não chorar, como havia prometido para a "madre" que faria, Ernesto se moveu, ignorando as risadinhas dadas por seus novos "colegas" ao avistarem sua mochila da Hello Kitty.
― Muito bem ― havia chegado a vez do último, um garoto de olhos violeta, cabelo comprido e camiseta do Black Sabbath. ― E qual seria o seu nome, cabeludo? "Axl Rose"? ― Storm debochou.
Depois de estourar uma imensa bola de chiclete nos lábios finos, o garoto falou, tão gelado que Ernesto não duvidou que todos na sala tivessem se encolhido como baratas, inclusive o professor:
― O nome é "Ozzy Osbourne", babaca ― e ergueu um ossudo dedo do meio para Storm, se dirigindo à cadeira ao lado da de Ernesto antes que o homem pudesse se recuperar do choque.
O mexicano achou que ele fosse explodir de ódio, pois sua cara achatada e cinzenta se transformara numa massa de carne vermelha e enrugada, mas ele apenas mandou que os alunos abrissem o livro na página 14, onde falariam sobre a Declaração de Independência.
Todos o obedeceram, em silêncio exceto o garoto ao lado de Ernesto, que nem sequer trouxera mochila. Nervoso demais para conseguir prestar atenção na leitura de um texto realizada por Storm, acabou por se voltar para o menino de olhos violeta, que não demorou para encará-lo de volta através de seus espessos cabelos negros.
― Quer? ― o garoto disse estendendo um pacote de chicletes na sua direção. Automaticamente, Ernesto se viu mascando o doce com sabor de morango. Tinha um gosto forte e a consciência de ter um monte de açúcar sendo esmagado na boca o deixou contente.
― Meu nome é Ernesto ― sussurrou.
O menino de olhos violeta abriu um sorriso grande, quase tão "faminto" quanto o de um gato, exibindo dois caninos superiores de ouro.
― "Nesto". Gostei!
― E você?
O sorriso apontou para a embalagem do chiclete amassada em seu punho moreno. Ao abri-la, pôde ler, em letras garrafais: JACKAL.
― Vou te chamar de "Jack" ― ele comentou sorrindo, antes que o Sr. Storm batesse com a régua de madeira no tampo de sua carteira, assustando-o.
― Dois espertinhos conversando durante a aula, certo? ― falou, sem deixar de esconder certo prazer no semblante. ― Para a sala da diretora, agora mesmo!
Naquele dia, durante o castigo, Ernesto e Jack se tornaram melhores amigos.
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― Você não tem nojo de mim?
― Não.
― Você entendeu o que eu disse, Jack?
― "Eu te amo". Qual a dificuldade em entender isso?
Afastando o rosto de Ernesto de seu ombro, Jack o segurou pela nuca. Seus dedos estavam gelados e o mexicano reparou pela primeira vez como seu nariz afilado era ligeiramente torto, mas ainda assim bonito; ele roçou um pouco em sua bochecha escura antes que seus lábios se unissem.
Ernesto tremeu e afundou os dedos no cabelo de Jack. A boca dele tinha gosto de morango artificial e sangue, entretanto, não importava: era o último "primeiro beijo" de ambos.
Tinham 11 anos naquele dia e nunca esqueceriam.
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― Aquele cara é um imbecil! ― Jack dizia enquanto preparava pipoca na panela.
Aquela noite haveria uma maratona com os três filmes do "Sexta-Feira 13" e, apesar de não gostar muito de histórias de terror, Ernesto pedira à mãe para dormir na casa do amigo. Jack, animado com sua presença, não escondia como aquilo o deixava excitado.
― Ele é do mal ― o mexicano concordou de forma infantil. ― Ouvi dizer que para passar de ano com ele você precisa pagar um boquete, senão ele te deixa reprovado.
― Se eu tiver de fazer isso, prefiro arrancar o pau dele com os dentes ― o garoto pálido exibiu os mesmos como um cão selvagem, deixando os caninos dourados brilharem ao fazê-lo.
Quando o milho começou a estourar dentro da panela, Ernesto soltou uma exclamação aguda de surpresa que fez Jack rir.
― Tem vezes que você parece uma garota, sabia?
Envergonhado, o mexicano cruzou os braços para esconder a estampa floral de sua camiseta. Naquelas horas, detestava a si mesmo por não ser como os outros garotos, não, mais, se detestava por não ser como Jack, sempre tão corajoso, engraçado e legal. Tudo o que mais queria em momentos como aquele era não gostar de pendurar pôsteres do Backstreet Boys na parede e sonhar em se casar com o...
― Ei, Nesto?
― O que foi, Jack?
Ele se sentou ao seu lado no sofá manchado, o balde de pipoca fumegando nas mãos.
― Você...
Ernesto nunca descobriu o que o amigo ia dizer.
A mãe de Jack abriu a porta da frente com um estrondo alto e entrou se arrastando na sala. O fedor de álcool se impregnara nela como o fedor da morte se impregna num paciente em estado terminal e Ernesto descobriu ser incapaz de encará-la por muito tempo sua aparência era lastimável demais.
― Mãe? ― Jack passou a pipoca para o aparador e se levantou, caminhando na direção dela ― A senhora 'tá bem, mãe?
Os olhos da mulher, azuis como gelo e rodeados de remela, se arregalaram para ele. Os dentes haviam apodrecido e os cabelos, brancos, estavam desgrenhados e sujos de vômito.
― Mãe? ― no momento em que Jack a tocou no braço, ela emitiu um guincho inumano e o atingiu no rosto com uma garrafa de vodca que trazia em baixo do braço.
O garoto caiu com um baque surdo e sua mãe se arrastou para o corredor, se trancando no quarto sem sequer olhar duas vezes para Ernesto encolhido no sofá. Este, passado o choque, pulou do móvel e se agachou perto do melhor amigo caído.
Observou, quase sem respirar, que as mãos dele estavam completamente sujas de um líquido gosmento e rubro que fez seu estômago revirar.
― Meu Deus, Jack... ― ele o encarou, o nariz transformado numa torneira de sangue; a bochecha, coberta por um hematoma preto, inchando sem parar. ― Jack...
― E-ela... ― o garoto de olhos violeta balbuciou, estupidamente, se pondo de joelhos. Ermesto o pegou quando ele ameaçou desabar novamente.
― E-ela... a porta... aberta frio, Nesto ― o sangue dele manchou completamente as margaridas sorridentes da blusa do mexicano. Assim que chegasse em casa, este embeberia o tecido em álcool e o queimaria, afogado em lágrimas, pensando o quanto o mundo era cruel.
― É, Jack ― sussurrou por hora, se obrigando a tocar o horrível hematoma, afagando-o ― Está mesmo muito frio aqui dentro. Muito frio...
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Seus lábios se afastaram com um estalo molhado e Ernesto escondeu o rosto no peito magro do garoto de olhos violeta.
― Jack? ― chamou, incerto.
― Fala.
― Lembra da matinê do "Sexta-Ferira 13"?
Com os dedos enrolando cachos de seu cabelo escuro, o garoto grunhiu um breve "sim".
― O que você ia dizer pra mim aquela hora que a sua mãe chegou?
A pausa entre a pergunta e a resposta foi tempo suficiente para que o mexicano tivesse dúvidas se ele responderia ou não. Até que, por fim, Jack falou:
― Eu ia dizer que flores combinam com você.
― Você acha?
― Acho. ― e, mais baixo, acrescentou: ― Coisas bonitas sempre se combinam.
O mexicano mal teve tempo de se sentir envergonhado (e contente) pelo elogio; uma voz conhecida os pegou no flagrante.
― Ernesto? Jackal? O que estão fazendo aqui essa hora?
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― Por favor, Jack, não o mate! ― Ernesto exclamou, desesperado.
Parado diante de si, o garoto de olhos violeta apoiava no ombro a .12 que seu pai deixara depois de sair de casa; embaixo de sua bota, a cabeça de um cão vira-lata ganindo e tentando se libertar.
― Ele mordeu você, Nesto! ― Jack retrucou, destravando a espingarda. Para o mexicano, foi como se os lamentos do animal se tornassem um verdadeiro choro Se não for punido, nunca vai aprender.
― Não, Jack! Pelo amor de Deus, por favor!
― Não vou matá-lo ― disse serenamente, mudando a direção do cano da arma com um movimento tão suave quanto o de um fuzileiro. Seus olhos estavam bem abertos, atentos. ― Só vou fazer com que nunca mais esqueça. Nunca.
E, com apenas um tiro, arrancou metade da cauda do cachorro. Sincronizadamente, Ernesto gritou junto com o animal.
― JACK!
― Ele mereceu! Olhe para ele, Ernesto! OLHE!
Os olhos pretos do cão giravam cegamente nas órbitas, embaçados pela dor e inquietos pelo cheiro de sangue fresco captado pelo focinho. Uma imagem digna de pena para Ernesto, mas não para Jack. Nunca para Jack.
― No mundo, existem cães em todos os lugares. Se você deixar, eles te matam e se alimentam da sua carne ― Jack falou tirando o pé da cabeça do cão, deixando-o correr desesperadamente, sendo seguido por uma trilha de sangue. ― Meu pai me ensinou que...
― SEU PAI AGORA ESTÁ TREPANDO COM UMA VAGABUNDA DEPOIS DE LARGAR VOCÊ E SUA MÃE BÊBADA NA MERDA! VOCÊ É TÃO HORRÍVEL QUANTO ELE, EU TE ODEIO, JACK! TE ODEIO!
Jack o empurrou para o chão com tanta força que Ernesto perdeu o ar quando suas costas bateram na calçada. Não demorou muito, o melhor amigo estava em cima de si, com a .12 apontada para sua cabeça, da mesma forma que ficara apontada para o cão.
― Se controla, Nesto ― Jack disse, o que pareceu irônico, visto que era ele quem estava armado e pronto pra sentar o dedo no gatilho ― Se controla, caras que não se controlam morrem como os cães: a cabeça esmagada e o cu cheio de sangue. É assim que você quer morrer?
Devagar e com lágrimas descendo pelas bochechas, o menino negou. "Jackal Chacal", brincavam na escola, se referindo à forma como ele andava; um ombro subindo, outro descendo, o pescoço para a frente e o cabelo comprido formando uma cortina negra em torno do rosto.
E os olhos de predador. Claro, nunca poderiam esquecer daqueles olhos de hematoma analisando e calculando o momento certo de dar o bote... O momento certo de esmagar uma cabeça com a pata furiosa. Olhando agora, Ernesto se perguntou se seu nome por acaso não estaria incluído na lista de "possíveis presas".
― Legal. Então, nunca mais, nunca mesmo, fale assim de novo do meu pai. ele disse, parecendo aliviado.
― Desculpa, Jack...
― Tudo bem agora, Nesto. Você é meu melhor amigo, não vou te machucar. ― ele abaixou a arma e estendeu a mão livre para o mexicano, ajudando-o a se colocar de pé. ― E vê se para de chorar: meninos não choram.
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A mãe de Ernesto cruzou os braços enquanto esperava uma resposta. Lentamente, Jack afastou o mexicano de si e levantou, dando um sorriso que fracassou em sua tentativa de parecer agradável.
― Como vai, senhora Sanchez? ― indagou.
A mulher, entretanto, ignorou a ele e sua falsa gentileza.
― Vocês deviam estar na escola ― ela insistiu, os olhos se estreitando ― O que estão fazendo aqui? Mataram aula? Por quê?
― Mãe, você precisa confiar em mim ― Ernesto se aproximou dela e pegou suas mãos com gentileza ― Por favor, mamãe...
― Vocês fizeram alguma coisa, não fizeram? "Díos mio"! ― ela se voltou para Jack com uma cólera tão pulsante nos olhos que poderia tê-lo feito se incendiar caso fosse uma piromaníaca; por algum motivo que Nesto não conseguia compreender, os adultos no geral pareciam não gostar muito do garoto de olhos violeta. ― O que você fez com meu filho, seu branco "hijo de puta"?! O QUE VOCÊ FEZ?!
Ela o agarrou pelo pescoço de forma tão violenta e repentina que Jack, o único que conseguia se desviar de todas as bolas no jogo de queimado durante as aulas de educação física, não pôde se esquivar. Ia sufocá-lo até seus olhos rolarem pelas órbitas e a língua pular para fora como um pequeno peixe rosado.
Ia matá-lo.
Ernesto não conseguiria assistir a isso em silêncio, por isso a atingiu com o taco de beisebol esquecido encostado no tronco da árvore em que ele e o amigo estavam sentados até alguns segundos atrás. Ela era sua madre, verdade, Ernesto a amava muito...
Mas não o suficiente.
― Jack?... ― O sangue descia num filete fino pelo pescoço da madre vinda da parte meio afundada de seu crânio onde o taco a acertara. Metade do rosto dela mergulhava na terra batida, mas a outra metade apontava para o céu com um olho que os observava acusadoramente.
― Fala, Nesto.
― Vamos ter de matá-la também, não é?
Jack e seus olhos violeta eram gentis, porém, as palavras, duras, o quebraram:
― Sim, Nesto.
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Ela estava descontrolada.
Sua boca espumava e a cabeça se movia como a de um animal selvagem. No rosto, Jack carregava a marca de dedos enlouquecidos na forma de finos sulcos sangrentos. Nas mãos, o taco de beisebol roubado do professor de educação física. Ernesto, encolhido contra a parede, apenas observava o impasse final entre Jack e sua mãe bêbada agora, provavelmente, sob efeito de crack.
― Nesto, vai buscar ajuda! ― o garoto de olhos violeta gritou, brandindo o taco como se fosse uma espada.
A mãe dele grunhiu como uma besta, saliva e muco escorrendo pelo queixo. O fedor da urina envolveu o ambiente quando ela mijou nas calças.
― Jack! ― o mexicano, incapaz de se mover, sentiu as lágrimas vindo aos olhos enquanto a criatura que um dia fora a mãe de Jack pulava em cima do mesmo.
A única coisa que separava os dentes dela da garganta dele era o pedaço de madeira prestes quebrar como um lápis podre.
― VAI BUSCAR AJUDA, PORRA! ― Jack rugiu, chutando o estômago da mãe.
Tudo aconteceu rápido demais para o mexicano: mais tarde ele não se lembraria como, mas conseguira entender que ninguém viria ajudá-los. Ninguém gostava do estranho Jackal Hayley e sua mãe bêbada; ninguém se importava. Seus passos o guiaram para a cozinha e quando percebeu havia subido no banco perto do armário e sacado a maldita .12, aquela que Jack havia apontado para seu rosto menos de duas semanas atrás.
Correu de volta para a sala, ofegante, e assim que Jack o viu mais especificamente viu o que trazia nas mãos , gritou:
― Atira! ― ainda chutava o estômago da mulher-fera. ― Atira, Nesto! ATIRA!
Ernesto atirou.
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A mãe de Ernesto acordou ao sentir o frio morto do metal da .12 encostado no meio da testa. Fora amarrada na cadeira da cozinha ("Como naquela música do Leonard Cohen", o mexicano pensou) e amordaçada.
Quando percebeu o que se passava, começou a emitir ruídos desesperados, lançando a Ernesto um olhar de súplica que não foi atendido. Porque ele a amava, mas não o suficiente.
Jack destravou a espingarda e lhe lançou um olhar que pedia sua permissão.
A madre começou a chorar.
― Tudo bem ― o mexicano assentiu.
― Você não vai se despedir?
Surpreso, Ernesto percebeu que passara a sobrepôr o rosto do cão em que Jack atirara ao rosto agonizante da madre. O nojo o invadiu e eliminou qualquer compaixão ou culpa que pudesse estar sentindo.
"Morrendo como uma cadela", disse uma voz em sua cabeça e outra lhe lembrou de todas as vezes que a madre trouxera homens maus para casa, quando ainda moravam no México. Homens maus que faziam coisas más e que haviam deixado-o "daquele jeito", enquanto ela dormia despreocupadamente.
― Não ― respondeu, afinal, frio como gelo. ― Ela merece. Atira, Jack.
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A cabeça da mãe de Jack havia explodido como uma bexiga de festa quando a bala a atravessou. Sangue, ossos e miolos se espalharam pelo cômodo e, principalmente, pelo rosto de Jack. Este empurrou o cadáver de cima de si com nojo, cuspindo lascas do crânio despedaçado da mãe. Ernesto jogou a espingarda no chão e ficou observando-o limpar a cara com a barra da camisa, exibindo o abdome cheio de marcas.
― O que vamos fazer agora, Jack? ― com passos hesitantes, foi se aproximando.
―Vamos ficar juntos, Nesto. Melhores amigos nunca deixam um ao outro, certo?
O mexicano se ajoelhou ao lado do garoto de olhos violeta. Suas mãos haviam parado de tremer; o coração, pouco a pouco se acalmava. Sem temor, tirou um pedaço de carme do cabelo negro de Jack.
― Melhores amigos nunca deixam um ao outro. ― assentiu.
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― Somos pessoas más, não somos, Jack?
O garoto de olhos violeta prendeu a corrente da bicicleta na cintura como um cinto enquanto subia na mesma. Com sua ajuda, Ernesto sentou no espaço entre os guidões dela.
― Isso te incomoda?
O dia em que matara a cadela da vizinha de Jack lhe veio à cabeça novamente. Ela estava deitada, possivelmente dormindo. Era uma poodle minúscula de pelo amarelado e lacinhos nas orelhas gigantescas em comparação ao crânio.
Os meninos haviam combinado de se encontrarem para ir ao fliperama, mas Jack desmarcara, dizendo que a mãe tinha desmaiado na porta de casa e ficaria para cuidar dela porque, ao contrário do que se esperava, ele fora um bom filho até o fim.
Parado diante da poodle, Ernesto sentia a ponta da caneta Bic no bolso da calça espetar seu indicador. Ao trazê-la para a frente do rosto, veria que uma gota de sangue escorrera por ela, entretanto, não importava.
Ele amava Jack. Era uma coisa doentia de se pensar, principalmente depois de ter sido ameaçado por ele com uma espingarda, na verdade, parecia o roteiro de uma vítima com Síndrome de Estolcomo, mas era a única explicação lógica para a forma como se sentia toda vez que seus olhos se encontravam ou quando via o corpo ligeiramente definido dele na ducha que vinha depois da educação física.
Sim, ele amava Jack e aquela maldita cadela precisava ser educada. Não pretendia matá-la. Não, definitivamente, não estava nos planos matar, apenas educar... Só que seu braço havia gostado da sensação da carne se abrindo, do sangue quente esguichando no punho de seu suéter rosa, não é mesmo?
É: ser uma pessoa má, com certeza, não o incomodava.
― Nesto? ― a noite já estava se aproximando, lânguida como a lua crescente sorrindo no céu alaranjado.
― Você acha que vamos para o Inferno, Jack?
― Lembra do Jack Ruby? O cara que matou o cara que matou o Kennedy? Acho que o único lugar em que ele foi parar depois da cadeia foi naquela música idiota...
― O Aerosmith podia fazer uma música sobre a gente ― o mexicano retrucou, pensativamente, enquanto o vento acariciava seus cabelos encaracolados.
― Acho que depois do Pearl Jam ter feito isso, seria meio clichê, sei lá. Eu não me importaria desde que ela não fosse ridícula como a do Ruby...
― Jack, você é um idiota.
― A seu dispor, senhor.
Pela primeira vez no dia, Ernesto sentiu vontade de rir e foi o que fez, trazendo um sorriso aos lábios de Jack.
Ao passarem em frente uma venda de garagem, Jack sacou um dólar meio rasgado do bolso e arrematou um rádio de pilha vermelho. Com outro dólar, conseguiu que o negro barbudo cuidando da venda lhe desse uma fita do Aerosmith.
Segurando-o nas mãos, Ernesto meditou sobre como o rádio parecia novo, praticamente recém-tirado da caixa.
― O filho dele morreu ― Jack comentou, lendo seus pensamentos ― O velho está vendendo tudo o que era dele. A mulher pirou, não sai do quarto há dias.
― Como você sabe?
― Saiu no jornal. Foi um policial. Pensavam que o garoto fosse do tráfico.
― Nunca punem os verdadeiros culpados. ― Ernesto sussurrou, sombrio.
― E essa, meu doce chico ― o garoto de olhos violeta não parecia sorrir agora ― é nossa única sorte.
Durante um longo tempo ficaram em silêncio, até Ernesto ligar o rádio. Com um clique, inseriu a fita e a rebobinou. Passados alguns segundos, deixou-a rodar.
Steven Tyler entoou, então, a música "Crazy".
― Em quanto tempo acha que eles vão começar a vir atrás da gente? ― Ernesto questionou com o rádio no colo.
Quase na mesma hora, um carro da polícia surgiu de uma esquina pela qual haviam passado. A sirene foi ligada e a velocidade dele aumentou. Jack passou a pedalar com mais vontade também.
― Não muito tempo ― ele admitiu ― Você trouxe a faca?
― Trouxe. ― o mexicano a tocou escondida por baixo da camisa, sentindo a lâmina roçar em seu estômago.
― Então, vamos nos divertir muito, baby! ― Jack anunciou com seu típico sorriso faminto.
Ele sacou a espingarda da mochila e a destravou com uma mão só; aquilo foi o suficiente para que Ernesto tivesse certeza que o amava e o seguiria até o Inferno se fosse preciso.
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