Menino do Céu!
5 Capítulo 5 - MICHAEL
Assim que Margarida entrou no elevador, um vizinho saiu com seu filho, de aparentemente oito anos, que levava uma bola de basquete, todo animado, para jogar com o "papai" como dizia o menino. Bruno evitou ficar assistindo aquela cena, o coração dele sempre sentia uma pontada involuntária na qual ele ignorava. Até queria um pai, mas tudo que ele via na sala-de-estar de casa eram garrafas, blusas, louças, resíduos de Ramon. Revirou os olhos, mas ele não queria dar atenção à dor. Por sorte, o celular no bolso notificou o grupo de seus amigos e o tirou da beira do precipício de seus pensamentos.
Gael
fut às 08h30 e estamos
todos atrasados 07:50
Pedro
bora bora bora cambaaaada 07:50
Acooooooordeeeeem, se não VOU
SAIR LIGANDO P GERAAAL 07:50
Bruno
Credo, Deus me livre 07:50
Eu já acordei n precisa ligar 07:51
Bruno era um garoto pobre, não a ponto de morar na rua, mas pobre, por isso, obtinha pouca roupa. No aniversário dele do ano anterior, pediu à mãe que lhe desse um uniforme de futebol e uma chuteira. Amou ainda mais sua mãe quando ganhou um uniforme azul simples e uma chuteira original verde-neon, cor de sua preferência. Ele sempre deixava o look guardado em um cantinho especial da segunda gaveta marrom. Tomando um banho— ou um banho do gato que ele é, como ele se descreveria —, se vestiu conforme o frio que estava fazendo, uma blusa preta de mangas compridas por baixo da blusa serviu bem. Sem esquecer a chave da casa, saiu em direção ao elevador do seu andar, checando mais mensagens que chegavam em seu celular.
Gael
ei Brunão, n sai de casa n 08:25
tô passando aí pra te buscar 08:25
Bruno
Ok 08:30
O garoto do uniforme azul esperou pouco tempo no térreo do prédio em que morava, porque Gael morava perto. Seguiram para casa de Pedro, na cidade praticamente vizinha, e o marombado teimou que fossem para o Parque Ecológico, mesmo sendo só para jogar bola. Mesmo não vendo muito sentido nisso, Gael e Bruno acabaram concordando. Lá encontraram uma quadra e não foi difícil montar time, pois alguns caras estavam procurando mais pessoas para fechar um jogo e começaram a jogar, despreocupados, como bons garotos.
Pedro era o mais alto e corpulento deles, tinha mais força no gol, Gael fazia o volante do time, tendo como função marcar o atacante adversário e Bruno estava de atacante, mesmo que não fosse bom em marcar gols, gostava dessa posição para aprimorá-la. E, então, a sensação que Bruno mais amava: ouvir o bater de bola nas chuteiras ao redor, a correria, os gritos, os palavrões, o sol fritando os olhos, a testa suando, o exercitar das pernas, bola no peito, coração acelerado e gols — ou quase gols.
O primeiro tempo estava terminando, Gael tinha dado algumas vaciladas e não estava conseguindo marcar direito o atacante deles, sorte que Pedro era bom como goleiro, não havia deixado passar nenhuma até agora, mas o time adversário tinha mais finalizações até então, o que era bem ruim, os deixava com mais vantagem, mesmo com o placar zerado. Estavam quase chegando aos quinze minutos. E Bruno simplesmente entendia como os jogadores conseguem jogar por tantos minutos, correndo atrás da bola sem parar, porque em campo ele perdia a noção do tempo, quinze minutos pareciam cinco. Apenas depois de parar a correria, sentir o cansaço e o suor pesando no corpo é que dá para perceber que a partida acabou.
Quando começaram o segundo tempo, a bola insistentemente parou no pé de Bruno, era a chance dele de levá-la até o gol, porém bastantes zagueiros adversários o cercavam, ele teria que fazer uma jogada estratégica. Ficou poucos segundos tentando raciocinar. Até que...
— Vai logo, porra! —Gael o apressou, tirando o foco dele.
Talvez por ter sido apressado, chutou a bola no impulso e perdeu-a, indo atrás do prejuízo, recuperou a posse, mas o volante do time adversário tentou tirá-la dele, o que teria sido melhor do que ter sentindo algo como uma marretada na perna, fazendo Bruno tremular e cair.
— Ai, caralho! — Resmungou, olhando para a perna como primeira reação e depois para bola correndo sozinha, um dos caras do time adversário aparou-a e ia continuar jogando até percebê-lo caído.
Os jogadores foram todos para cima dele e o cara que causou o incidente não saiu de perto nem um segundo, apesar de só ter começado a ouvir a voz dele quando o zunido no ouvido estava sumindo. As coisas pararam de girar rápido ao seu redor e ele estava estagnado, abaixando a meia e olhando para a própria panturrilha, caçando por sinais de lesão. Embora não fosse visível, ele sentia uma tremenda dor.
— Desculpa, cara. Desculpa, foi sem querer — implorava o homem, com urgência, estendendo a mão para Bruno.
Bruno deu a mão ao homem e fez força para levantar, mas não conseguia impor nenhum impulso na perna que não doesse imensamente, não conseguiu se pôr de pé na primeira tentativa.
— Porra, você tinha o que na ponta dessa chuteira? — provocou, ainda sentado no gramado. Olhou para a chuteira dele e lá estava o calçado esportivo mais lindo que ele já vira, preto com vermelho, sem nenhum traço de agressividade.
— Foi erro meu, quer que eu te leve no hospital? Eu pago sua consulta — ofereceu.
Bruno olhou para cima, analisou o semblante do rapaz, um rosto quadrado, com barba, bochechas nem finas e nem muito gordas, olhos escuros e concentrados nele, exasperavam preocupação. Ele, provavelmente, tinha uns trinta anos de idade, vestia uma camiseta branca simples e uma bermuda jeans relativamente folgada.
— Não, valeu. Tá de boa. Só me ajuda a ir ali para o canto da quadra e vocês continuam jogando. Daí eu vejo se o machucado piora ou não — pediu Bruno, sentindo a perna formigar.
Ele não entendia nada de machucados, sempre ralou joelho, ficou com alguma parte do corpo roxa, mas nunca tinha levado um golpe tão grande desses. Foi uma lesão interna e muscular, era a única coisa que ele tinha certeza. A meia não protegia nada, porque ele não tinha caneleira. E, apoiando-se no ombro do homem, andou batendo apenas o pé esquerdo no chão. No caminho, o desconhecido pegou uma mochila que supostamente o pertencia.
Quando chegaram no canto da quadra e enquanto o moço procurava algo na mochila, Bruno perguntou o nome dele, ele respondeu com um sorriso:
— É Michael, mas não é Jackson. — Bruno soltou uma leve risada com a resposta.
Bruno se ajeitou bem no cantinho da quadra e apoiou a mochila de Pedro na tela de arame azul e encostou-se na mochila. Até o chão era pintado de azul, diferente do campo verde da área usada para jogar.
— Se você sentir uma dor maior, eu vou te levar ao hospital, não é para recusar. Foi responsabilidade minha — advertiu, jogando, de repente, um spray no local da lesão. Ardeu um pouco e tinha cheiro de menta.
— Tá bom. Por curiosidade, você tem quantos anos? — perguntou.
— Quarenta e dois — sorriu leve com a testa franzida pelo sol, que já raiava cedo e Bruno ficou surpreso. — Fica com o meu gelol e vai passando quando achar necessidade.
— Valeu — pegou o gelol e borrifou mais na região que parecia estar inchada agora. — E qual a receita para chegar aos quarenta anos aparentando dez anos mais novo?
— Me alimento bem e pratico exercícios... — Agachou perto de Bruno para facilitar a comunicação. — Gosto muito disso. Sou formado em Educação Física, não tenho tempo ruim para esportes, treinos... — partilhou, examinando o machucado. — Parece ter sido uma lesão dentro do normal, nada grave. Mas é bom ficar de olho nessas vinte e quatro horas, o corpo humano é imprevisível. Ainda mais quando se trata de lesão muscular... — explicou.
— Tranquilo.
— Beleza, vou voltar para o jogo. É Bruno, né? — perguntou e ele assentiu. — Qualquer coisa avisa, Bruno — disse, jogando a mochila ao lado dele e saindo.
— Você está bem, cara? — Pedro chegou aos mesmos passos que Michael saiu.
— Estou. Só vou ficar de olho aqui — falou, na mesma hora que Gael acompanhou Pedro. — Gael, para que você foi me pressionar a ir logo? Não calculei direito a rota.
— O quê? Sobre quando você se machucou? — Franziu a testa, tentando se achar no assunto. — Está falando que é minha culpa, mano? Não é culpa minha não, sai fora — reclamou e Bruno acabou rindo.
— Tá bom, vão lá jogar. Vou ver se melhoro aqui — finalizou.
— Vou dar um tempo também — informou Pedro. — Pede pra um deles ser goleiro no nosso time. Estou cansado, levei altas boladas e vou ficar aqui fazendo companhia para o Bruno — completou.
— Falou — assentiu Gael.
Pedro não tentou forçar assunto e Bruno entrou em um estado reflexivo, voltando a pensar em Michael. Quarenta e dois anos, quase a idade de seu pai, que, nos cálculos dele, é para ter quarenta anos hoje. Os cuidados que ele teve eram estranhos, pois Bruno nunca havia tido uma atenção no âmbito paterno. Ficava imaginando como o pai agiria se estivesse presente. Mas quando Bruno bateu à porta, o pai tinha 20 anos e era simplesmente muito imaturo para assumir essa responsabilidade.
Assim Bruno pensava por toda sua vida. Perguntava-se se um dia isso mudaria, se ele conheceria o pai... A mãe sempre falava que ele não pode ter ficado, que Mattia teve que ir embora e que ela não queria julgar os motivos dele sem saber. Bruno apenas sabia que fora imaturidade, mas por que ele nunca voltou? Na vida adulta é difícil não ver maldade nas atitudes das pessoas como a inocente criança que acredita que quando crescer as coisas vão mudar. Bem, mudam. Mas nem tudo muda. O rosto do pai de Bruno, por exemplo, nunca mudou. Sempre fora um borrão loiro com olhos verdes, porque a mãe falava que ele se parecia com o pai e ela não era loira dos olhos verdes. Mas o borrão não tinha traços, nem personalidade e, aparentemente, nem redes sociais, porque incontáveis vezes, ele o procurou na web e nada... nada... será que ele... morr...
— Bruno! — alguém o chamou.
PLÁGIO É CRIME — MENINO DO CÉU! — CARINE AGUIAR
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