Menino anjo

14 Um peixinho fora d'água


Notas iniciais
Peço licença pois lembrei-me que estou ingrato. Quero agradecer ao amigo Marcio Gabriel, que além de amigo e leitor fiel, foi o criador da capa desta estória, que ficou muito linda! Marcio tem muitas estórias lindas aqui no Nyah! Recomendo que façam-lhe uma visita. Eis o link:- http://fanfiction.com.br/u/141025/ E aproveito para agradecer a todos os que estão acompanhando-a, mesmo que nunca deixam comentários.

Era meados do mês de Março, eis que surge final de semana e como estava muito calor, em período de fim de verão, Jaqueline, que não trabalhava aos finais de semana, resolveu levar o menino para se divertir em condomínio fechado, próximo à represa da hidrelétrica de Caconde, saindo da sua cidade na tarde de sexta-feira e chegando ao local alugado com antecedência, próximo às dezoito horas.

Regis ajudou sua mãe a descarregar as malas e alimentos do carro, depois, como ainda estava cedo e a noite demoraria pelo menos uma hora para chegar, resolveu dar um passeio pelas margens da prainha de água doce, brincando sozinho, atirando pedras e entrando na água, até mesmo molhando a barra do short curto que sua mãe lhe vestira.

Como sua caminhada se prolongou, ele passava pelos fundos de diversas casas, algumas muito ricas, embora as pessoas as chamassem de ranchos para temporadas ou veraneios. E foi assim que acabou se deparando com uma atividade suspeita. Dois homens forçavam a porta de um destes ranchos, que na verdade era um bonito chalé, todo feito em madeira envernizada.

O menino se escondeu por trás de uma grande árvore e viu quando os homens, um branco, de cabelos e barbas pretas, aparentando seus trinta anos de idade e outro, também branco, cabelos quase loiros, aparentando pouco mais de vinte anos, conseguiram arrombar a porta e ainda em atitude suspeita adentraram ao local.

Regis, atrevido ou curioso, resolveu se aproximar devagar, chegando até próximo à janela, tentando em vão ouvir o que falavam. Sendo assim, caminhou até a porta e eis que para sua surpresa, os dois homens saíam do local carregando diversos objetos de uso de rancho: traia de pesca, caixa de cerveja, televisor, alimentos e outras coisas de pouco valor.

Ao se depararem com o menino, se assustaram. O homem de barba gritou:

— O que você tá fazendo aqui, moleque?

— Não está vendo que aqui é propriedade particular! — emendou o comparsa.

— Vocês não sabem disso? — Perguntou o menino.

— Pegue ele! — Gritou o homem de barba, deixando as coisas cair ao chão.

Os dois homens juntos, avançaram contra o menino, que de propósito ou medo, ficou paralisado, sendo presa fácil para seus opressores.

Deixaram os objetos jogados e entraram para o chalé, carregando o menino.

O homem mais novo foi até o fogão, colocou água em uma leiteira e acendeu o fogo.

— O que você vai fazer? — Perguntou o outro.

— Vou fazer um café, enquanto você decide o que faremos com o menino!

— Que café, idiota! Vamos levar este pestinha pra dar um passeio!

— Não vamos fazer nada com o menino! Ele é só uma criança! Deixe-o ir embora!

— Ele é só uma criança! Que vai nos entregar pra polícia!

— Que isso? Ele nunca falará que esteve aqui!

O homem mais jovem desligou o fogo e seguiu até o menino, perguntando:

— Você seria capaz de reconhecer a gente?

Regis acenou que sim.

— Falaria alguma coisa?

O menino tornou a acenar positivamente.

— Por que você se compromete assim? Não vê que coloca em risco sua vida?

O outro homem se aproximou dizendo:

— Assim não temos outra opção, menino. Temos que levá-lo a um grande passeio.

Saíram arrastando o menino pelas mãos, até uma passarela sobre a grande represa, entraram com ele em belo barco a motor, colocaram-no sentado em banco lateral, amarraram suas mãos e pés com uma corda e a prenderam em suporte na parte traseira do barco, deram partida e saíram cortando as águas, em comecinho de noite, com o céu em lindas cores avermelhadas, pelas belezas dos crepúsculos tão comum nesta região, principalmente de água.

— Por que você foi xeretar aonde não devia, moleque? — Especulou-o com sarcasmo o homem mais jovem.

O menino permaneceu calado.

— O que faremos com ele? — Perguntou ao outro homem.

— Vamos ensiná-lo a nadar! — Explicou o homem mais velho, com jeito sério e decisivo.

— Não vai jogá-lo na água! Vai?

— O que você quer que eu faça? Ou ele, ou nós! Depois, tudo parecerá um acidente.

Pararam o barco no centro da represa, desligando o motor, desamarraram o menino e o homem mais velho disse:

— Vamos ver se você é bom! Quem sabe você se torna um peixinho!

Forçou seu corpo frágil para que se levantasse, estranhando sua aparente calma, apesar de em momento de grande perigo...

...e o atirou sem piedade nas águas, com mais de trinta metros de profundidade.

Regis, que nunca aprendera a nadar, ficara se debatendo por algum tempo, sob os olhares curiosos e sem piedade, principalmente pelo homem mais velho.

— Vamos pegá-lo! — Insistiu o homem mais jovem, jogando a corda ainda amarrada ao barco, para o menino pegar — Não podemos deixá-lo morrer. E ele não consegue nadar.

— Você viu algum menino? — Ironizou o outro homem, puxando um pouco a corda. — Nem eu!

Regis continuava em vão se debatendo na água, onde, ainda para seu terror, recordando o dia de seu maior pesadelo: a morte na represa do Peçanha.

Pequeno e com os bracinhos cansados de se debater, afundou lentamente sobre as profundas águas, enquanto os dois homens acionavam a ignição, fazendo o motor do barco ranger um barulho triste e se afastarem sem piedade, pelos trezentos metros de distância até à margem.

Desligaram o motor, desceram, ficaram por alguns segundos observando a represa, que já se fazia muito escura e retornaram para o mesmo chalé, para concluírem suas tarefas de furto. Sabiam que os proprietários jamais iriam a aquele local, na noite de sexta-feira.

O homem mais velho chegou primeiro ao chalé e ao abrir a porta ouviu barulho, como alguém caminhando sobre as folhas secas, então, esperou um pouco, prestando atenção ao barulho que se aproximava, depois levou a mão sobre o interruptor, no intuito de ascender a luz, causando um grande estrondo e fazendo com que labaredas de fogo, incendiasse rapidamente todo o chalé de madeira envernizada, jogando aquele homem em chamas, por mais de três metros de distância, enquanto que o outro homem, conseguiu avistar pelo clarão, a imagem do menino, todo molhado, que se aproximava calmamente.

Dois minutos depois, o local estava repleto de pessoas, que como Regis, teriam ido passar um final de semana tranquilo.

Mas como ele saiu?

Regis ainda não estava cansado, então se afundara lentamente sobre a represa, conseguindo se debater, por baixo da água já escura, em início de noite, até encontrar o barco, onde facilmente conseguiu localizar a corda, segurando sobre ela e sendo arrastado para a margem da represa. Obra de muita sorte para um pequeno menino anjo.

E por que o chalé se incendiou?

Quando o homem mais jovem desligou o fogo, sem prestar atenção e sem olhar, acabou voltando o botão, deixando-o, apesar de fogo apagado, com o gás vazando e seguiu até o menino.