Após ter consultado Jaqueline, doutora Maria Angélica Reis recebeu em seu consultório o pequeno Regis, que convidado a entrar sentou-se timidamente em uma grande, bela e aconchegante poltrona branca.

— Boa tarde amiguinho — cumprimentou-lhe ela. — A mamãe lhe trouxe para que possamos conversar um pouco. Topa ser meu amigo?

— A senhora é psicóloga — ajeitou-se ele, gostando da posição confortável de tal poltrona.

— Sim! Sabe o que é psicóloga?

— Não muito! Mas vai tentar descobrir porque sou diferente.

— Todos somos diferentes! Nenhum ser humano é igual a outro.

— Eu sou mais diferente! — Insistiu o menino, convicto.

— Pode ser. Por que acha isso?

— Se eu fosse só diferente por que mamãe me traria aqui?

— Concordo com você! Em que ano você está na escola?

— Terceiro!

— Sabe me dizer quanto é... dois mais dois?

— Quatro!

— Mais quatro?

— Oito!

— Mais oito?

— Dezesseis.

— O dobro?

— Trinta e dois.

— O dobro?

— Sessenta e quatro.

— Vou fazer diferente. Três vezes nove?

— Vinte e sete!

— Nove vezes nove?

— Oitenta e um!

— Vou complicar! Quinze vezes dez?

Regis praticamente não pensava.

— Cento e cinquenta.

— Dezesseis vezes treze?

Mesmo assim, sua resposta foi quase imediata.

— Duzentos e oito.

— Três elevado ao cubo?

— O que é isso?

— Não sabe o que é elevado ao cubo?

— Nunca ouvi falar!

— Dois elevado ao quadrado?

— Não sei o que é isso!

— Aonde aprendeu muita matemática?

— Não aprendi quase!

— Como sabe fazer contas, rápido?

— Não sei fazer contas!

— Como respondeu corretamente minhas perguntas?

— Você pergunta e eu respondo! Não faço contas.

— É preciso calcular pra responder. Como você faz?

— Você pergunta, eu penso e lhe respondo. Não há contas.

O menino continuava brincando na poltrona macia.

— Gosta da minha poltrona? — Perguntou-lhe a doutora.

— Adoraria ficar aqui o dia todo!

— Pode ficar! — Riu ela. — Quer tomar um suco?

— Obrigado!

— Obrigado sim? Obrigado não?

— Obrigado não!

— Mamãe me falou que você passou por um acidente terrível. Podemos falar sobre isso?

Regis simplesmente balançou os ombros.

— Um ser humano não consegue ficar sem respirar por mais de dois a três minutos. Você ficou sem respirar muito mais tempo do que isso. O que acha?

— Não sou médico! A senhora é!

— Sou psicóloga! Não entendo de medicina cardiovascular ou respiratória.

— E o que acha de mim? — Perguntou o menino, sério.

— Você me parece muito inteligente. Talvez...

— Sou mais diferente. Lembra?

— Talvez você não devesse estar mais entre nós.

— Por que não me quer?

— Não! Muito pelo contrário. O queremos muito! É que... sei que você é muito jovem. Quantos anos têm?

— Aqui? Nove!

— O que quer dizer com aqui?

Ele apenas balançou os ombros.

— Você esteve por mais de cinco minutos dentro da água, chegou ao hospital em estado inconsciente; os médicos disseram que você teria morrido...

— Eu morri! — Disse o menino, com pequeno sorriso.

A doutora se espantou.

— Como está aqui?

— Um anjo me mandou voltar.

— Um anjo? Como assim?

— Meu corpo é deste mundo, mas não a minha alma!

— Você não é mais Regis?

— Sou!

— Não é mais o filho de sua mãe?

— Meu corpo é!

— Sua alma? Como você disse!

— Também é a mesma. Eu fui pro outro lado, mas um anjo me disse, que minha missão aqui neste mundo ainda não estava cumprida.

— Se você permaneceu mais de cinco minutos sem oxigênio dentro da água, mais uns dez minutos até o hospital e mais uns quinze minutos dentro do hospital, em estado de óbito, seu cérebro entraria em estado de morte e caso você voltasse á vida sofreria sequelas gravíssimas neste cérebro. Em suma, você não deveria estar andando... Nem falando... Nem se movimentando. Como explica?

— Tenho apenas nove anos e não sou médico. Por que pergunta pra mim?

— Qual sua missão aqui entre nós, os terráqueos?

— Não sou etê! — Ironizou o menino em tom forte.

— É um anjo!

— Todos somos anjos! — Insinuou convicto.

— Sua mãe me disse que você curou um homem. Como explica?

— Tenho só nove anos! Não tenho respostas.

— Como seu cérebro consegue responder matemática e não consegue responder a esta pergunta?

— Tenho só nove anos!

— Você é uma espécie de médium?

— O que é médium?

— Pessoas que têm o poder de conversar ou incorporar outros espíritos. Praticam até medicina assim. Incorporam o espírito de um médico já falecido. André Luis, por exemplo.

— Não sou médico e não falo com espíritos!

— Pelo que mamãe me contou, com certeza você tem dom paranormal!

— Você é que diz!

— Para um menino de nove anos de idade, você consegue se camuflar muito bem!

Regis se calou. A doutora prosseguiu:

— Quanto tempo deve ficar entre nós?

— Ninguém sabe responder a sua pergunta! Mas pretendo ficar até muito velhinho! E com certeza, também sou um de nós!

— Você mesmo disse que não é!

— Meu corpo é!

— Seu corpo é! Sua alma não é! Na verdade, a alma de ninguém é daqui! Então...

— Então... Sou igual a qualquer outro!

A doutora sabia que Regis era muito inteligente, para um simples menino de apenas nove anos de idade e sabia também que ele, ou não sabia, ou não queria contar quem ele realmente era e como teria voltado à vida após cerca de trinta minutos em estado de óbito. Ela sabia que sem oxigênio no corpo por tão longo período, o cérebro teria sido danificado irreversivelmente e os outros órgãos do corpo, também sofreriam perdas significantes; sabia que os pulmões se contrairiam, o coração, apesar de ser o mais rígido músculo do corpo humano, se enrijeceria mais, se tornando impossível voltar a pulsar normalmente e mesmo o sangue, se coalharia, secando dentro das artérias. Ou seja: ninguém volta a viver em perfeito estado de saúde, depois de estar morto por mais de alguns minutos.

Regis deveria retornar na semana seguinte, para dar continuidade a uma consulta investigativa, com o objetivo de dar vida normal a uma criança anormal.

Notas finais
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