Menino anjo
4 Psicóloga.
Após ter consultado Jaqueline, doutora Maria Angélica Reis recebeu em seu consultório o pequeno Regis, que convidado a entrar sentou-se timidamente em uma grande, bela e aconchegante poltrona branca.
— Boa tarde amiguinho — cumprimentou-lhe ela. — A mamãe lhe trouxe para que possamos conversar um pouco. Topa ser meu amigo?
— A senhora é psicóloga — ajeitou-se ele, gostando da posição confortável de tal poltrona.
— Sim! Sabe o que é psicóloga?
— Não muito! Mas vai tentar descobrir porque sou diferente.
— Todos somos diferentes! Nenhum ser humano é igual a outro.
— Eu sou mais diferente! — Insistiu o menino, convicto.
— Pode ser. Por que acha isso?
— Se eu fosse só diferente por que mamãe me traria aqui?
— Concordo com você! Em que ano você está na escola?
— Terceiro!
— Sabe me dizer quanto é... dois mais dois?
— Quatro!
— Mais quatro?
— Oito!
— Mais oito?
— Dezesseis.
— O dobro?
— Trinta e dois.
— O dobro?
— Sessenta e quatro.
— Vou fazer diferente. Três vezes nove?
— Vinte e sete!
— Nove vezes nove?
— Oitenta e um!
— Vou complicar! Quinze vezes dez?
Regis praticamente não pensava.
— Cento e cinquenta.
— Dezesseis vezes treze?
Mesmo assim, sua resposta foi quase imediata.
— Duzentos e oito.
— Três elevado ao cubo?
— O que é isso?
— Não sabe o que é elevado ao cubo?
— Nunca ouvi falar!
— Dois elevado ao quadrado?
— Não sei o que é isso!
— Aonde aprendeu muita matemática?
— Não aprendi quase!
— Como sabe fazer contas, rápido?
— Não sei fazer contas!
— Como respondeu corretamente minhas perguntas?
— Você pergunta e eu respondo! Não faço contas.
— É preciso calcular pra responder. Como você faz?
— Você pergunta, eu penso e lhe respondo. Não há contas.
O menino continuava brincando na poltrona macia.
— Gosta da minha poltrona? — Perguntou-lhe a doutora.
— Adoraria ficar aqui o dia todo!
— Pode ficar! — Riu ela. — Quer tomar um suco?
— Obrigado!
— Obrigado sim? Obrigado não?
— Obrigado não!
— Mamãe me falou que você passou por um acidente terrível. Podemos falar sobre isso?
Regis simplesmente balançou os ombros.
— Um ser humano não consegue ficar sem respirar por mais de dois a três minutos. Você ficou sem respirar muito mais tempo do que isso. O que acha?
— Não sou médico! A senhora é!
— Sou psicóloga! Não entendo de medicina cardiovascular ou respiratória.
— E o que acha de mim? — Perguntou o menino, sério.
— Você me parece muito inteligente. Talvez...
— Sou mais diferente. Lembra?
— Talvez você não devesse estar mais entre nós.
— Por que não me quer?
— Não! Muito pelo contrário. O queremos muito! É que... sei que você é muito jovem. Quantos anos têm?
— Aqui? Nove!
— O que quer dizer com aqui?
Ele apenas balançou os ombros.
— Você esteve por mais de cinco minutos dentro da água, chegou ao hospital em estado inconsciente; os médicos disseram que você teria morrido...
— Eu morri! — Disse o menino, com pequeno sorriso.
A doutora se espantou.
— Como está aqui?
— Um anjo me mandou voltar.
— Um anjo? Como assim?
— Meu corpo é deste mundo, mas não a minha alma!
— Você não é mais Regis?
— Sou!
— Não é mais o filho de sua mãe?
— Meu corpo é!
— Sua alma? Como você disse!
— Também é a mesma. Eu fui pro outro lado, mas um anjo me disse, que minha missão aqui neste mundo ainda não estava cumprida.
— Se você permaneceu mais de cinco minutos sem oxigênio dentro da água, mais uns dez minutos até o hospital e mais uns quinze minutos dentro do hospital, em estado de óbito, seu cérebro entraria em estado de morte e caso você voltasse á vida sofreria sequelas gravíssimas neste cérebro. Em suma, você não deveria estar andando... Nem falando... Nem se movimentando. Como explica?
— Tenho apenas nove anos e não sou médico. Por que pergunta pra mim?
— Qual sua missão aqui entre nós, os terráqueos?
— Não sou etê! — Ironizou o menino em tom forte.
— É um anjo!
— Todos somos anjos! — Insinuou convicto.
— Sua mãe me disse que você curou um homem. Como explica?
— Tenho só nove anos! Não tenho respostas.
— Como seu cérebro consegue responder matemática e não consegue responder a esta pergunta?
— Tenho só nove anos!
— Você é uma espécie de médium?
— O que é médium?
— Pessoas que têm o poder de conversar ou incorporar outros espíritos. Praticam até medicina assim. Incorporam o espírito de um médico já falecido. André Luis, por exemplo.
— Não sou médico e não falo com espíritos!
— Pelo que mamãe me contou, com certeza você tem dom paranormal!
— Você é que diz!
— Para um menino de nove anos de idade, você consegue se camuflar muito bem!
Regis se calou. A doutora prosseguiu:
— Quanto tempo deve ficar entre nós?
— Ninguém sabe responder a sua pergunta! Mas pretendo ficar até muito velhinho! E com certeza, também sou um de nós!
— Você mesmo disse que não é!
— Meu corpo é!
— Seu corpo é! Sua alma não é! Na verdade, a alma de ninguém é daqui! Então...
— Então... Sou igual a qualquer outro!
A doutora sabia que Regis era muito inteligente, para um simples menino de apenas nove anos de idade e sabia também que ele, ou não sabia, ou não queria contar quem ele realmente era e como teria voltado à vida após cerca de trinta minutos em estado de óbito. Ela sabia que sem oxigênio no corpo por tão longo período, o cérebro teria sido danificado irreversivelmente e os outros órgãos do corpo, também sofreriam perdas significantes; sabia que os pulmões se contrairiam, o coração, apesar de ser o mais rígido músculo do corpo humano, se enrijeceria mais, se tornando impossível voltar a pulsar normalmente e mesmo o sangue, se coalharia, secando dentro das artérias. Ou seja: ninguém volta a viver em perfeito estado de saúde, depois de estar morto por mais de alguns minutos.
Regis deveria retornar na semana seguinte, para dar continuidade a uma consulta investigativa, com o objetivo de dar vida normal a uma criança anormal.
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