Menino anjo

15 O preço de um crime


Assim que chegou da escola, Regis se despiu do uniforme, vestiu apenas um pequeno short, apanhou na cozinha seu prato de almoço, que já fora preparado por sua mãe e sentou à mesa da copa, onde almoçava, assistindo sem interesse ao telejornal regional.

Não demorou muito, para que uma notícia lhe chamasse a atenção:

— Policia apreende quadrilha de cinco homens fortemente armados, com muita munição, pequena quantia em dinheiro, dez quilos de maconha bruta, além de dezenas de papelotes de cocaína refinada. A apreensão se deu hoje pela manhã, em São João da Boa Vista, onde os bandidos foram encaminhados ao plantão policial e autuados em flagrante.

Um repórter se aproximou do delegado e prosseguiu:

— Quem fez a autuação foi o delegado, doutor João Marques Moretti. Doutor, os marginais já eram conhecidos da polícia.

— Sim! Já faz quase três meses que a gente vem investigando este caso, mas agora conseguimos fazer o flagrante, conseguindo aí prender, inclusive certa quantidade de entorpecentes.

— Safado, mentiroso! — Reclamou sozinho, Regis, enquanto comia.

— O que há filho? — Perguntou-lhe a mãe. — Tá brigando com a televisão?

— Esse delegado tá mentindo muito feio!

— Como assim?

— Ele é o pior traficante da região. Ele mente e com isto consegue desviar grande parte da droga apreendida, pra depois distribuir aqui e na região inteira.

— O que você está querendo insinuar?

— Mamãe, ele apreendeu mais de cem quilos de drogas, mas só divulgou dez! Tanto ele, como os policiais que participaram desta ação, são todos maus!

— Meu querido filho! Por que te preocupas tanto com coisas de adultos?

— Porque estes adultos safados estão viciando e destruindo minha geração inocente!

Jaqueline desligou a televisão, dizendo:

— Acabe de almoçar, depois descanse um pouco. Preciso ir trabalhar. Já estou ficando atrasada.

Era sempre assim: Regis estudava de manhã e depois do almoço, apesar de ainda não ter nem dez anos de idade, ficava sozinho em casa, fazendo inclusive algumas pequenas tarefas domésticas, para ajudar sua mãe, que trabalhava geralmente até às dezoito horas.

Naquela tarde, pouco tempo depois que sua mãe seguiu para o trabalho, ele trocou de short, vestindo outro mais comprido, tipo bermuda, vestiu uma camiseta, um par de tênis e saiu sozinho, seguindo de ônibus até a delegacia de polícia, que fica praticamente no centro da cidade. Passou pelos policiais na recepção, sem ser incomodado e mesmo sem pedir licença adentrou á sala de doutor João Marques, que ao vê-lo, surpreendeu-se, levantando-se e ajeitando a gravata:

— Ora, estou recebendo uma honrosa visita! Quem é você, meu rapaz?

— Não gostará de me conhecer! — Insinuou o menino, com cara não amigável.

Imagine uma criança, mesmo que seja um menino anjo, com cara não amigável. Difícil imaginar? Pode ser! Mas Regis conseguia.

— Ora! Está bravo comigo? Não gosta de policia?

— Gosto, muito! Mas não de bandidos!

— Bem pensado! Também detesto bandidos.

— Por que o senhor faz o que faz? — Perguntou-lhe Regis, com coragem.

— O que faço? — Riu o delegado. — Prendo bandidos!

— Bandido grande que prende bandido pequeno.

— O que há? Por acaso prendi seu pai e você está com raiva?

— Nunca conheci meu pai! — Negou o menino, fazendo careta.

Quer dizer: conheceu o homem que o fabricou.

— E qual é a bronca com a polícia? — Riu sarcasticamente o delegado.

— Não tenho bronca com a polícia! Por que o senhor faz o que faz? Por acaso seu salário é pouco e quer ganhar mais, viciando estudantes indefesos? Pois saiba que seu salário é dez vezes maior do que o da maioria dos trabalhadores.

— Com certeza é! — Concordou o delegado. — Meu emprego também é vinte vezes mais perigoso do que outro qualquer!

— Qual dos empregos? — Ironizou corajosamente o menino.

— Como ousa um pivetinho, que não tem nem doze anos de idade, entrar em minha sala e me desacatar assim?

— Não tenho nem dez anos! E não vim desacatar ninguém! Vim desabafar, em nome de minha geração, que confia na polícia honesta.

— Avise sua geração, que comigo não há problemas. Se for gente boa estendo-lhe a mão, se for bandido vai pro xilindró!

— Nove partes entre dez, de toda droga que o senhor apreende é desviada para o tráfico, sob seu comando.

— Veja lá como fala comigo, pivete! — Ficou nervoso o delegado. Chamou um policial. — Quem deixou este moleque entrar aqui?

Regis já ia se retirando, quando o delegado ainda o alertou.

— Menino, vê se me entende. Boca fechada não entra moscas! Acidentes acontecem a toda hora!

Dalí, o menino se dirigiu à casa do delegado, localizada a pouco mais de quinhentos metros da delegacia e era uma mansão, bem maior do que sua renda per capita conseguiria comprar e manter. Chamou no portão e foi atendido por um menino loiro, de talvez sua idade. Depois de trocarem meia dúzia de palavras, aconteceu o que acontece a qualquer criança: ficaram amigos. Sendo assim, Regis o convidou para encontrá-lo ao meio dia seguinte, na porta de sua escola, para juntos irem até sua casa, trocarem figurinhas de coleção.

Dali, o menino retornou à sua casa, voltou a se vestir, apenas com um short curto e foi até a cozinha lavar toda a louça do almoço, depois foi ao quarto da mãe, estendendo perfeitamente as roupas da cama, fazendo o mesmo com sua cama e como parecia não ter mais o que fazer saiu para o quintal, onde foi brincar sozinho.

E assim, cumprindo sua promessa, o novo amigo o esperou na porta da escola, de onde passaram a caminhar juntos, descendo à frente da escola Domingos Theodoro.

Assim que se viram sozinhos, Regis o parou e com lágrimas lhe pediu:

— Michael, me perdoe pelo mal que estou lhe causando.

— O que há Regis? — Estranhou o amigo.

— Por que esta tem que ser a minha sina? — Chorava mais, Regis. — Queria tanto poder livrá-lo deste mal, Michael!

— Não estou entendendo você, Regis! — estranhou o amigo. — Não estamos indo pra sua casa?

— O encontrarei entre os anjos de Deus.

De repente, duas viaturas da policia fecharam o cruzamento da Avenida Brasília, com o final daquela rua em curva e oito policiais desceram correndo, gritando:

— Saiam da rua!

E dispararam a esmo dezenas de vezes, enchendo os muros circunvizinhos de furos e marcas de balas, inclusive, uma vez, atirando contra as crianças, que desciam por dentro da pequena praça triangular. Michael caiu ao solo, atingido mortalmente contra o peito e Regis, pulou sobre o amigo, na tentativa em vão de protegê-lo, contra aquilo que já teria previsto.

Os policiais cessaram o disparo. Uma das viaturas saiu em disparada, com a sirene gritando feito louca, na falsa busca por algum bandido foragido. Os demais policiais aproximaram-se dos meninos, que por sorte do pequeno Regis, um aglomerado de pessoas começavam a cercar o local, curiosos ou apreensivos, com cruel fatalidade, tendo os homens que se dizem ser da lei, alegando ser bala perdida; que na perseguição a criminosos, acabaram acidentalmente atingindo um inocente.

— Meu Deus! — Gritou Regis, chorando muito. — O portão do inferno está aberto, pra deixar sair demônios como vocês!

— Foi um acidente, menino! — Insinuou, fingindo surpresa um dos policiais, demonstrando-se, tais como os outros três, de quem pouco se importa, já que eram protegidos por uma farda e uma profissão, que camuflam seus atos covardes.

— Foi uma emboscada cruel e covarde, de quem jurou a Deus proteger o cidadão de bem!

Regis, clamando por ajuda celestial, espalmava fortemente suas mãos sobre o peito exangue do menino, tentando concentrar toda a força de sua mente, para ordenar que o projétil de bala voltasse e retrocedesse o mal que acontecera. Ele já teria feito isto uma vez durante um assalto, mas percebia que agora era ainda mais grave, pois o menino, agonizando muito, teria também, vomitado aquele sangue escuro e grosso.

— Volte Michael! Volte! — Chorava e gritava o pequeno, forçando muito o peito do amigo. — Volte, por favor! Estou mandando! Volte! Eu tenho o poder sobre a vida!

Sim, Regis poderia ter poder sobre a vida, mas talvez não sobre a morte, pois como fazer voltar uma bala, que atravessara um peito frágil, em um ferimento até substancial, mas que perfurara um coração pequeno, protegido apenas por ossos quase cartilagens de criança pequena e saíra pelas costas, em um rombo bem maior do que no peito, desaparecendo sabe-se lá por onde? Se pelo menos o menino ainda agonizasse, quem sabe seu poder sobre a vida poderia até trazê-lo de volta.

Anjo Regis, estendia sua mão direita, para acolher a alma em forma de espectro, que levantava em perfeito estado daquele corpinho inerte e Regis, ainda chorando, olhava para aquilo como se pudesse enxergar o que estava acontecendo.

Um carro preto, da polícia, descaracterizado, parou diante do incidente. Doutor João, abriu a porta, desceu calmamente, ajeitou a calça e tentando se aproximar, perguntou:

— O que houve aqui? Algum incidente na troca de tiros?

Regis, ainda chorando muito, levantou os olhos e antes que o delegado visse o menino inerte, gritou:

— Monstro assassino! Como teve coragem de mandar matar seu próprio filho?

Só então, o delegado viu ali, caído sobre uma grande poça de sangue vermelho escuro, com seu material escolar jogado ao lado, o corpo bonito de seu único filho. Bonito sim! Apesar de coberto por muito sangue, o menino parecia dormir como um anjinho inocente.

Doutor João, habituado a conviver com tantas cenas cruéis sem se abalar. Claro! Filhos de outros, muitas vezes inocentes, que acabavam às vezes morrendo em emboscadas cruéis, preparadas por aquele próprio homem. Mas ali era diferente e ele acabou entrando em desespero, caindo sobre o solo, tentando em vão fazer algo pelo filho.

— Não sabia que Michael era meu amigo e que sua escola fica ao lado da minha? — Gritou o menino.

Uma ambulância escrita “Samu” apareceu com a sirene gritando desesperada e quando os paramédicos tentaram socorrer o pequeno Michael, notaram que já era muito tarde. Não precisavam mais ter tanta pressa.

Enquanto tiravam Regis e o delegado do local, o menino, apontando aquele homem, gritava para que todos ouvissem:

— Esse homem que deveria nos defender é o maior traficante de drogas de toda a região!

Em casa, ainda chorando muito, enquanto tomava banho, ajudado pela mãe, para se livrar de tanto sangue, Regis clamava:

— Mamãe, por que tinha que ser assim?

— Não é culpa sua, meu filho!

— Se eu pudesse voltar atrás, juro que mudaria esta história!

— O relógio da vida só caminha pra frente, filho! Não é culpa sua!