Menino anjo

22 O pior dos crimes


Notas iniciais
Como minha próxima long-fic será "O Grande Palco da Vida" criei um book-trailler sobre ela e no final deste capítulo adicionei-o para que, caso queira ter uma ideia. Só que o book-trailler é amador.

Era um início de tarde ensolarada e muito quente, Regis teria chegado da escola, almoçado e então resolvera deitar-se para descansar devido levantar-se sempre muito cedo. Sua mãe se preparava para voltar ao trabalho, já que ela era a único arrimo daquela família de duas pessoas, com contas diversas que venciam quase todos os dias: aluguel, farmácia, mercado, água, luz, telefone, dentista, gás... Por sorte o menino estudava em escola pública.

Quando ele já começava a cochilar em sua cama pequena, se levantou assustado, correndo para a sala e encontrando a mãe que já estava de saída, onde, entre lágrimas, abraçando-a, gritava:

— Mamãe, tem que me levar! Tem que me levar agora! Rápido, mamãe!

— Pare menino! — Pediu ela evitando aquele abraço interesseiro. — Estou indo trabalhar!

— Tem que me levar, mamãe! Não temos tempo! Tem que ser agora!

— Levar aonde, menino?

— É longe. Vamos rápido!

— Não vou te levar a lugar nenhum!

— É preciso! Por favor! Há um crime grave!

— Se há um crime grave é a polícia quem precisa ir lá! Não você!

— Agora! Por favor, mamãe!

— Não vou colocar você em mais nenhum perigo!

— Não há armas! Por favor! É grave! Não perca tempo!

Como sua mãe insistia em negar, o menino correu até o carro, entrou do lado do motorista e tentou dar partida. A mulher correu até ele gritando:

— De jeito nenhum!

Como o menino insistia apavorado ela acabou concordando:

— Está certo! Vou te levar. Chega pra lá.

O menino trocou de lugar. Jaqueline voltou para a casa e ele, buzinando muito, insistia:

— Corra mamãe!

— Calma! — Gritou ela, correndo. — Precisava pegar os documentos e fechar a casa.

Saiu apressada com o carro.

— Aonde a gente tem que ir?

— Casa Branca!

— Preciso trabalhar, menino!

Embora contrariada, seguiu com o filho para o destino indicado, tomando a rodovia sentido Aguaí entrou à direita no viaduto sentido Vargem Grande do Sul e assim que passou o pedágio, o menino, ainda muito ansioso, cobrava:

— Rápido mamãe! Rápido!

— Não posso ir mais rápido! — negou ela. — Já estamos passando do limite que a lei me permite!

— Deixe a lei, mamãe! É grave!

— Pode ser grave, mas nós também temos que viver!

Chegando à Vargem Grande entrou à esquerda, com o filho muito ansioso, sentado para frente, quase junto ao para-brisa do carro, sem cinto de segurança.

— Você está sem cinto — forçou o menino para trás, fazendo-o se sentar direito.

— Rápido! Não tem muito tempo!

— O tempo não atrapalha o cinto de ser colocado!

Seguiu mais vinte quilômetros até chegar à entrada de Casa Branca, virando à esquerda, sentido Santa Cruz das Palmeiras, depois entrou à direita, sentido centro da cidade.

— Aonde nós iremos? — Perguntou aflita a mulher.

— Santa Casa! Igreja! É isso!

Jaqueline entrou na cidade, passando próximo à prefeitura, que fica no antigo prédio da estação ferroviária, entrou à direita na Rua da Santa Casa, depois de algumas quadras, tornou virar à direita passando ao lado da igreja.

Antes que ela parasse direito o carro, o menino desceu apressado e saiu correndo pela calçada, dobrando a esquina e em uma casa alta e antiga, empurrou bruscamente o portão adentrando a pequena varanda, torceu a maçaneta da porta da sala, fazendo-a abrir; correu até um quarto fechado, forçando a porta que se abriu rapidamente e encontrou: deitado de bruços, completamente nu, os pulsos amarrados com correias sobre a cama, fita adesiva vedando a boca, completamente dopado e em estado deplorável, um menino branco, de cabelos castanhos, aproximadamente dez anos de idade, sendo bruscamente violentado por um homem, também completamente nu, branco, de aproximadamente trinta anos de idade.

Regis, que não era habituado a chorar, entre muitas lágrimas de tanta revolta, gritou com todas as forças de seu pequeno pulmão, saltando sobre o homem:

— Nããããããão!

O homem, surpreso, deixou o menino e puxando de uma toalha, tentava cobrir seu corpo, insinuando nervoso.

— Quem é você, moleque? O que está fazendo aqui?

— O mundo está cheio de demônios! — Gritou Regis. — Ninguém mais consegue fechar as portas do inferno!

— Saia daqui, moleque! — Gritou o homem, enquanto Regis, arrasado pela cena, chorava muito.

O outro menino, dopado, preso, ferido, quase desmaiado, também chorava.

Fazendo uso de um lençol, Regis cobriu o corpo exangue da pobre criança, contra a exposição que passaria a ter em poucos segundos.

— Aquele a quem Deus lhe confiou para educá-lo e ampará-lo, você o violentaste, praticando o crime mais cruel e covarde que possa existir!

Jaqueline entrou no mesmo quarto.

— Saiam de minha casa! — Gritou o homem, apavorado.

— Jesus disse, se sua mão pratica o mal, corte-a e lance-a fora, pois é preferível sem uma das mãos entrar no Reino de Meu Pai, do que ser lançado em corpo perfeito no fogo do inferno — profanou Regis. — Você jamais terá uma ereção! E pagará caro ainda na Terra, por tamanha crueldade.

Três outros homens adentraram àquela casa e entendendo de imediato o que acontecia, seguraram aquele homem, arrastando-o para fora a golpes de socos e pontapés, com visível intenção de linchá-lo. Regis acompanhou a todos e puxando-os de lado, pediu:

— Não sujem as mãos com sangue de tal herege. Não se tornem iguais. Deixe-o entregue para que seja julgado e condenado diante das leis dos homens!

Voltou ao quarto, fazendo sinal para que a mãe saísse dali; seguiu até o menino sobre a cama, desamarrando-o e tirando a fita de sua boca com muito cuidado. Levantou um pouco o lençol e percebeu o quanto ele estava ferido, com a cama vermelha de sangue inocente.

O menino teria sido dopado à base de um sonífero muito forte e deveria estar dormindo, mas teria acordado quando fora ferido, durante aquele ato covarde e cruel, por aquele que, como disse Regis, teria que ampará-lo, com muito amor e carinho saudável.

Mais uma vez o menino anjo estava triste, pois chegara atrasado para cumprir sua missão aqui na Terra. Porém, felizmente ele era dotado de um poder estranho, que outros dizem mágico e então, com leve sorriso passou a mão direita sobre a fronte do menino e ele adormeceu rapidamente; passou a mão sobre todo seu corpo e suas feridas desapareceram, como em um belo milagre de Deus. Calmamente e cautelosamente retirou aqueles lençóis molhados de sangue e os levou até a lavanderia da casa, apanhou outro lençol limpo no guarda-roupa e cobriu o corpo ainda despido, daquele anjinho de alma santa.

A polícia, que fora acionada, levou o homem para se explicar com o delegado e lavrar sua prisão em flagrante delito, onde seria julgado a uma pena inafiançável, de oito a quinze anos de detenção, por crime de abuso de vulnerável contra o próprio enteado.

Como no retorno para sua casa, na estrada, percebendo a preocupação de sua mãe, talvez com o menininho violentado, Regis a confortou:

— Não se preocupes mamãe, Luan está muito bem e não se lembrará do que lhe aconteceu.

— Como não se lembrará? — Espantou Jaqueline.

— Ele continuará sendo um menino normal.

— O que o faz saber tanto meu filho?

— Como?

— O que é herege?

— Como posso saber? Nunca ouvi isso!

Book-trailler "O Grande Palco da Vida"

Notas finais
Só mais três capítulos para concluirmos este mistério.