Menino anjo
13 Milagres
Às doze horas da manhã seguinte, quando Regis saiu da escola Domingos Theodoro de Oliveira e sozinho já caminhava em retorno à sua casa, foi abordado por duas pessoas: uma mulher morena, de cabelos longos lisos, aparentando em torno de vinte e cinco anos de idade e um homem, também moreno, de mais de quarenta anos, que usava óculos escuros.
— Você é Regis? — Perguntou-lhe a mulher.
O menino balançou os ombros, meio que confirmando e talvez, fingindo surpreso, depois negou:
— Não posso fazer o que vocês querem.
— Como sabe? — Se admirou a mulher.
— Está acima de meu alcance.
O homem se abaixou diante do menino e passando as mãos sobre seu rosto pediu atônito:
— Por favor, menino! Andamos mais de trezentos quilômetros para encontrar você!
— Como me encontraram? Como sabem sobre mim?
— Pessoas comentam sobre o que você é. Luis Adriano me ligou ontem à noite e eu vim imediatamente. Ele me explicou onde você mora e eu fui até lá. Não tinha ninguém! Falaram-me que você estava na escola e eu vim aqui.
— De onde é Luis? Do circo?
— Menino, faz mais de dez anos que perdi a visão, vítima de derrame. Hoje só enxergo um vulto muito fraco.
— Não consigo fazer o que quer? Não tenho esse dom.
— Você pode! Por favor, passe apenas sua mãozinha sobre meus olhos e eles voltarão a enxergar.
— Ouça meu senhor, passar as mãos sobre seus olhos, posso fazer quantas vezes quiser, mas não irá lhe curar, porque não tenho este dom.
— Sei que tens! Você curou um homem ferido à bala.
— Não! Eu apenas tirei o projétil de bala!
— Você curou um menino! No hospital!
— Você quer crer em mim? Uma criança?! Por que não crê em Deus, que é o Guardião da vida?
— Eu creio em Deus! Já pedi muitas vezes! Mas minha fé é pequena!
— E como espera em mim?
— Você é o porta voz desta cura!
— Jesus disse, ninguém vem ao Pai senão por mim! Curandeiros... Milagreiros e feiticeiros não são do agrado de Deus.
— Menino, eu acredito tanto! Passe apenas sua mão em meus olhos e eles se abrirão!
Regis tirou os óculos daquele homem e percebeu seus olhos, de uma cor bem esbranquiçada e embora, convicto de que de nada adiantaria, passou ambas as mãos lentamente sobre seu rosto ainda jovem, porém sofrido, já cansado pela vida e tristeza; inclusive, para sua surpresa, aqueles olhos sem um pingo de vida, criaram cores vivas e o homem chorando e rindo ao mesmo tempo, gritava acariciando o rosto do menino:
— Eu estou vendo! Estou vendo você, menino! Você é a criança mais bonita deste mundo! Obrigado, menino! — Caiu de joelhos. — Obrigado meu Deus!
— Só enxergas a mim? — Se espantou o menino.
— Enxergo tudo! O verde das árvores bonitas! O azul do Céu... Posso lhe dar um grande beijo?
Regis balançou os ombros e o homem o beijou demoradamente e repetidamente, em ambas as faces e testa.
— O que faço por você, meu menino? Você me curou!
— Não! — Negou Regis, muito sério. — Não tenho o dom de curar!
— Estou curado! Você me salvou!
— Não! A sua fé te curou! Lembra-se do que Jesus disse um dia, se a sua fé for do tamanho de um grão de mostarda, dirás ao monte pra mudar de lugar e ele obedecerá. Não conte a outros o que lhe aconteceu, pois se assim o fizer virão me procurar e não tendo então igual fé, não se curarão e me ofenderão.
No caminho de volta à sua casa, quando subia pela Rua Tenente Alberto, Regis ouviu gritos desesperados, vindo de dentro de uma casa antiga. Sem pensar, saltou por cima do muro baixo e entrou rapidamente na sala de visitas, contendo um sofá, uma estante e um televisor, todos muito antigos, em estado de verdadeira miséria. O menino entrou naquele recinto em tempo de ver um homem moreno, forte, de aproximadamente trinta e cinco anos, covardemente dar um forte murro no rosto de uma mulher franzina, baixa estatura, aproximadamente cinquenta e cinco anos e aparência muito cansada. A pobre mulher caiu sobre o sofá e Regis, da porta de entrada voou sobre o homem, empurrando-o com força de gigante, fazendo-o cair sobre o canto daquela sala, batendo fortemente a cabeça contra a parede e desmaiando.
O menino se voltou para a pobre senhora, sentando-se a seu lado no velho sofá e acariciando seu rosto lhe perguntou:
— O que houve?
— Ele é muito ruim pra mim — reclamou a mulher, soluçando muito e com a boca sangrando. — É a maldita droga.
O menino, entristecido, passou a mão sobre o rosto daquela mulher, fazendo o sangue e a ferida desaparecer imediatamente, depois lhe pediu:
— A senhora deve se retirar um pouco. Deixe-me conversar com ele.
— Não, filhinho! — Se assustou ela. —Ele mata você! Ele está atrapalhado pela droga.
— Pode deixar vovozinha! — Riu de leve o menino. — Ele não me matará!
— Você é tão pequeno e frágil! Ele é muito violento. Vai espancar você.
— Não se preocupe — riu o menino apontando para o homem. — Ele está dormindo.
A mulher se levantou e ao começar a caminhar para a porta de saída, passou a mão sobre a boca e só então, estranhando, percebeu que não estava ferida e nem sentia mais dores. Regis foi até a cozinha, onde havia um fogão, utensílios, geladeira e armário, tudo muito velhos e quebrados, talvez obra da violência daquele homem cruel; apanhou uma leiteira amassada, encheu de água e retornou à sala, onde jogou toda a água sobre o rosto daquele homem que continuava desmaiado e só então, sentindo banho frio, recobrara os sentidos, gemendo. O menino abaixou-se sobre ele e disse:
— Acorda aí cara! Precisamos ter uma pequena conversa!
O homem, surpreso, se levantando devagar, perguntou:
— Quem é você, moleque? O que quer aqui?
— Sou alguém que veio pra lhe mostrar algumas verdades! — advertiu-o Regis, com jeito de menino mau.
— O que você quer comigo?
— Você se lembra do que fez à sua mãe?
— Aquela vadia? — Insinuou o homem com a voz muito mole.
— Mesmo que sua mãe fosse realmente uma vadia, você, seu demônio, não poderia jamais dizer isso; pois é a ela que você deve sua maldita vida. Foi ela quem te gerou em seu ventre sagrado e lá te carregou durante muito tempo, depois deixou que você sugasse o sangue dela através do seio. Mesmo quando ela não podia nem mesmo parar em pé, se sacrificava, dando-lhe o que mamar...
— Bem que você falou, maldita vida!
— No entanto ela lhe deu uma vida bendita. Você a transformou em maldita.
— Sabe o que vou fazer, moleque safado? Vou torcer seu pescoço!
Nervoso, aquele homem transtornado, avançou contra o menino, mas este, com força violenta, tornou a jogá-lo contra o canto da sala e correndo até ele, continuou, com a voz alterada:
— Nem sei o que devo fazer com você! Levá-lo pra cadeia não adianta, pois eles não o deixarão lá!
— É! — Riu zombeteiro o homem. — Já me levaram várias vezes, mas como sou lindinho, não me deixam ficar lá!
— Mandá-lo pro inferno eu também não vou! Acho que apesar de monstro você merece outra chance.
— Você é um diabinho loiro, é? — alegou o homem, levantando-se.
— A próxima vez que você colocar suas mãos imundas em sua santa mãe, este diabinho em forma de menino loiro vai voltar aqui e te mandar pro inferno.
O homem, nervoso, avançou contra Regis, segurando em sua garganta e apertando muito forte lhe disse:
— Acho que não vou permitir que este demônio loiro volte!
Regis tornou a jogar o homem, fortemente, contra o mesmo canto da sala e disse:
— Jamais ouse colocar mãos demoníacas em mim!
Aquele homem, surpreso, jamais poderia imaginar encontrar rival tão jovem e poderoso; se levantou e erguendo os braços disse:
— Eu me rendo. Façamos as pazes!
— Siga o meu conselho — pediu o menino, bravo. — Faça de tua infeliz vida aquilo que quiser; jamais me importarei, mas nunca desonre a mulher que lhe carregou dentro dela, dando-lhe seu próprio sangue, para que tivesse vida.
O menino saiu pela porta da rua, encontrando a mulher na calçada conversando com algumas outras mulheres, vizinhas. Quando esta o viu saindo, se dirigiu a ele perguntando:
— Ele acordou?
— Vá com ele — pediu o menino. — Perdoe-o. A partir de agora ele é outra pessoa.
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