Menino anjo
1 Irresponsabilidade
Notas iniciais
A festa regada a churrasco, muita cerveja e vodka, estivera animada durante todo aquele domingo, em comemoração aos dezenove anos natalício de Marcelo, que convidara toda sua galera. Não eram tantos jovens assim: doze no total. O mais velho, Luis Fernando, de vinte e um anos; o mais novo, Ricardo, de quinze. Porém, além deles, também estava presente a mãe Isadora e a irmã Jaqueline, de vinte e quatro anos, com o filho Regis, de apenas nove anos de idade.
Com isto, quase final de dia, cerca de quatro horas da tarde, todos os jovens, embriagados, resolveram se refrescar no açude do Peçanha, que fica quase ali, a pouco mais de quinhentos metros.
O menino Regis, apesar de única criança no grupo, pediu permissão à mãe e acompanhou os amigos e tio Marcelo, nessa refrescante aventura. Nem se sabe se os rapazes tomaram consciência de tal presença, tão insignificante, para um grupo aventureiro como eram e lá se foram para os deliciosos saltos, da altura de quatro metros, de cima de uma enorme pedra, caindo de mergulho nas águas profundas de tal local, quase deserto, para o horário de verão, do mês quente de Janeiro.
Era certo de que todos, com exceção do pequeno Regis, estavam embriagados; porém, depois de alguns mergulhos, a tensão alcoólica diminui e a memória volta à quase normalidade.
Foi então que Marcelo, estranhando algo, se lembrou de perguntar:
— Ricardo, você viu Regis?
Só então, todos se lembraram de que Regis estava com eles e o susto da falta do menino fez com que a bebedeira sarasse totalmente em questão de segundos. Alguma coisa, talvez muito grave pudesse ter acontecido com a criança e como o local era de sua paixão, enquanto Leonardo, com telefone celular, discava um nove três, os demais caíram na água em gritaria e busca desesperada, pelo menino desaparecido.
Menos de cinco minutos depois, a ambulância vermelha, do grupo de bombeiros, chegava pela estrada de terra esburacada, pela erosão causada por enxurradas das chuvas. Era o caminho principal, que dava acesso a tal local e exatamente nesse momento, Juan Carlos, de dezesseis anos, levantava da água, trazendo consigo, inerte, o corpo do inocente Regis.
Entregue aos cuidados dos paramédicos, o menino passava imediatamente pelos primeiros socorros, em tentativa desesperada, de fazê-lo voltar a seu estado consciente, através de massagem cardíaca, respiração artificial e movimentos com os membros superiores e inferiores. Regis, porém, talvez tivesse passado muito tempo sob as águas e não estava reagindo aos primeiros socorros.
Os bombeiros colocaram o menino sobre uma maca e ainda com paramédico manipulando os cuidados, foi coloca-do sobre a ambulância e levado à Santa casa de Misericórdia, aproximadamente cinco quilômetros de distância.
Chegando ao hospital, como já fora informado pelo rádio, teve seu pronto atendimento efetuado com emergência, onde o médico de plantão não precisou de mais do que alguns segundos para informar a triste notícia: Regis, um menino bonito, branco, de cabelos loiros lisos e olhos castanhos, apenas nove anos de vida terrena, trajando apenas uma cuequinha preta, estava morto.
Esta triste nota, fora passada com certa naturalidade pelo pessoal do hospital à mãe e tio do menino, que acabavam de chegar ao local, em carro da própria Jaqueline, que então caia ao chão, em choro desesperador, vômito e acabando por desmaiar, precisando também ser socorrida.
Para o hospital, acontecimentos assim, às vezes poderiam ser até rotina, mas para uma jovem mãe, já desprezada pelo homem que amava, sem saber que ele só queria noites de prazer, fazendo-a tornar-se mãe, antes da hora adequada, perder desta trágica maneira, o único filho, tão pequeno, era a coisa mais cruel que a vida poderia lhe proporcionar, neste nosso mundo ingrato.
Ainda deitado sobre a mesa hospitalar, antes de ser encaminhado ao i eme éle, o corpinho inerte do pequeno anjo, até parecia dormir tranquilo. Mas como dormir tão cedo? Pouco mais de cinco horas da tarde de um domingo, que teria sido muito alegre e quente. Acho que ainda não era hora e então, aos poucos, Regis voltava a respirar devagar e estando sozinho em mesa fria, conseguiu abrir os olhos, tossiu um pouco, vomitou um tanto da água que engolira no açude, depois, pouco assustado, se levantou devagar, saindo caminhando em busca de alguém que pudesse lhe amparar.
Sem noção de caminho, o menino seguiu por um longo e deserto corredor, passando por uma placa que dizia:
GERIATRIA
Entrou em um dos quartos e encontrou um homem bem idoso, talvez uns oitenta anos, deitado sobre uma cama, praticamente agonizando em leito de morte, com alguns aparelhos ligados a seu corpo.
Regis, muito sério, olhou para o homem, que, acordado, parecia lhe pedir algo, então olhou para os equipamentos e se aproximou devagar; fez um leve gesto com o canto esquerdo dos lábios pequenos, colocou a mão direita sobre a fronte do homem, deslizando-a sobre seu rosto e pausando-a sobre seu peito. Aquele homem cansado esboçou um leve sorriso quase imperceptível e fechou seus olhos.
Um espectro ameno se levantou daquele corpo inerte e caminhou pelo quarto, a encontro de outro Regis em forma de espectro, o qual talvez deva chamá-lo de anjo Regis, que com leve sorriso, o recebeu para uma outra vida, diferente da tal vida cruel em que estava vivendo. Mas Regis não poderia ser anjo, pois estava muito bem vivo, embora tivesse passado muito tempo em estado inconsciente.
O menino deixou aquele quarto, voltando a caminhar pelo corredor, parando na porta fechada de outro quarto, onde se podia ouvir nitidamente um gemido doloroso, de um ser humano, em leito moribundo. Lentamente, abriu aquela porta e mesmo sem pedir licença adentrou àquele quarto triste, onde outro homem, de seus mais de noventa anos de idade, respirando por uma máquina barulhenta, parecia lhe pedir para tirá-lo daquele local infernal. A morte pode nos parecer algo muito cruel e triste, mas quando a vida já não nos convém, talvez a paz e saúde espiritual, só seja possível através de uma passagem sem retorno.
O menino, apenas com um gesto triste, se aproximou daquele leito de morte, espalmou sua mão direita sobre a testa daquele moribundo e depois, a mesma mão se deslizou para sua barriga, em busca do pulmão doente.
Regis balançou a cabeça em gesto de que não seria possível e franzindo o canto esquerdo da boca fez com que tal homem suspirasse aliviado.
A máquina barulhenta continuou funcionando, mas o sofrimento daquele homem idoso se passara para sempre. Um novo espectro se levantou daquele corpo cansado e novamente foi recepcionado por um anjo Regis, que estando no canto do quarto, estendeu-lhe a mão direita, em leve sorriso de amor e bondade.
Na recepção do hospital, o médico adentrara à sala de emergência, para assinar o atestado de óbito; porém teve uma surpresa, ao não encontrar o corpo do menino, então bravo, chamou a atenção da enfermeira, alegando que não deveria ter levado o corpo ao i eme éle, antes de sua autorização e que ela deveria buscá-lo novamente.
Regis caminhava agora pelo longo e deserto corredor, até atravessar uma placa que dizia:
PEDIATRIA
MASCULINA
Entrou em um quarto grande, com mais de quinze leitos, dos quais, dez estavam ocupados por crianças, entre cinco e doze anos de idade. Parou no primeiro leito e ficou contemplando um menino loiro, de aproximadamente sete anos de idade. O pequenino estava acordado, porém com aspecto muito doente e cansado.
— O que você sente? — perguntou-lhe, com gesto de piedade.
— Vou fazer uma cirurgia no peito — respondeu-lhe o pequeno, com ar de muita dor.
— Por quê?
— Cirurgia do coração!
— Isto é muito grave — afirmou Regis.
Aproximou-se daquele leito, deu um leve sorriso, colocou sua mão direita sobre o peito do menino, depois passou a outra mão sobre a planilha de acompanhamento médico, a qual dizia que a cirurgia estava marcada para o dia seguinte, alterando completamente as orientações médicas...
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Na entrada do hospital, todos estavam irrequietos, pois ninguém sabia quem, ou para onde teriam levado o corpo do menino.
Marcelo e Jaqueline, já medicada e praticamente dopada, mas ainda desesperados, continuavam na recepção aguardando para ver o filho, antes de tomarem as providências, para o referido funeral.
— Para onde levaram o corpo do menino? — Insistia o médico com todos.
Ninguém havia visto, ou mexido no corpo.
— Como um corpo desaparece assim?
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As onze crianças da pediatria estavam todas de pé, brincando na maior das algazarras, as quais, só meninos saudáveis são capazes de fazer. Uma enfermeira adentrou ao recinto e gritando apavorada, mandou que todas as crianças voltassem para seus leitos. Todas, embora contrariadas, resolveram obedecer àquela ordem intimadora. Todas, menos uma. A enfermeira se aproximou de Regis e segurando-o pelos dois braços, lhe perguntou:
— Você não estava nesta unidade! De onde você veio? E o que está fazendo quase despido?
O menino não lhe respondeu, apenas apontou para o corredor, então a enfermeira lhe puxou pelo braço e o levou de volta por um longo caminho, que ligava a pediatria da santa casa, até o serviço de emergência do pronto socorro municipal, onde, entre todos os funcionários irrequietos, encontrou também o mesmo médico da emergência, que dobrando seus joelhos para ficar na mesma altura, examinou seus olhos dizendo:
— Onde você estava, menino?
Outro médico se aproximou e então ouviu do companheiro:
— Não é possível! Eu assinei o óbito deste menino!
— Doutor, não se pode falar assim perto de uma criança! — Advertiu o menino.
— Você sabe o que é óbito? — Perguntou-lhe o outro médico.
— Sei o que é vida! — Ironizou o menino.
— O que aconteceu com você? — Ainda não entendia os médicos.
Regis, porém fez apenas um gesto com os ombros. Os médicos o levaram à sala de espera, onde sua mãe e tio continuavam sem saber notícias concretas.
Quando Jaqueline avistou o filho se aproximando, continuou desesperada, mas de outra forma. Gritou o nome do menino e saiu correndo a abraçá-lo. Não podia entender, por que os médicos e enfermeiros havia lhe anunciado o óbito do filho, já que ele estava muito bem. Mas isto não era tão importante, pois quão grata ela estava a Deus todo poderoso, por devolver-lhe seu anjinho inocente, em uma nova chance de vida.
Os médicos, ainda perplexos, se reuniram a outros, para tentarem entender o porquê, de duas pessoas que estavam em estado consciente terem entrado ao mesmo tempo em óbito na geriatria e dez crianças, se recuperarem totalmente em uma das unidades de pediatria, inclusive Ivo, um menininho loiro, de apenas sete anos de idade, que seria submetido a uma grave cirurgia coronária no dia seguinte e seu prontuário médico, estar completamente em branco.
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