Menino anjo
3 Dois anjos
Na manhã seguinte, apesar de que as aulas tinham sido reiniciadas, Jaqueline não deixou que o menino fosse à escola, então, pouco depois das nove horas o chamou:
— Venha com a mamãe ao pronto socorro.
— O que vamos fazer lá? — Perguntou o menino desconfiado.
— Preciso passar pelo médico.
— Você está saudável, mamãe!
— Preciso fazer exame de rotina, Regis! Coisa de mulher.
— Por que esconde algo de mim? — Perguntou o menino, triste e desconfiado.
— Não estou lhe escondendo nada! Todas as mulheres fazem exame de rotina.
— Mas é a mim que você quer levar ao médico. Por que me esconde?
— Quem lhe disse isso?
— Sou seu sangue e a conheço mais do que imagina.
— Hem!?
— Se fosse para você ir ao hospital e não eu, por que não me mandou para a escola?
Jaqueline realmente planejava conversar com um psicólogo, para tentar entender o que estava acontecendo com o pequeno Regis. Era certo, sabia ela, que em pronto socorro municipal não encontraria tal especialidade, mas tentaria buscar ajuda assim mesmo.
Embora, sem talvez conseguir convencer o menino, acabaram seguindo para o local da prefeitura, que fica bem em frente ao cemitério São João Baptista.
Enquanto Jaqueline conversava com as Recepcionistas, o menino se afastou devagar, atravessou a Rua da Saudade e entrou no grande portão, na parte nova do cemitério municipal, caminhando devagar por entre as sepulturas e observando sem muito interesse, algumas pessoas que ali visitavam os túmulos de entes queridos, que já haviam partido.
Mais de cinquenta metros abaixo da entrada parou diante de uma mulher, que ascendia velas diante de um jazigo, em bonito túmulo de granito. Um menino, de talvez uns doze anos de idade, moreno claro, cabelos lisos escuros, bem penteado e bem vestido, incluindo calça e camisa de mangas longas, permanecia despreocupado, sentado sobre o túmulo, enquanto sua mãe, com muitas lágrimas silenciosas cuidava do local, limpando e arrumando os vasos de flores.
— Por que a senhora não deixa ele ir embora? — Perguntou Regis à mulher, que, como não o havia visto, se assustou.
— O que você disse?
— Ele disse que a senhora não teve culpa do acidente.
— Quem disse? — Se espantou ainda mais a mulher.
— Ele precisava mesmo ir à escola. Não foi porque a senhora mandou ele ir.
— Como assim?
— O carro não atropelou ele na rua. Foi na calçada.
— Quem é você, menino? — atrapalhou-se a mulher.
— Ele disse que te ama muito, mas se a senhora não deixá-lo ir ele acabará ficando perdido.
A mulher não conseguia entender nada.
— De quem você está falando, menino?
— Julian! Seu filho!
— Você o viu? — Admirou-se a mulher.
— Ele está em cima do túmulo. A senhora não pode ficar chorando por ele e tentando trazê-lo de volta. Assim a senhora sofre e ele também!
— Mas menino... Eu sinto muita falta!
— A senhora pode continuar se lembrando dele. Mas como a um anjo. Deixe que ele siga seu caminho de luz.
— De onde você tira isso, menino? Quem é você?
— Ele está me dizendo.
— Como posso acreditar em você? — Duvidou a mulher.
— Quem me disse que ele se chama Julian? Quem me contou do acidente? Como eu sei que ele estava triste, porque a senhora não deixou ele visitar o pai na véspera do acidente?
Ouvindo aquilo, a mulher começou a chorar desesperada.
— Não se preocupe. Ele não está magoado por causa disso. Ele só precisa que a senhora deixe que vá embora, pra seu caminho de paz.
A mulher pensou um pouco e ainda chorando fez um gesto positivo dizendo:
— Por favor, diga pra ele que eu o amo muito, mas sei que ele deve partir.
— Ele ouve à senhora e sabe de tudo. É só preciso deixá-lo ir.
Anjo Regis, estava então presente,ao lado do outro menino, onde, estendendo-lhe a mão direita e com leve sorriso nos lábios o conduziu, fazendo com que ambos os espectros, aos poucos desaparecessem por um caminho de luz intensa e brilhante.
— Agora estará tudo muito bem — deu de ombros Regis, se afastando devagar.
— Quem é você, menino? — Insistiu ainda a mulher, sem, contudo obter alguma resposta.
Quando Regis adentrou ao pronto socorro, encontrou sua mãe preocupada, pois já tinha em vão, lhe procurado por toda parte, sem que alguém lhe desse notícias.
— Não se preocupe tanto mamãe — pediu ele.
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Era hora do intervalo escolar, todas as crianças pegavam um prato e talheres e em fila indiana seguiam pela lateral da mesa, sendo servidas por duas merendeiras, com uma sopa de arroz e calda de galinha. Regis, após encher seu prato, sentou-se junto às demais crianças, em bancos compridos e baixos, que ladeavam outra mesa, em altura proporcional ao das crianças, de média sete a onze anos de idade.
Ele, apesar de menino quieto, comia rápido e em poucos minutos já teria devorado toda sua merenda, com isso, mesmo antes dos demais resolvera se levantar. Naquele momento, outro menino, de talvez dez anos de idade, sentava a seu lado e por acidente, Regis batera o braço sobre seu prato, derrubando toda a merenda sobre a mesa, sem, contudo, atingir qualquer das crianças.
— Moleque retardado! — Gritou o menino atingido.
Regis assustou-se, voltou a se sentar e simplesmente pediu:
— Me desculpe!
— Desculpa resolve alguma coisa? — Gritou o outro menino, já sendo socorrido por uma das merendeiras.
— Foi sem querer — desculpou-se novamente Regis.
— Vai ser sem querer que vou quebrar seus dentes lá fora, na saída!
Ele simplesmente baixou a cabeça e permaneceu calado, sentado ao lado das outras crianças.
Dentro da sala de aula, algumas crianças comentavam que haveria briga na saída.
— Quem vai brigar? — Quis saber um menininho.
— Rodrigo disse que vai pegar o Regis.
— Mas Rodrigo é muito grande pra bater em Regis. Ele é muito pequeno.
— Vai ter quebra pau!
De fato, na saída escolar, às doze horas, Rodrigo saía sossegado, quando outro menino lhe perguntou:
— Você vai brigar com Regis?
— Não! — Negou o menino, sem parar.
— Você disse que iria brigar com ele!
— É que eu estava nervoso. Regis é quieto.
— Tá amarelando? — Caçoou o amigo.
— Não vou brigar com ninguém!
O outro menino fez gesto igual galinha choca e acompanhado em coro por outros, caçoavam:
— Có...có...có, có có có!
— Já que insistem!
Correu atrás de Regis, que caminhava pela saída da escola, puxou-o pelo braço e disse:
— Não queria, mas como estão me chamando de galinha vou quebrar sua cara!
— Você não tem opinião própria? — Perguntou calmamente Regis.
— O que você tá falando, moleque retardado?!
— Não devo brigar com você — negou Regis.
— Deve sim! — Insistiu Rodrigo.
Regis, sem dar muita atenção, tentou seguir seu caminho, mas foi puxado pelo outro menino e acabaram ficando os dois dentro de um círculo, formado pelos demais colegas de sala ou não.
Rodrigo deu-lhe um pequeno empurrão, o qual Regis conseguiu se equilibrar sem consequências; então Rodrigo o puxou pela manga da camisa, trazendo-o até próximo a seu rosto. De fato, o menino era bem mais alto do que o franzino Regis, que simplesmente sério franziu seus lábios no canto esquerdo da boca e sem saber como, o short do rival caiu pelas pernas abaixo, como se alguém tivesse lhe puxado, deixando o menino apenas de cueca. Todas as crianças, que se faziam presente naquele espetáculo cretino, riram do companheiro seminu. Este, tímido, deixou Regis, subiu o short e agora mais nervoso, resolveu esmurrar o pequeno, que simplesmente saiu de lado evitando ser atingido. Rodrigo ainda tentou lhe acertar um chute no meio das pernas, mas Regis, se esquivando franziu novamente o lábio esquerdo. As crianças espectadoras gritaram:
— Ele tá fazendo xixi nas calças!
Rodrigo, nervoso, porém com muita vergonha, abandonou a briga e saiu quase que correndo do meio do enxame de colegas caçoadores. Acho que aquele acontecimento não seria esquecido tão cedo dentro daquela escola, onde Regis, sem praticamente nada falar, tomou seu caminho de volta para casa.
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Era metade da tarde, Regis e sua mãe foram ao banco resolver problemas de finanças. No retorno, cismou de pedir à mãe, para que parasse de repente em uma padaria da Rua Quatorze de Julho.
— O que você quer? — Perguntou admirada sua mãe.
— Pare! — Quase que ordenou o menino.
— Vê como fala com sua mãe!
— Pare mamãe! — Insistiu bravo o menino.
Jaqueline quase parara, mas devido à atitude desrespeitosa do filho, resolveu continuar dirigindo.
— Não vou parar, devido sua falta de educação! — Reclamou ela, nervosa.
Cem metros acima teve que frear bruscamente, parando no semáforo que ficara vermelho, praticamente antes da hora. Regis abriu a porta do veículo e saiu correndo, voltando para a padaria. Assim que entrou ouviu um grito nervoso e decisivo:
— Você também moleque, caia no chão!
Era um homem negro, de mais de vinte anos de idade, com um revólver em punho, ameaçando todos os seis clientes, mais dois funcionários, que já estavam deitados de bruços sobre o chão, enquanto ele revirava todas as gavetas do estabelecimento em busca de dinheiro e outros bens.
Apesar da ordem severa o menino não obedeceu e continuou caminhando em direção aquele homem.
— Pule no chão moleque! Ou vou estourar sua cabeça! — Gritou novamente o homem, com jeito de quem cumpriria sua ameaça.
Como o menino parecia não ouvi-lo, continuando em sua direção, outro rapaz, de uns vinte e cinco anos, também negro, se levantou devagar tentando segurar o menino, para colocá-lo em segurança. O bandido, nervoso e talvez assustado, não teve dúvida e apertou o gatilho. O rapaz que socorreria Regis deu apenas um pequeno grito, caindo ao chão com o peito manchado de sangue.
— O próximo será em sua cabeça, moleque! — Gritou o bandido.
— Não tá vendo que ele é só um menino! — Gritou outro rapaz, ainda muito jovem, que permanecia deitado de bruços.
— Não quero saber! — Gritou o bandido. — Eu atiro até no capeta se ele entrar aqui!
Regis, sério, franziu o lábio esquerdo, o bandido com a mão tremendo muito, virou o cano da arma em direção a seu próprio rosto e em tempo de Jaqueline, que acabava de adentrar ao local, também assistir tal cena cruel, ouviram-se novo estampido. O bandido caiu sobre o solo, tornando a se levantar imediatamente, procurando desesperado pela arma que voara longe, então viu sobre o canto do balcão, anjo Regis, que lhe fizera um sinal de reprovação e no meio do salão, seu próprio corpo, com o rosto desfigurado, sobre uma poça de sangue muito escuro.
Regis seguiu então até o corpo do outro rapaz, ajoelhou próximo ao mesmo, forçou sua camisa desabo-toando-a e colocou sua mão direita sobre o enorme ferimento à bala, do lado esquerdo de seu peito, bem próximo ao ombro. Lentamente, um projétil de estanho foi sugado pela mão do menino, como se fosse um pedaço de ferro sendo atraído por um objeto imantado. O rapaz recobrou os sentidos e se levantou lentamente, como se tivesse apenas passado por um grande susto.
Jaqueline, mais confusa e sem entender nada, correu a abraçar o filho, levando-o para o carro, estacionado pouco depois do semáforo da esquina acima, enquanto que, com a sirene gritando feito louca, uma viatura da polícia militar parava às pressas em frente à padaria.
Jaqueline já estava decidida: o menino realmente precisava passar por um psicólogo.
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